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Biologia Publicado em Por Stéfano Barcellos

Pangolim é Perigoso? Riscos e Verdades Sobre o Animal

Pangolim é Perigoso? Riscos e Verdades Sobre o Animal
Atestado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Antes de Tudo

O pangolim é um animal que desperta curiosidade e, ao mesmo tempo, controvérsia. Com seu corpo coberto por escamas sobrepostas, hábito noturno e língua comprida para capturar formigas e cupins, esse mamífero solitário habita florestas e savanas da África e da Ásia. Nos últimos anos, entretanto, o pangolim ganhou notoriedade por razões preocupantes: é apontado como o mamífero mais traficado do mundo e, em 2020, foi mencionado como possível hospedeiro intermediário do coronavírus SARS-CoV-2. Diante dessas informações, muitas pessoas se perguntam: afinal, pangolim é perigoso para humanos?

A resposta, baseada em evidências científicas e relatos de organizações de conservação, é mais sutil do que um simples sim ou não. O pangolim, por natureza, não é agressivo nem representa ameaça direta a seres humanos. Seus mecanismos de defesa são passivos: enrolar-se em uma bola compacta, protegido por escamas cortantes, e liberar um odor desagradável. No entanto, o "perigo" associado a esse animal está em fatores indiretos que envolvem o tráfico ilegal, a destruição de seu habitat e o risco de transmissão de doenças zoonóticas em contextos de comércio ilegal de fauna silvestre. Este artigo explora os múltiplos aspectos dessa questão, desmistificando o perigo real e destacando as verdadeiras ameaças que cercam o pangolim.

Explorando o Tema

O Pangolim e a Ausência de Ameaça Direta

Para compreender se o pangolim é perigoso, é essencial examinar seu comportamento e biologia. O pangolim é um animal extremamente tímido e evasivo. Durante o dia, permanece em tocas ou ocos de árvores, saindo apenas à noite para se alimentar de formigas e cupins, utilizando suas garras fortes para rasgar cupinzeiros e formigueiros. Apesar da aparência de um pequeno dragão ou de um tatu com escamas, ele não possui dentes — engole os insetos inteiros, contando com moela muscular e pequenas pedras no estômago para triturar o alimento.

Quando ameaçado, o pangolim não ataca. Sua principal defesa é enrolar-se como uma bola, expondo as bordas afiadas das escamas, que podem causar cortes superficiais se alguém tentar segurá-lo. Essa postura é eficaz contra predadores naturais, como leões, leopardos e hienas, mas é inútil diante de caçadores humanos, que simplesmente o recolhem do chão. Não há registros confiáveis de ataques a humanos provocados por pangolins. Portanto, podemos afirmar que, no sentido mais comum, o pangolim não é perigoso para as pessoas — o risco é mínimo e circunscrito a acidentes durante o manejo inadequado.

O Verdadeiro Perigo: Tráfico e Extinção

O perigo real que envolve o pangolim é conservacionista. Todas as oito espécies existentes estão ameaçadas de extinção em algum grau, conforme a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Quatro espécies são classificadas como "vulneráveis", duas como "em perigo" e duas como "criticamente ameaçadas". A principal causa dessa situação é a caça ilegal para o comércio de carne e, sobretudo, de escamas.

O pangolim é descrito por organizações como a National Geographic Brasil como o mamífero mais traficado do mundo. Estima-se que cerca de 1 milhão de pangolins foram caçados entre 2000 e 2013, e o ritmo não diminuiu. Apreensões constantes revelam carregamentos de toneladas de escamas, como as 11,9 toneladas confiscadas na China em 2017, o que equivale a cerca de 30 mil animais mortos. A carne é consumida como iguaria em alguns países asiáticos e africanos, enquanto as escamas são usadas na medicina tradicional chinesa, apesar de não terem qualquer efeito terapêutico comprovado. Conforme destaca a World Animal Protection Brasil, as escamas são compostas de queratina, o mesmo material das unhas e cabelos humanos — e, portanto, não curam doenças.

O tráfico global de pangolins é alimentado pela demanda na Ásia e, em menor escala, pelo consumo local na África. A Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) incluiu todas as espécies no Apêndice I, que proíbe o comércio internacional, mas a fiscalização é insuficiente e o crime organizado continua lucrando com a venda ilegal.

Relação com Zoonoses: O Caso do Coronavírus

Em fevereiro de 2020, durante os primeiros meses da pandemia de COVID-19, cientistas chineses publicaram um estudo indicando que o pangolim poderia ter atuado como hospedeiro intermediário do SARS-CoV-2. A notícia gerou grande alarme e associou o animal a uma ameaça sanitária global. É importante, no entanto, contextualizar essa informação.

