Visao Geral
O pterígio, popularmente conhecido como "carne no olho", é uma condição oftalmológica caracterizada pelo crescimento anormal de tecido fibrovascular da conjuntiva (membrana que reveste a parte branca do olho) sobre a córnea (a superfície transparente frontal do olho). Esse crescimento, geralmente em formato triangular, avança lentamente em direção ao centro da córnea e, quando atinge regiões próximas à pupila, pode comprometer a visão de forma significativa. Apesar de não ser uma doença maligna, o pterígio causa desconforto, alterações estéticas e, em estágios avançados, perda visual por indução de astigmatismo ou obstrução do eixo visual.
Estima-se que o pterígio afete com mais frequência adultos jovens e idosos, especialmente aqueles que residem em regiões de alta insolação ou que trabalham ao ar livre, como agricultores, pescadores e trabalhadores da construção civil. A exposição prolongada à radiação ultravioleta (UV) é o principal fator de risco identificado, mas vento, poeira, poluição e falta de proteção ocular também desempenham papel relevante. No Brasil, o problema é particularmente comum em estados do Norte e Nordeste, onde a incidência solar é maior e as condições de exposição ocupacional são mais intensas.
Este artigo tem como objetivo apresentar uma visão completa sobre o pterígio, abordando suas causas, sintomas, métodos de diagnóstico, opções de tratamento e estratégias de prevenção. Serão discutidas as evidências científicas mais recentes, incluindo as recomendações da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) sobre o uso de transplante de membrana amniótica como alternativa cirúrgica. Ao final, perguntas frequentes ajudarão a esclarecer dúvidas comuns entre pacientes e profissionais de saúde.
Aspectos Essenciais
1. O que é o pterígio e como ele se desenvolve?
O pterígio é uma lesão proliferativa benigna da conjuntiva bulbar que invade a córnea. Histologicamente, é composto por tecido conjuntivo frouxo, vasos sanguíneos dilatados e um epitélio escamoso estratificado. O crescimento ocorre geralmente a partir do canto nasal do olho (mais próximo ao nariz), embora também possa surgir no canto temporal. Em alguns casos, a lesão pode ser bilateral, ou seja, afetar ambos os olhos simultaneamente.
O processo de formação do pterígio envolve uma combinação de fatores ambientais e mecanismos inflamatórios. A radiação UV causa danos ao DNA das células epiteliais e ativa vias inflamatórias que estimulam a proliferação de fibroblastos e a angiogênese (formação de novos vasos). O tecido resultante é vascularizado e pode se estender sobre a córnea, alterando sua curvatura e induzindo astigmatismo. Em casos graves, a lesão chega a cobrir a zona pupilar, bloqueando a entrada de luz e reduzindo drasticamente a acuidade visual.
Vale destacar que o pterígio se diferencia do pinguéculo, outra lesão conjuntival amarelada que não invade a córnea e geralmente não causa sintomas significativos. O pinguéculo é considerado uma degeneração do tecido conjuntival e raramente requer intervenção cirúrgica.
2. Causas e fatores de risco
A principal causa do pterígio é a exposição crônica à radiação ultravioleta, especialmente a UV-B. Por isso, a condição é mais prevalente em regiões próximas à linha do Equador e em populações que passam longas horas ao ar livre sem proteção ocular. Além da radiação solar, outros fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da lesão:
- Exposição ao vento e poeira: partículas em suspensão podem irritar a conjuntiva e desencadear uma resposta inflamatória crônica, favorecendo o crescimento anormal.
- Poluição atmosférica: a exposição a poluentes como dióxido de enxofre e material particulado está associada a maior prevalência de pterígio em áreas urbanas.
- História familiar: há evidências de predisposição genética, com maior incidência em parentes de primeiro grau de portadores.
- Sexo masculino: estudos epidemiológicos apontam maior frequência em homens, provavelmente devido a padrões ocupacionais e de exposição solar.
- Idade: a prevalência aumenta com a idade, sendo mais comum após os 40 anos, mas já pode ser observada em adultos jovens.
3. Sintomas
Os sintomas do pterígio variam de acordo com o tamanho, a localização e o grau de inflamação. Em estágios iniciais, a lesão pode ser assintomática, sendo percebida apenas ao exame oftalmológico de rotina. Conforme cresce, podem surgir:
- Sensação de corpo estranho ou "areia" nos olhos.
- Vermelhidão ocular (hiperemia conjuntival).
- Irritação e lacrimejamento excessivo.
- Ardência e prurido (coceira).
- Visão embaçada ou distorcida, especialmente quando o pterígio atinge a córnea central, induzindo astigmatismo.
- Desconforto ao usar lentes de contato.
- Preocupações estéticas devido à aparência da lesão.
