O presente estudo apresenta uma análise sobre a Revista Semana Illustrada, publicada por Henrique Fleiuss entre os anos de 1860 a 1876, tendo por foco as publicações do referido periódico e, de modo especial, as que inferiam sobre a figura de D. Pedro II e sua imagem voltada para as ciências e a intelectualidade do período. 

Resumo

O estudo tem como tema as publicações na imprensa periódica do Segundo Reinado, de modo mais específico, a revista Semana Illustrada. Na História da Educação, o uso da Imprensa como fonte e objeto de pesquisa vem se consolidando de maneira crescente. De tal modo, esta pesquisa objetivou delinear a história da imprensa brasileira e como a mesma deixou de legado a representação do Imperador D. Pedro II pela perspectiva científica, na revista Semana Illustrada. O referido periódico foi iniciado por Henrique Fleiuss, entre os anos de 1860 a 1876. A opção metodológica se voltou para a pesquisa descritiva de cunho bibliográfico e documental, a qual possibilitou investigar como se estabeleceu uma imagem do Imperador enquanto alguém voltado para as ciências, as artes e a intelectualidade do período. O estudo aponta que D. Pedro II tornou-se representativo da perspectiva modernizante de então, sendo, por vezes, denominado como “protetor das ciências”, vinculando-se ao ideário progressista que instigava o país a seguir nos moldes civilizatórios que partiam da Europa.

Palavras-chave: Século XIX; Imprensa; Semana Illustrada; D. Pedro II.

Introdução

O presente estudo apresenta uma análise sobre a Revista Semana Illustrada, publicada por Henrique Fleiuss entre os anos de 1860 a 1876, tendo por foco as publicações do referido periódico e, de modo especial, as que inferiam sobre a figura de D. Pedro II e sua imagem voltada para as ciências e a intelectualidade do período. A partir de estudos bibliográfico e documental, buscou-se evidenciar como o periódico se posicionou em relação ao envolvimento do monarca com as ciências, artes e letras durante seu reinado. Dito de outro modo, procurou delinear a perspectiva intelectual de Pedro II frente às demandas científicas estabelecidas no período.

Em um primeiro momento buscamos identificar a trajetória da Imprensa no Brasil, desde sua institucionalização em 1808 até o fim do Império em 1889. Posteriormente realizar uma biografia de D. Pedro II com foco em sua educação recebida na infância. Por fim, identificar na Revista Semana Illustrada, as publicações sobre D. Pedro II, no que se refere seu caráter intelectual.

O uso da imprensa para a realização de estudos históricos, não só como elaboração da História da Imprensa, mas também como fonte para pesquisa em diferentes áreas, ganhou legitimidade com a terceira geração da Escola de Annales. Na atualidade, os estudos feitos sobre a imprensa valorizam sua relevância como aliada no processo de construção da história, auxiliando na interpretação de questões políticas, econômicas, sociais e culturais, além das situações cotidianas, de comportamento e, também, educacionais.

A institucionalização da imprensa brasileira ganhou ímpeto a partir de 1808, com a vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, fato que garantiu a circulação da palavra escrita, além de outras transformações na vida da Colônia. Contudo, mesmo com a institucionalização formal da Imprensa Régia, verifica-se que a palavra escrita encontrou objeções para circular até o ano de 1821, quando a censura parou de ser imputada legalmente. Vale lembrar que, apesar da proibição, alguns periódicos, livros, dentre outros impressos, eram contrabandeados e trazidos ao Brasil por viajantes estrangeiros, desde o período colonial.

Deixou como legado uma forma de veicular a informação de maneira a formar seus leitores, algo que não pode ser descaracterizado numa sociedade em que a educação formal ainda estava em processo de constituição. A formação que a imprensa se encarregou nos anos oitocentos seguiu pela valorização do debate político. Neste sentido, na primeira metade do século XIX, a grande maioria dos jornais publicados foram de caráter estritamente político, interferindo inclusive na consolidação do processo de Independência em 1822 e no Golpe da Maioridade em 1840.

No Segundo Reinado, diferentes gêneros foram se constituindo via imprensa. Com a liberdade de imprensa – e a censura reduzida – ouve uma propagação de inúmeros periódicos, a exemplo do gênero revista, que alcançou grande aceitação do público. Naquele contexto, as revistas ganharam notoriedade e, de maneira especial, as revistas ilustradas, em grande parte com uso da caricatura e ilustrações que visavam chamar a atenção do público leitor.

O periódico pesquisado se encaixa no grupo das revistas ilustradas, sendo considerado pioneiro no gênero da caricatura. A primeira edição da revista Semana Illustrada trouxe a frase Ridendo Castigat Mores, algo próximo a Rindo Corrigem-se os Costumes. A ideia do editor da revista, Henrique Fleiuss, era criticar a sociedade que estava inserido, fazendo uso do humor principalmente pela ilustração. O periódico contou com a presença de dois personagens criados por Fleiuss, Dr. Semana e Moleque. Eles seriam responsáveis por travarem discussões sobre temáticas pujantes no período e apareceram ao longo das 797 edições publicadas da Semana Illustrada.

Na Semana Illustrada foram publicados textos de escritores significativos do século XIX, como Machado de Assis e Quintino Bocaiuva. Já no que se refere as ilustrações que a compunham, observa-se que, grande parte, foi de autoria de Henrique Fleiuss, mas contou com a participação de homens como Angelo Agostini – posteriormente editor da Revista Illustrada e principal crítico da Semana Illustrada, e João Pinheiro Guimarães, que produziu ilustrações em Bazar Volante, Ba-ta-clan e O Mequetrefe.

2 Uma história da imprensa Brasileira no século XIX

O uso da imprensa enquanto fonte para a produção do conhecimento na área de História da Educação teve seu reconhecimento assegurado há pouco tempo, mais precisamente, na década de 1970, quando emergem diversos trabalhos que analisaram os modelos formativos presentes em jornais e revistas. Nesta perspectiva, merecem destaque especial a tese de Arnaldo Contier, Imprensa e ideologia em São Paulo, de 1973; as dissertações de Maria Helena Capelato, O pensamento liberal de 'O Estado de S. Paulo' (1927-1932) e de Maria Ligia Prado, O pensamento liberal do jornal O Estado de S. Paulo 1932-1937, ambas de 1974; e a extensa pesquisa de Vavy Pacheco Borges, que originou o livro intitulado Getúlio Vargas e a oligarquia paulista, em 1979 (LUCA, 2006).

A imprensa desembarca no Brasil no início do século XIX, com a chegada da Família Real em 1808. O evento trouxe transformações notórias para a organização na sociedade colonial, resultando na inserção de novas instituições científicas, financeiras e literárias. Juntamente com a imprensa ocorre a abertura dos portos para o comércio e a criação de cursos em nível superior. Percebe-se que todas estas mudanças tinham por intuito fazer com que o Brasil alcançasse o mesmo patamar das nações civilizadas, logo, modernizar o país passou a ser a palavra de ordem estampada na imprensa (LUSTOSA, 2004).

A vida da Colônia, principalmente na cidade de Rio de Janeiro, onde a Corte se instalou, passou por mudanças que objetivavam atender as necessidades dos novos moradores e tornar a cidade mais urbana e moderna. No que se refere a vida cultural, como ressalta Fausto (2012), as mudanças proporcionaram a inauguração de teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas, além da criação do primeiro jornal brasileiro publicado na Colônia, A Gazeta do Rio de Janeiro[1] . Suas publicações estavam relacionadas principalmente aos atos oficiais. Assim, “Como jornal oficial, excluía qualquer referência a temas políticos, sociais ou religiosos que poderiam trazer alguma espécie de polêmica. Havia uma junta que se encarregava de ‘limpar’ as matérias” (OLIVEIRA, 1997, p. 33).

No entanto, antes da publicação do primeiro jornal oficial do Brasil, circulou no país o Correio Braziliense, editado em Londres pelo brasileiro Hipólito José da Costa. Por ser produzido longe da censura vigente na Colônia, o jornal abarcava muitas críticas à política portuguesa. Segundo Luca, o periódico “[...] continha amplo noticiário sobre os acontecimentos internacionais, europeus e americanos, e colocava o Brasil em contato com o mundo” (LUCA, 2006, p. 133).

