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Gramática Publicado em Por Stéfano Barcellos

Verbos Impessoais: O que são e como usar corretamente

Verbos Impessoais: O que são e como usar corretamente
Validado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

A concordância verbal é um dos tópicos mais sensíveis da gramática normativa do português brasileiro. Entre as regras que mais geram dúvidas em redações, testes de vestibular e no dia a dia da escrita formal, destaca-se o uso dos verbos impessoais. Esses verbos apresentam uma particularidade linguística fundamental: não possuem sujeito e, por isso, devem ser conjugados exclusivamente na terceira pessoa do singular. Compreender esse conceito é essencial não apenas para evitar erros de concordância, mas também para interpretar corretamente textos acadêmicos, literários e jornalísticos.

Embora o fenômeno seja relativamente simples em sua essência, na prática surgem inúmeras dúvidas: quando o verbo “haver” pode ser flexionado? “Faz dois anos” ou “fazem dois anos”? “Choveu muito ontem” ou “choveram muitas reclamações”? A resposta depende da identificação correta da impessoalidade. Neste artigo, vamos explorar a definição, os principais casos, as exceções e as diferenças entre verbos impessoais e unipessoais, sempre com exemplos práticos e baseados em fontes confiáveis da língua portuguesa.

Aspectos Essenciais

O que são verbos impessoais?

Verbos impessoais são aqueles que não admitem sujeito – nem oculto, nem indeterminado, nem oracional. Eles expressam ações ou estados que não podem ser atribuídos a nenhum ser ou entidade. Por consequência, a forma verbal fixa-se na terceira pessoa do singular, independentemente de qualquer outro termo na oração. Essa característica os diferencia radicalmente dos verbos pessoais, que variam em número e pessoa conforme o sujeito.

Na gramática tradicional, três grupos principais de verbos impessoais são reconhecidos:

  1. Verbo “haver” com sentido de existir ou ocorrer – Exemplo: “Há muitos livros na estante.” O verbo “há” (do presente do indicativo) não se pluraliza para concordar com “livros”, pois não há sujeito.
  2. Verbo “fazer” indicando tempo decorrido ou fenômeno atmosférico – Exemplo: “Faz três anos que não o vejo.” O verbo permanece no singular, mesmo que a ideia de tempo seja plural.
  3. Verbos que indicam fenômenos da natureza – Exemplos: “Choveu durante a madrugada”, “Ventou muito ontem”, “Amanheceu nublado”. Esses verbos descrevem eventos climáticos sem agente.
Contudo, existe uma nuance importante: quando esses verbos são empregados em sentido figurado, podem perder a impessoalidade e passar a ter sujeito. Por exemplo, em “Choveram críticas ao projeto”, o verbo “chover” está sendo usado metaforicamente e concorda com o sujeito “críticas”. O mesmo ocorre em “Amanheci poeta” (sentido figurado de “amanhecer” com sujeito “eu”).

A distinção entre verbos impessoais e unipessoais

Um erro frequente é confundir verbos impessoais com verbos unipessoais. Estes últimos também costumam aparecer apenas na terceira pessoa (singular ou plural), mas possuem sujeito, ainda que este seja, muitas vezes, uma oração ou um termo coletivo. Exemplos clássicos de verbos unipessoais são “acontecer”, “ocorrer”, “suceder”, “parecer”, “importar” e “custar” (no sentido de ser difícil). Veja a diferença:

  • Im pessoal: “É preciso que haja mais dedicação.” – “haja” não tem sujeito.
  • Unipessoal: “Aconteceu um acidente.” – “um acidente” é sujeito do verbo “acontecer”; portanto, se o sujeito estivesse no plural, o verbo concordaria: “Aconteceram acidentes.”
A tabela a seguir ajuda a visualizar essa diferença em um contexto comparativo.

Casos especiais e controvérsias

Embora os três grupos acima sejam os mais estáveis na tradição gramatical, alguns manuais incluem outros verbos como impessoais em determinadas construções. Por exemplo:

  • “Bastar” e “chegar” podem ser impessoais quando significam “ser suficiente” ou “ser bastante” respectivamente, em construções como “Basta de reclamações” e “Chega de enrolação”. Nesses casos, o verbo fica no singular porque não há sujeito explícito; o que se tem é uma preposição seguida de um termo que não exerce função de sujeito.
  • “Tratar-se de” também é considerado impessoal por muitos gramáticos: “Trata-se de questões complexas” – o verbo fica no singular porque “de questões complexas” é objeto indireto, não sujeito.
É importante notar que essas inclusões não são consensuais. A Norma Culta e o Toda Matéria recomendam cautela e sugerem que, para fins de prova, o foco deve estar nos casos de “haver”, “fazer” (tempo) e fenômenos naturais.

