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História Publicado em Por Stéfano Barcellos

Quem Escreveu o Livro de Ester? Descubra Aqui

Quem Escreveu o Livro de Ester? Descubra Aqui
Verificado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Antes de Tudo

O Livro de Ester é um dos textos mais fascinantes e enigmáticos do Antigo Testamento. Ambientado na corte persa do século V a.C., durante o reinado do imperador Assuero (identificado pela maioria dos historiadores como Xerxes I), a narrativa conta como uma jovem judia exilada, Ester, se torna rainha e, com a ajuda de seu primo Mardoqueu, impede um genocídio planejado contra o povo judeu. A obra é a origem da Festa de Purim, celebrada até hoje no judaísmo.

Entretanto, uma questão permanece aberta há séculos: quem escreveu o Livro de Ester? Diferentemente de muitos livros proféticos e históricos da Bíblia, o texto não traz nenhuma declaração explícita de autoria. Não há “assim disse o Senhor” nem uma assinatura de escriba. Essa ausência gerou intensos debates entre tradição judaica, exegese cristã e crítica histórica. O presente artigo busca explorar as principais teorias, as evidências textuais e o consenso acadêmico atual, oferecendo uma visão completa e equilibrada sobre o autor do Livro de Ester.

Expandindo o Tema

O contexto histórico e literário do livro

Para compreender a questão da autoria, é necessário primeiro situar o livro em seu ambiente original. A história se passa em Susã, capital do Império Persa, provavelmente entre 486 e 465 a.C., durante o reinado de Xerxes I. O texto demonstra um conhecimento notável da geografia, da administração e dos costumes persas: desde os nomes dos eunucos e oficiais até os detalhes do palácio e dos protocolos reais. Isso sugere que o autor vivia na Pérsia ou tinha acesso direto a fontes persas.

O livro foi composto em hebraico, mas apresenta influências do persa antigo e do aramaico, língua administrativa do império. Seu estilo é narrativo, com diálogos vivos e um enredo bem construído, que inclui reviravoltas, ironia e um clímax dramático. Uma peculiaridade teológica chama a atenção: o nome de Deus não é mencionado uma única vez no texto hebraico. Essa ausência deliberada levou alguns estudiosos a sugerir que o autor queria enfatizar a providência divina atuando por trás dos acontecimentos, sem necessidade de referências explícitas.

O que o texto bíblico diz sobre quem escreveu o livro?

O ponto de partida natural é uma leitura atenta do próprio Livro de Ester. Em Ester 9:20 lemos: “E Mardoqueu escreveu estas coisas, e enviou cartas a todos os judeus que estavam em todas as províncias do rei Assuero, tanto aos que estavam perto como aos que estavam longe”. Esse versículo indica que Mardoqueu, primo e tutor de Ester, registrou por escrito os eventos relativos à instituição da Festa de Purim. No versículo 29 do mesmo capítulo, uma nota adicional menciona que a própria rainha Ester confirmou por escrito as instruções de Purim.

Esses trechos sugerem que Mardoqueu foi o autor de um documento original que serviu de base para o livro. No entanto, isso não prova que ele tenha redigido o texto final tal qual o conhecemos. Muitos estudiosos acreditam que o livro foi composto posteriormente, usando registros oficiais e testemunhos orais, e que Mardoqueu seria uma fonte primária, não necessariamente o compilador definitivo.

Principais teorias sobre a autoria

1. Mardoqueu (tradição judaica)

A tradição judaica mais antiga, registrada no Talmude Babilônico (Tratado 15a), afirma que o Livro de Ester foi escrito por Mardoqueu. Essa visão é adotada por muitos comentaristas judeus e cristãos conservadores. Os argumentos a favor incluem:

  • Ester 9:20 declara explicitamente que Mardoqueu “escreveu estas coisas”.
  • Mardoqueu era um alto funcionário persa (segundo depois do rei, conforme 10:3) e teria acesso aos arquivos reais e à correspondência oficial.
  • Ele viveu os eventos em primeira mão, sendo uma testemunha ocular dos fatos narrados.
Contudo, há dificuldades. O livro termina com a exaltação de Mardoqueu e a menção de que o rei Xerxes impôs tributos sobre a terra (10:1-2). Isso sugere que o texto foi finalizado após a morte de Mardoqueu ou, ao menos, após o fim do reinado de Xerxes. Alguns críticos apontam ainda que o estilo literário e a estrutura narrativa indicam uma composição mais elaborada, típica de um escriba profissional, não de um político judeu do século V a.C.

