Visao Geral
A cólica menstrual, clinicamente denominada dismenorreia, é uma das queixas ginecológicas mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva. Caracterizada por dores pélvicas ou abdominais que ocorrem durante o período menstrual, essa condição pode variar de um leve desconforto a uma dor intensa e incapacitante, impactando significativamente a qualidade de vida, a produtividade no trabalho e as atividades diárias.
Para fins de registro clínico, codificação de diagnósticos e comunicação entre profissionais de saúde, a Classificação Internacional de Doenças (CID) oferece códigos específicos para a dismenorreia. O sistema CID-10, ainda amplamente utilizado no Brasil, classifica a cólica menstrual sob o capítulo N94, que abrange “dor e outras afecções associadas com os órgãos genitais femininos e com o ciclo menstrual”. Compreender esses códigos é essencial para médicos, enfermeiros, gestores de saúde e pacientes que desejam ter um registro preciso da condição.
Este artigo tem como objetivo esclarecer o que é a cólica menstrual, detalhar os códigos CID mais adequados para cada situação clínica, apresentar as principais causas, sintomas e opções de tratamento, além de responder às perguntas mais comuns sobre o tema. A informação aqui contida baseia-se em fontes confiáveis e atualizadas, visando apoiar tanto o profissional de saúde quanto a pessoa que busca compreender melhor seu próprio quadro.
Pontos Importantes
1 O que é a cólica menstrual (dismenorreia)?
A dismenorreia é definida como a ocorrência de dor pélvica ou abdominal durante o período menstrual, geralmente nas primeiras 48 a 72 horas do ciclo. Ela pode ser acompanhada de outros sintomas como náuseas, vômitos, diarreia, fadiga, tontura e dor de cabeça. A dor é resultado de contrações uterinas intensas e prolongadas, que levam à isquemia (falta de oxigênio) do tecido muscular do útero.
A diferenciação entre dismenorreia primária e secundária é fundamental para o diagnóstico e tratamento adequados.
- Dismenorreia primária: ocorre em mulheres sem alterações orgânicas pélvicas detectáveis. Geralmente se inicia nos primeiros anos após a menarca e está associada a níveis elevados de prostaglandinas, substâncias que promovem a contração uterina.
- Dismenorreia secundária: está relacionada a patologias ginecológicas subjacentes, como endometriose, adenomiose, miomas uterinos, doença inflamatória pélvica, estenose cervical ou uso de dispositivo intrauterino (DIU). A dor tende a ser mais intensa, pode começar antes do fluxo menstrual e persistir após seu término.
2 Classificação CID-10 para cólica menstrual
A CID-10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª Revisão) é o sistema padronizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para categorizar doenças e problemas de saúde. No caso da cólica menstrual, os códigos mais relevantes pertencem ao grupo N94, conforme detalhado a seguir.
2.2.1 Código N94.4 – Dismenorreia primária
O código N94.4 é o mais específico e direto para a cólica menstrual comum, sem causa orgânica identificada. Ele é utilizado quando a paciente apresenta dores menstruais desde o início da vida reprodutiva, sem evidências de doenças pélvicas estruturais.
Indicações para uso do N94.4:
- Mulheres adolescentes ou jovens adultas com dor menstrual cíclica.
- Exame físico e ultrassonografia pélvica normais.
- Resposta satisfatória a anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) ou contraceptivos hormonais.
- Ausência de achados sugestivos de endometriose, miomas ou outras patologias.
2.2.2 Código N94.5 – Dismenorreia secundária
O código N94.5 deve ser empregado quando a cólica menstrual está associada a uma condição orgânica subjacente. A dismenorreia secundária tende a aparecer mais tardiamente na vida da mulher e pode se intensificar progressivamente.
Causas comuns que justificam o uso do N94.5:
- Endometriose
- Adenomiose
- Miomas uterinos submucosos ou intramurais
- Doença inflamatória pélvica crônica
- Estenose cervical
- Uso de DIU (especialmente o de cobre)
- Pólipos endometriais
2.2.3 Código N94.6 – Dismenorreia não especificada
O código N94.6 é uma categoria residual para casos em que o tipo de dismenorreia não é especificado no prontuário ou quando não há informações suficientes para classificar como primária ou secundária. Seu uso deve ser evitado sempre que possível, pois a especificidade ajuda no tratamento e na epidemiologia.
