A teoria winnicottiana explanada neste artigo nos faz vislumbrar sobre o processo de desenvolvimento das crianças durante o período da infância visto que a brincadeira é um dos principais requisitos para identificação da própria identidade e do seu caráter, bem como para a construção de sua personalidade individual e social.

Resumo

Este artigo objetiva trazer considerações sobre a importância da teoria de Winnicott para pesquisas relacionadas à temática infância, visando à compreensão do ato de brincar, bem como o relacionamento infantil através das identificações e as consequências da brincadeira na vida das crianças durante esta fase da vida. Este estudo tem o caráter predominante de uma pesquisa de cunho qualitativa nos seus procedimentos metodológicos e se constitui como revisão bibliográfica tendo como finalidade proporcionar maior familiaridade com a referida temática e deste modo  torná-la mais explícita.

Palavras chave: Winnicott; Brincar; Infância; Identificações na Infância.

Introdução

Pesquisas que abordam temas relacionados à infância e os estudos da criança se constituem como estudos interdisciplinares e diversificados, uma vez que as indagações a respeito das características ou os atributos da infância nos distintos momentos vividos nos primeiros anos da vida, ainda que esta fase não seja estável, modificam-se no tempo e no espaço (BARBOSA; DELGADO; TOMÁS, 2016).

Segundo Müller e Nascimento (2014), especificamente na década de 1990, houve a consolidação de novos campos de estudo da infância, para além da psicologia e da educação, possibilitando deste modo uma nova interpretação sobre as relações sociais existentes entre adultos e crianças e/ou entre os grupos de pares infantis, e que transformaram a concepção dos processos pelos quais as crianças se apropriam dos mundos sociais nos quais vivem.

Cunha (2017) evidencia que conhecer o contexto e adentrar na realidade ao qual a criança esta inserida é tarefa fundamental para assimilação dos sentidos e os significados, visíveis e os ocultos atribuídos a criança. Corroborando com o que foi comentado anteriormente, Jurdi e Amiralian (2012) afirmam que a teoria winnicottiana possibilitou abarcar a complexidade de indivíduos em seu território, com questões sociais urgentes, uma vez constata, na relação entre psiquismo e cultura, um pensamento inovador que permite o acesso de criação e de existência lúdica, criadora de indivíduos e de mundos. A teoria de Winnicott debate o homem no mundo como uma unidade e continuamente fala do homem em consonância de suas experiências culturais, destaca-se que este teórico ao abordar tais questões em seus livros ainda no inicio da segunda metade do século XX foi um dos pioneiros a relacionar o meio social e suas influências na vida das pessoas.

No âmbito da psicanálise, Winnicott também contribuiu à clínica psicanalítica com crianças, através de um novo modo de pensar a saúde e a infância ao integrar ao determinismo existente nos textos de Freud a ideia de que a criatividade e a espontaneidade também participam dos processos de constituição do si mesmo.  Tal autor ainda, alerta para o fato de que as bases da saúde mental do adulto se encontram em sua infância e adolescência. Na teoria winnicottiana a concepção de saúde leva a pensar indivíduo e sociedade de outra maneira, com a ressalva de que um ambiente social hostil pode desencadear efeitos devastadores no processo de amadurecimento pessoal nas crianças (JURDI e AMIRALIAN, 2012).

 Ao pressupor que a saúde das pessoas esta atrelada a saúde mental dos indivíduos e de que esta é importante para que todos possam vivenciar seu papel social, vislumbra-se que uma sociedade democrática, em termos de saúde, encontra- se ameaçada na medida em que seus membros permanecem em risco social, seja pela ausência dos direitos garantidos ou por estarem desprovidos de um ambiente suficientemente bom para permitir sua integração pessoal e seu amadurecimento (JURDI e AMIRALIAN, 2012).

Donald Winnicott modificou o entendimento de sessão analítica ao aproximar a sessão de psicanálise à noção do brincar. De acordo com este autor a sessão acontece por meio da sobreposição de duas áreas do brincar, sendo elas a do paciente e a do analista. Caso o paciente não consiga brincar, o analista deve trabalhar de modo a ajudá-lo a sair desta impossibilidade para a situação do que brinca. O brincar na concepção de Winnicott não deve ser entendido de modo ingênuo, mas sim ampliado ao leque de recursos do analista (FRANCO, 2003).

