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Artes Publicado em Por Stéfano Barcellos

Memorial Descritivo: O Que É e Como Fazer Corretamente

Memorial Descritivo: O Que É e Como Fazer Corretamente
Verificado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Contextualizando o Tema

No universo da construção civil brasileira, a palavra escrita carrega um peso que vai muito além do simples registro de intenções. Entre contratos, projetos e cronogramas, um documento se destaca como a espinha dorsal técnica de qualquer empreendimento: o memorial descritivo. Trata-se de uma peça técnica obrigatória, que detalha materiais, sistemas construtivos, etapas de execução e normas aplicáveis a uma obra, reforma ou projeto público. No Brasil, sua exigência está amparada por legislação específica, como a Lei 4.591/64 (condomínios e incorporações), e por normas técnicas como a ABNT NBR 15.575/2013 (desempenho de edificações).

Muitos engenheiros, arquitetos e incorporadores ainda tratam o memorial descritivo como um mero anexo burocrático. No entanto, a prática demonstra que esse documento é a principal ferramenta de comunicação entre projetistas, equipe de execução, fiscalização e até mesmo futuros compradores ou usuários. Um memorial descritivo bem elaborado reduz riscos de desvio de escopo, evita retrabalhos, assegura conformidade com normas técnicas e, em último caso, serve como prova documental em disputas judiciais.

Este artigo tem como objetivo esclarecer o que é um memorial descritivo, apresentar sua estrutura essencial, diferenciar seus tipos (obra nova, reforma e projeto público) e fornecer um guia prático para sua elaboração. Ao final, o leitor encontrará perguntas frequentes respondidas e referências confiáveis para aprofundamento. Se você atua na área de engenharia, arquitetura ou construção, dominar a confecção desse documento é um diferencial competitivo indispensável.

Entenda em Detalhes

O que é memorial descritivo?

O memorial descritivo é um documento técnico que descreve, de forma organizada e detalhada, todas as características de uma obra ou intervenção. Ele vai além do projeto gráfico (plantas, cortes, elevações) ao explicar textualmente os materiais a serem empregados, os sistemas construtivos adotados, as etapas de execução e as normas técnicas que devem ser seguidas. Em outras palavras, enquanto o projeto diz “como” a obra deve ser desenhada, o memorial descritivo responde “com o quê” e “de que maneira” será construída.

No Brasil, o memorial descritivo é peça obrigatória em diversas situações: incorporações imobiliárias (exigido pela Lei 4.591/64), licitações públicas (como parte do projeto básico, conforme a Lei 8.666/93 e a Nova Lei de Licitações 14.133/2021), financiamentos habitacionais (Caixa Econômica Federal, por exemplo) e registros de imóveis em cartório. Sua ausência ou inconsistência pode inviabilizar o licenciamento da obra, atrasar cronogramas ou gerar passivos judiciais.

Conteúdo típico de um memorial descritivo

Embora o conteúdo varie conforme o tipo e o porte do empreendimento, a maioria dos memoriais descritivos segue uma estrutura padrão. As fontes de referência, como Sienge – Memorial descritivo de obra: o que é, tipos e como elaborar e Miltec Engenharia – Memorial descritivo: o que é e como fazer?, apontam os seguintes tópicos essenciais:

  1. Identificação do empreendimento: nome da obra, endereço, área do terreno, área construída, número de pavimentos, finalidade (residencial, comercial, industrial, institucional).
  1. Dados do proprietário e responsável técnico: nome, CPF/CNPJ, endereço, registro profissional (CREA/CAU) do engenheiro ou arquiteto responsável.
  1. Descrição das etapas construtivas: fundações, estrutura, alvenaria, cobertura, revestimentos internos e externos, instalações elétricas e hidrossanitárias, esquadrias, pintura, impermeabilizações, etc.
  1. Especificação de materiais: para cada etapa, indicar tipo, marca referência, dimensões, características técnicas (resistência, classe, cor, textura). Exemplo: “Argamassa para assentamento de alvenaria traço 1:2:8 (cimento, cal e areia)”.
  1. Sistemas construtivos: descrição dos métodos empregados (alvenaria estrutural, concreto armado moldado in loco, steel frame, wood frame, etc.).
  1. Normas técnicas aplicáveis: citação das normas ABNT pertinentes a cada serviço (NBR 6118 para estruturas de concreto, NBR 15575 para desempenho, NBR 5410 para instalações elétricas, etc.).
  1. Cronograma físico-financeiro: indicação de prazos e etapas, muitas vezes apresentado em anexo.
  1. Considerações finais e observações: cuidados especiais, responsabilidades, garantias, condições de aceitação de serviços e procedimentos de fiscalização.
É importante destacar que o memorial descritivo deve ser elaborado antes do início da obra e integrado ao desenvolvimento dos projetos executivos. A prática de “adaptá-lo” durante a execução, sem registro formal de alterações, pode gerar inconsistências graves.