2.2.4 Outros códigos do grupo N94
O capítulo N94 também inclui:
- N94.0 – Síndrome de tensão pré-menstrual (TPM)
- N94.1 – Dispareunia (dor durante a relação sexual)
- N94.2 – Vaginismo
- N94.3 – Síndrome de hiperestimulação ovariana (associada a tratamentos de fertilidade)
- N94.8 – Outras afecções especificadas associadas com os órgãos genitais femininos e com o ciclo menstrual
- N94.9 – Afecção não especificada associada com os órgãos genitais femininos e com o ciclo menstrual
3 Causas da dismenorreia
A fisiopatologia da dismenorreia primária envolve predominantemente as prostaglandinas. Durante a menstruação, o endométrio libera grandes quantidades dessas substâncias, especialmente a prostaglandina F2α e a prostaglandina E2, que promovem contrações uterinas intensas, redução do fluxo sanguíneo e sensibilização dos nervos pélvicos.
Já na dismenorreia secundária, as causas são variadas:
| Condição | Mecanismo | Características da dor |
|---|---|---|
| Endometriose | Implantes endometrióticos ectópicos liberam mediadores inflamatórios e causam aderências | Dor pélvica crônica, cíclica, que pode se estender para a região lombar e coxas |
| Adenomiose | Infiltração de tecido endometrial na camada miometrial, aumentando o volume e a contratilidade uterina | Dor intensa, geralmente acompanhada de sangramento abundante |
| Miomas uterinos | Obstrução do fluxo menstrual, compressão de estruturas adjacentes | Cólica intensa, sensação de pressão pélvica, sangramento excessivo |
| Doença inflamatória pélvica | Cicatrizes e aderências tubárias e ovarianas | Dor pélvica difusa, febre, secreção vaginal anormal |
| Estenose cervical | Dificuldade de drenagem do fluxo menstrual, aumentando a pressão intrauterina | Cólica que piora com o início do fluxo, aliviando após alguns dias |
| DIU (cobre) | Reação inflamatória local e aumento da produção de prostaglandinas | Cólica mais intensa nos primeiros meses após inserção |
4 Sintomas associados
Além da dor pélvica, a dismenorreia pode vir acompanhada de sintomas sistêmicos, como:
- Náuseas e vômitos
- Diarreia ou constipação
- Fadiga e fraqueza
- Tontura e cefaleia
- Irritabilidade e alterações de humor
- Sudorese e palidez
5 Tratamento
O tratamento da dismenorreia deve ser direcionado à causa e à intensidade dos sintomas.
Tratamento farmacológico
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, cetoprofeno. Atuam inibindo a síntese de prostaglandinas, reduzindo a contratilidade uterina e a dor. Devem ser iniciados no primeiro sinal de dor ou até 1-2 dias antes do esperado início do fluxo.
- Contraceptivos hormonais: pílulas combinadas (estrogênio + progesterona), adesivo, anel vaginal ou implante subcutâneo. Reduzem o crescimento endometrial e a produção de prostaglandinas. Podem ser usados em ciclos contínuos para suprimir a menstruação.
- Progestágenos isolados: como a pílula de progesterona (minipílula) ou o DIU hormonal (levonorgestrel), que liberam progestágeno localmente, diminuindo o endométrio e a contratilidade uterina.
- Analgésicos simples: paracetamol ou dipirona, quando AINEs são contraindicados (ex.: úlcera péptica, asma, alergia).
Tratamento não farmacológico
- Aplicação de calor local: bolsas térmicas na região pélvica ou banhos mornos relaxam a musculatura uterina.
- Exercícios físicos regulares: atividade aeróbica estimula a liberação de endorfinas e reduz a percepção da dor.
- Técnicas de relaxamento e ioga: ajudam a diminuir o estresse e a tensão muscular.
- Acupuntura e acupressão: algumas evidências sugerem benefício no alívio da dor menstrual.
Tratamento cirúrgico
Reservado para casos refratários de dismenorreia secundária ou quando há uma condição tratável cirurgicamente:
- Laparoscopia para diagnóstico e tratamento de endometriose (excisão ou cauterização de implantes)
- Miomectomia ou embolização de miomas
- Ablação endometrial
- Histerectomia (em casos extremos, quando não há desejo de gestação)
Lista: Situações em que cada CID é mais adequado
A seguir, uma lista prática para orientar a escolha do código CID na cólica menstrual:
- N94.4 (dismenorreia primária) – Use quando:
- A paciente tem cólica desde a menarca ou início da vida reprodutiva.
- Exames de imagem (ultrassonografia, ressonância) não mostram alterações.
