Antes de Tudo
A agitação psicomotora representa uma das apresentações mais desafiadoras em serviços de urgência e emergência psiquiátrica. Caracterizada por um aumento inadequado e repetitivo da atividade verbal e motora, frequentemente acompanhada de tensão, irritabilidade e, em casos mais graves, agressividade, essa condição exige intervenção imediata e qualificada. No contexto da Classificação Internacional de Doenças (CID), a agitação psicomotora não possui um código único e exclusivo, mas aparece como sintoma central de diferentes diagnósticos. Compreender a relação entre a manifestação clínica e os códigos CID é fundamental para o registro adequado, o planejamento terapêutico e a comunicação entre profissionais de saúde.
Este artigo aborda de forma completa os principais códigos CID associados à agitação psicomotora, os quadros clínicos mais frequentes, as estratégias de manejo e as dúvidas comuns sobre o tema. O conteúdo é direcionado a profissionais da saúde, estudantes e demais interessados na área de psiquiatria e emergências clínicas, com base em fontes oficiais e protocolos atualizados.
Aspectos Essenciais
1 Definição e classificação no CID
A agitação psicomotora é definida como um estado de hiperatividade motora e verbal, sem propósito claro, associado a desconforto subjetivo e disfunção comportamental. Na CID-10, o código mais diretamente relacionado é o R45.1 – Agitação e inquietação, que pertence ao capítulo XVIII (Sintomas, sinais e achados anormais de exames clínicos e laboratoriais). Esse código é utilizado quando o sintoma é o motivo principal do atendimento e não é explicado por um transtorno específico já classificado em outro capítulo.
Entretanto, a agitação psicomotora frequentemente aparece como parte integrante de transtornos psiquiátricos bem definidos. O CID F23 – Transtornos psicóticos agudos e transitórios é um dos mais relevantes nesse contexto. Nesses quadros, a agitação surge de forma súbita (em dias a poucas semanas), acompanhada de delírios, alucinações, comportamento desorganizado e intensa ansiedade. O diagnóstico de F23 exige a exclusão de causas orgânicas (como delirium) ou induzidas por substâncias.
Outros códigos CID que podem incluir agitação psicomotora como sintoma são:
- F10-F19 – Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substâncias psicoativas (intoxicação ou abstinência).
- F30-F39 – Transtornos do humor (mania ou depressão agitada).
- F06 – Transtorno mental orgânico (ex.: delirium).
- G40 – Epilepsia (crises parciais complexas com agitação).
2 Causas e diagnósticos diferenciais
A agitação psicomotora não é uma doença em si, mas um sintoma que pode ter múltiplas origens. As causas mais comuns incluem:
- Intoxicação ou abstinência de álcool e drogas (cocaína, anfetaminas, canabinoides sintéticos). A abstinência alcoólica, em particular, pode cursar com delirium tremens, quadro grave de agitação com alucinações e confusão.
- Delirium (estado confusional agudo) de causas clínicas como infecções, distúrbios metabólicos, hipóxia ou dor intensa.
- Transtornos psiquiátricos primários como transtorno bipolar (fase maníaca), depressão agitada, transtornos psicóticos (esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo) e transtornos de personalidade (especialmente o borderline).
- Condições médicas agudas como dispneia, hipoglicemia, febre alta, traumatismo cranioencefálico.
- Efeitos adversos de medicamentos (ex.: corticoides, broncodilatadores, antidepressivos).
3 Manejo da emergência
A agitação psicomotora aguda é considerada uma emergência psiquiátrica. O manejo segue uma abordagem escalonada:
- Desescalada verbal – Técnica de comunicação não confrontacional, com ambiente calmo e equipe treinada. O objetivo é reduzir a excitação do paciente sem uso de intervenções físicas.
