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Gramática Publicado em Por Stéfano Barcellos

Primeira Pessoa do Plural: Uso e Exemplos Simples

Primeira Pessoa do Plural: Uso e Exemplos Simples
Certificado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Primeiros Passos

A primeira pessoa do plural é uma das categorias gramaticais mais fundamentais da língua portuguesa. Ela designa o grupo que inclui o falante e, ao menos, mais uma pessoa. O pronome pessoal que a representa na norma-padrão é “nós”, e a concordância verbal ocorre por meio da desinência “-mos” — como em , e . No entanto, o português brasileiro contemporâneo tem revelado uma rica variação no modo como os falantes expressam essa pessoa gramatical, especialmente com a crescente substituição de “nós” por “a gente”. Embora “a gente” seja originalmente uma forma de terceira pessoa do singular (concordância verbal em , , ), ela é amplamente utilizada com valor semântico de primeira pessoa do plural, gerando fenômenos de concordância variável que interessam à sociolinguística, ao ensino de língua e à descrição gramatical.

Este artigo aborda a primeira pessoa do plural de maneira completa: sua definição clássica, os padrões de uso observados em pesquisas recentes, os fatores sociais que influenciam a escolha entre “nós” e “a gente”, exemplos práticos, uma tabela comparativa, perguntas frequentes e referências a estudos acadêmicos confiáveis. O objetivo é oferecer um recurso informativo e otimizado para quem deseja compreender tanto a regra normativa quanto a realidade variável do português falado e escrito no Brasil.

Por Dentro do Assunto

A forma canônica e suas regras

Na gramática normativa, a primeira pessoa do plural é representada pelo pronome reto “nós” e pela forma oblíqua “nos” (objeto direto ou indireto) e “conosco” (comitativo). Os verbos conjugados nessa pessoa recebem a terminação -mos em todos os tempos e modos, exceto no imperativo afirmativo (que deriva do presente do subjuntivo, também com -mos). Exemplos:

  • Presente do indicativo:
  • Pretérito perfeito: (cuidado com a homografia com o presente)
  • Pretérito imperfeito:
  • Futuro do presente:
  • Presente do subjuntivo:
  • Imperativo afirmativo:
Essa forma é ensinada como padrão em materiais didáticos, exames formais e na mídia escrita de maior prestígio. Contudo, a língua viva frequentemente desvia desse modelo, e é aí que entra a variação.

A variação “nós” versus “a gente”

Nas últimas décadas, diversos estudos sociolinguísticos têm documentado a alternância entre “nós” e “a gente” na expressão da primeira pessoa do plural. Embora “a gente” seja etimologicamente um substantivo coletivo (do latim ), o uso coloquial o consolidou como pronome pessoal indeclinável. A concordância verbal mais frequente com “a gente” é a de terceira pessoa do singular (, ), mas surgem também formas consideradas não padrão, como (concordância híbrida) ou (concordância reduzida).

Um estudo recente da Universidade Federal do Ceará (UFC) registrou 3.463 ocorrências do fenômeno e, após refinamento da amostra, analisou 3.277 dados. Os resultados mostram que “a gente” com concordância padrão (verbo na 3ª pessoa do singular) predominou em 79,55% dos casos, enquanto “nós” com concordância padrão (verbo na 1ª pessoa do plural) apareceu em 20,45% das ocorrências. Isso indica que, na fala espontânea de brasileiros, “a gente” é hoje a forma majoritária.

O mesmo estudo aponta que jovens de 15 a 25 anos, pessoas com 9 a 11 anos de escolaridade e mulheres favorecem o uso de “a gente” sem marca explícita de plural verbal em 85,11% da amostra desse grupo. Esses dados reforçam a ideia de que a variação não é aleatória, mas condicionada por fatores sociais como idade, escolaridade e gênero.

Fatores linguísticos e sociais envolvidos

Outra pesquisa, publicada na Revista Leitura da UFAL, analisou padrões de concordância na primeira pessoa do plural comparando formas como , , e . O estudo relaciona a expressão da primeira pessoa do plural a corpora do português e a investigações comparativas entre variedades africanas, brasileiras e europeias, mostrando que o fenômeno é generalizado na lusofonia, embora com distribuições distintas.

