Portal de conteúdo educativo.
Perfil do Autor Correções Política Editorial Privacidade Termos Cookies
Gramática Publicado em Por Stéfano Barcellos

Em que pese: significado, uso e exemplos práticos

Em que pese: significado, uso e exemplos práticos
Chancelado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

A língua portuguesa é rica em expressões que, embora comuns no universo jurídico e acadêmico, geram dúvidas frequentes entre falantes e escreventes. Uma dessas locuções é “em que pese”, amplamente utilizada para introduzir uma ideia de concessão — ou seja, para indicar que algo ocorre apesar de uma circunstância contrária. Seu uso remonta a construções clássicas e permanece vivo em petições, acórdãos, pareceres e artigos formais.

No entanto, a correta aplicação de “em que pese” não é consensual entre gramáticos e manuais de redação oficial. Enquanto algumas fontes defendem a invariabilidade do verbo quando acompanhado da preposição “a”, outras admitem a concordância com o sujeito plural. Este artigo tem por objetivo esclarecer o significado, as regras de uso e as principais controvérsias que envolvem a expressão, oferecendo ao leitor exemplos práticos, uma tabela comparativa e respostas para as dúvidas mais comuns.

Para tanto, baseia-se em materiais institucionais atualizados do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), do Senado Federal e do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), além de colunas especializadas em gramática. Ao final, espera-se que o leitor possa empregar “em que pese” com segurança em seus textos formais.

Aprofundando a Analise

O que significa “em que pese”?

A locução “em que pese” é formada pela preposição “em”, pelo pronome relativo “que” e pelo verbo “pesar” conjugado. Seu sentido primário é concessivo, equivalendo a “apesar de”, “não obstante”, “ainda que” ou “malgrado”. Em outras palavras, expressa uma ideia contrária àquela que se espera, sem, contudo, anulá-la.

Por exemplo, em uma frase como “Em que pesem as críticas, o projeto foi aprovado”, a locução introduz o fato de que as críticas existiam, mas, apesar delas, a aprovação ocorreu. Trata‑se de um recurso estilístico que confere sofisticação ao texto, especialmente em contextos jurídicos e acadêmicos.

A estrutura gramatical e suas variações

A principal dificuldade no emprego de “em que pese” reside na sua flexão verbal e no uso da preposição “a”. Duas construções são mais frequentes:

  1. Em que pese a (com preposição) – usada quando o termo que segue é uma pessoa ou um termo tratado como pessoa. Nesse caso, o verbo “pesar” permanece invariável (sempre no singular). Exemplo: “Em que pese ao juiz, a decisão foi mantida.”
  1. Em que pesem (sem preposição, verbo no plural) – empregada quando o sujeito é uma coisa ou ideia no plural. Exemplo: “Em que pesem os argumentos da defesa, a sentença foi condenatória.”
Vale notar que há divergência entre gramáticos quanto à classificação exata. Alguns defendem que “em que pese” é sempre invariável, independentemente do sujeito; outros, apoiados pelo uso corrente em tribunais e redações oficiais, aceitam a concordância plural. A orientação mais difundida em fontes institucionais, como o TRF3 e o Senado Federal, é a seguinte:
  • Para pessoas: “em que pese a” + pessoa (singular invariável).
  • Para coisas: “em que pesem” + sujeito plural (concordância).

Exemplos práticos de uso correto

A seguir, alguns exemplos extraídos e adaptados das fontes consultadas:

  • Em que pese ao parecer técnico, a obra foi interditada.” (uso com preposição, verbo invariável, referindo‑se a um documento – aqui, o parecer é tratado como coisa, mas a construção com “a” é aceita por muitos.)
  • Em que pesem as contradições expostas, o relatório foi aprovado.” (sujeito plural “as contradições”, sem preposição)
  • Em que pese a testemunha ter faltado, o julgamento prosseguiu.” (pessoa, com preposição, invariável)
A escolha entre as formas depende do tipo de complemento e do registro desejado. Em textos jurídicos, a tendência mais conservadora é usar “em que pese a” para pessoas e “em que pesem” para coisas, mas o uso variável é tão comum que muitas gramáticas descritivas já o registram.

