Primeiros Passos
A língua portuguesa, rica em matizes e regras, apresenta fenômenos que tanto podem enriquecer a comunicação quanto comprometê-la. Um desses fenômenos é o pleonasmo, termo que designa a repetição de uma ideia já expressa em uma frase. Seja na oralidade cotidiana, na literatura ou na redação formal, o pleonasmo está presente em diversos contextos, gerando dúvidas sobre sua correção e adequação. Afinal, trata-se de um erro de linguagem ou de um recurso estilístico válido? A resposta, como veremos, depende da intenção comunicativa e do contexto em que a repetição ocorre. Compreender a fundo o pleonasmo é essencial para quem deseja escrever com clareza, evitar redundâncias desnecessárias e, ao mesmo tempo, reconhecer quando o uso intencional pode conferir ênfase e expressividade ao texto. Este artigo aborda a definição, os tipos, os exemplos clássicos, as situações de uso correto e incorreto, além de responder dúvidas frequentes sobre o tema.
Aprofundando a Analise
O que é pleonasmo?
O termo "pleonasmo" vem do grego _pleonasmos_, que significa "excesso" ou "superabundância". Na gramática e na estilística, designa a repetição de um termo ou de uma noção que já estava implícita ou explicitamente presente na frase. Em outras palavras, ocorre pleonasmo quando o falante ou escritor expressa duas vezes a mesma informação, criando uma redundância. Essa repetição pode ser lexical, quando se emprega palavras de sentido equivalente, ou gramatical, quando partículas como pronomes ou preposições são reiteradas.
Historicamente, o pleonasmo sempre foi tratado sob duas óticas: uma negativa, que o classifica como vício de linguagem, e outra positiva, que o considera uma figura de linguagem legítima. Essa dualidade é fundamental para a compreensão do fenômeno. Enquanto o pleonasmo vicioso é evitado em contextos formais por ser desnecessário e por vezes até cômico, o pleonasmo literário é valorizado por sua capacidade de enfatizar ideias, criar ritmo ou emocionar.
Pleonasmo vicioso: o erro a evitar
O pleonasmo vicioso, também chamado de redundância indesejada, é aquele em que a repetição não acrescenta nenhuma informação nova e compromete a concisão do discurso. Exemplos clássicos como "subir para cima", "descer para baixo" e "entrar para dentro" são amplamente citados em materiais didáticos de português, como os encontrados no Mundo Educação. Nessas construções, os verbos "subir", "descer" e "entrar" já carregam em seu sentido as noções de "para cima", "para baixo" e "para dentro", respectivamente; portanto, os adjuntos adverbiais tornam-se supérfluos.
Outros exemplos comuns incluem:
- "ver com os olhos" (o ato de ver já pressupõe o uso dos olhos)
- "ouvir com os ouvidos" (ouvir implica a audição)
- "repito novamente" (repetir já indica uma nova ocorrência)
- "certeza absoluta" (certeza é um estado absoluto; o adjetivo é redundante)
- "monopólio exclusivo" (monopólio é por definição exclusivo)
- "elo de ligação" (elo é, por si só, uma ligação)
Pleonasmo literário: um recurso expressivo
Por outro lado, o pleonasmo pode ser utilizado intencionalmente como figura de linguagem, com o objetivo de reforçar uma ideia, dar ênfase ou criar efeitos sonoros e rítmicos. Esse uso é comum na literatura, na música e na oratória. Um exemplo célebre está no trecho de "Mar Português", de Fernando Pessoa: "Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!" O poeta utiliza "mar salgado" para enfatizar a característica salgada do mar, que já é intrínseca, mas a repetição amplia a carga emocional e poética da passagem.
Na música popular brasileira, também encontramos pleonasmos intencionais. A canção "Aquarela", de Toquinho e Vinícius de Moraes, repete "numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo" – o sol é naturalmente amarelo, mas a adjetivação reforça a imagem da criança que colore o desenho. Outro exemplo é o verso "E eu que não me canso de cantar o meu amor" – o verbo "cantar" já expressa a ação, mas a repetição do objeto ("meu amor") intensifica a declaração.