 Os autores Barbosa, Delgado e Tomás (2016), fundamentados em pesquisas sobre crianças, demonstram que tanto as meninas como os meninos são indivíduos que produzem culturas, uma vez que seus atos têm desenvolvimentos entre os grupos de pares, através das aproximações, amizades, brincadeiras, empatia, conflitos. A totalidade destas interações permite o desenvolvimento dos processos de construção social de sentidos relacionados em sua abrangência, como por exemplo, espaço, tempo, regras e saberes. No que lhe concerne o adulto deve adotar uma postura de observação, questionamento e reflexão contínua para conseguir captar esta produção cultural a partir deles.

Este artigo pretende trazer colaborações para pesquisas relacionadas à temática infância ao abordar algumas contribuições da teoria winnicottiana para esta fase, especificamente sobre a concepção do brincar, bem como o relacionamento infantil através de identificações.

Método

O presente estudo trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativa, tendo como escopo uma revisão bibliográfica. Foram realizadas pesquisas em base de dados como, por exemplo, SciELO - Scientific Electronic Library Online e PePSIC - Electronic Psychology Journals - Bireme, além de consulta a obras do próprio autor, Donald Woods Winnicott, especialmente o livro  O brincar & a realidade(1975). Através das leituras dos artigos e livros procurou-se uma reflexão crítica a respeito dos conteúdos centrais destes, que serão explanadas ao decorrer deste trabalho.

Uma Breve Explanação Sobre o Brincar na Infância

A concepção de infância deve ser compreendida e inserida no cenário que envolve todos os direitos e deveres da criança caracterizando-a em sua essência como ser humano, sendo capaz de agir e pensar, o que a difere do adulto está em sua inocência que é própria da sua infância, deste modo merece um olhar específico para esta fase da vida. É importante destacarmos que historicamente as crianças na Idade Média eram vistas como seres em miniaturas, ou seja, eram expostas a todas e qualquer tipo de experiências pelos adultos, entretanto a visão que se tem das crianças nos dias atuais tem sido algo construído gradativamente, são notórios os grandes avanços em relação aos sentimentos de infância seja em seu desenvolvimento cognitivo, psicológico, emocional (ARIÈS, 1978).

É oportuno registrar que quando explanamos o termo infância, estamos também falando do sentimento de afetividade algo que deve ser recíproco na relação entre criança e adultos, o que significa uma função que começa dentro da família, portanto neste processo evolutivo da infância é dever da família e/ou responsáveis manter um ambiente agradável onde haja respeito, assim a criança vai ocupando seu espaço na sociedade deixando um marco diferencial na sua infância. 

Motivados pelas tecnologias e ao mesmo tempo influenciados pelos adultos com atividades que ocupam a mente das crianças rotineiramente, tais atividades podem descaracterizar uma infância ideal para esta fase vida visto que a rotina muitas vezes terminar por ocupar o espaço de criação e imaginação do ser criança o que não engloba o ato de ser criança e viver este período da vida que passar tão rápido.

Quando imaginamos esta fase da vida, nossos pensamentos muitas vezes de imediato nos fazem lembrar em brincar, em brinquedos e brincadeiras, nossas lembranças são marcadas por vivências com uma memória seletiva onde guardamos aquilo que mais nos marcou ao longo dos anos e uma dessas lembranças para muitas pessoas está nas brincadeiras realizadas na infância.

De acordo com Franco (2003) existe uma discussão nos primórdios da psicanálise que relaciona a brincadeira infantil com a sublimação, pois a brincadeira se apoia a partir de uma fantasia que se oculta dentro de si, sendo tarefa do analista de crianças interpretarem esta fantasia. Winnicott olha para o brincar em si como um objeto de estudo, esse teórico se volta para o brincar, enquanto verbo, isto é a ação, como uma coisa a ser olhada em sua potencialidade própria. O brincar ocupa um espaço no qual fica posicionado na fronteira entre estar dentro ou fora da subjetividade.

O desafio atual para a família e escolas bem como para toda sociedade é criar espaços educativos sobretudo com brincadeiras que desperte o interesse para o processo de desenvolvimento da infância das crianças. Diante de todo esse contexto podemos nos questionar: Que tipo de infância estamos oferecendo para nossas crianças? Como estamos contribuindo para o desenvolvimento infantil das crianças? E nos tempos atuais como são as brincadeiras das crianças? Indagações como estas nos fazem repensar nos lugares e/ou espaços educativos que possam ser utilizados pela criança de forma que estejam inseridas em um contexto de criação, imaginação, locais que sejam “ convidativos e acolhedores” que envolvam os afetos e as relações interpessoais.