2. Esdras ou Neemias (hipótese tradicional alternativa)

Alguns estudiosos, especialmente no âmbito cristão histórico, sugeriram que Esdras ou Neemias poderiam ser os autores. Ambos eram escribas e líderes judeus que viveram após o retorno do exílio babilônico, com forte ligação com a Pérsia. O argumento principal é que eles tinham acesso a documentos oficiais e conheciam bem a vida na corte persa. No entanto, não há nenhuma evidência interna ou externa que vincule diretamente esses personagens ao Livro de Ester. O nome de Esdras, por exemplo, aparece apenas em outros livros bíblicos, e seu estilo literário é diferente (com ênfase em genealogias e listas).

3. Os Homens da Grande Assembleia (tradição rabínica)

Fontes judaicas medievais mencionam que o livro foi redigido pelos Homens da Grande Assembleia (ou Sinagoga Magna), um corpo de sábios que teria funcionado entre os séculos V e III a.C. Essa tradição, embora respeitável, é vaga e se baseia em escritos posteriores, como o Talmude. Não há como confirmar historicamente a existência e a atuação desse grupo na redação de livros bíblicos.

4. Um judeu anônimo do período persa (consenso acadêmico moderno)

A maioria dos críticos bíblicos atuais defende que o Livro de Ester foi escrito por um judeu anônimo que vivia na Pérsia no final do século V ou início do século IV a.C. Esse autor demonstraria:

  • Conhecimento íntimo da corte persa e da cidade de Susã.
  • Domínio da língua hebraica com influências aramaicas e persas.
  • Intenção teológica de mostrar a providência divina sem mencionar Deus, provavelmente para evitar ofender a suscetibilidade dos leitores persas ou para destacar a ação silenciosa de Javé.
A datação proposta para a composição final do livro varia entre 460 e 435 a.C., logo após os eventos narrados, ou cerca de 400 a.C., já no período aquemênida tardio. Evidências textuais, como o uso de palavras e expressões persas que caíram em desuso após a conquista grega, fortalecem essa cronologia.

Evidências internas e externas

Dois pontos merecem destaque na discussão acadêmica. Primeiro, o livro menciona que o rei Assuero impôs tributos “sobre a terra e sobre as ilhas do mar” (10:1), uma referência que parece indicar que Xerxes já havia falecido. Em segundo lugar, o texto afirma que “todos os atos do seu poder e do seu valor, e a declaração da grandeza de Mardoqueu, com que o rei o engrandeceu, porventura não estão escritos no Livro das Crônicas dos reis da Média e da Pérsia?” (10:2). Essa menção a uma fonte oficial sugere que o autor consultou registros reais, mas não que ele fosse um personagem da história.

Além disso, o Livro de Ester não foi encontrado entre os manuscritos do Mar Morto, o que poderia indicar que sua circulação inicial foi limitada ou que sua canonicidade foi discutida entre algumas comunidades judaicas. Contudo, a Septuaginta (tradução grega) já o inclui, e a tradição judaica o considera parte do Tanakh.

Principais Teorias sobre a Autoria do Livro de Ester

  • Mardoqueu – Baseada em Ester 9:20 e na tradição talmúdica. Mardoqueu teria escrito o relato original para registrar a origem de Purim.
  • Esdras – Hipótese secundária, sem evidências diretas. Esdras era escriba e poderia ter tido acesso aos documentos, mas seu estilo é diferente.
  • Neemias – Semelhante à de Esdras, mas com o mesmo problema de falta de comprovação.
  • Homens da Grande Assembleia – Tradição rabínica que atribui a redação a um corpo de sábios pós-exílicos.
  • Judeu anônimo do período persa – Consenso acadêmico mais aceito. Autor desconhecido, mas com profundo conhecimento da vida persa, que escreveu em hebraico por volta de 460–400 a.C.

Tabela Comparativa de Dados Relevantes sobre a Autoria

Teoria de AutoriaPrincipal DefensorEvidências a FavorEvidências Contra
MardoqueuTradição judaica (Talmude) e cristã conservadoraMenção em Ester 9:20; testemunha ocularLivro escrito após a morte de Xerxes; estilo literário complexo
EsdrasAlguns comentaristas cristãos do século XIXEsdras era escriba e conhecia a PérsiaNenhum vínculo textual; estilo diferente
NeemiasIdemNeemias serviu na corte persaMesma objeção; não há referência no livro
Homens da Grande AssembleiaLiteratura rabínica medievalTradição antiga e respeitávelFalta de evidências históricas concretas
Judeu anônimo (séc. V–IV a.C.)Críticos bíblicos modernosConhecimento persa, datação linguística, ausência de nomeNão identifica o autor; segue a regra do anonimato de muitos livros bíblicos

Esclarecimentos

O livro de Ester foi escrito por uma mulher?