A questão do verbo “ter” como existencial

Na fala cotidiana e em registros informais, é muito comum usar o verbo “ter” com sentido existencial: “Tem muitas pessoas na fila.” Contudo, a norma culta prefere “haver” nesse papel. Embora “ter” como impessoal seja amplamente aceito na comunicação oral, em textos formais (redações de vestibular, documentos oficiais, artigos acadêmicos) recomenda-se o uso de “haver”. A Ciberdúvidas da Língua Portuguesa reforça que a tradição gramatical brasileira ainda considera “haver” o padrão para a impessoalidade existencial.

Locuções verbais com verbo impessoal

Quando um verbo impessoal aparece em uma locução verbal (verbo auxiliar + verbo principal), a regra de impessoalidade se estende ao auxiliar. Por exemplo:

  • “Vai fazer dois anos que eles se casaram.” – O auxiliar “vai” fica no singular porque o verbo principal “fazer” é impessoal.
  • “Deve haver muitos candidatos.” – “Deve” (singular) acompanha “haver” (impessoal).
  • “Pode chover ainda hoje.” – “Pode” (singular) com verbo principal “chover” (impessoal).
Não se deve pluralizar o auxiliar nesses casos, mesmo que a ideia seja de quantidade. Essa é uma das pegadinhas mais comuns em provas de língua portuguesa.

Lista de Verbos Impessoais Mais Comuns

Para facilitar a memorização e o uso correto, segue uma lista dos verbos impessoais mais frequentes na língua portuguesa, com exemplos:

  1. Haver (sentido de existir, ocorrer ou tempo passado) – Ex.: “Havia estranhos no mercado.” / “Houve três acidentes ontem.” / “Há dois meses não o vejo.”
  2. Fazer (indicando tempo decorrido ou fenômeno atmosférico) – Ex.: “Faz três horas que espero.” / “Fez muito frio no inverno.”
  3. Chover – Ex.: “Choveu a noite toda.” (impessoal no sentido literal)
  4. Ventar – Ex.: “Ventou forte durante a tempestade.”
  5. Nevar – Ex.: “Nevou nas serras gaúchas.”
  6. Trovejar – Ex.: “Trovejou durante a madrugada.”
  7. Amanhecer (sentido literal: “Amanheceu mais cedo hoje”) – embora possa ser pessoal em outros usos.
  8. Anoitecer (sentido literal: “Anoiteceu rapidamente”).
  9. Bastar (em construções como “Basta de conversa”) – alguns gramáticos consideram impessoal.
  10. Chegar (em construções como “Chega de desculpas”) – idem.
Observação: Verbos meteorológicos como “chover”, “ventar”, “nevar” etc. só são impessoais quando usados em sentido denotativo (literal). Em sentido conotativo, passam a ser pessoais: “Choveram elogios ao professor” (sujeito: “elogios”).

Tabela Comparativa: Verbos Impessoais vs. Verbos Pessoais

A tabela a seguir compara os mesmos verbos em construções impessoais (sem sujeito) e pessoais (com sujeito), evidenciando a diferença de concordância.

VerboConstrução Impessoal (3ª pessoa singular)Construção Pessoal (concorda com sujeito)
HaverHá muitos carros na garagem.Eles haviam saído antes do almoço. (verbo auxiliar pessoal)
FazerFaz dez anos que nos formamos.Ela faz bolos deliciosos. (sujeito: ela)
ChoverChoveu muito em abril.Choveram reclamações contra a empresa. (sujeito: reclamações)
AmanhecerAmanheceu nublado hoje.Amanheci cansado. (sujeito: eu)
BastarBasta de discussões.Bastam dois dias para concluir o trabalho. (sujeito: dois dias)
VentarVentou muito durante a noite.Ventam boatos sobre a fusão. (sujeito: boatos – sentido figurado)
A principal lição da tabela é: sempre que houver um sujeito claro (mesmo que oracional), o verbo deve concordar com ele. Nas impessoais, a ausência de sujeito obriga o singular.

Perguntas e Respostas

Qual a diferença entre verbos impessoais e unipessoais?