- Medicação – Quando a desescalada não é suficiente, utiliza-se medicação por via oral (preferencial) ou intramuscular. Antipsicóticos típicos (haloperidol) ou atípicos (olanzapina, risperidona), benzodiazepínicos (diazepam, lorazepam) ou combinações são as opções mais comuns.
- Contenção física – Apenas em casos de risco iminente de agressão ou autoagressão, e por tempo mínimo, em ambiente monitorado. Deve ser documentada e seguida de avaliação médica.
4 A importância do código CID correto
No sistema de saúde brasileiro, o registro do CID é obrigatório para faturamento, autorizações de internação e produção de indicadores epidemiológicos. Para a agitação psicomotora, o código R45.1 deve ser utilizado quando o sintoma é o principal motivo do atendimento, sem um diagnóstico psiquiátrico ou orgânico estabelecido no momento. Já quando o quadro se insere em um transtorno específico (como um surto psicótico agudo), o código principal deve ser o do transtorno (ex.: F23), podendo o R45.1 ser usado como código secundário.
Uma tabela comparativa ajuda a esclarecer essa diferença.
Lista: Principais causas de agitação psicomotora por categoria
- Causas psiquiátricas primárias:
- Transtorno bipolar – fase maníaca
- Depressão maior com agitação psicomotora
- Esquizofrenia e transtornos psicóticos agudos (CID F23)
- Transtorno de personalidade borderline (crises de desregulação emocional)
- Causas relacionadas ao uso de substâncias:
- Intoxicação por cocaína, crack, anfetaminas
- Abstinência alcoólica (delirium tremens)
- Intoxicação por canabinoides sintéticos
- Abstinência de opioides
- Causas orgânicas/ clínicas:
- Delirium por infecção (ex.: sepse, pneumonia)
- Distúrbios metabólicos (hipoglicemia, hiponatremia)
- Hipóxia (DPOC, insuficiência cardíaca)
- Dor intensa ou trauma
- Febre alta
- Causas iatrogênicas:
- Efeito paradoxal de benzodiazepínicos
- Reação a corticoides (esteroide psicose)
- Broncodilatadores (salbutamol)
- Causas neurológicas:
- Epilépsia (crises parciais complexas)
- Acidente vascular cerebral (AVC) agudo
- Traumatismo cranioencefálico
Tabela comparativa: Códigos CID-10 mais relevantes na agitação psicomotora
| Código CID | Diagnóstico / Sintoma | Quando utilizar | Observações clínicas |
|---|---|---|---|
| R45.1 | Agitação e inquietação | Sintoma isolado, sem transtorno específico no momento | Usar como principal se a causa não é determinada; código secundário se associado a outro CID |
| F23 | Transtornos psicóticos agudos e transitórios | Quadro psicótico súbito (delírios, alucinações, desorganização) | Duração limitada (dias a semanas); excluir causas orgânicas e uso de substâncias |
| F10.3 / F11.3 | Intoxicação por álcool ou substâncias | Agitação com uso recente de substância psicoativa | Pesquisar outras manifestações (ataxia, nistagmo, alteração de consciência) |
| F10.4 | Abstinência de álcool (inclusive delirium tremens) | Agitação após parada ou redução drástica do consumo | Necessidade de tiamina e benzodiazepínicos; risco de convulsão |
| F06 | Transtorno mental orgânico (inclui delirium) | Agitação associada a doença médica ou neurológica | Tratar a causa base; evitar neurolépticos em alguns casos |
| G40 | Epilepsia | Agitação em contexto de crise convulsiva ou pós-ictal | EEG e avaliação neurológica |
Respostas Rapidas
Qual é o CID da agitação psicomotora?
O código mais diretamente relacionado é o R45.1 (Agitação e inquietação) da CID-10. No entanto, quando a agitação é sintoma de um transtorno específico, o código principal deve ser o do transtorno (por exemplo, F23 para transtorno psicótico agudo), podendo o R45.1 ser usado como código adicional. Não existe um único “CID da agitação”, pois o código depende da causa documentada.