Entre os fatores linguísticos que influenciam a escolha estão:

  • Proximidade do verbo com o pronome: em contextos em que o pronome está distante, a concordância padrão tende a ser menos frequente.
  • Tipo de verbo: verbos auxiliares e modais podem favorecer formas não padrão.
  • Estrutura da sentença: orações subordinadas ou interrogativas podem alterar a taxa de concordância.
Já os fatores sociais incluem:
  • Idade: jovens usam mais “a gente” do que idosos.
  • Escolaridade: pessoas com escolaridade média (9-11 anos) apresentam maior uso de “a gente” sem concordância explícita; pessoas com nível superior tendem a alternar mais com “nós” em situações monitoradas.
  • Sexo/gênero: mulheres são mais inovadoras no uso de “a gente” com concordância singular, segundo alguns estudos.
  • Região: há diferenças regionais; por exemplo, em Londrina (PR), um artigo da Signum / UEL documenta o uso da primeira pessoa do plural na fala local, indicando que o tema segue sendo relevante na sociolinguística do português brasileiro.

Implicações para o ensino de língua

A coexistência de “nós” e “a gente” coloca desafios para educadores. Por um lado, a norma culta exige o uso de “nós” e a concordância verbal em “-mos” em textos formais e avaliações. Por outro, ignorar a realidade variável pode levar os alunos a sentir que sua fala é “errada” ou “inferior”. A abordagem mais produtiva é reconhecer a variação como parte da competência comunicativa, ensinando tanto a regra padrão quanto os contextos em que cada forma é adequada.

Além disso, é importante destacar que “a gente” é perfeitamente aceitável em comunicação oral cotidiana, em mensagens informais (WhatsApp, redes sociais) e em gêneros textuais como crônicas, diálogos literários e letras de música. Já em artigos científicos, redações de vestibular e documentos oficiais, o uso de “nós” ainda é predominante e esperado.

Uma lista de exemplos práticos

Abaixo, uma lista com exemplos que ilustram o uso da primeira pessoa do plural em diferentes contextos, mostrando a variação entre “nós” e “a gente” e as respectivas concordâncias:

  1. Contexto formal escrito
(Concordância padrão com “nós”.)
  1. Contexto informal falado
(Concordância padrão com “a gente” – verbo na 3ª pessoa do singular.)
  1. Variação não padrão (hibridismo)
(Uso de “a gente” com verbo na 1ª pessoa do plural; forma estigmatizada, mas documentada.)
  1. Variação não padrão com “nós”
(Uso de “nós” com verbo na 3ª pessoa do singular; forma ainda mais rara e restrita a falas muito informais.)
  1. Contraste em um mesmo texto
(Alternância controlada pelo grau de formalidade.)
  1. Uso do pronome oblíquo
(O “nos” é a forma oblíqua, invariável; não há variação com “a gente” nesse caso.)
  1. Imperativo
(Forma imperativa; “vamos” é a 1ª pessoa do plural do verbo “ir”, substituindo a forma imperativa “ide” – raríssima.)
  1. Locuções prepositivas
– (formal) – (informal, substituindo “conosco” por “com a gente”)

Uma tabela comparativa entre “nós” e “a gente”

A tabela abaixo sintetiza as principais diferenças entre as duas formas de expressar a primeira pessoa do plural, considerando aspectos gramaticais, sociais e de uso.

Aspecto“Nós”“A gente”
Classe gramaticalPronome pessoal retoLocução pronominal (originalmente substantivo)
Concordância verbal padrãoVerbo na 1ª pessoa do plural (terminação -mos)Verbo na 3ª pessoa do singular
Exemplo padrão
Formas não padrão possíveis (raro) (documentado)
Registro predominanteFormal, escrito, monitoradoInformal, oral, coloquial
Frequência em fala espontânea (Brasil)Minoria (cerca de 20% dos casos)Maioria (cerca de 80% dos casos)
Perfil sociolinguístico que favoreceIdosos, alta escolaridade, situações formaisJovens (15-25 anos), escolaridade média, mulheres
Uso em pronomes oblíquos“nos” (objeto) e “conosco” (comitativo)Não há forma oblíqua direta; usa-se “a gente” como sujeito e “com a gente” como comitativo
Aceitação em textos acadêmicosAlta (obrigatória na norma culta)Baixa (geralmente desaconselhada)
Origem históricaDo latim Do latim (coletivo)
A tabela evidencia que a escolha entre as duas formas não é apenas uma questão de “certo” ou “errado”, mas de adequação ao contexto comunicativo e às normas sociais em jogo.

Respostas Rapidas

Qual é a primeira pessoa do plural em português?

A primeira pessoa do plural é a categoria gramatical que se refere ao falante e a pelo menos uma outra pessoa. O pronome pessoal correspondente na norma-padrão é “nós”, e os verbos conjugados nessa pessoa recebem a desinência “-mos” (ex.: nós falamos, nós comemos, nós partimos). Também são usadas as formas oblíquas “nos” e “conosco”.