O estudo, amplamente divulgado por veículos como o G1, identificou sequências genéticas do coronavírus em pangolins apreendidos do tráfico. Isso levantou a hipótese de que o vírus teria passado de morcegos (reservatório natural) para pangolins e depois para humanos, possivelmente em mercados de animais silvestres. Entretanto, essa hipótese não foi confirmada de forma definitiva. Estudos posteriores indicaram que o pangolim não é o hospedeiro intermediário principal, e que o vírus pode ter se originado diretamente de morcegos ou de outros animais ainda não identificados.

O fato relevante para a discussão sobre perigo é que o pangolim em si não transmite doenças de forma regular. O risco sanitário surge quando há contato direto com animais silvestres mantidos em condições insalubres, como em feiras de vida silvestre. O tráfico e o consumo de animais silvestres aumentam a probabilidade de saltos zoonóticos — não por culpa do pangolim, mas pela interferência humana nos ecossistemas. Portanto, o "perigo" sanitário é, na verdade, um alerta sobre as consequências do comércio ilegal de fauna, e não uma característica inerente ao animal.

O Papel da Conservação

Diante do cenário de tráfico e ameaça de extinção, diversas organizações globais atuam para proteger o pangolim. A CITES, a IUCN e ONGs como a World Animal Protection trabalham em frentes que incluem fiscalização, campanhas de conscientização e apoio a comunidades locais para reduzir a caça. A caça ilegal é alimentada pela pobreza e pela falta de alternativas econômicas em algumas regiões da África e da Ásia. Projetos de conservação comunitária oferecem treinamento para ex-caçadores se tornarem guardas florestais ou guias de ecoturismo, transformando a proteção do pangolim em uma fonte de renda sustentável.

Além disso, esforços de educação sobre a ineficácia das escamas na medicina tradicional e os riscos de doenças associados ao consumo de animais silvestres têm sido intensificados. A situação do pangolim serve como um alerta global sobre a necessidade de preservar a biodiversidade e combater o tráfico de espécies, que é uma das atividades criminosas mais lucrativas do mundo, ao lado do tráfico de drogas e de armas.

Uma Lista: Riscos Associados ao Pangolim

Para sintetizar os principais pontos, listamos abaixo os riscos que envolvem o pangolim, separando aqueles que são diretos para humanos dos que são indiretos ou ecológicos:

  • Risco de cortes superficiais: Se manuseado de forma inadequada, o pangolim enrolado pode causar ferimentos com as bordas das escamas. Não há veneno ou agressividade intencional.
  • Risco zoonótico potencial: O contato com pangolins traficados, em condições de baixa higiene, pode expor humanos a patógenos desconhecidos. Não há evidência de transmissão natural de doenças de pangolins selvagens para humanos.
  • Risco para o próprio animal: Todas as espécies estão ameaçadas de extinção; o pangolim corre perigo real de desaparecer da natureza nas próximas décadas se o tráfico não for contido.
  • Risco econômico e criminal: O tráfico de pangolins alimenta redes criminosas e desvia recursos de fiscalização, impactando a segurança e o desenvolvimento de regiões inteiras.
  • Risco ecológico: Como predador de formigas e cupins, o pangolim ajuda a controlar pragas e a arejar o solo. Sua extinção poderia desequilibrar ecossistemas tropicais.
  • Risco para a saúde pública global: O comércio ilegal de fauna silvestre, incluindo pangolins, é um fator de risco para o surgimento de novas pandemias, conforme alertam epidemiologistas.

Uma Tabela Comparativa: Espécies de Pangolim e Status de Conservação

A tabela abaixo apresenta as oito espécies de pangolim reconhecidas, sua distribuição geográfica e o status de conservação segundo a IUCN (dados atualizados até 2025). Os nomes comuns podem variar.

Espécie (nome científico)Nome comumDistribuiçãoStatus IUCN
_Manis crassicaudata_Pangolim-indianoSubcontinente indiano e Sri LankaEm perigo
_Manis pentadactyla_Pangolim-chinêsChina, Nepal, Butão, Bangladesh, norte da ÍndiaCriticamente ameaçado
_Manis javanica_Pangolim-malaioSudeste Asiático: Tailândia, Malásia, IndonésiaCriticamente ameaçado
_Manis culionensis_Pangolim-de-PalawanFilipinas (ilha de Palawan)Em perigo
_Phataginus tricuspis_Pangolim-arborícolaÁfrica Central e OcidentalVulnerável
_Phataginus tetradactyla_Pangolim-de-cauda-longaÁfrica Central e OcidentalVulnerável
_Smutsia gigantea_Pangolim-giganteÁfrica Central e OcidentalEm perigo
_Smutsia temminckii_Pangolim-do-CaboÁfrica Austral e OrientalVulnerável
Observação: O status "vulnerável" indica risco elevado de extinção na natureza, "em perigo" indica risco muito elevado, e "criticamente ameaçado" indica risco extremamente elevado. Fonte: IUCN Red List.