Tipos de memorial descritivo

Nem todo memorial descritivo é igual. A depender do contexto, o documento ganha contornos específicos:

  • Memorial descritivo de obra nova: mais completo, abrange desde a fundação até o acabamento final. Utilizado em incorporações, loteamentos e construções de grande porte.
  • Memorial descritivo de reforma: focado nas intervenções (demolições, substituição de revestimentos, alterações de leiaute). Exige detalhamento cuidadoso de etapas, responsabilidades e cuidados especiais, como proteção de áreas não reformadas e descarte de entulho. Conteúdos como Vobi – Aprenda como fazer um memorial descritivo de reforma ressaltam a necessidade de sequência lógica e cronograma realista.
  • Memorial descritivo de projeto público: segue as diretrizes do órgão contratante (ex.: FNDE, Caixa, prefeituras). Deve incluir sistemática construtiva, critérios de medição e pagamento, e estar alinhado ao projeto básico. Documentos como o Portal Gov.br / FNDE – Memorial Descritivo (PDF) exemplificam esse formato.
  • Memorial descritivo para incorporação imobiliária: exigido pela Lei 4.591/64, deve conter as características da unidade autônoma (área, acabamentos, fração ideal) e do condomínio (áreas comuns, equipamentos). Serve de base para o contrato de compra e venda.

Importância do memorial descritivo na prática

A elaboração criteriosa do memorial descritivo traz benefícios concretos:

  • Redução de conflitos: ao padronizar as especificações, evita-se que o pedreiro escolha um material diferente do previsto sem autorização. A equipe de fiscalização tem parâmetros claros para aprovar ou rejeitar serviços.
  • Transparência para compradores: no caso de imóveis na planta, o memorial descritivo é o documento que garante ao adquirente que o apartamento será entregue conforme prometido (piso cerâmico tal, bancada de granito tal, etc.).
  • Subsídio para orçamento e compras: as especificações detalhadas permitem cotação precisa de materiais e serviços, evitando suprimentos ou desperdícios.
  • Proteção jurídica: se houver desvio de escopo ou vício de construção, o memorial descritivo serve como prova do que foi contratado.
  • Conformidade normativa: a citação das normas técnicas (como a NBR 15575) é fundamental para a obtenção de garantias e selos de qualidade.

Lista: Etapas para elaborar um memorial descritivo

A seguir, uma lista com os passos práticos para criar um memorial descritivo robusto:

  1. Reúna toda a documentação do projeto: plantas, cortes, elevações, projetos complementares (elétrico, hidrossanitário, estrutural, ar condicionado), laudos de solo e memoriais de cálculo.
  1. Defina o escopo e o tipo de memorial: obra nova, reforma, projeto público ou incorporação. Cada um exige ênfases diferentes.
  1. Estruture o sumário: siga a sequência lógica da construção (fundação → estrutura → alvenaria → revestimentos → instalações → acabamentos).
  1. Redija cada tópico com clareza técnica: evite frases vagas como “revestimento de boa qualidade”. Prefira “revestimento cerâmico classe A, PEI 4, formato 60x60 cm, rejunte acrílico cor cinza claro”.
  1. Cite as normas técnicas aplicáveis a cada serviço, com o número da ABNT ou regulamentação específica.
  1. Inclua observações sobre critérios de aceitação: por exemplo, tolerância de nivelamento de piso (3 mm em 2 m), métodos de teste (estanqueidade de esquadrias), garantias.
  1. Revise e valide com a equipe técnica: engenheiro calculista, arquiteto, projetistas de instalações e, se possível, o construtor.
  1. Formate o documento de modo profissional: capa com identificação, índice, numeração de páginas, carimbo com dados do responsável técnico e ART/RRT.
  1. Armazene e distribua formalmente: o memorial deve ser assinado, registrado no CREA/CAU (quando exigido) e entregue a todos os envolvidos na obra.

Tabela comparativa: Memorial descritivo × Projeto executivo

Para evitar confusões comuns, apresentamos uma tabela que diferencia o memorial descritivo do projeto executivo (ou projeto gráfico):

AspectoMemorial DescritivoProjeto Executivo
Formato principalTexto descritivo, podendo conter quadros e listasDesenhos técnicos (plantas, cortes, detalhes) em escala
Função primáriaEspecificar materiais, sistemas e normasDefinir dimensões, geometria e locação
Nível de detalheQualitativo e quantitativo (especificações, traços, marcas)Quantitativo e dimensional (cotas, níveis, cortes)
ResponsabilidadeEngenheiro/arquiteto responsável técnicoProjetistas especializados (estrutural, elétrico, etc.)
Base legalLei 4.591/64, NBR 15575, normas contratuaisNormas ABNT de cada especialidade (NBR 6118, 5410, etc.)
Uso durante a obraGuia para compras, fiscalização e aceitação de serviçosGuia para execução física (marcação, formas, instalações)
Possibilidade de alteraçãoDeve ser alterado formalmente por aditivo contratualPode sofrer revisões parciais (revisão de projeto)
Exemplo típico“Piso em granito cinza andorinha, polido, espessura 2 cm, assentado com argamassa industrializada”Planta baixa mostrando a localização de cada lajota de granito, com cotas e detalhamento de juntas
A tabela evidencia que ambos os documentos são complementares: o memorial descritivo explica a intenção, enquanto o projeto executivo materializa a geometria. Nenhum substitui o outro.

