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História Publicado em Por Stéfano Barcellos

O que são comunas e como funcionam?

O que são comunas e como funcionam?
Auditado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Antes de Tudo

O termo "comuna" carrega significados distintos conforme o contexto geográfico, histórico e político em que é empregado. Em linhas gerais, pode designar desde a menor unidade administrativa local de um Estado, como ocorre na França e em Angola, até estruturas de autogestão comunitária que buscam organizar a produção e a vida social de forma participativa, como é emblemático na Venezuela contemporânea. Essa polissemia exige uma análise cuidadosa, porque cada acepção reflete diferentes modelos de organização territorial, formas de participação cidadã e relações entre sociedade e governo.

Nas últimas décadas, o debate sobre as comunas ganhou relevância internacional. Na América Latina, o caso venezuelano tem sido estudado como uma experiência de democracia direta e economia solidária. Em África, Angola reestruturou seu sistema de administração local com base em comunas orgânicas e não orgânicas, influenciando a gestão de recursos e a representação política. Na Europa, a França mantém a tradição das , células básicas do poder municipal que coexistem com estruturas intermunicipais. Até mesmo o Brasil, embora não utilize oficialmente o termo "comuna", passou a adotar a denominação "Favelas e Comunidades Urbanas" no lugar de "aglomerados subnormais", em um movimento de reconhecimento da realidade socioespacial desses territórios.

Este artigo tem como objetivo esclarecer o que são as comunas nos diferentes contextos, explicar seu funcionamento e apresentar dados recentes que permitam compreender seu papel atual. Para tanto, serão exploradas as definições, os números oficiais, as estruturas organizativas e as transformações recentes, com base em fontes governamentais e da imprensa especializada.

Analise Completa

As comunas como unidades administrativas: França e Angola

Na França, a commune é a mais antiga e a menor circunscrição administrativa, com raízes que remontam ao período medieval. Atualmente, o país conta com mais de 30.000 comunas, número que varia conforme fusões e criações. Cada comuna possui um prefeito () e um conselho municipal eleitos diretamente pelos cidadãos, sendo responsável por serviços locais como educação infantil, urbanismo, estado civil e parte da gestão de resíduos. Apesar da autonomia formal, as comunas francesas estão integradas a estruturas intermunicipais () que coordenam políticas públicas em escalas maiores. Essa organização é essencial para compreender a capilaridade do Estado francês e a participação cidadã no nível mais próximo do cidadão.

Em Angola, a Constituição de 2010 estabeleceu as comunas como unidades administrativas subordinadas aos municípios. Dados oficiais indicam que o país possui atualmente 378 comunas [1]. Recentemente, a província da Lunda Sul passou por uma reorganização que definiu quatro comunas — duas orgânicas e duas não orgânicas. A distinção é relevante: comunas orgânicas são aquelas criadas por lei e que dispõem de administradores nomeados pelo governo provincial, enquanto as não orgânicas funcionam como extensões administrativas sem personalidade jurídica plena. Esse modelo, ainda em consolidação, reflete a tentativa de descentralizar a gestão pública e aproximar os serviços da população rural e periurbana. A definição entre orgânicas e não orgânicas impacta diretamente na alocação de recursos e na prestação de contas, como destacou o governo da Lunda Sul em comunicado oficial [1].

As comunas autogestionárias da Venezuela

O caso mais emblemático de comunas como estruturas comunitárias de autogestão é o da Venezuela, onde o governo impulsionou a criação de comunas a partir dos conselhos comunais a partir de 2006, com a Lei Orgânica das Comunas (2010). Dados do Ministério do Poder Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais indicam 3.567 comunas registradas no país, além de quase 48 mil conselhos comunais e cerca de 3.000 comunas formadas segundo fontes atualizadas [2]. As comunas venezuelanas são entidades territoriais que reúnem vários conselhos comunais vizinhos, com o objetivo de planejar e executar projetos produtivos, culturais, educacionais e de infraestrutura de forma coletiva e autogestionária.

