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Biologia Publicado em Por Stéfano Barcellos

Células da Glia: Funções e Tipos no Sistema Nervoso

Células da Glia: Funções e Tipos no Sistema Nervoso
Certificado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

Visao Geral

Por décadas, o sistema nervoso foi descrito como um palco onde os neurônios eram os únicos protagonistas, enquanto as células ao redor – chamadas de glia – eram relegadas ao papel de meras coadjuvantes, responsáveis apenas por preencher espaços e dar suporte físico. Esse paradigma começou a ser desafiado na segunda metade do século XX e, nas últimas décadas, foi radicalmente transformado. Hoje, a neurociência reconhece que as células da glia são componentes ativos e indispensáveis para o funcionamento normal do cérebro e da medula espinhal. Elas participam da modulação sináptica, da mielinização, da defesa imune, do metabolismo energético dos neurônios, da manutenção da barreira hematoencefálica e do acoplamento neurovascular – ou seja, do ajuste do fluxo sanguíneo à atividade neural.

O termo “glia” vem do grego , que significa “cola”, uma referência à ideia histórica de que essas células apenas colavam as estruturas nervosas. Esse conceito, entretanto, já não se sustenta. A glia não apenas sustenta, mas também comunica-se ativamente com os neurônios, influencia a transmissão de impulsos elétricos e desempenha papéis críticos em processos de plasticidade, desenvolvimento e reparo. Disfunções gliais estão hoje associadas a diversas patologias neurológicas, como esclerose múltipla, doença de Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica e dor crônica. Este artigo explora os tipos celulares que compõem a glia, suas funções principais, as evidências científicas recentes e as implicações para a medicina, oferecendo uma visão abrangente e atualizada sobre esses fascinantes componentes do sistema nervoso.

Por Dentro do Assunto

O que são as células da glia?

As células da glia são células não neuronais que constituem cerca de metade do volume total do sistema nervoso humano. Embora a proporção exata varie conforme a região cerebral e a metodologia de contagem, diversas fontes educacionais indicam que há aproximadamente 10 células gliais para cada neurônio, totalizando cerca de 1 trilhão de células da glia contra aproximadamente 100 bilhões de neurônios Brasil Escola. Essa proporção já demonstra a relevância quantitativa dessas células.

Elas são divididas em dois grandes grupos com base na localização anatômica e na origem embriológica: as células gliais do sistema nervoso central (SNC) – que incluem astrócitos, oligodendrócitos, microglia e células ependimárias – e as do sistema nervoso periférico (SNP) – representadas principalmente pelas células de Schwann e células satélites. Cada tipo desempenha funções especializadas, que detalharemos a seguir.

Tipos de células da glia e suas funções

1. Astrócitos

Os astrócitos são as células gliais mais abundantes no SNC e um dos exemplos mais emblemáticos da mudança de paradigma sobre a glia. Seu nome deriva de sua forma estrelada, com numerosos prolongamentos que se estendem em direção aos neurônios e aos vasos sanguíneos. As funções dos astrócitos são múltiplas e incluem:

  • Suporte metabólico: os astrócitos captam glicose da corrente sanguínea e a convertem em lactato, que é então transferido para os neurônios como fonte de energia. Esse mecanismo, conhecido como lançadeira de lactato, é crucial para a manutenção da atividade neuronal.
  • Modulação sináptica: os prolongamentos astrocitários envolvem as sinapses, formando a chamada “sinapse tripartite”. Nesse modelo, o astrócito não é um mero espectador; ele libera e capta neurotransmissores, como glutamato e GABA, regulando o tônus sináptico e influenciando a plasticidade neural.
  • Manutenção da barreira hematoencefálica (BHE): os pés terminais dos astrócitos revestem os capilares cerebrais e secretam fatores que induzem e mantêm as junções estreitas entre as células endoteliais, garantindo a seletividade da BHE.
  • Controle iônico e do pH: os astrócitos tamponam o excesso de potássio extracelular liberado durante a atividade neuronal e regulam o pH do meio.
  • Resposta a lesões: em caso de dano tecidual, os astrócitos proliferam e formam uma cicatriz glial que isola a área lesionada, evitando a propagação da inflamação – embora essa cicatriz também possa dificultar a regeneração axonal.
Estudos recentes mostram que astrócitos podem liberar seus próprios sinais (gliotransmissores) e participar ativamente de circuitos neurais, influenciando quando e onde neurônios nascem durante o desenvolvimento Correio Braziliense.

2. Oligodendrócitos e células de Schwann

Essas duas classes de células compartilham a função primordial de mielinizar os axônios, o que permite a condução saltatória do potencial de ação e acelera drasticamente a transmissão dos impulsos nervosos. Os oligodendrócitos atuam no SNC, onde um único oligodendrócito pode mielinizar até 50 axônios diferentes. Já as células de Schwann atuam no SNP, e cada uma mieliniza um único segmento de um único axônio.