Vale ressaltar que, embora colocados como contraditórios em seus discursos, esses dois periódicos apresentavam algumas semelhanças. Entre as mais importantes destacam-se, a defesa pelo governo monárquico, a continuidade da dinastia dos Bragança, a união luso-brasileira e a rejeição de ideias ligadas a revolução e ruptura com Portugal (MOREL, 2013).

Após a implantação da Imprensa Régia, mesmo com a censura, novos periódicos passaram a circular, como o A Idade d’Ouro do Brazil (1811-1823) na Bahia e O Patriota: jornal litterario, politico, mercantil (1813-1814), no Rio de Janeiro. Estes periódicos afastavam-se de embates mais polêmicos, já que “[...] até os anos 20 a censura fez com que os periódicos veiculassem somente insípidas notícias do estrangeiro ou defesas parciais do regime monárquico absolutista” (PALLARES-BURKE, 1998, p.149).

A Revolução do Porto, em 1820, propiciou a liberação da imprensa, sendo que o Decreto de 2 de março de 1821 suspendeu a censura prévia. Após tais fatos, observou-se um aumento de publicação de impressos, mas o controle do quê seria publicado continuou com “[...] os dilemas, vividos pelos redatores de diversas correntes políticas, [que] se cruzariam com as preocupações governamentais e com as constantes alterações dessa legislação pelos parlamentares” (MOREL, 2013, p. 34).

Quando D. João IV e a Corte retornam para Portugal e após o processo de Independência em 1822, o jornalismo adquiriu as características da Imprensa Iluminista europeia, evidenciando o propósito de veículo reformador da sociedade. No Rio de Janeiro, os primeiros jornais apresentavam diversas extrações: conservadores, radicais, moderadores, idealistas, aventureiros.

 Os poucos letrados que havia no país buscavam implantar a modernidade da cultura europeia no Brasil e encontraram na imprensa um meio para se transmitir os princípios civilizatórios. Desta forma, as publicações dos periódicos são tidas como importante meio de influência na formação e costumes dos indivíduos (PALLARES-BURKE, 1998). Pallares-Burke destaca que os jornalistas acreditavam na influência em que os jornais tinham sobre a formação dos indivíduos. Afirmavam que aqueles que se opunham a liberdade de imprensa eram inimigos da civilização e da prosperidade da nação.

Os jornais se propunham a conduzir tudo que se considerava fundamental para a transformação da nação independente em uma sociedade culta, regida pelos padrões europeus. De acordo com Pallares-Burke,

[...] os novos periódicos têm também em comum títulos bastante reveladores, que aludem ao seu papel de guia e educadores da sociedade. “Monitores”,  “Lanternas”, “Despertadores”, “Mentores”, “Faróis”, “Auroras” aparecem em profusão em toda a América Latina e se autodescrevem como indispensáveis “difusores de luz”, veículos de cultura, progresso e liberdade. Tal função insubstituível da imprensa é geralmente justificada pela ausência de outros agentes educativos, como leis e um sistema de educação pública, que, caso existentes, poderiam fazer mais sistemática e formalmente o que o jornalismo fazia informalmente [...] (PALLARES-BURKE, 1998, p.147).

Por sua vez, Luca (2006, p. 133) afirma que “O caráter doutrinário, a defesa apaixonada de idéias e a intervenção no espaço público [...]” marcaram a maior parte da imprensa brasileira do século XIX. A autora enfatiza que os aspectos comerciais eram colocados em segundo plano, pois com um pequeno público leitor, devido ao grande número de analfabetos do período, a imprensa se via no papel de divulgar seus ideais, de maneira a intervir nas discussões e colocar em evidencia as propostas defendidas.  

Todavia, Pallares-Burke (1998) destaca que em uma sociedade em que poucos sabiam ler, mesmo os indivíduos analfabetos recebiam a ação educativa dos jornais. A prática da leitura em voz alta, muito frequente em lugares públicos, era vista como exercida por pessoas consideradas cultas. Essa prática permitia aos que não tinham conhecimento da linguagem escrita, na qualidade de ouvintes, ter acesso aos ideais que eram disseminados pela imprensa.

Na primeira geração de impressos oitocentistas, Morel (2013) destaca a diversidade de posicionamento político que se fizeram presentes. O autor exemplifica citando a figura de alguns jornalistas e redatores, como por exemplo, de José da Silva Lisboa, que com seu caráter conservador participou de vários jornais de combate; de Antonio Borges da Fonseca, criador de uma ortografia ortofônica própria, pois ambicionava a formação de uma língua nacional; do frei Joaquim do Amor Divino Caneca, como redator do Tiphis Pernambucano (1823-1824), que, ao divulgar seus ideais foi contrariado, sendo assassinado; do cônego Januário da Cunha CARVA e, do maçom Joaquim Gonçalves Ledo, que escreviam para o Revérbero Constitucional Fluminense, periódico que exerceu grande participação na Independência de 1822.

Como se percebe, vários assuntos passaram a ser tratados pela imprensa e, consequentemente, aumentou-se o número de jornalistas e de pessoas que escreviam para os periódicos. Nesse ínterim, a atuação política do Imperador D. Pedro I era feita com altivez, tanto em defesa, quanto em tom de crítica dirigida ao governo e aos seus aliados.

A tônica do primeiro jornalismo que se fez no Brasil depois da Independência foi marcada por uma agressividade ascendente. Os pequenos jornais, quase todos, começavam movidos pelas melhores intenções. Muitas vezes o editor publicava, logo no primeiro número, aviso de que não daria espaço aos ataques pessoais. Publicava também pedido de colaboração os leitores, garantindo que essa seria publicada na seção de correspondência. Logo, logo, a correspondência tornava-se o carro-chefe do jornal. Através dela, era possível atacar os adversários. Como também para as cartas se mantinha o direito do anonimato, não de pode saber se elas eram enviadas realmente por leitores ou se seus autores eram os próprios responsáveis pela publicação. Em geral, estes publicavam apenas as cartas que estavam acordes com as opiniões do jornal (LUSTOSA, 2009, p. 33).

Seguindo a mesma perspectiva de Lustosa é possível observar que, embora não escapassem do caráter político, outros periódicos enveredavam pelo lado mercantil e noticioso. É o caso do Jornal de Anúncios (1821), do Rio de Janeiro; do Diário de Pernambuco (1825), impresso em Recife; e d’O Jornal do Commercio (1827), também publicado no Rio de Janeiro.

Para Lustosa, no ano da Independência a imprensa voltou-se para apoiar D. Pedro I, mesmo com os diversos embates políticas que se processavam. Embora a grande maioria tivesse apoiado a ruptura com Portugal e condenado a política da Corte portuguesa, profundos contrastes surgiram a respeito do caminho pelo qual deveria percorrer o Brasil (LUSTOSA, 2004).

A imprensa no Primeiro Reinado não deixou passar em branco a política centralizadora de D. Pedro I. Oscilando entre o discurso palaciano dos conservadores e o entusiasmado dos liberais, o jornalismo desse período presenciou tanto o anonimato dos que temiam a repressão acentuada no país, quanto os mais declarados, que não temiam de tornar pública a oposição ao governo (MARTINS, 2009).  Naquele momento, participar dos debates nos periódicos, era tornar-se visível e reconhecido, colocando a imprensa como elo de um patamar mais elevado e desejado, a política.

Com a ida de D. Pedro I para Portugal e a abdicação a favor de seu filho Pedro, instalou-se por 9 anos o período das regências, ou Período Regencial, que se estende entre anos de 1831 a 1840. Nessa época ocorreu o aumento significativo no número de periódicos publicados. Neles se observa projetos de nação distintos, “[...] disputas e ensaios de construção de um Estado e uma nação no Brasil, com seus dilemas, contradições, mudanças e permanências”, que em sua maioria buscando-se sobressair uns aos outros (MOREL, 2013, p. 42).

Uma das características editoriais do período foi o uso da caricatura que passou a ser utilizada já no período regencial, embora só fosse alargada com a imprensa ilustrada do Segundo Reinado[2]. Em grande parte as ilustrações retratavam cenas políticas que, pelo desenho e humor, ironizam situações do cotidiano e da vida dos políticos. A partir de então, a caricatura passou a propiciar aos não alfabetizados a possibilidade de tomar conhecimento e envolver-se no movimento político do momento.