- A dor responde bem a AINEs ou contraceptivos hormonais.
- Não há suspeita de endometriose, miomas, adenomiose ou outras doenças pélvicas.
- N94.5 (dismenorreia secundária) – Use quando:
- A dor começou ou se intensificou após os 25-30 anos.
- Há diagnóstico confirmado ou suspeita de endometriose, adenomiose, miomas, DIP, pólipos, estenose cervical ou DIU.
- A dor é progressiva, acompanhada de sangramento irregular ou infertilidade.
- O exame físico revela aumento uterino, nódulos ou dor localizada.
- N94.6 (dismenorreia não especificada) – Use quando:
- O prontuário não contém informações suficientes para classificar.
- A paciente não realizou exames complementares ou não há registro da investigação.
- O código é usado em situações provisórias, até esclarecimento diagnóstico.
- N94.0 (síndrome de tensão pré-menstrual) – Não confundir: a TPM tem sintomas emocionais e físicos que ocorrem antes da menstruação e desaparecem com o fluxo, enquanto a dismenorreia é dor durante o fluxo.
- Códigos adicionais (opcionais): Quando a dismenorreia for secundária a uma condição específica, pode-se codificar a doença base em paralelo (ex.: N80.0 para endometriose + N94.5).
Tabela comparativa: Dismenorreia primária vs. secundária
| Característica | Dismenorreia primária (N94.4) | Dismenorreia secundária (N94.5) |
|---|---|---|
| Início | Geralmente 1-2 anos após a menarca | Pode começar em qualquer idade, especialmente após 25-30 anos |
| Curso | Sintomas melhoram com a idade e após gestações | Sintomas tendem a piorar com o tempo |
| Duração | 1 a 3 dias, coincidindo com o fluxo menstrual | Pode iniciar antes da menstruação e persistir após o fim |
| Exame físico | Normal | Pode haver aumento uterino, nódulos, dor à palpação anexial |
| Exames complementares | Ultrassonografia pélvica normal | Ultrassonografia ou ressonância mostram alterações (endometrioma, miomas, adenomiose) |
| Resposta a AINEs | Geralmente boa | Pode ser parcial ou insuficiente |
| Associação com infertilidade | Não | Frequentemente associada (endometriose, DIP, adenomiose) |
| Tratamento de primeira linha | AINEs + contraceptivos hormonais | Tratar a causa base + sintomáticos |
| Prognóstico | Favorável, com manejo medicamentoso | Variável, dependendo da condição subjacente |
| Código CID-10 | N94.4 | N94.5 (e código da condição associada) |
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual é a diferença entre N94.4, N94.5 e N94.6 na prática clínica?
N94.4 é usado para dismenorreia primária, ou seja, cólica menstrual sem causa orgânica identificada. N94.5 é para dismenorreia secundária, quando há uma doença de base como endometriose ou mioma. N94.6 é um código residual para dismenorreia não especificada, utilizado quando faltam dados clínicos para classificar corretamente. Na prática, o médico deve sempre que possível diferenciar a causa para escolher o código mais preciso, pois isso impacta o tratamento e o registro epidemiológico.
A cólica menstrual pode ser considerada uma doença ou é um sintoma normal?
A dismenorreia é considerada uma condição clínica que requer atenção, embora a presença de leve desconforto menstrual seja comum. Quando a dor é intensa a ponto de interferir nas atividades diárias, causar faltas ao trabalho ou escola, ou provocar sintomas sistêmicos (náuseas, vômitos, desmaios), ela é patológica e merece investigação e tratamento adequados. A Organização Mundial da Saúde e as sociedades médicas reconhecem a dismenorreia como um problema de saúde pública que afeta a qualidade de vida.
Quais exames são necessários para definir o CID correto?
Para definir se a dismenorreia é primária ou secundária, o médico geralmente solicita história clínica detalhada, exame ginecológico (toque, especular) e ultrassonografia pélvica transvaginal. Em casos suspeitos de endometriose, adenomiose ou miomas, pode ser indicada ressonância magnética. A laparoscopia é o padrão-ouro para diagnóstico de endometriose, mas não é feita rotineiramente. A classificação CID é baseada nos achados clínicos e de imagem disponíveis no momento do atendimento.
Posso usar o código N94.5 se a paciente usa DIU e tem cólica?
