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Vocabulário Publicado em Por Stéfano Barcellos

Em que pese: significado e uso correto na língua portuguesa

Em que pese: significado e uso correto na língua portuguesa
Certificado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

A expressão “em que pese” é uma das construções do português formal que mais geram dúvidas entre falantes, estudantes e profissionais da escrita. Amplamente empregada em textos jurídicos, administrativos e acadêmicos, ela possui um significado que se aproxima de “apesar de”, “não obstante” ou “ainda que”. No entanto, o seu uso correto exige atenção à regência, à concordância verbal e ao tipo de referente — se pessoa ou coisa — o que nem sempre é intuitivo. Muitos autores de manuais de redação alertam para a complexidade da locução e sugerem, em alguns contextos, a substituição por expressões mais diretas e inequívocas.

O presente artigo tem como objetivo esclarecer o significado de “em que pese”, detalhar as suas duas construções principais — “em que pese a” e “em que pese / em que pesem” —, apresentar exemplos práticos, comparar as variantes em uma tabela, responder às perguntas mais frequentes e oferecer orientações seguras baseadas em fontes normativas e dicionarísticas. Ao final, espera-se que o leitor seja capaz de empregar a locução com segurança e clareza em seus textos.

Aspectos Essenciais

Origem e significado geral

A locução “em que pese” tem origem no verbo “pesar”, que, nesse contexto, não significa “medir o peso” no sentido físico, mas sim “causar pesar”, “incomodar” ou “ser motivo de desgosto”. A expressão “pesar a alguém” significa “causar tristeza ou incômodo a alguém”. Assim, “em que pese” carrega um sentido concessivo: algo acontece não obstante o fato de que isso desagrade ou seja contrário a algo ou alguém.

Na prática moderna, o uso mais comum é exatamente o de uma conjunção concessiva, equivalente a “embora”, “apesar de” ou “não obstante”. Por exemplo: “Em que pese a crise, a empresa manteve os investimentos.” Aqui, o sentido é “apesar da crise, a empresa manteve os investimentos”. Contudo, quando a construção inclui a preposição “a” e se refere explicitamente a uma pessoa, o significado se aproxima de “por mais que desagrade a” ou “não obstante o desagrado de”. Exemplo: “Em que pese ao professor, a prova foi adiada.” Isto é, “apesar de o professor não gostar (ou de ser contrário a isso), a prova foi adiada.”

As duas construções principais

A literatura gramatical e os manuais de redação costumam distinguir dois usos:

  1. “Em que pese a” – usado quando o referente é uma pessoa ou entidade personificada. O verbo “pese” permanece sempre no singular, e a preposição “a” é obrigatória. Pode ocorrer contração com artigos definidos, resultando em “ao”, “aos”, “à”, “às”. Exemplos:
  • “Em que pese aos críticos, o espetáculo foi um sucesso.” (apesar do desagrado dos críticos)
  • “Em que pese à diretora, as mudanças foram implementadas.” (apesar de a diretora ser contra)
  • “Em que pese a mim, você tomou a decisão correta.” (apesar de eu não concordar)
  1. “Em que pese” / “em que pesem” – usado quando o referente é uma coisa, um fato abstrato ou uma situação. Nesse caso, o verbo “pesar” pode flexionar-se para concordar com o sujeito posposto. Se o sujeito estiver no singular, usa-se “pese”; se no plural, “pesem”. Exemplos:
  • “Em que pese a dificuldade financeira, o projeto foi concluído.” (singular: a dificuldade)
  • “Em que pesem as críticas, a empresa manteve a estratégia.” (plural: as críticas)
  • “Em que pesem os argumentos contrários, a decisão foi unânime.”
Alguns gramáticos e manuais, porém, registram que essa distinção não é unânime. No uso cotidiano, especialmente no português jurídico, é comum encontrar “em que pese” invariável mesmo diante de sujeito plural. Fontes como o Manual de Comunicação do Senado Federal recomendam que, em contextos formais, se preserve a flexão quando o sujeito for plural, mas admitem que muitos autores consagrados ignoram essa regra.

Divergências e recomendações práticas

A divergência entre gramáticos é notória. Enquanto alguns defendem que a flexão verbal é obrigatória em qualquer caso (já que “pese” é verbo e deve concordar com o sujeito), outros argumentam que a locução se cristalizou como uma expressão fixa e invariável. O Dicionário Online de Português (Dicio) aponta que “em que pese” é uma locução conjuntiva e que, quando seguida de sujeito no plural, a forma recomendada é “em que pesem”. No entanto, admite que o uso invariável é amplamente aceito, inclusive em textos oficiais.

O site Língua Brasil do Instituto Euclides da Cunha reforça a distinção entre referente pessoa (com “a”) e referente coisa (sem “a” e com flexão), mas alerta que, na prática, muitos escritores confundem as duas construções. A solução mais segura, segundo a maioria das fontes, é:

  • Usar “em que pese a” + pessoa (sempre singular).
  • Usar “em que pese” / “em que pesem” + coisa (flexionando, se possível, para evitar ambiguidade).
  • Em caso de dúvida, substituir por “apesar de”, “embora” ou “não obstante”, que são expressões inequívocas e igualmente formais.

O uso no português jurídico

O ambiente jurídico é o principal reduto da expressão. Juízes, desembargadores e advogados empregam “em que pese” com frequência em sentenças, pareceres e petições. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) publicou um material didático (Conexão EMAG) que esclarece o uso: “A expressão ‘em que pese’ é invariável quando seguida de substantivo abstrato ou oração; quando seguida de referência a pessoa, usa-se a preposição ‘a’ e o verbo permanece no singular.” Esse guia é amplamente consultado por servidores e operadores do Direito.