No período regencial, a imprensa de caráter turbulento, identificava-se através das causas na qual defendia. Por meio do título do periódico já era possível assinalar a qual partido se filiava, os ideais defendidos e o que e a quem pretendia atingir. Fato peculiar foi a participação de militares nos periódicos O Torto da Artilharia, O Cidadão Soldado e Soldado Aflito. Também chama a atenção os periódicos que buscavam falar sobre a questão racial, assumindo a “cor da pele” como algo típico da brasilidade. Neste último aspecto destacam-se os periódicos O Homem de Cor, O Mulato, O Brasileiro Pardo e O Crioulinho. O uso do indígena, representando também a brasilidade, foi utilizado nos periódicos O Tamoio, O Carijó, O Novo Caramuru e O Tupinambá Peregrino (LUSTOSA, 2009).

Nas páginas dos periódicos, liberais e conservadores participavam de acirrado confronto político, principalmente durante a discussão sobre a Maioridade de D. Pedro II. Para Martins (2013) esse foi um dos temas mais debatidos e também um dos últimos assuntos a ser veiculado pela imprensa do período regencial.

O quadro conturbado da imprensa ficou ainda mais conflituoso quando em 1840, com o Golpe da Maioridade, reestabeleceu-se o regime monárquico. A coroação de D. Pedro II propiciou uma nova tendência na imprensa. A partir de então, ocorre uma “[...] estabilização da imprensa através de alguns órgãos que, paulatinamente, vão se consolidando como empresas” (MOREL, 2013, p. 43).

Após a coroação de D. Pedro II assistiu-se grande festividade em comemorações luxuosas que enalteciam o novo monarca, e que não passou despercebido pela imprensa. Segundo Martins (2013) as celebrações iam muito além da simbologia oficial, porém, indicavam que novos padrões de Corte e civilidade deveriam ser seguidos, principalmente aqueles vinculados ao modelo europeu. Caberia à imprensa atuar na transmissão dessa civilidade, visto sua atuação e poder educativo.

Nos anos iniciais do Segundo Reinado, os periódicos ganharam força e expressão. Embora ocorra uma maior pluralidade nos tipos de periódicos, permaneceu incisiva a imprensa de cunho político-partidário. Martins (2013), destaca que cada novo periódico que surgia, viabilizava defender seus ideais e expor seu posicionamento em relação ao que se passava na organização social.

[...] Política e imprensa se conjugam, a serviço dos partidos – Conservador ou Liberal – atrelados a grupos familiares, condicionados a seus interesses econômicos e afinidades intelectuais. Em geral, os partidos e respectivas famílias se fazem representar por meio de um jornal, demarcador de suas posições, ambições e lutas (MARTINS, 2013, p. 48).

O quadro conturbado da imprensa ficou ainda mais conflituoso quando em 1840, com o Golpe da Maioridade, reestabeleceu-se o regime monárquico. A coroação de D. Pedro II propiciou uma nova tendência na imprensa. A partir de então, ocorre uma “[...] estabilização da imprensa através de alguns órgãos que, paulatinamente, vão se consolidando como empresas” (MOREL, 2013, p. 43).

Após a coroação de D. Pedro II assistiu-se grande festividade em comemorações luxuosas que enalteciam o novo monarca, e que não passou despercebido pela imprensa. Segundo Martins (2013) as celebrações iam muito além da simbologia oficial, porém, indicavam que novos padrões de Corte e civilidade deveriam ser seguidos, principalmente aqueles vinculados ao modelo europeu. Caberia à imprensa atuar na transmissão dessa civilidade, visto sua atuação e poder educativo.

Nos anos iniciais do Segundo Reinado, os periódicos ganharam força e expressão. Embora ocorra uma maior pluralidade nos tipos de periódicos, permaneceu incisiva a imprensa de cunho político-partidário. Martins (2013), destaca que cada novo periódico que surgia, viabilizava defender seus ideais e expor seu posicionamento em relação ao que se passava na organização social.

[...] Política e imprensa se conjugam, a serviço dos partidos – Conservador ou Liberal – atrelados a grupos familiares, condicionados a seus interesses econômicos e afinidades intelectuais. Em geral, os partidos e respectivas famílias se fazem representar por meio de um jornal, demarcador de suas posições, ambições e lutas (MARTINS, 2013, p. 48).

A partir de 1850 a imprensa vai desenvolvendo um aspecto mais formal, onde grandes jornais tomam lugar dos pequenos jornais, conhecidos como “[...] os jornaizinhos de quatro folhas in–8°” (MARTINS, 2013, p. 52). É nesta década que se cria a profissão de jornalista e fortalece a de tipógrafo. Conforme destaca Martins (2013, p. 51) “Em todo o país, nomeadamente no Maranhão, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Minas, a obra da imprensa jornalística se propaga, produzindo os primeiros jornalistas que viveram dos escritos da imprensa”. As temáticas também aumentam e os periódicos acabam se categorizando. Aos jornais ficava a função de realizar o debate político e às revistas a atribuição de exercer a reflexão cultural (MARTINS, 2013).

As revistas figuravam, em sua maior parte, como lugar exclusivo na divulgação do literato por meio da escrita. Embora o gênero revista tenha iniciado suas publicações nos anos iniciais da Imprensa Régia, com as revistas As Variedades ou Ensaios de Literatura (1812) e O Patriota, jornal literário, político e mercantil (1813)[3], o gênero ganhou notoriedade com o lançamento de Niterói, Revista Braziliense, Ciências, Letras e Artes (1836). Como afirma Martins (2013, p. 63) “O caráter de leitura ligeira e amena, acrescido do recurso da ilustração, adequavam-na ao consumo de uma população sem tradição de leitura, permitindo a assimilação imediata da mensagem”.

As revistas ilustradas com caricaturas foram as que mais fizeram sucesso no século XIX. Servindo-se do entretenimento humorístico, representavam acontecimentos e cenas do dia-a-dia, conquistando espaços onde a escrita não alcançava. Era uma forma de educar e informar a sociedade não letrada, como explica Martins:

A comunicação pelo humor via caricatura ganhou relevo no país de difícil propagação da palavra escrita. A válvula de escape do humor funcionou como antídoto contra a censura vigente, bem como o desenho, como expressão plausível de fácil e imediata comunicação (MARTINS, 2013, p. 64, grifos do autor).

Outro recurso de grande sucesso utilizado pela imprensa da segunda metade do século XIX foi o folhetim de pé de página. O folhetim, junto com a crônica e o conto, tomaram as páginas dos periódicos, permitindo aos literatos brasileiros a divulgação de suas obras, visto que a publicação de livros era bastante inexpressível. Considera-se a chegada do gênero folhetim nos periódicos brasileiros o ano de 1839, no Jornal do Commercio, com a publicação da novela ‘Edmundo e sua prima’, de Paul de Kock[4]. Nas duas décadas seguintes a grande maioria dos folhetins publicados eram traduções de romances e novelas francesas, cópia muito bem entendida da Paris oitocentista, que pregava a moda e a cultura ao mundo do século XIX (NADAF, 2009).

Martins também expõe o quadro folhetinesco explicando que,

O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, foi um dos primeiros sucessos, veiculado pelo Jornal do Commercio. Em breve, em lugar de autores estrangeiros, dos dramas rocambolescos de Dumas ou Eugene Sue, o espaço passou a ser ocupado por escritores brasileiros. Saem como folhetim Memórias de um sargento de milícias (1852-1853), de Manuel Antônio de Almeida, no Correio Mercantil; O guarani (1857), de José de Alencar, no Diário do Rio de Janeiro; A mão e a luva (1874), em O Globo e Iaiá Garcia (1878) em O Cruzeiro, ambos de Machado de Assis (MARTINS, 2013, p. 69, grifos do autor).

O folhetim iniciava a escrita em seriação e instigava a leitura do dia seguinte por meio do suspense, fator que assegurava o consumo das publicações. O sucesso desse gênero foi tão grande que vários jornais publicaram simultaneamente mais de um título. Quanto aos gêneros, percebe-se que o conto tinha sua publicação garantida nos periódicos, ao contrário do romance, que não ascendeu pela quase inexistência de editoração no país. Já a crônica era utilizada semelhantemente aos artigos, ou às vezes ao que denominamos de editorial, retratando ocorrências atuais e marcada pela reflexão simples (MARTINS, 2013).