A mielina é essencial para a integridade funcional dos neurônios. Sua perda ou disfunção está na base de doenças graves, como a esclerose múltipla (no SNC) e as neuropatias periféricas hereditárias (no SNP). Além da mielinização, essas células também fornecem suporte trófico aos axônios, liberando fatores de crescimento que ajudam na manutenção e reparo neural.

3. Microglia

A microglia é considerada o sistema imune inato do SNC. Originam-se de precursores hematopoiéticos que migram para o cérebro durante o desenvolvimento embrionário, e atuam como sentinelas residentes. Em condições fisiológicas, a microglia mantém um estado de vigilância, estendendo seus processos para monitorar o microambiente neural. Quando detecta sinais de dano, infecção ou acúmulo de proteínas anormais, a microglia sofre uma transição fenotípica e executa funções efetoras: fagocita restos celulares, remove sinapses desnecessárias (poda sináptica) e libera citocinas pró ou anti-inflamatórias.

A microglia também está envolvida na plasticidade cerebral durante o desenvolvimento e na remodelação sináptica ao longo da vida. No entanto, sua ativação crônica e desregulada está associada à neuroinflamação que contribui para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Pesquisas com RFI indicam que a microglia pode revolucionar a compreensão do cérebro humano, sendo alvo potencial para novas terapias.

4. Células ependimárias

Revestem os ventrículos cerebrais e o canal central da medula espinhal. São células ciliadas que auxiliam na circulação do líquido cefalorraquidiano (LCR) e participam da formação da barreira entre o LCR e o tecido nervoso. Também possuem propriedades de células-tronco neurais em algumas regiões, podendo gerar novos neurônios e células gliais.

5. Células satélites do SNP

Envolvem os corpos celulares dos neurônios nos gânglios sensitivos, autonômicos e entéricos. Funcionam de modo análogo aos astrócitos, regulando o microambiente iônico e a disponibilidade de nutrientes ao redor dos neurônios, além de participarem da modulação da transmissão sináptica nesses gânglios.

A glia e a dor neuropática

Um campo de investigação que tem crescido rapidamente é o estudo do papel da glia na dor neuropática. Diferentemente da dor aguda, que tem função protetora, a dor neuropática é crônica e frequentemente refratária aos tratamentos convencionais. Evidências experimentais mostram que, após lesão nervosa periférica, a microglia e os astrócitos na medula espinhal se ativam e liberam moléculas pró-inflamatórias (como TNF-alfa, IL-1β e BDNF) que sensibilizam os neurônios da via da dor, amplificando o sinal doloroso. A modulação farmacológica dessas células gliais surge, portanto, como uma estratégia promissora para o controle da dor crônica.

Disfunções gliais e doenças neurodegenerativas

A visão atual da neurociência é de que as células gliais não são apenas vítimas passivas dos processos degenerativos, mas também agentes ativos na progressão das doenças. Na esclerose múltipla, os oligodendrócitos são atacados pelo sistema imune, resultando em desmielinização. Na doença de Alzheimer, a microglia falha em eliminar adequadamente as placas de beta-amiloide, e os astrócitos secretam fatores que exacerbam a neuroinflamação. Na ELA (esclerose lateral amiotrófica), astrócitos mutantes liberam substâncias tóxicas que matam os neurônios motores. Essa compreensão abre caminho para terapias que visam restaurar a função glial normal ou inibir seletivamente as vias deletérias.

Uma lista das principais funções das células da glia

Abaixo, uma lista resumida das funções mais relevantes atribuídas às células da glia, com base em consenso científico atual SciELO:

  • Suporte estrutural e preenchimento dos espaços entre neurônios.
  • Formação e manutenção da bainha de mielina (oligodendrócitos e células de Schwann).
  • Nutrição e suporte metabólico aos neurônios (astrócitos e células satélites).
  • Regulação da composição iônica e do pH do fluido extracelular.
  • Captura e reciclagem de neurotransmissores (ex.: glutamato).
  • Defesa imune e fagocitose (microglia).
  • Modulação da plasticidade sináptica e da neurotransmissão.
  • Participação na formação e manutenção da barreira hematoencefálica.
  • Acoplamento entre atividade neural e fluxo sanguíneo (acoplamento neurovascular).
  • Poda sináptica durante o desenvolvimento e na vida adulta.
  • Resposta a lesões: formação de cicatriz glial e liberação de fatores tróficos ou inflamatórios.
  • Geração de novos neurônios (neurogênese) em nichos específicos (astrócitos e células ependimárias).