Winnicott não se limita apenas às crianças quando concebe o brincar estendendo-se aos adultos simultaneamente, para ele o brincar só pode ter compreendido em sua totalidade com a concorrência de sua noção de transicionalidade, ele sugere um campo intermediário da experiência humana, que transita entre os polos freudianos, constituída em meio ao erotismo oral e a verdadeira relação de objeto (WINNICOTT, 1975).

Os objetos denominados transicionais são aqueles que não fazem parte do corpo do bebê não sendo, por exemplo, o polegar que é chupado, bem como não são inteiramente reconhecidos como a realidade externa compartilhada no social. A transicionalidade localiza-se entre o mundo psíquico e o mundo socialmente construído. Esta intermediação é constituída pela realidade interna e pela realidade externa e é de suma importância para compreender o brincar segundo Winnicott que, aliás, tem uma topologia e uma temporalidade (FRANCO, 2003).

Franco (2003) afirma que a maneira como a teoria winnicottiana compreende o brincar esta relacionada com vários tempos. No primeiro momento, o bebê juntamente está fundido ao objeto. Sendo subjetiva a visão que o bebê tem do objeto. A mãe denominada suficientemente boa se dirige para efetivar aquilo que o bebê está pronto a encontrar, nomeando isto de criatividade primária. No momento seguinte, o objeto é repudiado como não-eu, aceito de novo e objetivamente percebido. Neste tempo, a mãe devolve ao bebê o objeto que ele repudiou.

O Relacionamento Infantil Através de Identificações

Por meio das interpretações Winnicott (1975), tinha o intuito de deixar os pacientes conhecerem os limites de sua compreensão, ele partilhava da ideia de que apenas o paciente possuía as respostas, podendo ou não tornar elas aptas a abranger o conhecido, ou ciente, com aceitação, por isso a necessidade do analista realizar um trabalho interpretativo, distinguindo entre análise e autoanálise, sua psicanálise aborda o amadurecimento humano, com a saúde mental do indivíduo como base no início do desenvolvimento. Como no exemplo da alimentação de uma criança, a capacidade de utilizar objetos esta em evidência, porém o analista deve se preocupar também com o desenvolvimento e estabelecimento da capacidade de uso desse objeto, assim como identificar a constituição do fato, e a incapacidade de usá-lo sentida pelo paciente.

Antes de se discutir mais profundamente sobre objeto e a representação do mesmo para a criança na concepção de Winnicott, faz-se uma breve apresentação sobre a relação da mãe e do bebê que antecede o surgimento do ‘objeto’ na vida da criança. Para este autor a criança nos seus primeiros meses de vida acredita ser uma extensão da sua mãe, ou seja, o bebê tem ilusão de fazer parte da mãe, dessa relação surge os fundamentos da constituição do indivíduo e do desenvolvimento emocional da criança. O alicerce da saúde mental da criança será estabelecido no início da infância pelos cuidados realizados pela mãe suficientemente boa, aquela que da ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, a dedicação dessa mãe no quesito físico através  do holding, bem como o  psicológico por meio da relação empática e da adaptação sensível às necessidades do bebê, trabalha como uma espécie de membrana protetora que proporciona o isolamento primário, essencial para articulação de  um espaço psíquico (WINNICOTT, 1975).

É importante salientar que a mãe gradativamente vai desiludindo o  bebê na separação do seu eu para a formação verdadeiro ‘eu’, levando ao princípio de realidade, esse acontecimento permite que o bebê construa, nesse espaço de ilusionamento consentido pela figura maternal, o objeto transicional que será o objeto que o console e lhe dê conforto, fazendo parte da mudança no princípio de realidade, o sujeito deve ter desenvolvido essa capacidade, o desenvolvimento da capacidade de usar um objeto compõe, o exemplo de processo de amadurecimento, como algo que também depende de um meio ambiente favorável (WINNICOTT, 1975).

Com a relação de objeto, o indivíduo possibilita que sejam feitas algumas alterações no eu (self). Mecanismos de projeção e identificações estão em operação e o sujeito se esvazia a ponto de alguma coisa dele ser encontrado no objeto, mesmo que enriquecido pelo sentimento. A relação com o objeto é uma experiência, descrita nos termos do mesmo como ser isolado. Quando Winnicott discute sobre objeto ele toma a relação do Objeto como evidente e também acrescenta características novas que envolvam a natureza e o comportamento do objeto, ele deve ser real, no sentido de se constituir na realidade compartilhada e não em um feixe de projeções (WINNICOTT, 1975).