Divergências e controvérsias

A expressão “em que pese” é um tópico vivo de orientação gramatical. Conteúdos recentes, como os publicados por Flávia Rita e pelo Migalhas, apontam que não há um consenso absoluto. Enquanto o manual do Senado Federal recomenda a invariabilidade, o glossário do TRF3 admite a concordância plural. O professor Sérgio Nogueira, em sua coluna, já afirmou que a forma “em que pesem” é mais lógica quando o sujeito está no plural, mas alerta que a outra construção também é corrente.

Na prática, recomenda‑se que o redator observe o contexto e, quando houver dúvida, opte por uma paráfrase mais transparente, como “apesar de”. Isso evita ambiguidades e mantém a clareza do texto.

Lista: Regras práticas para o uso de “em que pese”

  1. Identifique o referente: se o termo que segue é uma pessoa (ou ente personificado), use “em que pese a” + pessoa, mantendo o verbo invariável. Ex.: “Em que pese ao advogado...”
  2. Para coisas/ideias no plural: utilize “em que pesem” sem preposição, fazendo o verbo concordar com o sujeito. Ex.: “Em que pesem as provas...”
  3. Para coisas/ideias no singular: a forma mais comum é “em que pese” + sujeito singular, sem preposição. Ex.: “Em que pese o parecer...”
  4. Evite construções ambíguas: se houver risco de confusão, prefira “apesar de” ou “não obstante”.
  5. Em textos jurídicos, verifique o padrão do tribunal: alguns órgãos têm manuais próprios que orientam a invariabilidade; outros aceitam a flexão.
  6. Lembre‑se do valor concessivo: a expressão sempre introduz uma ideia contrária à oração principal.
  7. Não confunda com “em que pese” + verbo no gerúndio: essa construção é rara e geralmente inadequada; prefira a oração desenvolvida.
  8. Consulte fontes confiáveis: antes de redigir um documento oficial, consulte o manual de redação do seu órgão ou instituição.

Tabela comparativa: “em que pese a” vs. “em que pesem”

A tabela a seguir sintetiza as principais diferenças entre as duas construções, com base nas orientações do TRF3, Senado Federal e TJSC.

CaracterísticaEm que pese a (+ preposição)Em que pesem (sem preposição)
Verbo “pesar”Invariável (sempre singular)Concorda com o sujeito (plural)
Preposição “a”Presente (pode contrair‑se com artigos: “ao”, “aos”)Ausente
Referente típicoPessoa, ente personificadoCoisa, ideia, fato
Exemplo“Em que pese ao réu...”“Em que pesem as alegações...”
Aceitação normativaAmplamente aceita por manuaisAceita por muitos, mas com divergências
Tendência atualRecomendada para pessoasRecomendada para coisas no plural
Fonte principalManual do Senado FederalGlossário do TRF3

Principais Duvidas

“Em que pese” é invariável ou pode concordar?

A resposta depende do referente. Quando a expressão vem seguida de preposição “a” e se refere a pessoas, o verbo fica invariável (sempre “pese”). Quando não há preposição e o sujeito é uma coisa no plural, a concordância é admitida e até preferida por muitos gramáticos. Portanto, ambas as formas são possíveis, desde que observado o contexto.

Qual a diferença entre “em que pese a” e “em que pesem”?

“Em que pese a” é usado com preposição e verbo invariável, geralmente diante de pessoas ou termos personificados. “Em que pesem” é usado sem preposição, com o verbo concordando com o sujeito plural. Exemplo: “Em que pese ao juiz” (pessoa) vs. “Em que pesem os argumentos” (coisa plural).

Posso substituir “em que pese” por “apesar de” sem prejuízo?

Sim, na maioria dos contextos. “Apesar de” é uma locução concessiva mais transparente e evita dúvidas de concordância. Em textos formais, a substituição é segura; em textos jurídicos, entretanto, “em que pese” ainda é muito empregado por tradição.

Por que “em que pese” é tão usado no Direito?