Cada comuna possui uma Assembleia Cidadã (máxima instância de decisão), um Conselho Executivo e unidades de produção socialista. O financiamento vem tanto de recursos estatais quanto da comercialização de bens e serviços produzidos localmente. Uma inovação recente foi o lançamento do portal "Hecho en Comuna", em parceria com o Ministério, que visa ampliar o alcance da produção comunal, digitalizar certificações e licenças, e conectar as comunas a mercados nacionais [2]. Apesar dos desafios econômicos e políticos enfrentados pelo país, as comunas venezuelanas representam uma tentativa concreta de construir poder popular a partir da base, com forte ênfase na participação direta e na propriedade coletiva dos meios de produção.

A mudança terminológica no Brasil

Embora o Brasil não adote formalmente a expressão "comuna" para suas subdivisões administrativas, um movimento recente do IBGE aproximou o debate. Em 2022, o instituto substituiu a nomenclatura "aglomerados subnormais" por "Favelas e Comunidades Urbanas", reconhecendo a inadequação do termo anterior e a necessidade de retratar com mais precisão a realidade desses territórios [4]. No Censo 2022, foram contabilizadas 2.280.063 pessoas morando em 487.729 domicílios nessas áreas. Embora a denominação "comunidade urbana" não seja sinônimo de comuna no sentido autogestionário ou administrativo, a mudança sinaliza uma valorização do termo "comunidade" e um esforço para desestigmatizar territórios historicamente marginalizados. Essa atualização terminológica também facilita a formulação de políticas públicas mais adequadas e a participação social no planejamento urbano.

Uma lista: Principais características das comunas nos diferentes contextos

A seguir, uma lista que sintetiza as características centrais das comunas conforme cada país analisado:

  • França: Menor divisão administrativa; mais de 30.000 unidades; prefeito e conselho municipal eleitos; forte integração intermunicipal; responsável por serviços básicos locais.
  • Angola: Subdivisão do município; 378 comunas no total; divisão entre orgânicas (com administrador nomeado) e não orgânicas (sem personalidade jurídica); em processo de descentralização.
  • Venezuela: Estrutura de autogestão comunitária; 3.567 comunas registradas; reúne conselhos comunais; assembleia cidadã como órgão máximo; produção voltada para a economia socialista; acesso a portal digital "Hecho en Comuna".
  • Brasil (Favelas e Comunidades Urbanas): Termo revisado pelo IBGE em 2022; 2,28 milhões de pessoas em 487,7 mil domicílios; foco em reconhecimento territorial e desestigmatização; não possui estrutura administrativa formal, mas sim de organização social.

Uma tabela comparativa de dados relevantes

Para facilitar a compreensão das diferenças quantitativas e qualitativas, apresenta-se a tabela abaixo:

PaísTipo de ComunaNúmero de Comunas (dados recentes)População aproximada representadaÓrgão máximo de decisãoFonte
FrançaAdministrativa local> 30.000Variável (de algumas centenas a milhões)Prefeito e Conselho Municipal[8]
AngolaSubdivisão municipal378Dados não consolidados por comunaAdministrador nomeado (orgânicas)[1]
VenezuelaAutogestionária comunitária3.567 registradasCerca de 7 milhões (estimativa indireta)Assembleia Cidadã[2]
Brasil (Favelas e Comunidades Urbanas)Categoria censitária487.729 domicílios2.280.063 pessoasNão se aplica (associações locais)[4]
Observação: Os dados de população para as comunas venezuelanas e angolanas são aproximados, uma vez que as fontes oficiais nem sempre fornecem números populacionais desagregados.

O Que Todo Mundo Quer Saber

O que é uma comuna, em termos gerais?

Em sentido amplo, comuna é uma unidade de organização social, política ou administrativa que pode variar desde a menor divisão territorial de um Estado (como na França) até uma comunidade autogerida (como na Venezuela). O termo deriva do latim (comum) e está associado a ideias de coletividade e gestão compartilhada de recursos.

Qual a diferença entre comuna e município?

Em muitos países, comuna e município podem ser sinônimos (caso da França), mas em outros há hierarquia: em Angola, a comuna é uma subdivisão do município; na Venezuela, a comuna é uma unidade de base que pode abranger territórios menores que um município e não possui prerrogativas municipais plenas. O município geralmente tem personalidade jurídica e autonomia administrativa completa, enquanto a comuna pode ter autonomia restrita ou poder consultivo.