Nesses contextos, o pleonasmo deixa de ser um vício e passa a ser um recurso estilístico que enriquece a mensagem. A diferença crucial está na intencionalidade e no efeito desejado: se a repetição é supérflua e empobrece o texto, é viciosa; se acrescenta significado ou beleza, é literária.
Tipos de pleonasmo
A classificação do pleonasmo pode ser feita sob diferentes perspectivas. As mais comuns na literatura gramatical, conforme apontam pesquisas educacionais recentes, são:
- Pleonasmo lexical: repetição de palavras com o mesmo sentido ou radical, como "benefício gratuitamente oferecido" (gratuito já significa oferecido sem custo) ou "há anos atrás" (o verbo "há" já indica tempo passado).
- Pleonasmo gramatical: repetição de elementos morfossintáticos, como preposições ou pronomes. Por exemplo: "A mim me parece" – o pronome "me" repete a ideia de "a mim". Embora essa construção seja aceita na gramática normativa em certos contextos, é considerada pleonástica.
- Pleonasmo vicioso: redundância considerada erro linguístico, desnecessária à comunicação. Inclui a maioria dos exemplos citados anteriormente.
Como usar corretamente o pleonasmo na escrita
Dominar o uso do pleonasmo exige sensibilidade linguística. Em textos formais, recomenda-se:
- Evitar expressões cristalizadas que são claramente redundantes, como "sair para fora", "hemorragia de sangue", "gritar bem alto" (já que gritar implica volume alto).
- Substituir construções pleonásticas por versões mais concisas: em vez de "subir para cima", use apenas "subir"; em vez de "adiar para depois", use "adiar".
- Em contextos literários ou criativos, avaliar se a repetição contribui para o efeito desejado (ênfase, ritmo, emoção). Se sim, pode ser empregada conscientemente; se não, deve ser eliminada.
Lista: exemplos de pleonasmo vicioso mais comuns no português
A seguir, uma lista com expressões frequentemente apontadas como pleonasmos viciosos. Evitá-las contribui para a clareza e economia da linguagem:
- Subir para cima – o verbo "subir" já implica movimento ascendente.
- Descer para baixo – o verbo "descer" já implica movimento descendente.
- Entrar para dentro – o verbo "entrar" já indica direção interior.
- Sair para fora – o verbo "sair" já expressa movimento para o exterior.
- Ver com os olhos – o ato de ver só é possível pelos olhos.
- Ouvir com os ouvidos – ouvir é a função dos ouvidos.
- Falar em alto e bom som – "falar" já pressupõe emissão de som; a expressão é pleonástica.
- Repetir novamente – repetir significa "dizer de novo".
- Indicar com o dedo – indicar já envolve apontar.
- Hemorragia de sangue – hemorragia é a saída de sangue.
- Encarar de frente – encarar é olhar de frente.
- Adiar para depois – adiar já significa transferir para um momento posterior.
- Surpresa inesperada – surpresa por definição é algo inesperado.
Tabela comparativa: pleonasmo vicioso vs. pleonasmo literário
| Aspecto | Pleonasmo vicioso | Pleonasmo literário |
|---|---|---|
| Intenção | Nenhuma; ocorre por descuido ou desconhecimento | Intencional; visa ênfase, ritmo ou emoção |
| Efeito no texto | Empobrece, torna o texto prolixo e pode causar ruído | Enriquece, confere expressividade e força poética |
| Aceitabilidade | Deve ser evitado em contextos formais e informais | Aceito e valorizado na literatura, música e retórica |
| Exemplo | "Subir para cima" | "Ó mar salgado" (Fernando Pessoa) |
| Reação esperada | Crítica ou correção por parte do leitor/ouvinte | Apreciação estética; a repetição é vista como recurso |
| Contexto de uso | Evitado em redações, provas, documentos oficiais | Comum em poemas, letras de música, discursos emocionais |
Principais Duvidas
O que é pleonasmo?