4. Diagnóstico
O diagnóstico do pterígio é essencialmente clínico, baseado no exame com lâmpada de fenda (biomicroscopia). O médico oftalmologista avalia o tamanho, a localização, a vascularização e a extensão da invasão corneana. Exames complementares como a topografia corneana podem ser solicitados para quantificar o astigmatismo induzido, e a fotografia de segmento anterior ajuda no acompanhamento da progressão. Em casos raros, quando há suspeita de lesões malignas (como carcinoma espinocelular), pode ser indicada biópsia.
5. Tratamento
2.5.1. Tratamento conservador
Para pterígios pequenos e assintomáticos, a conduta inicial é a observação e o uso de medidas preventivas. Lubrificantes oculares (lágrimas artificiais) ajudam a aliviar a sensação de corpo estranho e irritação. Anti-inflamatórios tópicos, como colírios de corticosteroides ou anti-inflamatórios não esteroides, podem ser prescritos em períodos de inflamação aguda, mas seu uso prolongado deve ser evitado devido aos riscos de catarata e glaucoma.
2.5.2. Tratamento cirúrgico
A cirurgia é indicada quando o pterígio:
- Atinge a zona pupilar ou causa astigmatismo significativo.
- Provoca sintomas persistentes que não respondem ao tratamento clínico.
- Apresenta crescimento progressivo documentado.
- Gera desconforto estético importante.
Em 2026, a Conitec publicou um relatório avaliando o transplante de membrana amniótica (TMA) como alternativa ao transplante autólogo de conjuntiva. O estudo indicou que o TMA apresentou eficácia semelhante em alguns desfechos, como taxa de recidiva e melhora visual, com perfil de segurança favorável. No entanto, a certeza da evidência foi classificada como moderada a baixa, o que sugere que o TMA pode ser uma opção em casos específicos, especialmente quando há escassez de conjuntiva saudável (como em pterígios recidivados) ou em olhos com doenças da superfície ocular.
Outras técnicas cirúrgicas incluem a mitomicina C (aplicação intraoperatória para prevenir recidiva) e o transplante de limbo, mas seu uso é mais restrito a casos complexos.
2.5.3. Cuidados pós-operatórios
Após a cirurgia, o paciente deve usar colírios antibióticos e anti-inflamatórios por algumas semanas, além de lubrificantes. Recomenda-se evitar exposição solar, poeira e vento, e usar óculos escuros com proteção UV. O acompanhamento regular com o oftalmologista é fundamental para monitorar a cicatrização e detectar precocemente possíveis recidivas.
6. Prevenção
A prevenção do pterígio baseia-se na proteção ocular contra a radiação ultravioleta. Medidas eficazes incluem:
- Uso de óculos escuros com filtro UV-A e UV-B, de boa qualidade e com lentes envolventes.
- Utilização de chapéu de aba larga para reduzir a exposição solar direta.
- Evitar exposição prolongada ao sol entre 10h e 16h.
- Uso de óculos de proteção em ambientes com vento, poeira ou produtos químicos.
- Realizar exames oftalmológicos periódicos, especialmente em populações de risco.
O Que Nao Pode Faltar
Fatores que aumentam o risco de desenvolver pterígio:
- Exposição prolongada à radiação ultravioleta (sol, câmaras de bronzeamento).
- Trabalho ao ar livre (agricultura, pesca, construção civil, jardinagem).
- Residência em regiões de alta insolação (próximas ao Equador, litoral).
- Exposição frequente a vento, poeira e poluição atmosférica.
- Histórico familiar de pterígio.
- Sexo masculino (maior prevalência).
- Idade acima de 40 anos.
- Falta de uso de óculos de proteção solar ou EPIs.
- Doenças da superfície ocular crônicas (como olho seco moderado a grave).
- Tabagismo (associação controversa, mas possível).
Tabela Resumida
Comparação entre as principais técnicas cirúrgicas para pterígio
| Característica | Exérese simples | Exérese + transplante autólogo de conjuntiva | Exérese + transplante de membrana amniótica (TMA) |
|---|---|---|---|
| Taxa de recidiva | 25% a 40% | 2% a 10% | 5% a 15% (evidência moderada a baixa) |
| Tempo cirúrgico | 15-30 min | 30-60 min | 30-60 min |
| Necessidade de colírios pós-operatórios | Sim | Sim | Sim |
| Risco de complicações | Baixo | Baixo (pode ocorrer deiscência do enxerto) | Baixo (infecção, rejeição rara) |
| Custo | Menor | Moderado | Maior (devido à obtenção da membrana) |
| Indicação principal | Pterígios pequenos e inativos | Pterígios primários e recidivados | Pterígios complexos, olhos com conjuntiva escassa |
| Disponibilidade no SUS | Sim | Sim | Parcial (depende de centros especializados) |
| Certeza da evidência | Alta (estudos robustos) | Alta (padrão-ouro) | Moderada a baixa (Conitec, 2026) |
Respostas Rapidas
O pterígio pode desaparecer sozinho?