 Segundo Winnicott (1975), após a primeira relação estabelecida com o objeto, existira agora a colocação pelo próprio sujeito do objeto fora da sua área de controle onipotente, percepção do mesmo como fenômeno externo e não como uma entidade projetiva. Essa mudança do relacionamento para uso significa que o sujeito destrói o objeto, surgindo então um novo aspecto na teoria do objeto. O relacionamento pode ser identificado em função do sujeito individual, em um uso que não pode ser descrito em função do sujeito individual, isso contribui para estabelecer uma diferença maior entre relacionar-se e usar, uma vez que relacionar-se pode ser visto como fenômeno do sujeito.

Fazendo uma síntese do que foi discutido anteriormente, primeiramente o sujeito se relaciona-se com o objeto, em segundo o objeto esta no processo de ser encontrado em vez de ter sido colocando no mundo pelo sujeito, em terceiro o sujeito agora irá destruir o objeto ele se tornando externo, após isso pode haver ou não a sobrevivência do objeto a destruição, e por último o sujeito pode usar o objeto novamente. Com a sobrevivência do objeto, o sujeito pode então começar a viver uma vida no mundo dos objetos, tendo que aceitar a destruição no progresso da fantasia inconsciente. Para Winnicott a destruição exerce um papel na criação da realidade, colocando assim o objeto fora do eu (self). O sujeito cria o objeto no significado de descobrir a própria externalidade.

Com relação a clínica infantil a atividade destrutiva institui a tentativa, correlacionada pelo paciente, de se depositar fora da área de controle onipotente, ou seja, para fora do mundo. Se o paciente não tiver a experiência destrutiva máxima, ele jamais colocara o analista para fora, não podendo experimentar uma espécie de autoanálise, tendo o analista como projeção de uma parte do eu (self) (WINNICOTT, 1975).

Considerações Finais

Conclui-se que estudos a respeito da temática infância e consequentemente o desenvolvimento das crianças tem ganhado visibilidade ao longo dos anos e a partir desses novos conceitos esta fase da vida passou a ser visualizada em amplos aspectos como social, físico-motor, psicossocial e entre outros. Por meio das explanações ao decorrer deste artigo evidencia-se que a teoria de Winnicott possibilitou uma maior compreensão do ato de brincar, assim como a respeito do relacionamento infantil através das identificações e as consequências da brincadeira na vida das crianças durante esta fase da vida.

Nossas impressões quanto aos achados deste estudo apontam a relevância da contribuição da teoria Winnicott para a prática profissional destas autoras, bem como para todos os que desejam conhecer e/ou trabalhar com esta temática.  Acreditamos ainda que o referido estudo possa orientar o ambiente familiar, escolar ou qualquer lugar onde a criança esteja inserida. Há assim a pretensão que outros espaços educativos que venham a conhecer a pesquisa, possa contribuir para o desenvolvimento da criança durante a infância.

 

Referências

ARIÈS, P; DA CRIANÇA, História Social. A família. História social da criança e da família, v. 2, p. 131-196, 1978.

BARBOSA, M. C. S; DELGADO, A. C. C.; TOMÁS, C.A. Estudos da infância, estudos da criança: Quais campos? Quais teorias? Quais questões? Quais métodos? REVISTA INTERAÇÃO, v. 41, n. 1, p. 103-122, 2016.

CUNHA, S. M. Pesquisa com crianças: implicações teóricas, éticas e metodológicas. CIAIQ 2017, v. 3, 2017.

FRANCO, S. G. O brincar e a experiência analítica. Ágora (Rio J.),  Rio de Janeiro ,  v. 6, n. 1, p. 45-59,  June  2003 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982003000100003&lng=en&nrm=iso>. access on  10  Mar.  2018.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982003000100003

JURDI, A. P. S; AMIRALIAN, M. L. T. M. Cuidados com a infância e a adolescência por meio de brinquedoteca comunitária. Estudos de Psicologia, v. 29, p. 769-777, 2012.

MÜLLER, F; NASCIMENTO M. L. P. B; Estudos da infância: outra abordagem para a pesquisa em educação. Linhas Críticas, v. 20, n. 41, 2014.

WINNICOTT, D. W. O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

Autoras

Jhulyane Cristine da Cunha Nunes- Bacharela em Psicologia pela Universidade Federal do Piauí-UFPI/ E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Edirene Maria Alves do Nascimento- Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Piauí- UESPI/ Estudante de Pós Graduação: Psicopedagogia Institucional e Clinica pela Faculdade Evangélica do Piauí- FAEPI- E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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