Deixando um pouco de lado o modelo folhetinesco é importante frisar que o  último quartel do século XIX vivenciou a participação da imprensa em um importante movimento de questionamento do sistema monárquico. Os debates se mantiveram em volta de três temas: a Questão Religiosa, representada pelos conflitos entre Igreja e Estado; a Questão Militar, interpretada pelo descontentamento dos militares para com o Império; e o Movimento Abolicionista, campanha política a favor da abolição da escravatura (MARTINS, 2013).

O ano de 1870 é considerado significativo para a história da imprensa, principalmente no quesito republicano. Nesse ano foi fundado o Partido Republicano, criado o jornal A República e lançado o Manifesto Republicano. A imprensa foi amplamente utilizada na divulgação do ideário republicano. O movimento republicano não se estabeleceu em um partido unificado em escala nacional. Organizado em núcleos regionais, cada qual com aspirações muito específicas, voltadas para os interesses de seus defensores (BASILE, 1990).

Na imprensa, manifestaram-se os diferentes ensaios do movimento republicano. Representando linhas vistas como evolucionistas e com mudanças graduais, porém, que não foram capazes de fazer uma revolução orquestral (BASILE, 1990). Dentre os nomes que emergem na época vimos o de Quintino Bocaiuva, diretor de O Paiz (1884), e que manifestava no periódico sua posição sobre a derrocada do regime monárquico e a instauração da República através da conscientização da opinião pública e parlamentar. Em oposição, Silva Jardim fazia parte da ala revolucionária, defendendo em jornais e comícios a implantação da República por meio até da revolução popular (BASILE, 1990).

Os defensores da República não estavam, necessariamente, atrelados ao movimento abolicionista. O Partido Republicano não se apoiava no movimento abolicionista, uma vez que muito de seus adeptos possuíam plantações mantidas por trabalho escravo, além de grande parte da economia do país ainda se apoiar na ordem escravocrata.

Reconhecido como um dos movimentos mais marcantes na história da imprensa, o jornalismo abolicionista tomou conta dos periódicos nos anos 1870 e 1880. Como assevera Martins (2013), para cada ideário abolicionista, para cada tendência de sociedade libertadora, se tinha um periódico publicado. O movimento abolicionista foi amplamente divulgado na imprensa de oposição ao regime monárquico.

A imprensa ilustrada merece grande destaque na história do movimento abolicionista, principalmente pelas ilustrações estampadas na Revista Ilustrada (1876-1898), de Angelo Agostini, que por meio de suas ilustrações pretendia divertir o leitor ao mesmo tempo em que criticava o evento que retratava. Suas ilustrações se destacavam pela exploração dos escravos, bem como pelo tratamento a eles dispensado:

São inúmeros os exemplos que podem ser visualizados na Revista Illustrada com as atrocidades a que estavam submetidos os escravos ao longo de toda a década de 1880: os açoites em praça pública, os castigos corporais nas fazendas e na cidade, as torturas as mais diversas (BARBOSA, 2010, p. 105, grifos do autor).

Após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a imprensa de caráter predominante monarquista se convertia em imprensa republicana, agenciadora do projeto civilizador, aliados ao progresso e a ordem. Ao fim do Segundo Reinado,

Cumprira-se a fase heroica do jornalismo brasileiro, arrebatado pelos ideais de gerações que fizeram da imprensa o instrumento eficaz de crítica ao regime, arauto quase exclusivo das forças descontentes. Na bagagem de seus agentes – fossem publicistas, jornalistas, bacharéis, autodidatas, caricaturistas – estava o jornalismo de combate, conjugando a causa política, a linguagem empolada e os compromissos literários (MARTINS, 2013, p. 79).

O fim do Império encerra um ciclo na história da imprensa brasileira. Os pequenos periódicos vão aos poucos dando espaço para as grandes empresas jornalísticas. Com inúmeros profissionais e grandes prédios, os novos periódicos vão traduzindo em suas publicações “[...] a inserção de um novo tempo em que ordem, progresso, disciplina e, sobretudo modernização são verdadeiras palavras de ordem” (BARBOSA, 2010, p. 116).

3 D. Pedro II e o seu tempo: a imagem estampada

No dia 2 de dezembro de 1825 o Rio de Janeiro amanheceu ao som de tiros de canhões e festividades. Era a comemoração do nascimento de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, futuro D. Pedro II, que já nascera com a designação de Imperador. Sétimo filho do Imperador D. Pedro I e da Imperatriz D. Maria Leopoldina, o seu nascimento era aguardado ansiosamente para que pudesse ocupar o lugar que lhe cabia enquanto herdeiro do trono brasileiro.

Para a época levantou-se uma comoção em torno de quem ocuparia o trono, sendo que os recém-independentes brasileiros viam em D. Pedro II a garantia da continuidade do Império. O herdeiro do trono vinha ao mundo com uma herança cultural e biológica de tradição europeia: os Bragança, Bourbon e Habsburgo.

A notícia de se ter um herdeiro ao trono levou  a cidade do Rio de Janeiro a vários dias de comemorações para festejar o nascimento de D. Pedro II. A nova monarquia precisava afirmar sua força e grandiosidade e fez do nascer do futuro Imperador um grande evento, “[...] até o batizado, se fariam demonstrações festivas com repiques de sinos, salvas e luminárias” (SCHWARCZ, 1998, p. 46).

A infância de D. Pedro II seria bem diferente de seu nascimento festivo. Marcado pela orfandade prematura, o futuro Imperador foi chamado por muitos de órfão da nação. Como bem define Carvalho:

[...] Perdeu a mãe quando tinha apenas um ano e nove dias de idade. Não conheceu o avô, d. João VI, que morrera em Lisboa em 1826. A avó, d. Carlota Joaquina, [...] morreria em 7 de janeiro de 1830. O pai, d. Pedro I, e a madrasta, d. Amélia  de Leuchtenberg, deixaram o Brasil em 13 de abril de 1831 (CARVALHO, 2007, p. 13).

Coube a D. Pedro II dedicar sua infância e adolescência aos estudos que o preparariam para assumir o Império brasileiro. Com uma rotina monótona ao lado de suas irmãs, esperava o momento em que se tornaria o segundo Imperador brasileiro, o primeiro nascido no Brasil.

Pela posição que ocuparia, o futuro Imperador do Brasil deveria receber a mais nobre formação. Desde seu nascimento havia a preocupação em educá-lo de maneira oposta ao seu pai, conhecido pelo autoritarismo, pela ambição e pela forma um tanto grosseira de agir. Segundo Carvalho (2007) D. Pedro II deveria ser  educado para ser contido, equilibrado, racional e previsível.

Ao decorrer de sua vida, D. Pedro II manifestaria pontos em comum com sua mãe, embora com ela tivesse convivido por pouco tempo, compartilhavam gostos similares, a exemplo do interesse por livros e pela ciência[5]. D. Maria Leopoldina recebera fina educação e severos princípios religiosos, o que a levou a ter um grande choque aos modos e costumes instáveis de seu marido, D. Pedro I. De seu pai D. Pedro II seria o oposto, principalmente por razões de temperamento e educação[6]. Isso fica bem explícito nas cartas trocadas com suas respectivas amantes. Enquanto o pai não escondia os amores a que se entregava, enviando cartas com sensualidade explícita, o filho seria mais discreto, imprimindo em seus escritos a delicadeza e a saudade, compartilhando livros, retratos e objetos de arte (CARVALHO, 2007).

A presença de algumas pessoas na infância e juventude de D. Pedro II foi fundamental para a formação de seu caráter. Neste ponto, destaca-se a aia Mariana Coutinho, o mordomo Paulo Barbosa, o político Aureliano Coutinho, os tutores José de Bonifácio e Marquês de Itanhaém, e alguns professores, como Felix Taunay e Frei Pedro.