Pleonasmo é a repetição de uma ideia já expressa na frase, seja por meio de palavras ou partículas gramaticais. Pode ser um vício de linguagem (quando desnecessário) ou uma figura de linguagem (quando usado intencionalmente para reforçar a mensagem). Em ambos os casos, ocorre redundância de sentido.
Qual a diferença entre pleonasmo e redundância?
A redundância é um termo mais amplo que designa qualquer excesso ou repetição de informações. O pleonasmo é um tipo específico de redundância, que ocorre no âmbito da expressão verbal. Toda repetição pleonástica é redundante, mas nem toda redundância é necessariamente um pleonasmo vicioso – por exemplo, em sistemas de comunicação técnica, a redundância pode ser proposital para garantir a compreensão.
Pleonasmo é sempre errado?
Não. O pleonasmo literário ou enfático é aceito e até valorizado como recurso estilístico. O erro ocorre quando a repetição é involuntária e não acrescenta nada ao texto, ou seja, quando se trata de um pleonasmo vicioso. Portanto, a avaliação depende do contexto e da intenção comunicativa.
Como identificar um pleonasmo vicioso?
Para identificar um pleonasmo vicioso, pergunte-se: a informação repetida já está contida no significado de outra palavra ou estrutura da frase? Se a retirada da expressão pleonástica não altera o sentido, provavelmente é um vício. Por exemplo, em "subir para cima", o "para cima" é desnecessário porque "subir" já indica esse movimento. Já em "ver com os olhos", a redundância é evidente, pois a visão depende dos olhos.
Pleonasmo pode ser usado em redações formais?
Em redações formais, o pleonasmo vicioso deve ser rigorosamente evitado, pois compromete a concisão e a clareza. Já o pleonasmo literário, se empregado com intenção estilística e dentro de contextos adequados (como em uma citação literária ou em um discurso de efeito), pode ser utilizado com parcimônia. Em dissertações, relatórios técnicos e artigos acadêmicos, recomenda-se primar pela objetividade.
Quais são os pleonasmos mais comuns no português?
Os mais frequentes são aqueles ligados a verbos de movimento: "subir para cima", "descer para baixo", "entrar para dentro", "sair para fora". Também são comuns "ver com os olhos", "ouvir com os ouvidos", "repetir novamente", "gritar bem alto", "hemorragia de sangue" e "adiar para depois". Muitos deles aparecem na fala cotidiana e passam despercebidos, mas devem ser corrigidos em textos escritos formais.
O pleonasmo é considerado figura de linguagem?
Sim, o pleonasmo intencional é classificado como figura de linguagem, mais especificamente como figura de pensamento ou de repetição. Diferencia-se do pleonasmo vicioso justamente por sua função expressiva. Autores renomados, como Machado de Assis e Fernando Pessoa, utilizaram pleonasmos literários para dar ênfase ou criar imagens poéticas. Em outros contextos, não deixava de ser uma figura, mas sem a conotação negativa.
Reflexoes Finais
O pleonasmo, longe de ser um simples erro de linguagem, revela-se um fenômeno multifacetado que exige domínio e sensibilidade do falante. Saber diferenciar o uso vicioso (a ser evitado) do uso literário (aplicado com intenção) é uma competência essencial para quem deseja se comunicar de forma eficiente e expressiva. O estudo do pleonasmo nos lembra que a língua não é uma estrutura rígida, mas um sistema vivo, no qual as mesmas construções podem ser condenadas ou celebradas conforme o contexto.
Na prática, recomenda-se que escritores e estudantes observem seus próprios textos em busca de repetições desnecessárias. Com ferramentas de revisão e conhecimento das expressões cristalizadas, é possível eliminar pleonasmos viciosos e, quando necessário, empregar o pleonasmo como recurso estilístico de forma consciente. A leitura de bons autores – literários e jornalísticos – também contribui para o desenvolvimento desse senso crítico.
Por fim, a discussão sobre o pleonasmo reforça a importância de estudar a gramática não como um conjunto de regras que limitam a criatividade, mas como um guia que capacita o falante a escolher as melhores formas de expressão. Compreender os fenômenos da língua é o primeiro passo para usá-la com maestria.