Os verbos impessoais não têm sujeito e ficam sempre na 3ª pessoa do singular, como “haver” existencial e “fazer” temporal. Já os verbos unipessoais possuem sujeito, mas só são conjugados na 3ª pessoa (singular ou plural), como “acontecer” e “ocorrer”. Por exemplo, “Aconteceu um acidente” – “um acidente” é sujeito. Se o sujeito for plural, o verbo vai para o plural: “Aconteceram acidentes”. Nos impessoais, não há essa variação.

“Há” ou “a” – como diferenciar na escrita?

“Há” (do verbo haver) indica existência ou tempo passado. Exemplo: “Há três dias não o vejo.” “A” é preposição, usada em locuções como “a partir de” ou “daqui a pouco”. Uma dica prática: substitua “há” por “faz” (quando indicar tempo) ou por “existe(m)” (quando indicar existência). Se a substituição fizer sentido, escreva com “h”. Exemplo: “Há muitos alunos” → “Existem muitos alunos” (correto); “A muitos alunos” não faz sentido.

“Faz dois anos” ou “fazem dois anos”? Qual é o correto?

O correto, segundo a norma culta, é “faz dois anos”, sempre no singular, porque o verbo “fazer” indicando tempo decorrido é impessoal (não tem sujeito). A forma “fazem” seria usada apenas se houvesse um sujeito plural, como em “Eles fazem dois anos de casados” (sujeito “eles”) – construção rara e mais informal.

“Choveram reclamações” está correto?

Sim, está correto. Nesse caso, “chover” está empregado em sentido figurado (metafórico), e o sujeito é “reclamações”. Portanto, o verbo concorda com o sujeito plural. Já em “Choveu muito ontem”, o verbo é impessoal e deve ficar no singular. A distinção é essencial: sentido literal = impessoal; sentido figurado = pessoal.

Como fica a concordância em locuções verbais com verbo impessoal?

Em locuções verbais, o verbo auxiliar também deve ficar na 3ª pessoa do singular, mesmo que o verbo principal seja impessoal. Exemplo: “Vai fazer dois anos” (não “vão fazer”), “Deve haver muitas pessoas” (não “devem haver”), “Pode chover hoje” (não “podem chover”). A regra se aplica porque o auxiliar herda a impessoalidade do principal.

O uso de “ter” como impessoal é aceito na norma culta?

Não é o preferido. A norma culta tradicional recomenda o uso de “haver” para expressar existência ou tempo decorrido. O verbo “ter” com esse sentido é comum na oralidade e em textos informais, mas em redações formais (ENEM, concursos, artigos acadêmicos) deve-se evitar. Exemplo: em vez de “Tem muitas pessoas na sala”, prefira “Há muitas pessoas na sala”.

“Basta” ou “bastam” dois dias – qual a forma correta?

Depende da construção. Se a frase for “Basta dois dias para concluir o trabalho”, o verbo “basta” está sendo usado de forma impessoal (equivale a “é suficiente”), e o termo “dois dias” é complemento, não sujeito – portanto, singular é correto. Já em “Bastam dois dias para concluir o trabalho”, “dois dias” é sujeito do verbo “bastar” (significa “são suficientes”), e a concordância no plural é obrigatória. Ambas as formas são gramaticalmente aceitas, mas com sentidos ligeiramente diferentes. Na prática, a construção com “bastam” + sujeito plural é mais comum na língua escrita.

Fechando a Analise

Os verbos impessoais representam um capítulo fundamental da gramática normativa do português, com impacto direto na concordância verbal e na clareza da comunicação escrita. Dominar o uso de “haver”, “fazer” (temporal) e dos verbos meteorológicos, bem como saber identificar quando um verbo deixa de ser impessoal em sentido figurado, é habilidade indispensável para quem busca escrever com correção e elegância.

Além disso, a distinção entre verbos impessoais e unipessoais evita confusões comuns e permite que o falante reconheça quando a flexão de número é obrigatória. A prática constante, aliada à consulta a obras de referência e a materiais didáticos atualizados, é o melhor caminho para internalizar essas regras.

Esperamos que este artigo tenha esclarecido as principais dúvidas sobre o tema e sirva como guia prático para o uso correto dos verbos impessoais no dia a dia. Lembre-se: a língua portuguesa é rica em detalhes, mas com estudo e atenção é possível dominar até mesmo os pontos mais desafiadores da norma culta.

Para Saber Mais

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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