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Literatura Publicado em Por Stéfano Barcellos

Machado de Assis e o Carnaval: vida e obra do escritor

Machado de Assis e o Carnaval: vida e obra do escritor
Auditado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

Quando se pensa em Machado de Assis, a imagem que vem à mente é a do bruxo do Cosme Velho, um homem recluso, de aparência sisuda, que passou boa parte da vida entre livros, redações de jornal e a poltrona da Academia Brasileira de Letras. Dificilmente alguém o imaginaria em meio a confetes, serpentinas e multidões eufóricas durante o Carnaval. No entanto, pesquisas históricas recentes, impulsionadas pela publicação do livro (2025), de C.S. Soares, reacenderam um debate fascinante: teria Machado de Assis sido, de fato, um folião?

A resposta, como quase tudo na vida do autor, é ambivalente. Não se trata de um Machado fantasiado pulando atrás de trios elétricos, mas sim de um jovem que circulou por agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro oitocentista, que escreveu sobre a festa com ironia e agudeza, e que deixou mais de oitenta referências ao Carnaval espalhadas por sua obra. Este artigo propõe uma imersão na relação entre a vida e a obra de Machado de Assis com o Carnaval, explorando desde sua participação em sociedades carnavalescas até o modo como a folia serviu de lente para suas críticas sociais.

Por Dentro do Assunto

A juventude de Machado e as sociedades carnavalescas

O Rio de Janeiro do século XIX vivia um Carnaval em transição. O antigo entrudo — uma brincadeira violenta em que os foliões jogavam água, lama e bexigas de cera nos transeuntes — começava a ser substituído por um Carnaval dito "civilizado", organizado por grandes sociedades que desfilavam em carros alegóricos com temas eruditos. Nesse contexto, o jovem Machado de Assis, ainda na casa dos vinte anos, frequentava o círculo do livreiro e editor Francisco de Paula Brito, um dos epicentros da vida cultural carioca.

Foi nesse ambiente que Machado teria se envolvido com a Sociedade Petalógica e o Congresso das Sumidades Carnavalescas. A primeira era uma agremiação que misturava debates literários, políticos e humorísticos, funcionando como uma espécie de clube irreverente. O Congresso, por sua vez, era uma sociedade carnavalesca que promovia desfiles e festejos. Segundo registros da imprensa da época, esse grupo teria participado de um desfile memorável em 1855, e a presença de Machado nesse evento é mencionada em fontes históricas.

É importante ressaltar que a participação direta de Machado como folião não é um consenso absoluto entre historiadores. No entanto, há evidências textuais significativas. Em uma crônica de 1889, Machado rememora um incêndio que destruiu a sede de uma dessas agremiações e menciona a ajuda recebida dos rivais Fenianos. Essa memória vívida sugere que ele não apenas conhecia o ambiente carnavalesco, mas tinha uma conexão afetiva com ele. Para aprofundar essa discussão, o G1 publicou uma reportagem detalhada sobre o tema, que foi republicada pela Academia Brasileira de Letras.

O Carnaval como tema literário

Se a participação física de Machado no Carnaval pode ser debatida, sua presença literária na festa é inquestionável. Um levantamento citado pela reportagem do G1 encontrou mais de oitenta menções ao Carnaval na obra machadiana, distribuídas entre crônicas, contos, poemas e romances. Esse número revela não um interesse passageiro, mas uma obsessão temática que acompanhou o autor ao longo de sua carreira.

O Carnaval machadiano é multifacetado. Em suas crônicas, especialmente as publicadas na e no , ele frequentemente comenta os preparativos para a festa, os desfiles, os excessos e as consequências. Há um tom de ironia peculiar: Machado observa a elite que tenta "civilizar" o Carnaval, mas que acaba reproduzindo as mesmas hipocrisias do cotidiano. Em contos como "O Alienista" e "A Sereníssima República", o Carnaval aparece como pano de fundo para reflexões sobre loucura, poder e convenções sociais.

O crítico literário John Gledson, estudioso da obra de Machado, já apontava que a festa popular funcionava para o autor como um "termômetro social". Nos dias de folia, as hierarquias se invertem momentaneamente, os pobres se vestem de ricos, os fracos se fazem fortes, e essa suspensão temporária da ordem revela, com clareza cirúrgica, as injustiças estruturais do Brasil imperial.

A visão crítica e irônica de Machado

Diferentemente de outros escritores brasileiros que exaltaram o Carnaval como expressão pura da alma nacional, Machado de Assis adotou uma postura ambivalente. Ele reconhecia a beleza e a energia da festa, mas não se furtava a criticar seus excessos e sua apropriação pelas elites. Em uma crônica de 1883, por exemplo, ele ironiza o "Carnaval civilizado" promovido pelas grandes sociedades, afirmando que ele apenas trocou a lama do entrudo pela hipocrisia das máscaras finas.

