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Saude Publicado em Por Stéfano Barcellos

Audiograma: o que é e como interpretar resultados

Audiograma: o que é e como interpretar resultados
Avaliado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Primeiros Passos

A audição é um dos sentidos mais fundamentais para a comunicação humana, para a aprendizagem e para a interação social. Quando há suspeita de dificuldade auditiva, seja em crianças, adultos ou idosos, o primeiro exame solicitado por otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos é a audiometria tonal, cujo resultado é registrado em um gráfico chamado audiograma. Este instrumento gráfico representa, de forma padronizada, os limiares auditivos de uma pessoa em diferentes frequências e intensidades sonoras, permitindo identificar não apenas a existência de uma perda auditiva, mas também o seu tipo, grau e configuração.

De acordo com materiais técnicos atualizados em 2023 e 2024, o audiograma permanece como o exame central na avaliação audiológica, sendo indispensável para o diagnóstico diferencial entre perdas condutivas, sensorioneurais e mistas. Além disso, sua interpretação correta orienta decisões sobre tratamento, reabilitação auditiva, indicação de aparelhos auditivos e intervenções cirúrgicas. Neste artigo, você compreenderá detalhadamente o que é um audiograma, como ele é produzido, quais informações ele revela e como interpretar seus resultados de maneira prática e segura.

Visao Detalhada

O que é um audiograma?

O audiograma é um gráfico bidimensional que relaciona duas variáveis essenciais da audição: a frequência do som (em Hertz, Hz) e a intensidade (em decibéis, dB). No eixo horizontal, são representadas as frequências, geralmente de 125 Hz a 8.000 Hz – uma faixa que abrange desde sons graves (como o ronco de um motor) até sons agudos (como o chiado de uma chaleira). No eixo vertical, a intensidade sonora é apresentada em dB, normalmente em uma escala que vai de -10 dB a 120 dB, onde valores mais baixos indicam sons muito fracos (próximos ao silêncio) e valores mais altos representam sons intensos.

O limiar auditivo é definido como o som mais fraco que uma pessoa consegue detectar em cada frequência testada. No audiograma, esses limiares são marcados com símbolos padronizados: geralmente um círculo vermelho para a orelha direita (via aérea) e um X azul para a orelha esquerda (via aérea). Quando a via óssea é testada, utilizam-se colchetes ou setas nas mesmas cores. Essa padronização, recomendada pela Associação Brasileira de Fonoaudiologia em seu guia de 2023, garante que qualquer profissional qualificado possa interpretar o exame de forma uniforme.

Como o exame é realizado?

O exame de audiometria tonal é realizado em uma cabine acústica ou sala silenciosa. O paciente, usando fones de ouvido (via aérea) ou um vibrador ósseo posicionado atrás da orelha (via óssea), recebe estímulos sonoros de diferentes frequências e intensidades. Cada vez que ouve um som, o paciente levanta a mão ou aperta um botão. O fonoaudiólogo, do outro lado do equipamento, registra o menor nível de intensidade percebido em cada frequência – esse é o limiar auditivo.

A avaliação por via aérea testa todo o sistema auditivo (orelha externa, média e interna), enquanto a via óssea estimula diretamente a cóclea, ignorando obstáculos na orelha externa e média. A comparação entre esses dois resultados é fundamental para classificar o tipo de perda auditiva.

Tipos de perda auditiva no audiograma

  • Perda condutiva: ocorre quando há problemas na orelha externa ou média (por exemplo, cerume, otite, perfuração timpânica). No audiograma, os limiares por via aérea estão elevados (piores), mas os limiares por via óssea permanecem normais ou próximos do normal. Há um gap (diferença) entre as curvas, geralmente maior que 10 dB.
  • Perda sensorioneural: resulta de danos na cóclea ou no nervo auditivo (por exemplo, envelhecimento, exposição a ruídos, medicamentos ototóxicos). Tanto a via aérea quanto a via óssea apresentam limiares elevados, e as curvas ficam próximas, sem gap significativo.
  • Perda mista: combina componentes condutivo e sensorioneural. As curvas de via aérea e óssea estão ambas elevadas, mas há um gap entre elas, indicando que uma parte da perda é passível de correção cirúrgica ou clínica.