Não há qualquer evidência histórica ou textual que aponte para uma autoria feminina. Embora Ester seja a protagonista e o livro leve seu nome, o texto não indica que ela o tenha escrito. Em Ester 9:29, uma nota diz que Ester confirmou por escrito as cartas de Purim, mas isso se refere a um documento oficial, não à composição do livro como um todo.

Por que Mardoqueu é considerado o autor principal?

A tradição se baseia principalmente em Ester 9:20, onde está escrito: “E Mardoqueu escreveu estas coisas”. Além disso, Mardoqueu é apresentado como um personagem central e testemunha dos eventos. O Talmude Babilônico atribuiu a ele a autoria, e essa opinião foi adotada por muitos rabinos e teólogos ao longo dos séculos.

O que a tradição judaica diz sobre o autor do Livro de Ester?

A tradição judaica mais antiga, registrada no Talmude, afirma que o livro foi escrito por Mardoqueu. No entanto, algumas fontes rabínicas medievais também mencionam os Homens da Grande Assembleia como compiladores. Atualmente, muitos estudiosos judeus reconhecem que o autor é desconhecido, mas valorizam a tradição que liga o livro a Mardoqueu.

O livro de Ester é histórico ou é uma alegoria?

A maioria dos historiadores e arqueólogos considera o livro uma obra histórica, embora com elementos literários e teológicos. A descrição do palácio de Susã, dos costumes persas e dos cargos oficiais coincide com o que se sabe sobre o império aquemênida. No entanto, alguns detalhes (como a execução de Hamã e o decreto de extermínio reverso) podem ter sido realçados para fins narrativos. A questão da historicidade não interfere diretamente no debate sobre a autoria.

Qual a data provável da composição do livro?

Com base em evidências linguísticas e históricas, a maioria dos estudiosos data o livro entre 460 e 400 a.C. Os eventos narrados ocorreram por volta de 480 a.C.; o texto parece ter sido escrito algumas décadas depois, quando o Império Persa ainda estava no auge, mas após a morte de Xerxes. A presença de palavras persas e a ausência de influências gregas indicam uma data anterior a 330 a.C.

Por que o nome de Deus não aparece no Livro de Ester?

Essa é uma das características mais notáveis do livro. Várias explicações foram propostas: (1) o autor queria evitar a pronúncia do nome divino em um contexto de diáspora, onde judeus poderiam ser perseguidos; (2) o livro foi escrito para ser lido em festas seculares, como Purim, sem conotação explicitamente religiosa; (3) a teologia do autor enfatizava a providência velada de Deus, agindo nos bastidores da história. Qualquer que seja o motivo, a ausência não diminui a importância teológica do texto.

O livro de Ester é aceito por todas as denominações cristãs?

Sim, o Livro de Ester é canônico para a maioria das igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante), embora com algumas variações. A Igreja Católica e as igrejas ortodoxas incluem acréscimos gregos ao texto hebraico (como orações de Ester e Mardoqueu), que não fazem parte do cânon judaico e protestante. A questão da autoria, contudo, é tratada de forma semelhante: reconhece-se que o autor é desconhecido.

Ultimas Palavras

A pergunta “quem escreveu o livro de Ester?” não tem uma resposta definitiva e unânime. O próprio texto silencia sobre a identidade de seu autor, e as tentativas de atribuí-lo a Mardoqueu, Esdras, Neemias ou aos Homens da Grande Assembleia baseiam-se mais em tradições e inferências do que em provas diretas. O consenso acadêmico moderno, ancorado em estudos linguísticos e históricos, aponta para um judeu anônimo que viveu na Pérsia no final do século V a.C., com profundo conhecimento da vida cortesã e das instituições persas.

Independentemente da autoria, o Livro de Ester permanece como uma joia literária e teológica. Sua mensagem de providência divina atuando na história, mesmo nos momentos de maior perigo, e sua celebração da resistência e identidade judaica continuam a inspirar leitores de todas as tradições. A falta de um nome não diminui seu valor: ao contrário, convida-nos a focar no conteúdo e na mensagem, em vez de nos prender a uma assinatura.

Embasamento e Leituras

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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