Com a morte de sua mãe em 11 de dezembro de 1826, quando D. Pedro II tinha acabado de completar seu primeiro ano de vida, o pequeno ficou aos cuidados de Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho, mais tarde Condensa de Belmonte. Após longa procura, seu pai se casaria com a Duquesa Amélia de Leuchtenberg, princesa da Baviera, em 1829. Sua madrasta conviveria com ele por pouco tempo, pois, chegaria ao Brasil em 15 de outubro de 1829 e partiria junto de D. Pedro I, após a abdicação, em 13 de abril de 1831. Os menos de dois anos de convívio serviriam para criarem uma relação carinhosa, mas não necessariamente influenciar em sua educação[7].

A aia do palácio teve participação incisiva na formação de D. Pedro II. A Dadama, como carinhosamente seria chamada por D. Pedro II, foi como uma segunda mãe para o menino. D. Mariana era portuguesa de nascença e viera para o Brasil na comitiva de D. João VI em 1808. Quando se tornou aia de D. Pedro II já era viúva e com ele manteve contato até sua morte (CARVALHO, 2007). Dona Mariana foi quem

[...] lhe guiou, com desveio, os primeiros passos vacillantes e a mão pequenina sobre os primeiros traslados de calligraphia; velou-lhe o somno infantil, resguardou-lhe a tenra saude; ensinou-lhe a lêr, a pensar e a orar, a ser justo e a ser grande, ensinando-lhe a temer e a amar a Deus, princípio de toda a sabedoria, e a esse bom povo brasileiro, de que elle viria a ser o primeiro monarcha legitimamente nacional e por um jubileu de ouro, o verdadeiro fundador do Imperio Brasileiro (FLEIUSS, 1925, p. 23).

Em 1844 o Imperador reconheceria o afeto e cuidado recebido durante a infância e juventude condecorando D. Mariana Coutinho com o título de Condessa de Belmonte (SCHWARCZ, 1998).

Outra figura importante foi a do mordomo Paulo Barbosa da Silva que nas atividades do paço mantinha contato direto com o Imperador. Sua influência se dava mais na rotina do que na educação do pequeno e ao apoio dado a Mariana e Aureliano. Paulo Barbosa aparece como mediador do príncipe na menoridade. Enviava convites com sua assinatura em nome de D. Pedro II, intermediou ajuda ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro –  IHGB em 1839 a pedido do monarca,  além de desempenhar importante papel na decisão de iniciar a busca por uma princesa para se casar com o príncipe (SCHWARCZ, 1998).

A atuação de Paulo Barbosa como mordomo se deu entre os anos de 1833 e 1846, quando se afastou para uma temporada na Europa, e depois, a partir de 1855, quando retorna ao Brasil, estendendo-se até 1868, quando faleceu. A Paulo Barbosa atribui-se a iniciativa de pensar em um projeto para a construção de Petrópolis e principalmente a escolha do nome dado a cidade, construída para ser o lugar de descanso do Imperador (SCHWARCZ, 1998).

Já Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho era um homem político, amigo de Paulo Barbosa, atuava como ministro da justiça quando passou a frequentar com frequência o paço e a conviver com D. Pedro II. Foi principal expoente da destituição de José Bonifácio da tutoria de D. Pedro II e de suas irmãs, demonstrando satisfação em carta escrita à Dona Mariana (SCHWARCZ, 1998).

A respeito do convívio estabelecido entre D. Pedro II e Aureliano de Souza, que futuramente seria condecorado como Visconde de Sepetina, Lyra (1939) assevera que ele tinha um  papel essencial. Nas palavras do autor:

Conselheiro – eis certamente o papel exato de Aureliano ao lado do Imperador, nesses anos que se seguiram à Maioridade. Conselheiro e ao mesmo tempo professor politico, uma especie de guia, de mentor, na direção geral do paiz, que lhe abria o espirito para as coisas do governo e da administração, que lhe dirigia, até certo ponto, sem chegar, contudo, a substitui-lo no governo de fato da nação (LYRA, 1939. p. 171-172).

Coube a Aureliano Coutinho, após D. Pedro II assumir o governo em 1840, atuar como mentor político do jovem monarca até 1847, quando foi criado o Conselho de Ministros e ele afastado se deu cargo. A ele se atribui participação nas diversas mudanças ocorridas no Gabinete do Governo durante os sete anos que ficou encarregado, sendo que após seu afastamento, ocupou cargo de Senador até a morte em 1855 (LYRA, 1939).

Schwarcz (1998) afirma que a influência do trio –D. Mariana, Paulo Barbosa, e Aureliano Coutinho –, foi muito significativa na formação do Imperador até pouco depois da maioridade[8]. Como estavam sempre próximos de Pedro II, puderam influenciá-lo em diversos momentos.

Outra presença na vida de D. Pedro II seria a de José Bonifácio de Andrada e Silva, seu primeiro tutor. Caberia ao tutor atuar junto do pequeno Imperador em sua capacidade pessoal e civil, sendo responsável pelos assuntos domésticos, por sua criação e educação. Embora não responsável por atividades ligadas à política, o tutor tinha grande possibilidade de influenciá-lo. Conhecido por sua defesa à monarquia e pela persistência em defender o que acreditava[9], José de Bonifácio foi escolhido por D. Pedro I para proteger D. Pedro II de possíveis influências liberais e republicanas durante a menoridade (BARMAN, 2012).

Como tutor José Bonifácio se dedicaria ao cuidado do príncipe e das princesas. No entanto, ele não conseguia afastar-se dos assuntos políticos e exercer  apenas as funções tutelares. Tal fato, fez com que se envolvesse em polêmicas que acabaram por afastá-lo da tutoria. Em 15 de dezembro de 1833 José Bonifácio foi afastado e a tutoria de D. Pedro II ficou a cargo de Manuel Inácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, o Marquês de Itanhaém. O novo tutor preservar-se-ia “[...] afastado das lutas políticas, dedicava-se às suas honrosas e delicadas funções de tutor da família imperial. Cabia-lhe cuidar, principalmente, da educação do imperador” (MONTEIRO, 1925, p. 35).

Conhecedor da importância de o príncipe receber uma boa educação, pois desta dependia o futuro da monarquia e do país, Marquês de Itanhaém elaborou um guia para os professores e mestres de D. Pedro II seguirem. As Instruções para serem observadas pelos Mestres do Imperador na Educação Literária e Moral do Mesmo Augusto Senhor, eram compostas por 11 artigos, em que o tutor descreve a formação literária e moral que deveria sustentar as aulas ministradas a D. Pedro II. Desde sua infância o futuro monarca deveria ter seu coração e seu cérebro encaminhado para o bem e para a verdade (MONTEIRO, 1925). Na visão de Monteiro (1925), Marquês de Itanhaém

[...] visou modelar, nessa alma de criança, um homem de bem e um bom imperador, justo mas não violento, digno mas não soberbo; um homem que, embora monarca, nunca se esquecesse de que era um homem. E, além de ser um homem de bem e um bom dirigente do seu povo, era preciso que elle fosse tambem um homem culto, não possuindo a cultura falsa dos conhecimentos inuteis, mas sim a cultura solida e positiva dos conhecimentos exatos (MONTEIRO, 1925, p. 36).

Educado de maneira a ser um monarca culto, D. Pedro II se tornou um Imperador com destaque entre os intelectuais de sua época, principalmente pelo envolvimento que tinha com as ciências. Aos 22 anos, o jovem monarca passou a organizar uma política voltada para a construção da identidade nacional, seja participando de instituições relacionadas à arte, ciência e letras, tanto nacionais quanto internacionais, seja financiando intelectuais, artistas e profissionais de diferentes áreas da ciência (SCHWARCZ, 1998).

Aos olhos de D. Pedro II, a palavra progresso estava vinculada à ciência e ao intelecto. Deste modo, ele passou parte de sua vida dedicando-se aos estudos; gostava ainda de ciências e línguas exóticas e não descartava aprender novos conhecimentos (SCHWARCZ, 1998).

Mesmo o monarca demonstrando grande interesse pela instrução, não se tinha no país um ensino organizado de acordo com o que se era necessário para uma formação científica aos moldes europeus, tão almejado no período. Apesar de a Constituição de 1824 garantir o ensino primário gratuito a todos, ainda no Segundo Reinado o número de escolas era insuficiente e a maior parte das instituições concentradas na Corte, não condizendo com a instrução que o monarca deveria receber. O governo monárquico até demonstrava preocupações com a educação superior, mas ela não era suficiente. Já a educação primária ficava a cargo das províncias, o que também não garantia uma especificidade única, ou que propiciasse as características científicas do modelo europeu (SCHWARCZ, 1998).