“A gente” é considerado primeira pessoa do plural?

Sim, embora “a gente” seja gramaticalmente um substantivo coletivo de terceira pessoa do singular, ele é amplamente empregado na comunicação cotidiana com valor semântico de primeira pessoa do plural. A maioria dos falantes brasileiros utiliza “a gente” para se referir a si mesmo e a outros, o que o torna um pronome pessoal funcional equivalente a “nós”.

Qual a diferença entre “nós” e “a gente”?

A diferença principal está na concordância verbal: “nós” exige verbo na 1ª pessoa do plural (terminação -mos), enquanto “a gente” exige verbo na 3ª pessoa do singular (terminação -a, -e, -iu, etc.). Além disso, “nós” é mais comum em contextos formais e escritos; “a gente” predomina na fala informal e em situações menos monitoradas.

Por que “a gente” é usado com verbo no singular?

Historicamente, “gente” era um substantivo coletivo (como “o povo”, “a multidão”), e a concordância seguia a regra de terceira pessoa do singular. Com o tempo, “a gente” se cristalizou como uma expressão pronominal, mas manteve a concordância original. É um caso de gramaticalização em que a forma perde o significado lexical de “pessoas” e ganha função pronominal, sem alterar a morfologia verbal herdada.

O uso de “a gente” está certo ou errado?

Na perspectiva da linguística moderna, nenhuma forma é intrinsecamente “errada”. “A gente” é adequada em contextos informais e na oralidade, sendo a forma majoritária no português brasileiro falado. Em contextos formais (redações, exames, artigos científicos), a norma culta recomenda o uso de “nós” com concordância padrão. O importante é que o falante ou escritor saiba adequar a escolha ao gênero textual e à expectativa do interlocutor.

Como a escolaridade influencia o uso de “nós” versus “a gente”?

Estudos mostram que pessoas com maior escolaridade tendem a usar “nós” com mais frequência em situações monitoradas (como entrevistas formais ou produção escrita), mas na fala espontânea o uso de “a gente” também é alto. Já pessoas com escolaridade média (9 a 11 anos) são as que mais favorecem “a gente” sem concordância explícita de plural. Isso indica que a escolarização não elimina a variação, apenas a condiciona a contextos específicos.

O fenômeno é exclusivo do português brasileiro?

Não. Em todas as variedades do português — europeia, africana e asiática — há alternância entre formas pronominais de primeira pessoa do plural. No português europeu, por exemplo, o uso de “a gente” também existe, mas com distribuição e frequência diferentes. Estudos comparativos revelam que cada variedade desenvolveu padrões próprios de concordância e preferência lexical, influenciados por fatores históricos e sociais.

“A gente cantamos” é correto? Por que aparece?

“A gente cantamos” é uma forma híbrida que combina o pronome “a gente” com a desinência de primeira pessoa do plural “-mos”. Embora não seja aceita pela norma padrão, ela ocorre na fala de alguns brasileiros, especialmente quando o falante tenta “corrigir” a concordância para se aproximar do modelo de “nós”, ou em contextos de ênfase. Os estudos sociolinguísticos mostram que essa forma é minoritária e geralmente estigmatizada.

Para Encerrar

A primeira pessoa do plural é um campo fértil para compreender como a língua portuguesa se transforma e se adapta às necessidades comunicativas dos falantes. A forma canônica “nós” com concordância em “-mos” permanece como referência da norma culta, sendo indispensável em contextos formais, na escrita acadêmica e em avaliações. No entanto, dados recentes de pesquisas realizadas em universidades brasileiras demonstram que “a gente” já é a forma predominante na fala cotidiana, especialmente entre jovens, mulheres e pessoas com escolaridade média. Essa variação não é um sinal de “decadência” da língua, mas um reflexo natural da dinâmica sociolinguística, em que fatores como idade, gênero, escolaridade e região moldam os usos.

Compreender essa realidade é essencial para professores, estudantes, comunicadores e qualquer pessoa interessada em usar a língua de forma consciente e eficaz. Saber quando empregar “nós” ou “a gente”, e dominar as respectivas concordâncias, amplia a competência comunicativa e permite transitar com segurança entre os diferentes registros — do diálogo informal mais descontraído ao texto formal mais monitorado. Mais do que decorar regras, trata-se de reconhecer a pluralidade inerente à primeira pessoa do plural.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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