Como diferenciar agitação psicomotora de ansiedade?
A agitação psicomotora envolve atividade motora e verbal repetitiva e inadequada, com perda de controle, tensão extrema e possível agressividade. Já a ansiedade é caracterizada por preocupação excessiva, medo e sintomas autonômicos, mas sem o grau de desorganização motora e contato prejudicado com a realidade que frequentemente acompanha a agitação. A ansiedade grave pode evoluir para agitação, mas são estados distintos.
A agitação psicomotora é sempre um sinal de psicose?
Não. Embora seja comum em quadros psicóticos (como no CID F23), a agitação pode ocorrer em delirium, intoxicação, abstinência, transtorno bipolar (mania), depressão agitada, transtornos de personalidade e até mesmo em condições clínicas sem componente psiquiátrico (ex.: dor intensa, febre). O diagnóstico diferencial é essencial para o tratamento correto.
Quais medicamentos são usados no manejo da agitação psicomotora?
As opções incluem antipsicóticos típicos (haloperidol) e atípicos (olanzapina, risperidona, aripiprazol), benzodiazepínicos (diazepam, lorazepam, midazolam) e combinações. A via de administração pode ser oral (preferível) ou intramuscular. A escolha depende da etiologia, do perfil de segurança e da disponibilidade. Em serviços de emergência, são comuns protocolos baseados em evidências, como os descritos no Protocolo de manejo da agitação psicomotora aguda da SES-DF.
Quando a contenção física é indicada?
A contenção física é uma medida de último recurso, indicada apenas quando há risco iminente de agressão (heteroagressão ou autoagressão) e as medidas verbais e farmacológicas não são suficientes ou não podem ser aplicadas com segurança. Deve ser realizada por equipe treinada, com duração mínima possível, e o paciente deve ser monitorado continuamente. A contenção nunca é terapêutica, mas uma medida de segurança.
Qual a duração típica de um episódio de agitação psicomotora?
Depende da causa. Em quadros psicóticos agudos (CID F23), o episódio pode durar de alguns dias a algumas semanas, com remissão espontânea ou após tratamento. Em delirium, dura enquanto a causa clínica não for resolvida. Em intoxicação, cessa com a eliminação da substância (horas a dias). O manejo adequado encurta a duração e reduz complicações.
A agitação psicomotora pode ser confundida com mania?
Sim, especialmente quando a agitação é intensa. A mania (transtorno bipolar, fase maníaca) inclui elevação do humor, grandiosidade, redução da necessidade de sono, loquacidade e aumento da atividade dirigida a objetivos, além de agitação. Já a agitação psicomotora pode ser indistinguível da mania em alguns momentos, mas a presença de delírios, alucinações ou confusão aponta mais para psicose ou delirium. A história clínica e a evolução dos sintomas ajudam no diagnóstico diferencial.
Consideracoes Finais
A agitação psicomotora é uma manifestação clínica complexa que exige do profissional de saúde uma abordagem sistemática, segura e baseada em evidências. Sua correta codificação no CID é essencial não apenas para o registro e faturamento, mas também para a comunicação eficaz entre equipes e para a produção de dados epidemiológicos que possam orientar políticas públicas de saúde mental.
O código R45.1 (Agitação e inquietação) é o mais específico para o sintoma isolado, mas o diagnóstico final deve sempre buscar a causa subjacente, utilizando os códigos apropriados de transtornos psiquiátricos (como F23) ou clínicos (como F06, F10-F19). O manejo adequado, que prioriza a desescalada verbal e a medicação segura, pode evitar a progressão para situações de violência e internação prolongada.
Em um cenário de crescente demanda por emergências psiquiátricas, dominar o conhecimento sobre agitação psicomotora e seus códigos CID é uma competência indispensável para médicos, enfermeiros, psicólogos e demais profissionais que atuam na linha de frente do cuidado.