Essa ironia é particularmente evidente em textos como "Ano sem carnaval", no qual Machado especula sobre como seria um ano sem a festa. A crônica alterna entre o alívio pelo fim da bagunça e a melancolia pela perda de um momento de liberdade. Essa dualidade é a chave para entender a relação do autor com o Carnaval: ele não era um folião deslumbrado, nem um moralista que condenava a festa. Era um observador atento, que usava a folia como espelho para refletir sobre a sociedade brasileira.

A pesquisa de C.S. Soares, citada no livro , sugere que essa ambivalência tem raízes biográficas. O jovem Machado, mulato e pobre, experimentou na pele as exclusões do Brasil imperial. O Carnaval, para ele, era ao mesmo tempo um espaço de possibilidade — onde as barreiras sociais podiam ser temporariamente quebradas — e um lembrete cruel de que, na segunda-feira de cinzas, tudo voltava ao lugar. Para uma análise mais aprofundada dessa perspectiva, o artigo publicado no SciELO oferece uma visão crítica da obra machadiana.

Relevância contemporânea da discussão

A pergunta "Machado de Assis foi folião?" não é apenas uma curiosidade histórica. Ela nos obriga a repensar a imagem cristalizada do autor como um intelectual alheio às manifestações populares. Mostra que Machado estava profundamente inserido na cultura de seu tempo, frequentando os mesmos espaços que os cordões e as sociedades carnavalescas.

Além disso, essa discussão ilumina a forma como a literatura brasileira do século XIX dialogou com as festas populares. Autores como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo também registraram o Carnaval, mas nenhum com a complexidade crítica de Machado. Ele viu na festa não apenas diversão, mas um sintoma das contradições de uma sociedade escravocrata que tentava se modernizar.

Em 2026, o tema voltou à tona com força, impulsionado por reportagens e debates culturais. O Carnaval, como expressão da cultura popular, continua sendo um campo fértil para pensar identidade, classe e raça no Brasil. E Machado de Assis, com sua ironia e seu olhar desencantado, permanece um guia indispensável para essa reflexão.

Uma lista: Principais obras de Machado de Assis com menções ao Carnaval

A seguir, uma lista de obras em que o Carnaval aparece de forma significativa, seja como cenário, tema central ou pano de fundo para reflexões sociais:

  1. "O Alienista" (1882) – O Carnaval é mencionado como contraste entre a loucura da festa e a pretensa sanidade do Dr. Simão Bacamarte.
  2. "A Sereníssima República" (1882) – Conto que usa a estrutura de uma sociedade carnavalesca para satirizar a política brasileira.
  3. "Ano sem carnaval" (crônica, 1889) – Texto emblemático da ambivalência machadiana em relação à festa.
  4. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) – A festa aparece em passagens que refletem sobre a efemeridade da vida e a hipocrisia social.
  5. "Quincas Borba" (1891) – O Carnaval é usado para ilustrar a decadência moral de personagens da elite.
  6. "Esaú e Jacó" (1904) – A festa serve como pano de fundo para conflitos entre irmãos e visões de mundo opostas.
  7. "Contos Fluminenses" (1870) – Coletânea que inclui narrativas ambientadas em bailes e desfiles carnavalescos.
  8. "Crônicas da Gazeta de Notícias" (décadas de 1880 e 1890) – Diversos textos comentam o Carnaval carioca, suas transformações e hipocrisias.

Uma tabela comparativa: Entrudo versus Carnaval civilizado na visão de Machado

AspectoEntrudo (antigo)Carnaval civilizado (moderno)
PráticaBrincadeiras violentas com água, lama e bexigasDesfiles organizados, carros alegóricos, fantasias luxuosas
ParticipaçãoPopular, de todas as classesDominado pelas elites e grandes sociedades
Visão de MachadoCriticava a violência, mas reconhecia sua autenticidade popularIronizava a hipocrisia e a tentativa de "domar" a festa
Função socialVálvula de escape para tensões sociaisInstrumento de distinção social e controle
Exemplo literárioMenção em crônicas saudosistas do entrudo de sua infânciaSátira em "A Sereníssima República"
Avaliação machadianaAmbivalente: condenava a agressividade, mas admirava a energiaPredominantemente crítica: via como falsificação da alegria popular

FAQ Rapido

Machado de Assis realmente participou de desfiles de Carnaval?

Não há um consenso absoluto entre os historiadores, mas as evidências são fortes. Machado frequentou o círculo de Paula Brito, que incluía a Sociedade Petalógica e o Congresso das Sumidades Carnavalescas. Registros da imprensa indicam que esses grupos participaram de um desfile em 1855, e uma crônica de 1889 mostra que Machado se lembrava vividamente de um incêndio na sede de uma dessas agremiações, o que sugere envolvimento direto.