Uma tabela comparativa dos tipos de células gliais

Tipo de célula glialLocalizaçãoFunção principalDoenças associadas
AstrócitosSNC (cérebro e medula)Suporte metabólico, modulação sináptica, manutenção da BHEDoença de Alzheimer, ELA, epilepsia, gliomas
OligodendrócitosSNCMielinização de axônios do SNCEsclerose múltipla, leucodistrofias
MicrogliaSNCDefesa imune, fagocitose, poda sinápticaAlzheimer, Parkinson, depressão, autismo (suspeita)
Células ependimáriasSNC (ventrículos e canal medular)Circulação do LCR, reservatório de células-troncoTumores ependimomas
Células de SchwannSNPMielinização de axônios periféricosSíndrome de Guillain-Barré, neuropatias hereditárias (ex.: Charcot-Marie-Tooth)
Células satélitesSNP (gânglios)Suporte iônico e metabólico aos neurônios ganglionaresDor neuropática, mecanismos de sensibilização periférica

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que são células da glia?

São células não neuronais que compõem o sistema nervoso. Antigamente consideradas apenas como suporte, hoje se sabe que desempenham funções essenciais como mielinização, defesa imunológica, modulação sináptica, fornecimento de energia e manutenção da barreira hematoencefálica. Existem diferentes tipos, como astrócitos, oligodendrócitos, microglia, células de Schwann e células ependimárias.

Qual a diferença entre oligodendrócitos e células de Schwann?

Ambos são responsáveis pela produção de mielina, mas os oligodendrócitos atuam exclusivamente no sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) e cada um pode mielinizar múltiplos axônios. Já as células de Schwann atuam no sistema nervoso periférico e cada uma mieliniza um único segmento de um único axônio.

As células da glia participam da comunicação entre neurônios?

Sim. Os astrócitos, por exemplo, formam a chamada sinapse tripartite: seus prolongamentos envolvem as sinapses e respondem à liberação de neurotransmissores, podendo liberar seus próprios sinais (gliotransmissores) que modulam a atividade neuronal. Além disso, a microglia também interage com sinapses durante a poda sináptica.

Quantas células da glia existem no cérebro humano?

Embora os números exatos sejam debatidos, estimativas educacionais frequentemente citam que há cerca de 10 células da glia para cada neurônio, totalizando aproximadamente 1 trilhão de células gliais contra 100 bilhões de neurônios. Essa proporção pode variar entre regiões cerebrais e métodos de contagem.

Células da glia podem originar neurônios?

Sim, em determinados nichos neurogênicos do cérebro adulto, como o giro denteado do hipocampo e a zona subventricular, astrócitos e células ependimárias podem atuar como células-tronco neurais e gerar novos neurônios. Esse processo é chamado de neurogênese adulta.

Qual a relação entre células da glia e doenças neurológicas?

As disfunções gliais estão implicadas em praticamente todas as doenças neurológicas. Na esclerose múltipla, os oligodendrócitos são destruídos. Na doença de Alzheimer, a microglia não elimina adequadamente as placas amiloides e os astrócitos amplificam a inflamação. Na dor neuropática, a ativação glial na medula espinhal contribui para a cronificação da dor. Por isso, as células da glia são alvos terapêuticos promissores.

As células da glia podem se regenerar após uma lesão?

Sim, a glia tem capacidade de proliferação. Após uma lesão, os astrócitos se dividem e formam uma cicatriz glial que isola a área danificada. A microglia também prolifera localmente. Entretanto, a regeneração funcional é limitada, especialmente no sistema nervoso central, devido à inibição do crescimento axonal imposta pela própria cicatriz glial.

Existe fármaco que atue especificamente sobre células da glia?

Muitos fármacos atualmente utilizados têm efeitos indiretos sobre a glia (como alguns anti-inflamatórios que modulam a microglia). Pesquisas em andamento buscam desenvolver agentes que modulem seletivamente astrócitos ou microglia para tratar doenças como Alzheimer, esclerose múltipla e dor crônica, mas ainda há poucos medicamentos aprovados com esse alvo específico.

Consideracoes Finais

As células da glia passaram de meras “células de cola” a protagonistas essenciais da neurociência moderna. Elas não só sustentam e alimentam os neurônios, mas também participam ativamente da transmissão sináptica, da defesa imune, da mielinização e da regulação do microambiente cerebral. A compreensão de que disfunções gliais estão na base de inúmeras doenças neurológicas – da esclerose múltipla à doença de Alzheimer, da dor neuropática à epilepsia – abriu novas perspectivas terapêuticas.

A pesquisa atual, apoiada por revisões como a publicada na SciELO e pela divulgação científica de veículos como a Revista Pesquisa FAPESP, aponta para um futuro em que a modulação farmacológica ou genética da atividade glial poderá tratar condições hoje incuráveis. A glia representa, portanto, uma fronteira vibrante do conhecimento – e quem sabe, a chave para desvendar os mistérios mais profundos do cérebro humano.

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Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos construiu sua trajetória na interseção entre tecnologia e linguagem — um território que poucos navegam com a mesma desenvoltura. Desenvolvedor e editor com mais de quinze anos de experiência, tornou-se uma das vozes mais reconhecidas na curadoria de conteúdo digital brasileiro, justamente por recusar a separação artificial entre criar siste...

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