Respostas Rapidas

Abaixo, respondemos às dúvidas mais comuns sobre memorial descritivo. As respostas foram baseadas nas fontes de referência e na prática consolidada do mercado.

O memorial descritivo é obrigatório em toda obra?

Sim, na maioria dos casos. A Lei 4.591/64 torna obrigatório para incorporações imobiliárias. Em obras públicas, o memorial descritivo é parte do projeto básico (Lei 8.666/93 e Lei 14.133/2021). Para financiamentos habitacionais ou registros em cartório, também é exigido. Em obras particulares de menor porte, embora não haja lei federal que obrigue, a recomendação técnica é que sempre se elabore, para garantir transparência e evitar litígios.

Qual a diferença entre memorial descritivo e memorial de cálculo?

O memorial de cálculo é um documento técnico específico das engenharias (estrutural, elétrica, hidrossanitária) que apresenta as hipóteses, fórmulas e resultados dos dimensionamentos. Já o memorial descritivo tem caráter geral, abordando todos os sistemas da obra, sem entrar nos detalhes matemáticos. Em um projeto completo, ambos são necessários: o memorial de cálculo prova a segurança estrutural; o memorial descritivo orienta a execução.

Quem deve elaborar o memorial descritivo?

Deve ser elaborado pelo responsável técnico da obra (engenheiro civil, arquiteto ou engenheiro de produção da construção). Em projetos multidisciplinares, cada especialista contribui com a parte de sua competência, e o coordenador unifica o documento. A assinatura do memorial descritivo, acompanhada da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) ou Registro de Responsabilidade Técnica (RRT), é indispensável para validade legal.

Posso alterar o memorial descritivo durante a obra?

Sim, mas com cautela. Alterações devem ser registradas por meio de aditivo contratual, comunicadas formalmente a todas as partes (proprietário, fiscalização, empreiteiros) e acompanhadas da devida atualização das ART/RRT. Mudanças unilaterais ou informais podem gerar passivo jurídico e perda de garantias. O ideal é manter uma versão controlada do documento (histórico de revisões).

O memorial descritivo substitui o projeto executivo?

Não. Enquanto o memorial descritivo especifica materiais, sistemas e normas, o projeto executivo (plantas, cortes, detalhes) estabelece dimensões e geometria. Ambos são complementares. Uma obra bem documentada possui os dois documentos, e a falta de um deles pode atrasar a execução e gerar não conformidades.

Como incluir normas técnicas no memorial descritivo?

Em cada tópico, deve-se citar a norma ABNT aplicável. Por exemplo: “As instalações elétricas devem atender à NBR 5410 e NBR 14039, com condutores de cobre isolados em PVC, seção mínima de 2,5 mm² para circuitos de tomadas”. A citação das normas é exigida legalmente e ajuda a assegurar a qualidade e a rastreabilidade dos serviços.

O que acontece se o memorial descritivo for inconsistente com o projeto executivo?

Inconsistências geram dúvidas na obra, retrabalhos, atrasos e possíveis disputas judiciais. Exemplo: se o memorial diz “piso em porcelanato 60×60” e a planta indica “piso em cerâmica 45×45”, a equipe de obra pode paralisar até esclarecimento. Para evitar, recomenda-se uma conferência cruzada antes da aprovação final.

O memorial descritivo é necessário para reformas pequenas (troca de piso, pintura)?

Mesmo reformas simples se beneficiam de um memorial descritivo, ainda que resumido. Ele especifica marcas de tinta, tipos de piso, métodos de preparo de superfície, prazos e responsabilidades. Isso evita que o contratante receba um serviço diferente do esperado. Em reformas contratadas por empreitada, o documento é essencial para definir o escopo.

Fechando a Analise

O memorial descritivo é muito mais que uma burocracia: é o documento que transforma a intenção do projeto em realidade construtiva, com linguagem clara, especificações precisas e amparo normativo. No cenário brasileiro, onde a construção civil ainda enfrenta desafios de qualidade e conformidade, investir tempo na elaboração de um memorial descritivo robusto significa reduzir riscos, aumentar a transparência e proteger todas as partes envolvidas.

A elaboração correta exige domínio técnico, atenção aos detalhes e atualização constante frente às normas da ABNT e à legislação. Seja para uma obra nova de grande porte, uma reforma residencial ou um projeto público, o memorial descritivo deve ser tratado com o mesmo rigor que o projeto executivo. Afinal, a letra morta do papel pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento.

Recomendamos que todo profissional da área busque conhecer exemplos práticos (como os disponibilizados pelo FNDE) e consulte fontes atualizadas antes de redigir seu próprio memorial. A prática leva à perfeição, e cada documento bem feito fortalece a credibilidade do responsável técnico.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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