Como as comunas são organizadas na Venezuela?

Na Venezuela, cada comuna é composta por vários conselhos comunais vizinhos. Sua estrutura inclui uma Assembleia Cidadã (órgão máximo deliberativo), um Conselho Executivo (responsável pela gestão cotidiana) e unidades de produção socialista. As decisões são tomadas por meio de assembleias e votação direta. O financiamento provém do Estado e da venda dos produtos comunais. Em 2023, foi lançado o portal "Hecho en Comuna" para fortalecer a comercialização e a transparência.

Quantas comunas existem na França atualmente?

Segundo dados oficiais atualizados, a França conta com mais de 30.000 comunas (communes). Esse número é elevado devido à história de fragmentação territorial. Embora o governo incentive fusões para ganho de eficiência, muitas comunas pequenas resistem para preservar sua identidade local.

O que mudou no Brasil com a nova denominação "Favelas e Comunidades Urbanas"?

Em 2022, o IBGE substituiu o termo "aglomerados subnormais" por "Favelas e Comunidades Urbanas" para retratar de forma mais precisa e menos estigmatizante esses territórios. A mudança não altera a metodologia de coleta, mas reconhece a importância social e urbana dessas áreas. O Censo 2022 registrou 2,28 milhões de pessoas vivendo em 487,7 mil domicílios nesses locais, o que subsidia políticas públicas habitacionais e de infraestrutura.

Qual a relevância das comunas para a autogestão e a democracia participativa?

As comunas autogestionárias, como as venezuelanas, representam um modelo de democracia direta em que os cidadãos decidem coletivamente sobre produção, serviços e projetos locais. Elas permitem experimentar formas de propriedade coletiva e controle social, além de promoverem a participação política de comunidades historicamente excluídas. No entanto, enfrentam desafios como dependência de recursos estatais, burocracia e tensões com governos locais.

As comunas existem em outros países além dos mencionados?

Sim. O conceito de comuna como unidade administrativa está presente em diversos países de língua francesa (Bélgica, Suíça, Canadá, países africanos como Senegal e Costa do Marfim). Na China, as "comunas populares" foram adotadas entre 1958 e 1980 como unidades coletivas de produção rural. Em contextos europeus, comunas históricas medievais tiveram papel importante na formação das cidades. Atualmente, movimentos sociais em vários países inspiram-se nas comunas venezuelanas para propor alternativas ao capitalismo.

Ultimas Palavras

O conceito de comuna revela-se multifacetado e dinâmico. Seja como unidade administrativa local na França e em Angola, seja como estrutura de autogestão comunitária na Venezuela, as comunas representam escalas de organização que aproximam o cidadão das decisões que afetam seu cotidiano. Os dados recentes demonstram a vitalidade dessas instituições: as 30.000 comunas francesas, as 378 angolanas e as mais de 3.500 venezuelanas são testemunhos de que a gestão territorial participativa, em diferentes graus, continua sendo uma aspiração e uma prática em várias partes do mundo.

A experiência venezuelana, com seu portal digital e a busca por autonomia econômica, oferece lições sobre os desafios e potencialidades da autogestão. A reorganização angolana, por sua vez, evidencia a complexidade de se implementar uma descentralização efetiva em contextos de recursos limitados. Já a mudança terminológica no Brasil sinaliza um passo importante no reconhecimento de comunidades urbanas historicamente invisibilizadas.

Compreender as comunas é, portanto, entender como diferentes sociedades buscam equilibrar eficiência administrativa, participação cidadã e justiça territorial. As informações aqui apresentadas, atualizadas com base em fontes oficiais e recentes, pretendem contribuir para esse conhecimento, encorajando novas pesquisas e debates sobre modelos alternativos de organização local.

Fontes Consultadas

Governo da Lunda Sul — esclarecimento sobre as quatro comunas da província da Lunda Sul

Agência IBGE de Notícias — "Favelas e Comunidades Urbanas": IBGE muda denominação dos aglomerados subnormais

AbrilAbril — "Hecho en Comuna": plataforma para ampliar o alcance da produção comunal na Venezuela

Wikipedia — Comunas da Venezuela

Portal oficial do Ministério do Poder Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais (Venezuela)

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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