As instituições na qual o Estado financiava estavam ligadas a construção do perfil nacional, o desenvolvimento das ciências, a construção da história do país, a produções artísticas. Além do Colégio Pedro II, que ministrava o ensino secundário e era mantido pelo Estado por ser na Corte, estavam o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Belas-Artes, o Imperial Observatório, o Museu Nacional, o Arquivo Público, a Biblioteca Nacional, a Imperial Academia de Música, o Laboratório do Estado e o Jardim Botânico (SCHWARCZ, 1998).

4 D. Pedro II nas páginas da revista Semana Ilustrada

Durante o Segundo Reinado as revistas ilustradas ganharam lugar de destaque na imprensa brasileira. Um dos exemplos mais enfáticos é a revista Semana Illustrada, produzida entre os anos de 1860 e 1876 pelo alemão Henrique Fleiuss. Para além da ilustração, a revista é considerada o primeiro periódico a se estabelecer no ramo da caricatura. Em suas páginas a revista tratava assuntos dos mais variados, porém, não deixava de lado o discurso modernizador que emergia no período. Nesta perspectiva, também buscou aliar a figura de D. Pedro II a um universo de valorização das artes, das ciências e das letras.

A revista Semana Illustrada teve seu início com o empreendimento de Henrique Fleiuss, um alemão nascido na cidade de Colônia no ano de 1823. Fleiuss deixou seu legado em um vasto currículo, sendo que estudou arte, pintura, desenho e gravura, nas cidades de Colônia e Dusseldorf. Também estudou Ciências Naturais e Música, em Munique. Para além, empreendeu viagens a vários países da Europa, tendo vindo para o Brasil no ano de 1858, com 35 anos de idade, e por aqui ficou até a sua morte em 1882 (ANDRADE, 2011).

Henrique Fleiuss era filho de um professor em filosofia e diretor da Instrução Pública da Prússia, o que lhe possibilitou estudar em diferentes escolas e aprender várias línguas.

Ao chegar ao Brasil, Henrique Fleiuss, tinha o intuito de refazer a viagem realizada pelo naturalista Carlos Frederico Philippe Von Martius[10], com quem estudou na Alemanha. No ano de 1858 ele desembarcou na Bahia e viajou por algumas províncias do Norte para realizar aquarelas encomendadas por Von Martius. Do momento da chegada pouco se conhece sobre o que Fleiuss produziu, mas acredita-se que grande parte dos trabalhos produzidos foram incorporados a obra de Von Martius (ANDRADE, 2011).

Henrique Fleiuss fixou residência no Rio de Janeiro em meados de 1859. Com ele, trouxe uma carta de recomendação para D. Pedro II, escrita pelo naturalista Von Martius. Junto ao seu irmão Carlos Fleiuss e seu amigo Carlos Linde, estabeleceram sociedade, a “Fleiuss, Irmão & Linde”, que permitiu o início da publicação da revista Semana Illustrada, em dezembro de 1860. Em janeiro do mesmo ano haviam estabelecido o Instituto Artístico, oficina de arte, criada a fim de preparar profissionais para atuarem no ramo da litografia (FLEIUSS, 1923).

A revista Semana Illustrada foi o principal trabalho de Henrique Fleiuss. Além de publicar esse periódico entre os anos 1860 e 1876, também editou outros periódicos, como a Illustração Brasileira entre 1876 e 1877, e a Nova Semana Illustrada em 1880, com apenas quatro publicações. Publicou inúmeras obras, entre livros, pinturas, revistas científicas, estampas e mapas. Suas obras tinham uma proximidade com o país, bem como desvelavam sua relação com D. Pedro II.

Sem dúvida, uma das suas maiores contribuições para a modernização do país foi o periódico Semana Illustrada. Para Sodré (2011, p. 307), a Semana Illustrada “[...] não era crítica, mas fazia campanhas como a da instalação da rede de esgotos no Rio, abolindo-se o uso dos famigerados tigres”. Segundo o autor, o caráter pouco crítico de Henrique Fleiuss estava relacionado ao fato de ser amigo da casa Imperial, a qual sempre demonstrou grande prestígio, porém, embora fosse um “grande desenhista e litográfico, não era humorista nem crítico” (SODRÉ, 2011, p. 307).

No entanto, Nery (2011) salienta que ainda que não se possa negar o conservadorismo da Semana Illustrada e a admiração de Henrique Fleiuss a D. Pedro II e a família Imperial, não se deve desconsiderar o caráter crítico que a revista trazia em seus textos e ilustrações sobre a sociedade.

A atenção à cidade e seus habitantes, às novas formas de sociabilidade surgidas no espaço urbano, à observação da vida burguesa que timidamente se instalava no Rio de Janeiro de meados do XIX, era o principal foco do periódico editado por Fleiuss. Não perdoando o descaso das autoridades com a sede do Império e mantendo constante campanha pela melhoria dos serviços públicos, a revista proporcionou ao leitor, com uma constância editorial inédita, a experiência de perceber criticamente o seu próprio cotidiano. Complementando a proposta jornalística, a Semana trazia, ainda, resenhas literárias, crítica teatral e o comentário sobre as temporadas líricas (NERY, 2011, p. 175, grifo do autor).

Henrique Fleiuss buscava a imparcialidade sem deixar de criticar os problemas encontrados na sociedade brasileira, principiante no seu meio. Manifestar-se por meio das ilustrações era uma forma de atingir não só o grupo letrado, mas também analfabetos, que constituíam a maior parte da população. A ilustração seria o recurso ideal para Fleiuss reclamar de forma leve as relações sociais. Sobre as produções ilustradas da Semana Illustrada, Max Fleiuss (1923) desvela que 

[...] as charges da Semana Illustrada provocaram o riso espontâneo e natural de todos, sadio, communicativo e forte como a gargalhada dos deuses de Homero; e não apenas o falso sorriso amarello de sarcasmo, sublinhando por um rictus convencional e contrafeito. Ainda hoje, ha muita gente que se recorda dos sucessos alcançados pela veia do  hábil artista, com as suas criticas à saia-balão, ao entrudo, ao antigo systema de exgottos e illuminação da cidade, aos frequentadores do Carceller, do Provisorio, às festas populares, scenas domesticas, praias de banhos, typos da politica e das ruas, etc., etc. (FLEIUSS, 1923, p.775, grifos do autor).

A revista Semana Illustrada tinha o formato pequeno[11], 24 x 17 1|2, oito páginas, sendo quatro dedicadas a textos escritos e quatro para ilustrações. O periódico tinha publicação semanal e circulava aos domingos. Do mais, contava com assinaturas anuais, semestrais e trimestrais, além da venda avulsa.

A Semana Illustrada, tal qual uma lanterna mágica seria responsável por, através do humor, criticar os costumes. No primeiro texto traz “Censuraremos rindo, e comnosco rirá o leitor, pois todo esse mundo movediço que se enfeita ao espelho, apregoa o seu valor extremo há um lado vulnerave onde penetra o escalpello da critica, há uma parte que convida ao riso” (SEMANA ILLUSTRADA, 1860, p. 2).

Em todas as edições a capa do periódico viria dividida em duas partes. Em cima estaria uma imagem que se repetiria em todas as edições: O Dr. Semana rodeado de pessoas, segurando em sua mão direta uma edição da Semana Illustrada. Na mão esquerda está acionando a Lanterna Mágica[12] que tem em sua frente, os dizeres Ridendo Castigat Mores, algo próximo a Rindo Corrigem-se os Costumes.

Dr. Semana foi responsável por assinar grande parte das publicações da Semana Illustrada. Ele era representado como sendo um sábio europeu, de cabeleira romântica; já o Moleque, negro, era seu ajudante-escravo. Ambos seriam os protagonistas da revista, e colocavam-se em diversas situações, nas quais Henrique Fleiuss pretendia produzir a crítica. Por meio das ilustrações, “[...] a dupla caricatural manifestou a antinomia civilização/barbárie que mobilizava o pensamento nacional naquele momento” (NERY, 2011, p. 177), levando nas páginas da Semana Illustrada o antagonismo de uma sociedade que se dizia moderna, mas apresentava pensamentos e atitudes conservadores e retrógados.