Não. O pterígio é uma condição progressiva e, uma vez formado, não regride espontaneamente. Em alguns casos, ele pode permanecer estável por longos períodos, mas não desaparece sem tratamento. A única forma de remover completamente o tecido é por meio de cirurgia. O uso de lubrificantes e anti-inflamatórios apenas controla os sintomas, mas não elimina a lesão.
O pterígio é contagioso?
Não. O pterígio não é causado por vírus, bactérias ou fungos, e não há transmissão de pessoa para pessoa. Trata-se de uma resposta inflamatória e proliferativa do tecido conjuntival aos danos ambientais, especialmente à radiação ultravioleta. Portanto, não há risco de contágio por contato direto ou indireto.
Quanto tempo leva para o pterígio crescer e prejudicar a visão?
O crescimento do pterígio é geralmente lento, podendo levar anos ou até décadas para atingir a pupila. No entanto, a velocidade de progressão varia entre indivíduos e depende de fatores como exposição contínua ao sol, uso de proteção ocular e predisposição genética. Em alguns casos, o crescimento pode ser rápido (meses) e demandar intervenção precoce. O acompanhamento oftalmológico regular permite monitorar a progressão e indicar a cirurgia no momento adequado.
A cirurgia de pterígio dói?
A cirurgia é realizada com anestesia local (colírio anestésico e, em alguns casos, bloqueio regional), de modo que o paciente não sente dor durante o procedimento. No pós-operatório imediato, pode haver desconforto leve, sensação de corpo estranho e lacrimejamento, mas essas queixas são controladas com analgésicos e colírios prescritos pelo médico. A recuperação completa geralmente ocorre em duas a quatro semanas.
O pterígio pode voltar após a cirurgia?
Sim, existe risco de recidiva, principalmente quando a remoção é feita sem enxerto (exérese simples). A técnica com transplante autólogo de conjuntiva reduz a taxa de recidiva para cerca de 5%. Se houver recidiva, um novo procedimento cirúrgico pode ser necessário, e o uso de técnicas como TMA ou mitomicina C pode ser considerado. O acompanhamento pós-operatório e a proteção solar contínua são fundamentais para minimizar esse risco.
É possível prevenir o pterígio sem cirurgia?
Sim, a prevenção primária é a melhor abordagem. Medidas como uso de óculos escuros com filtro UV, chapéu de aba larga, evitar exposição solar intensa e usar óculos de proteção em ambientes com vento e poeira são altamente eficazes. Para pessoas que já apresentam pterígio inicial, essas medidas podem retardar a progressão e evitar a necessidade de cirurgia. Exames oftalmológicos regulares também ajudam a detectar a lesão precocemente.
O transplante de membrana amniótica é melhor que o enxerto de conjuntiva?
Não necessariamente. O transplante autólogo de conjuntiva ainda é considerado o padrão-ouro devido à sua alta eficácia e baixa taxa de recidiva. O TMA surge como uma alternativa promissora, especialmente em casos de pterígios recidivados ou quando há escassez de conjuntiva saudável. No entanto, a evidência disponível, incluindo o relatório da Conitec de 2026, aponta certeza moderada a baixa para o TMA, indicando que sua escolha deve ser individualizada, considerando as condições do paciente e a experiência do cirurgião.
Fechando a Analise
O pterígio é uma condição ocular frequente, especialmente em regiões de alta insolação e entre trabalhadores ao ar livre. Embora não seja maligno, pode causar desconforto significativo, astigmatismo e, em estágios avançados, comprometimento visual irreversível. O diagnóstico precoce e a adoção de medidas preventivas – como o uso de óculos com proteção UV e chapéus – são as ferramentas mais eficazes para reduzir a incidência e a progressão da doença.
O tratamento cirúrgico, indicado quando há sintomas persistentes, crescimento em direção à pupila ou prejuízo visual, evoluiu significativamente. A técnica de exérese com transplante autólogo de conjuntiva permanece como o padrão-ouro, com taxas de recidiva inferiores a 10%. O transplante de membrana amniótica, avaliado recentemente pela Conitec, surge como alternativa em casos específicos, com eficácia semelhante, mas com evidência de menor certeza.
É fundamental que a população esteja informada sobre os riscos do pterígio e a importância da proteção ocular. Exames oftalmológicos periódicos permitem o diagnóstico precoce e o planejamento do tratamento adequado, evitando complicações e preservando a qualidade de vida. Para quem já convive com a doença, o acompanhamento médico regular e o cumprimento das orientações pós-operatórias são indispensáveis para evitar recidivas e garantir o melhor resultado visual.
Conteudos Relacionados
- SciELO – Estudo sobre cirurgia de pterígio primário
- Gov.br / Conitec – Relatório 2026 sobre TMA e pterígio
- Secretaria de Saúde do ES – Explicação clínica sobre pterígio
- Clínica de Olhos Dárcios Silveira – Prevenção e tratamento
- COI Oftalmologia – Cirurgia de pterígio e cuidados
- Hospital da Luz – Verbete médico sobre pterígio