Grau de perda auditiva

A classificação do grau de perda auditiva segue, atualmente, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS/2021), que estabelece os seguintes intervalos com base na média dos limiares nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 4.000 Hz na melhor orelha:

Grau de perda auditivaMédia dos limiares (dB)
Audição normal≤ 20 dB
Perda leve21 a 35 dB
Perda moderada36 a 50 dB
Perda moderadamente severa51 a 65 dB
Perda severa66 a 80 dB
Perda profunda≥ 81 dB
Essa tabela é amplamente utilizada em contextos clínicos e de saúde pública, conforme citado em materiais de referência [3]. Vale notar que alguns serviços, especialmente os que atendem crianças, ainda utilizam a faixa de 0 a 25 dB como normal, mas a OMS/2021 adota o limite de 20 dB como mais rigoroso para detecção precoce.

Configuração da perda auditiva

Além do grau, o audiograma revela a configuração da perda, ou seja, o formato da curva ao longo das frequências. As configurações mais comuns incluem:

  • Descendente ou em declive: os limiares pioram progressivamente nas frequências agudas. É típica da presbiacusia (perda por envelhecimento).
  • Ascendente: os limiares são melhores nas frequências agudas e piores nas graves. Pode ocorrer em algumas doenças genéticas ou na otosclerose.
  • Plana: limiares relativamente iguais em todas as frequências. Comum em perdas moderadas de origem variada.
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”:
  • Em “U” ou “V”: perda mais acentuada nas frequências médias, poupando graves e agudos. Pode ser observada em algumas lesões cocleares específicas.

Importância da interpretação correta

A interpretação do audiograma não se limita a olhar números. Ela exige conhecimento da fisiologia auditiva, das convenções gráficas e da correlação com a queixa do paciente. Por exemplo, uma perda de 40 dB em 4.000 Hz pode passar despercebida em ambientes silenciosos, mas causar grande dificuldade em conversas com ruído de fundo. Por isso, o audiograma é sempre analisado em conjunto com a audiometria vocal (logoaudiometria), que avalia o reconhecimento de palavras, e com a história clínica.

O material da USP/LAAAED, publicado em 2024, introduz o conceito de “audiograma dos sons familiares”, que sobrepõe ao gráfico as regiões típicas de sons do cotidiano, como o choro de bebê, o assobio, o telefone tocando e a fala. Essa ferramenta ajuda pacientes e familiares a compreenderem, de forma visual, quais sons estão sendo perdidos ou distorcidos.

Lista: 5 passos essenciais para interpretar um audiograma

  1. Verificar os símbolos e a calibração: confirme se o exame utilizou os símbolos padronizados (círculo/X para via aérea; colchetes para via óssea) e se a data, o nome do paciente e o equipamento estão registrados.
  2. Avaliar a média tritonal ou quadritonal: calcule a média dos limiares nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz (e 4.000 Hz, segundo OMS) para classificar o grau da perda.
  3. Comparar via aérea e via óssea: verifique se há gap entre as curvas. Gap maior que 10 dB sugere componente condutivo; gap ausente ou menor que 10 dB indica perda sensorioneural.
  4. Observar o formato da curva: identifique se a perda é descendente, ascendente, plana ou em “U”. Isso ajuda a diagnosticar a etiologia (causa) provável.
  5. Correlacionar com a queixa clínica: uma perda discreta em altas frequências pode ser assintomática, enquanto uma perda moderada em médias frequências compromete a inteligibilidade da fala.

Tabela comparativa: Classificação do grau de perda auditiva (OMS 2021 vs. Faixa clínica tradicional)

Grau de perda auditivaOMS 2021 (média em dB)Faixa clínica tradicional (dB)
Audição normal≤ 200 a 25
Perda leve21 a 3526 a 40
Perda moderada36 a 5041 a 55
Perda moderadamente severa51 a 6556 a 70
Perda severa66 a 8071 a 90
Perda profunda≥ 81> 90
[2][3]

Nota-se que a principal diferença está no limite inferior da audição normal: a OMS adota 20 dB (mais rigoroso, especialmente para crianças), enquanto muitos serviços ainda usam 25 dB para adultos. A escolha da classificação deve ser explicitada no laudo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O audiograma dói?