Nos quinze anos de publicação, Dr. Semana e o Moleque atuaram como personagens principais e apresentadores da revista, trazendo em seus diálogos fatos da atualidade, que não passavam despercebidos pelos olhares críticos e maliciosos dos personagens.

A última edição da revista trouxe na capa, como de costume em quase todas as edições, um diálogo entre Dr. Semana e o Moleque. Dessa vez em tom de despedida. A edição 797, publicada em 19 de março de 1876, foi a última. No diálogo avisavam da longa viajem que fariam. Entretanto, em nenhum outro momento da edição, Henrique Fleiuss, relatou aos seus leitores que seria a última publicação da Semana Illustrada.

De acordo com Max Fleiuss, as caricaturas publicadas na Semana Illustrada eram quase todas de autoria de Henrique Fleiuss. Porém, ele contou com a ajuda de figuras atuantes das artes e da literatura de sua época, como: Flumen Junius, Pinheiro Guimarães, Aurelio de Figueiredo e Angelo Agostini. Na escrita participaram mais assiduamente Machado de Assis, Victorino de Barros, Flavio Farneze, Quintino Bocaiuva, Augusto de Castro, Achilles Varejão, Pedro Luis Pereira de Souza, Antonio de Castro Lopes, Ernesto Cibrão, Henrique Cesar Muzzio, Saldanha Marinho, Felix Martins e Bruno Seabra (FLEIUSS, 1923, p. 772).

Embora não se tenha como saber pelas publicações do periódico o real motivo que levou ao fim da Semana Illustrada em 1876, alguns autores afirmam que seu fim está relacionado aos problemas financeiros enfrentados por seus editores. Dos três fundadores, apenas Henrique Fleiuss e Carlos Fleiuss continuavam na publicação, pois Carlos Linde falecera em 1873. Andrade (2011) afirma que problemas financeiros enfrentados pelos irmãos Fleiuss os levariam a pensar em outro projeto, encerrando as publicações da Semana Illustrada e lançando no mesmo ano a Illustração Brasileira, um projeto maior, mas que durou apenas dois anos.

Durante pouco mais de 15 anos, 797 edições, 6.376 páginas de escrita e ilustrações, Henrique Fleiuss e seus colaboradores buscaram levar para seus leitores o que se propusera em sua primeira edição, Ridendo Castigat Mores.  O fim da Semana Illustrada seria repercutido em outros periódicos. Exemplarmente, Bordalo Pinheiro, em seu periódico O Mosquito lamentaria o fim do periódico de Henrique Fleiuss, apresentando uma ilustração do Dr. Semana em um caixão e aos pés o Moleque, que chora a morte do seu senhor. A ilustração apareceu acompanhada de uma oração fúnebre: “Chorae leitores, / chorae, que a SEMANA já morreu; / Com a morte da SEMANA / Toda graça se perdeu!!!” (O MOSQUITO, 15 abr. 1876, p. 1). Na figura 4 observamos a capa do periódico O Mosquito, divulgando com ilustração o fim da Semana Illustrada.

Após esse breve resumo sobre o periódico, voltaremos a atenção para a finalidade dessa pesquisa, identificar as publicações sobre a imagem de intelectual do Imperador D. Pedro II na revista Semana Illustrada.

A vida de D. Pedro II pode ser acompanhada pelos jornais e revistas do século XIX. Desde seu nascimento, a imprensa publicou e opinou sobre os atos do Imperador do Brasil. Desta forma, voltaremos a uma análise das informações contidas no periódico Semana Illustrada, a qual desvela uma imagem do Imperador.

Antes de iniciarmos a exposição, é importante ressaltar que Henrique Fleiuss considerava que a Semana Illustrada era apartidária, assim, pretendia mostrar as mazelas da sociedade, mas sem se colocar como defensora de algum partido político. Suas caricaturas traziam humor irônico por meio dos diálogos travados entre Dr. Semana e o Moleque. No entanto, suas publicações sobre D. Pedro II, tanto na escrita quanto nas ilustrações, soavam mais de caráter noticioso, com destaque ao lado intelectual e moderno do Imperador, enquanto promotor das ciências, das artes e do progresso do país.

Todo ano, a primeira edição publicada após a data de aniversário do Imperador, 2 de dezembro, trazia uma homenagem a D. Pedro II. A edição 208 traz o texto intitulado O Dia 2 de Dezembro, nele se podia ler:

Príncipe illustrado, infatigável obreiro do progresso, ameno no trato, generoso e clemente, interessado com todo o fervor na prosperidade da patria  e na sustentação dos brios nacionaes, é S. M. o Imperador o Monarcha mais popular do actual seculo, e sem duvida o mais digno de popularidade pelas virtudes civicas e privadas de que exhibe constantes provas.

Ligando o seu augusto nome a todos os melhores effectuados em seu trabalhoso reinado, protegendo as artes e as letras, de que é inquestionavel ornamento, lutando com difficuldades e assoberbando-as nos tempos, que correm tão pouco bonançosos, sempre o primeiro na estacada quando se trata de um feito nobre, de uma acção magnanima, de um acto meritorio, S. M. o Imperador inspira à Nação, que se ufana têl-o por Chefe, a segurança de que ha de ir caminho dos grandes destinos, que lhe estão fadados e lhe doura o reconhecimento e as efusões de prazer quando festeja e saúda o Dia 2 de Dezembro, que para ella nunca deixou de fulgurar radiante de esperanças desde o auspicioso anno de 1825 (SEMANA ILLUSTRADA, 04 dez. 1864, p. 1658).

O uso de tantos adjetivos evidencia mais uma vez a identificação de Henrique Fleiuss ao Imperador.

As notícias sobre eventos também foram utilizadas para se engrandecer a imagem de “mecenas” de D. Pedro II. Ao mesmo tempo em que se divulga, exalta-se o Imperador. Na edição 93, publicada em 21 de setembro de 1862, as páginas 6 e 7 traz uma nota divulgando a composição da comissão organizadora da Exposição Artística que viria a acontecer. A edição expôs o nome de artistas nacionais e estrangeiros que participaram do evento representando as várias artes, sendo elas pintura histórica e paisagem, flores, trabalhos delicados a pena, gravura, arquitetura, miniatura, desenho, pintura de decoração, litografia, artes em ferro, entre outras. Destacava também o importante apoio que D. Pedro II dava ao desenvolvimento do país. Foi assim que publicou os seguintes  dizeres “[pela] sombra do Sr. D. Pedro II, protector nato de todas as emprezas que redundam em gloria, progresso e verdadeiro explendor do Brasil, não ha obstaculos que se não possam vencer, nem estorvos que se não aplainem” (SEMANA ILLUSTRADA, 21 set. 1862, p. 740).

Em outra publicação, na edição 95, de em 5 de outubro de 1862, novamente uma notícia se transforma em momento de elevação da imagem de D. Pedro II.

Apesar de todas as contrariedades que o Sr. Antonio José da Rocha encontrou, a exposição das tres nobres artes, Pintura, Scultura e Architectura, terá lugar proximamente no Paço da Cidade, o qual foi cedido generosamente por S. M. O Imperador, protector nato do progresso [...] (SEMANA ILLUSTRADA, 05 out. 1862, p. 753).

Colocado como protetor do progresso e incentivador da modernização do país, a Semana Illustrada mostra nesses pequenos detalhes seu posicionamento a favor de D. Pedro II. Percebe-se nos termos utilizados que Henrique Fleiuss tencionava passar aos seus leitores a imagem de um monarca envolvido com o desenvolvimento do país. Toda esta característica de D. Pedro II, certamente era oriunda da sua formação que, como ficou caracterizado na segunda parte deste trabalho, foi consoante com sua participação no IHGB, na Acadêmica de Belas Artes e no Colégio Pedro II.

Ainda sobre as características de D. Pedro II, enquanto um Imperador “protetor das ciências e das artes”, vale destacar a edição 283, publicada em 13 de maio de 1866, na qual a seção Novidades da Semana trouxe uma nota sobre a chegada de importante intelectual ao Rio de Janeiro, e mais uma vez uma simples notícia é utilizada para destacar a participação de D. Pedro II no mundo intelectual.