Quantas vezes o Carnaval aparece na obra de Machado de Assis?

Segundo um levantamento recente citado pelo G1, foram encontradas mais de oitenta referências ao Carnaval na obra machadiana. Essas menções aparecem em crônicas, contos, poemas e romances, abrangendo toda a carreira do autor, dos anos 1860 até o início do século XX.

Qual era a visão de Machado sobre o Carnaval?

Machado tinha uma visão ambivalente e crítica. Ele reconhecia a energia e a beleza da festa, mas ironizava tanto os excessos do entrudo antigo quanto a hipocrisia do "Carnaval civilizado" promovido pelas elites. Para ele, a festa era um espelho das contradições sociais brasileiras, revelando desigualdades e convenções que a ordem cotidiana escondia.

O que era a Sociedade Petalógica e qual sua relação com Machado?

A Sociedade Petalógica era uma agremiação que reunia escritores, jornalistas e políticos no Rio de Janeiro do século XIX. Funcionava como um clube de debates e humor, onde temas literários e políticos eram tratados de forma irreverente. Machado frequentou esse ambiente por meio de Paula Brito, e a sociedade está associada ao Congresso das Sumidades Carnavalescas, que promovia desfiles de Carnaval.

O Carnaval em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" tem algum significado especial?

Sim. Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o Carnaval aparece em passagens que refletem sobre a efemeridade da vida, as máscaras sociais e a hipocrisia das relações. A festa serve como metáfora para a futilidade das convenções humanas, reforçando a visão pessimista e irônica do narrador defunto.

A discussão sobre Machado e o Carnaval é recente?

Não, estudiosos já abordavam o tema há décadas. No entanto, a discussão ganhou novo fôlego em 2025 e 2026 com a publicação do livro "Machado: o filho do inverno", de C.S. Soares, que reuniu evidências históricas e literárias sobre a relação do autor com a festa. Reportagens e debates culturais, inclusive da Academia Brasileira de Letras, ajudaram a popularizar o assunto.

Machado de Assis escreveu alguma obra dedicada exclusivamente ao Carnaval?

Não há uma obra inteiramente dedicada ao Carnaval, mas várias crônicas e contos têm o tema como central ou recorrente. "Ano sem carnaval" e "A Sereníssima República" são exemplos de textos em que a festa ocupa o primeiro plano, funcionando como eixo para reflexões sociais e políticas.

Qual a importância de saber que Machado de Assis teve relação com o Carnaval?

Essa informação ajuda a desconstruir a imagem de Machado como um intelectual isolado e alheio à cultura popular. Mostra que ele estava imerso nas manifestações de seu tempo e que usava a festa como ferramenta crítica para analisar a sociedade brasileira. Além disso, enriquece a leitura de sua obra, permitindo identificar camadas simbólicas que antes passavam despercebidas.

Resumo Final

A pergunta que dá título a este artigo — "Machado de Assis foi folião?" — não admite uma resposta simples. Sim, ele conviveu com sociedades carnavalescas, frequentou desfiles e deixou registros de sua experiência com a festa. Não, ele não era um folião no sentido moderno: não pulava atrás de blocos, não se fantasiava de forma extravagante nem perdia a compostura. Mas a verdade é que Machado foi, acima de tudo, um folião das ideias: usou o Carnaval como matéria-prima para sua literatura, como metáfora para a hipocrisia social e como lente para examinar as contradições de um Brasil que fingia ser moderno enquanto mantinha estruturas arcaicas.

A redescoberta dessa relação, impulsionada por pesquisas recentes e pela obra de C.S. Soares, não é apenas uma curiosidade biográfica. Ela nos convida a reler Machado de Assis com novos olhos, atentos ao modo como ele dialogou com as manifestações populares e como transformou a efemeridade do Carnaval em crítica permanente. Em tempos de debates sobre identidade, cultura popular e desigualdade, revisitar a obra de Machado a partir dessa perspectiva é mais do que um exercício acadêmico: é uma forma de entender o Brasil de ontem e de hoje.

Embasamento e Leituras

  1. G1 — "Machado de Assis foi folião? Entenda a relação da vida e da obra do escritor com o carnaval"
  2. Academia Brasileira de Letras — "ABL na mídia - G1 - Machado de Assis foi folião?"
  3. SciELO — "O danado do Machado"
  4. Grabois — "Carnaval: rebeldia, prazer e inspiração de grandes escritores"
  5. Diário do Estado GO — "Machado de Assis e o Carnaval: Vida e obra do escritor em folia"
Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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