No entanto, mesmo no meio jurídico há hesitação. Um levantamento informal de acórdãos do STJ mostra que ambas as formas — “em que pese os argumentos” e “em que pesem os argumentos” — aparecem. Por isso, a recomendação dos revisores de texto é que se adote a forma flexionada quando houver sujeito plural, para alinhar-se à norma padrão da concordância verbal, conforme ensina a Flávia Rita em seu blog de gramática.

Lista: 5 dicas para usar “em que pese” sem errar

  1. Identifique o referente: se for pessoa (ou entidade personificada), use “em que pese a” (ex.: “em que pese ao réu”). Se for coisa, fato ou ideia, use “em que pese” / “em que pesem” (ex.: “em que pesem as provas”).
  1. Flexione o verbo quando o referente for coisa e estiver no plural: “em que pesem as críticas” é mais correto que “em que pese as críticas”, embora este último também apareça.
  1. Evite usar “em que pese” com sujeito oculto: a expressão pede um termo posposto explícito para evitar ambiguidade. Escreva “em que pese a dificuldade” e não simplesmente “em que pese” sem complemento.
  1. Em textos não jurídicos, prefira sinônimos mais diretos: “apesar de”, “embora”, “não obstante” são igualmente formais e eliminam o risco de erro de regência.
  1. Consulte sempre um manual de redação oficial: instituições como o Senado Federal, a Câmara dos Deputados e tribunais publicam guias atualizados. O Manual de Comunicação do Senado é uma referência confiável.

Tabela comparativa: “em que pese a” vs. “em que pese/pesem”

Característica“em que pese a”“em que pese” / “em que pesem”
ReferentePessoa (ou entidade personificada)Coisa, fato, ideia, situação
Preposição“a” obrigatória (pode contrair: ao, à, aos, às)Ausente
Flexão do verboSempre singular (“pese”)Flexiona conforme o sujeito: singular “pese”, plural “pesem”
Significado“Por mais que desagrade a” / “não obstante o desagrado de”“Apesar de” / “não obstante”
Exemplo correto“Em que pese ao ministro, a lei foi aprovada.”“Em que pesem as objeções, o contrato foi assinado.”
Exemplo incorreto“Em que pese os ministros, a lei foi aprovada.” (falta preposição)“Em que pese as objeções, o contrato foi assinado.” (falta flexão)

Perguntas Frequentes (FAQ)

Qual é o significado de “em que pese”?

“Em que pese” é uma locução concessiva que significa “apesar de”, “não obstante” ou “ainda que”. Quando seguida da preposição “a” e referindo-se a pessoa, assume o sentido de “por mais que desagrade a” ou “não obstante o desagrado de”.

É correto escrever “em que pese os argumentos” ou “em que pesem os argumentos”?

A forma mais alinhada à norma padrão é “em que pesem os argumentos”, pois o verbo deve concordar com o sujeito plural “argumentos”. Contudo, o uso invariável “em que pese os argumentos” também é encontrado em textos formais e é aceito por muitos gramáticos como expressão cristalizada. Em dúvida, prefira a flexão.

“em que pese a” exige crase?

Não necessariamente. A crase ocorre apenas quando o termo após “a” é feminino e exige artigo definido “a”. Exemplos: “em que pese à professora” (a + a professora = à) e “em que pese ao diretor” (a + o diretor = ao, sem crase). A crase é acidental, não obrigatória na construção.

Posso usar “em que pese” no início de uma frase?

Sim. É comum e correto iniciar orações com “em que pese”. Exemplo: “Em que pese a recessão econômica, as vendas aumentaram.” Nesse caso, a locução funciona como conjunção concessiva, ligando a oração subordinada à principal.

“Em que pese” é uma expressão exclusiva do português jurídico?

Não. Embora seja muito frequente em textos jurídicos, administrativos e acadêmicos, a expressão é própria da língua portuguesa formal em geral. Pode ser usada em artigos de opinião, redações de concursos, documentos oficiais e até na literatura, desde que o registro seja formal.

Qual a diferença entre “em que pese” e “apesar de”?

Ambas têm sentido concessivo equivalente. A principal diferença está na construção sintática: “apesar de” exige um substantivo ou um verbo no infinitivo (ex.: “apesar da crise” / “apesar de haver crise”), enquanto “em que pese” exige que o sujeito seja expresso e o verbo esteja na terceira pessoa do singular ou plural (ex.: “em que pese a crise” / “em que pesem as crises”). Além disso, “em que pese” carrega um matiz de “desagrado” mais forte. Por segurança, muitos manuais sugerem substituir “em que pese” por “apesar de” em textos em que a precisão é crucial.

O Que Fica

A expressão “em que pese” é um recurso estilístico de alto valor na língua portuguesa formal, especialmente em contextos que exigem concessão e matizes de desagrado ou contrariedade. No entanto, seu uso correto demanda conhecimento da regência e da concordância verbal. As duas construções principais — “em que pese a” para pessoas e “em que pese” / “em que pesem” para coisas — são bem documentadas por gramáticas e manuais de redação, mas a prática revela divergências entre autores e instituições.

Para evitar erros, o caminho mais seguro é: identificar o referente, flexionar o verbo quando o sujeito for plural (no caso de coisas) e usar a preposição “a” quando o referente for pessoa. Em caso de dúvida, a substituição por “apesar de”, “embora” ou “não obstante” é sempre uma alternativa elegante e inequívoca. Este artigo procurou oferecer uma visão completa sobre o tema, com exemplos, tabela e respostas às perguntas mais comuns, auxiliando o leitor a empregar “em que pese” com confiança e precisão.

Fontes Consultadas

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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