Perguntas e Respostas

Pangolim ataca humanos?

Não. O pangolim não possui comportamento agressivo natural. Quando se sente ameaçado, ele se enrola e, se for manuseado, pode causar pequenos cortes com as escamas afiadas, mas nunca ataca ativamente. Não há registros de ataques a humanos provocados por pangolins em liberdade.

É verdade que pangolim transmitiu o coronavírus para os humanos?

Não há confirmação científica de que o pangolim tenha sido o hospedeiro intermediário do SARS-CoV-2. Estudos iniciais em 2020 apontaram essa possibilidade, mas pesquisas posteriores indicam que o vírus provavelmente se originou diretamente de morcegos ou de outro animal ainda não identificado. O risco de transmissão ocorre apenas em situações de contato próximo com animais traficados, não com pangolins selvagens em seu habitat.

As escamas de pangolim têm valor medicinal?

Não. As escamas são compostas de queratina, o mesmo material das unhas e cabelos humanos. Estudos científicos não encontraram nenhum efeito terapêutico. O uso na medicina tradicional chinesa é baseado em crenças antigas e não possui respaldo da ciência moderna.

O que devo fazer se encontrar um pangolim na natureza?

Na maioria das regiões, encontrar um pangolim é raro. Se isso ocorrer, mantenha distância, não tente tocar ou capturar o animal. Observe-o de longe e, se parecer ferido ou estiver em área urbana, entre em contato com o órgão ambiental local (como o Ibama no Brasil ou o IAT no Paraná) ou com um centro de triagem de fauna silvestre. Nunca tente domesticá-lo ou vendê-lo, pois isso é crime.

O comércio de pangolim é permitido em algum país?

Não. Todas as oito espécies de pangolim estão listadas no Apêndice I da CITES, o que proíbe o comércio internacional. O comércio doméstico também é proibido na maioria dos países de ocorrência. Apesar disso, a caça e o comércio ilegal continuam ocorrendo em larga escala.

Como posso ajudar a proteger o pangolim?

Você pode contribuir de várias formas: não compre produtos derivados de pangolim (escamas, carne, couro); denuncie qualquer suspeita de tráfico às autoridades ambientais; apoie organizações de conservação, como a World Animal Protection ou a IUCN; compartilhe informações corretas sobre a ineficácia medicinal das escamas; e reduza o consumo de animais silvestres em geral, evitando mercados que vendem fauna exótica.

Pangolim é um parente do tatu?

Não. Embora ambos tenham corpo coberto por estruturas rígidas (escamas no pangolim, placas ósseas no tatu), eles pertencem a ordens diferentes. O pangolim pertence à ordem Pholidota, enquanto o tatu é da ordem Cingulata (que inclui tatus e preguiças). A semelhança é um caso de evolução convergente.

O pangolim corre risco de extinção? Qual espécie está mais ameaçada?

Sim, todas as oito espécies estão ameaçadas. As duas espécies criticamente ameaçadas são o pangolim-chinês () e o pangolim-malaio (), que sofrem forte pressão de caça na Ásia. As populações caíram drasticamente nas últimas décadas.

O Que Fica

O pangolim não é perigoso para os seres humanos no senso comum de um animal agressivo ou predador. Seu comportamento dócil e sua defesa passiva o tornam inofensivo quando deixado em seu habitat natural. O verdadeiro perigo está na ação humana: o tráfico desenfreado, a caça ilegal por escamas e carne, e a destruição de seu habitat colocam todas as espécies de pangolim na rota da extinção. Além disso, o comércio ilegal de fauna silvestre, que inclui os pangolins, representa um risco sanitário para a saúde global, como evidenciado durante a pandemia de COVID-19.

A história do pangolim é um alerta para a necessidade de uma relação mais responsável com a biodiversidade. Proteger esse mamífero único significa combater o tráfico de animais, promover a educação sobre os mitos da medicina tradicional e preservar os ecossistemas onde ele vive. Cada um de nós pode contribuir para que o pangolim não desapareça — não por ser um perigo, mas por ser uma espécie vulnerável que merece nossa proteção.

Ao desmistificar a ideia de que o pangolim é um animal perigoso, esperamos que mais pessoas se interessem por sua conservação e se engajem na luta contra o tráfico de fauna silvestre, uma das maiores ameaças à vida selvagem em todo o mundo.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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