Sim. O DIU de cobre é uma causa reconhecida de dismenorreia secundária. Nesse caso, o código apropriado é N94.5, acompanhado ou não do código para o DIU (Z30.4, supervisão de DIU). O DIU hormonal (Mirena, Kyleena) geralmente reduz a cólica, mas algumas pacientes podem apresentar dor nos primeiros meses; se a dor persistir, o código N94.5 também pode ser usado até a adaptação.
Existe algum código CID específico para cólica menstrual na adolescência?
Não há um código separado para adolescentes. Na maioria dos casos, a dismenorreia em adolescentes é primária (N94.4), pois as causas secundárias são menos frequentes nessa faixa etária. Entretanto, se houver suspeita de malformações uterinas, endometriose precoce ou outras condições, o código deve refletir o diagnóstico específico (N94.5 ou o código da condição). A investigação deve ser criteriosa, especialmente se a dor for refratária ao tratamento inicial.
A cólica menstrual pode ser prevenida? O que o CID N94.6 significa para o planejamento?
A dismenorreia primária pode ser prevenida em parte com o uso de contraceptivos hormonais contínuos, que suprimem a ovulação e reduzem o endométrio. A adoção de hábitos saudáveis, como exercícios regulares e dieta anti-inflamatória, também pode diminuir a intensidade. O código N94.6 indica que não foi possível determinar a causa, portanto o planejamento deve incluir exames mais aprofundados para descartar causas secundárias. Quanto mais específico o diagnóstico, mais direcionado será o tratamento e a prevenção de complicações futuras.
É possível codificar a dismenorreia como sintoma (R10.2 – dor pélvica) em vez de usar N94?
O código R10.2 (dor pélvica e perineal) é um código para sintomas inespecíficos. Embora possa ser usado em alguns contextos (como em pronto-socorro antes de um diagnóstico definitivo), a orientação é utilizar o código mais específico disponível quando há informação clínica suficiente. Para cólica menstrual, os códigos N94.4, N94.5 e N94.6 são mais adequados, pois fazem parte do capítulo de doenças do aparelho geniturinário feminino e refletem a natureza cíclica da dor ligada ao ciclo menstrual.
O CID 11 mudou a classificação da dismenorreia?
Sim. A CID-11, lançada pela OMS em 2018 e em implementação gradual, reclassificou a dismenorreia no capítulo de “Condições relacionadas à saúde sexual e reprodutiva”. O código para dismenorreia primária na CID-11 é GA30.0; para dismenorreia secundária, GA30.1; e para dismenorreia não especificada, GA30.Z. Embora a transição ainda esteja em andamento no Brasil, é importante que os profissionais conheçam ambas as codificações para se adaptarem à futura substituição.
Para mais informações sobre a codificação e a classificação, consulte a página da Artmed sobre o código CID N94 e o portal da Afya sobre CID-10 N94.
Para Encerrar
A cólica menstrual, embora comum, não deve ser banalizada. Seu correto diagnóstico e classificação são essenciais para o manejo adequado e para evitar o sofrimento desnecessário. O sistema CID-10 oferece códigos específicos para dismenorreia primária (N94.4), secundária (N94.5) e não especificada (N94.6), permitindo que o profissional de saúde registre com precisão a natureza da dor e suas possíveis causas.
A diferenciação entre os tipos de dismenorreia é crucial, pois orienta a escolha do tratamento: desde AINEs e contraceptivos hormonais até intervenções cirúrgicas em casos de patologias subjacentes. Além disso, o uso adequado dos códigos CID contribui para a coleta de dados epidemiológicos, o planejamento de políticas de saúde e a comunicação entre especialistas.
Pacientes que sofrem com cólica menstrual intensa devem ser incentivadas a buscar atendimento médico para investigação e tratamento. Nenhuma mulher precisa aceitar a dor como parte inevitável do ciclo menstrual. Com as opções terapêuticas disponíveis atualmente, é possível aliviar significativamente os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
O conhecimento sobre a classificação CID e as abordagens baseadas em evidências fortalece tanto o profissional quanto a paciente na tomada de decisões informadas. Que este artigo sirva como guia prático para o correto registro e manejo da cólica menstrual, promovendo saúde e bem-estar feminino.
Leia Tambem
- Telemedicina Morsch – CID N94: entenda essa classificação
- iClinic – CID 10 N94: dor e afecções associadas aos órgãos genitais femininos
- Artmed – Código CID N94: categoria N94 da CID-10
- Hospital Israelita Albert Einstein – Glossário de Saúde: cólica menstrual
- Portal Afya – CID-10 N94: dor e afecções associadas com os órgãos genitais femininos