Não, o exame é indolor e não invasivo. O paciente apenas permanece sentado em uma cabine acústica, usando fones de ouvido ou um vibrador ósseo, e responde aos sons que ouve. Não há nenhum estímulo doloroso ou risco à saúde.

Quanto tempo leva para fazer um audiograma?

Em média, o exame dura de 20 a 40 minutos, dependendo da necessidade de testar ambas as orelhas, da idade do paciente e da complexidade da perda. Crianças pequenas podem exigir técnicas lúdicas, prolongando o tempo.

É necessário algum preparo antes do exame?

Recomenda-se evitar exposição a ruídos intensos nas 12 a 14 horas anteriores ao teste, para que não haja fadiga auditiva. Também é importante informar o fonoaudiólogo sobre o uso de medicamentos ototóxicos, histórico de infecções ou cirurgias de ouvido. Crianças devem estar descansadas e alimentadas.

O que significa “limiar de 0 dB” no audiograma?

Zero decibel no audiograma não significa ausência de som, mas sim o nível de referência adotado para cada frequência – um som muito fraco que uma pessoa com audição normal consegue ouvir. Por isso, limiares abaixo de 0 dB (valores negativos) indicam audição acima da média, enquanto valores positivos indicam perda.

Uma perda auditiva no audiograma pode ser curada?

Depende do tipo de perda. Perdas condutivas (causadas por problemas no ouvido externo ou médio) muitas vezes têm tratamento clínico ou cirúrgico, como remoção de cerume, antibióticos para otite ou cirurgia de otosclerose. Perdas sensorioneurais, em geral, são irreversíveis, mas podem ser reabilitadas com aparelhos auditivos ou implante coclear.

Crianças também fazem audiograma? Como é o procedimento?

Sim, crianças a partir de 2-3 anos podem realizar a audiometria tonal, desde que sejam utilizadas técnicas lúdicas e condicionamento visual (como “coloque a boneca no colo” ao ouvir o som). Bebês e crianças menores são avaliados por métodos eletrofisiológicos, como o BERA ou as emissões otoacústicas, que não dependem de resposta voluntária.

Qual a diferença entre audiograma e audiometria?

Audiometria é o nome do exame completo, que inclui a medição dos limiares tonais (via aérea e óssea) e, frequentemente, a logoaudiometria (teste da fala). O audiograma é o gráfico que representa os resultados da audiometria tonal. Na prática clínica, os termos são usados de forma intercambiável, mas tecnicamente o audiograma é o produto do exame.

Posso interpretar meu próprio audiograma?

Embora seja possível entender os conceitos básicos, a interpretação completa deve ser feita por um fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista. Esses profissionais consideram a história clínica, a simetria entre as orelhas, a configuração das curvas e outros fatores que podem não ser evidentes para leigos. Autodiagnóstico pode levar a conclusões erradas e atraso no tratamento adequado.

Para Encerrar

O audiograma é muito mais do que um simples gráfico: é o mapa da audição de uma pessoa. Por meio dele, é possível identificar perdas auditivas em estágios iniciais, diferenciar o tipo de comprometimento (condutivo, sensorioneural ou misto) e quantificar o grau de dificuldade para ouvir sons da fala e do ambiente. Com os avanços nos materiais educativos, como o “audiograma dos sons familiares” publicado pela USP em 2024, pacientes e familiares podem visualizar de forma concreta quais sons estão sendo perdidos, o que facilita a adesão ao tratamento e à reabilitação.

Em um cenário de aumento da expectativa de vida e de maior exposição a ruídos recreativos e ocupacionais, a detecção precoce da perda auditiva torna-se uma prioridade de saúde pública. A realização periódica da audiometria tonal e a correta interpretação do audiograma são as ferramentas mais confiáveis para garantir que crianças, adultos e idosos recebam o suporte necessário para manter a comunicação, a segurança e a qualidade de vida.

Se você suspeita de alguma dificuldade auditiva, procure um fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista. Lembre-se: ouvir bem é um direito e um requisito fundamental para uma vida plena.

Para Saber Mais

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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