A linguagem jurídica valoriza expressões consagradas pela tradição e pela precisão terminológica. “Em que pese” aparece com frequência em petições, acórdãos e pareceres para introduzir argumentos contrários, mantendo um tom formal e erudito. Além disso, sua estrutura permite indicar concessão sem a necessidade de orações subordinadas longas.

Existe diferença de pronúncia? “Pese” com “e” fechado ou aberto?

Em português brasileiro, o verbo “pesar” no presente do subjuntivo admite ambas as pronúncias (ê aberto ou é fechado), dependendo da região. Não há uma regra que determine qual é a correta para a expressão “em que pese”. O mais importante é manter a grafia e a estrutura sintática adequadas.

“Em que pese” pode ser usado com o verbo no singular e sujeito plural?

Sim, essa construção é bastante encontrada em textos formais, embora seja criticada por gramáticos que defendem a concordância. Muitos manuais de redação oficial a aceitam como variante, mas orientam que, para coisas, a forma mais lógica é “em que pesem”. Em caso de dúvida, opte pela concordância.

Como fica a expressão no plural? “Em que pesem” é sempre plural?

Exato. Quando o sujeito da oração concessiva está no plural (ex.: “as objeções”, “os pareceres”), o verbo “pesar” deve ir para o plural: “pesem”. Já “em que pese a” permanece no singular mesmo que o complemento esteja no plural (ex.: “Em que pese aos interessados” – aqui, “interessados” é plural, mas o verbo não concorda com ele porque a preposição “a” o torna um objeto indireto).

Em que situações devo evitar “em que pese”?

Evite a expressão em textos informais, em comunicações internas simples ou quando a clareza for mais importante que a formalidade. Também é prudente evitá‑la se você não tem segurança quanto à concordância, pois um erro gramatical pode comprometer a credibilidade do texto.

Resumo Final

“Em que pese” é uma locução de grande serventia na redação formal, especialmente no meio jurídico e acadêmico. Seu valor concessivo permite articular argumentos de maneira elegante e precisa. No entanto, a ausência de uma regra única entre gramáticos e manuais exige do redator atenção redobrada.

A orientação mais segura, apoiada por fontes como o TRF3 e o Senado Federal, é: use “em que pese a” (invariável) para pessoas e entes personificados; use “em que pesem” (concordância) para coisas no plural; e, para coisas no singular, a forma “em que pese” sem preposição é a mais frequente. Sempre que houver dúvida, recorra a uma paráfrase com “apesar de” ou consulte o manual de redação da sua instituição.

Dominar o emprego correto dessa expressão não é apenas uma questão de erudição, mas de clareza e precisão comunicativa. Com as regras e os exemplos apresentados, espera‑se que o leitor se sinta mais seguro para utilizar “em que pese” em seus textos e, ao mesmo tempo, compreenda as nuances que fazem do português uma língua tão rica e desafiadora.

Embasamento e Leituras

[1] TRF3 – “Emprego da expressão EM QUE PESE”. Disponível em: https://www.trf3.jus.br/emag/emagconecta/conexaoemag-lingua-portuguesa/emprego-da-expressao-em-que-pese

[2] Senado Federal – “Em que pese a”. Manual de Comunicação. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/manualdecomunicacao/estilos/em-que-pese-a

[3] Flávia Rita – “Em que pese ou em que pesem? Qual a forma correta?”. Disponível em: https://blog.flaviarita.com/em-que-pese-ou-em-que-pesem-qual-a-forma-correta/

[4] TJSC – “Em que pese (a)”. Dicas de Português. Disponível em: https://www.tjsc.jus.br/web/servidor/dicas-de-portugues/-/asset_publisher/0rjJEBzj2Oes/content/em-que-pese-a-

[5] Migalhas – “Em que pese a”. Coluna Gramatigalhas. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/coluna/gramatigalhas/32603/em-que-pese-a

[6] Ciberdúvidas – “A locução «em que pese» com facto como sujeito”. Disponível em: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-locucao-em-que-pese-com-facto-como-sujeito/27844

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

Siga Stéfano nas redes sociais:
X Instagram Facebook TikTok