Está de volta a esta côrte, e já fez a sua primeira prelecção,o sábio professor Agassiz.

Sua Majestade o Imperador asistio à essa festa da sciencia, na forma do costume, e ouvio, no meio de um numeroso concurso o bello discurso do grande professor (SEMANA ILLUSTRADA, 13 maio 1866, p. 3157).

Ao noticiar sobre a segunda Exposição Nacional, ocorrida na Corte no mês de outubro de 1866, o periódico destaca a contribuição de D. Pedro II, como sendo o facilitador do evento. Sem poupar elogios, o periódico expôs as benesses propiciadas pelo Imperador como sendo o “arauto da civilização”.

Todos tem visto o adiantamento das fabricas, a perfeição dos artistas, a diminuição do custo dos generos.

Sejamos, então, civilisados tambem; ergamos um herrah de contentamento ao encarar o Palacio, em que se aninha o progresso do Brasil, e   agradecemos de coração ao Primeiro Protector das artes e da industria a ocasião, que Dá ao paiz, em que Nasceu, e que sempre Lhe foi risonho, para reunir os esforços de seus filhos, e mostrar a uberdade deste solo abençoado. Ao Imperador deve o Brasil mais este grande beneficio (SEMANA ILLUSTRADA, 21 out. 1866, p. 2443).

O incentivo de D. Pedro II para a modernização do Brasil ficou evidente nas publicações da Semana Illustrada. A edição 160, por exemplo, veio acompanhada de suplemento especial. Além das oito páginas rotineiras publicadas, a revista acompanhava folheto de cinco páginas intitulado VERSOS / para balas de estallo parlamentares e mundanos. As quatro primeiras páginas são compostas por versos e a última traz uma ilustração nomeada “Sua Majestade Imperial O Senhor D. Pedro II. Assistindo a produção de gelo artificial com a máchina do Sr. Carre, de Paris. Privilegiada para todo o Império do Brasil por decreto n. 2987, de 14 de Outubro de 1862” (SEMANA ILLUSTRADA, 03 jan. 1864, p. 5).

O decreto concedia a Ferdinand Philippe Edouard Carré a exclusividade por 10 anos, a contar da data do decreto, para introduzir no Brasil a sua grande invenção: a máquina de fazer gelo. O decreto ainda estabelecia o preço pelo qual o gelo poderia ser vendido, sendo que cada libra do produto poderia chegar ao máximo de 80 Réis. Ressaltava que o decreto perderia a validade se no prazo de 1 ano  não houvesse produção de gelo suficiente para atender as necessidades da Capital (BRASIL, Decreto nº 2.987, de 14 de Outubro de 1862).

Os elogios a D. Pedro II voltavam-se sempre ao seu papel de mecenas das artes e incentivador da prosperidade do país. Com o início da Guerra do Paraguai, outra faceta passa a ser abordada pela Semana Illustrada e fazer parte de sua coletânea de elogios ao Imperador.

A edição 247, publicada no dia 3 de setembro de 1865, traz o texto Dedicação Imperial, onde enaltece a figura de D. Pedro II, destacando que além de todas as qualidades já conhecidas do Imperador na área das ciências e das artes, ele estava apresentado grande desenvoltura na Guerra do Paraguai.

[...] expande-se o coração brasileiro, enobrece-se o orgulho nacional ao apreciar-se o como S. M. o Imperador desenvolve actividade em tudo quanto concerne à defesa e desaffronta do Imperio, entrando neste empenho patriótico o completo desbarato da força paraguaya que ousou depredar os campos e as povoações daquella provincia.

[...]

Sua attenção aos públicos negocios, a cooperação expontanea e generosa que constantemente tem prestado a desenvolvimentos materiaes iniciados e concluídos em seu reinado, a animação franca que tem despendido em pról da cultura das sciencias e das artes, as virtudes amenas da caridade, de que tantos e tão repetidos exemplos tem apresentado, quando de seu throno se acercão os desprotegidos da sorte, davao ao S. M. e não cessão de dar-lhe o brilho do verdadeiro merito.

Faltava reconhecer em S. M. o Imperador os predicados do homem das lutas marciaes. No regaço de paz durável, entregue a fatigantes estudos e a cuidados de outra ordem, S. M. nunca mostrou aspirações à colheita de louros em campos de batalha, colhia outros não menos virentes nas lides do progresso e da civilização, que o hão de transmitir à posteridade como modelo de soberano no systema representativo.

Agora o Sr. D. Pedro II, o muito amado Imperador do Brazil, está  mostrando que nem lhe falta essa virtude dos grandes reis cavalheiros (SEMANA ILLUSTRADA, 03 set. 1865, p. 1969).

O periódico defendeu também as viagens de D. Pedro II, como algo que servia de benefício para a construção da imagem do Brasil no exterior. De acordo com Schwarcz (1998), as viagens do Imperador para países estrangeiros sempre foram motivadas por controvérsias partidárias e discussões sobre a utilidade e necessidade de suas realizações. Portanto, ao se colocar como favorável a realização das viagens, a Semana Illustrada mais uma vez se mostrava adepta da defesa ao monarca.

Na edição 310, publicada em 18 de novembro de 1866, a revista se posicionou a respeito de boatos vindos da Europa sobre a possível ida do Imperador para os Estados Unidos, e o defendeu dizendo que:

É evidente que a viagem imperial, no caso de haver alguma idea a este respeito, só poderá ser effectuada depois do assentimento do corpo legislativo.

E por sua parte o corpo legislativo não póde deixar de aprovar a viagem do Imperador, uma vez que, terminada a guerra, possão os negocios públicos dispensar o concurso activo do chefe do estado.

Creio que não dou novidade alguma, dizendo, o que ha de vantajoso e altamente politico para o Brasil e para o imperador em semelhante viagem (SEMANA ILLUSTRADA, 18 nov. 1866, p. 2474).

Novamente, na edição 591, de 7 de abril de 1872, o periódico reafirmou seu posicionamento sobre as viagens do Imperador. No texto O Imperador, Dr. Semana noticiou sobre a primeira viagem em que D. Pedro II realizou na Europa, e destacou que sua passagem pela Europa era oportunidade de o país de se mostrar como uma civilização moderna, regida por um monarca sábio.

O Brazil, ouvindo os echos encomiasticos da Europa, ao descendente preclaro do duque de Bragança agradece os títulos immensos com que acabade representar-se a America ante o velho mundo.

Na majestade do regozijo popular mais esplende a soberania do rei-sabio.

[...]

Gloria ao rei que, disfarçado em simples particular, correu os paizes mais civilisados do outro hemispherio, exhibindo nos lumes da intelligancia prioridades mais estimaveis que todos os sequitos ostentosos com que se dão a conhecer as realezas transitorias (SEMANA ILLUSTRADA, 07 abril 1872, p. 4722).

Como se pode perceber, a simpatia de Henrique Fleiuss por D. Pedro II e sua família não faz de seu periódico menos importante e crítico do que os outros periódicos que foram publicados no período, como considerou Nelson Sodré (2011).  Ao apresentar um monarca envolto com as artes e ciências, que priorizava muito mais a formação de uma cultura brasileira do que outras áreas a qual devia se dedicar, Henrique Fleiuss não estava mascarando suas publicações, mas sim apresentando aos seus leitores aquilo que considera mais notável em D. Pedro II.

Considerações finais

Ao analisar a forma como a imprensa se desenvolveu no século XIX, percebe-se que na medida em que o Brasil foi tornando-se mais independente de Portugal, a imprensa foi traçando sua história, baseada na veiculação de diferentes ideais na tentativa de se esboçar os caminhos para a construção do Estado Nacional.

Nesta pesquisa foi possível observar que no século XIX, principalmente na sua primeira metade, a imprensa serviu como o único meio de se ter contato com alguma forma de educação para grande parte da população brasileira. Os periódicos serviram como meio de contato com a escrita, pois além de não se ter um ensino organizado, poucos livros eram publicados, sendo que a maioria dos que circulavam no Brasil vinham do exterior e tinham alto custo de aquisição se comparados aos periódicos.

Os proprietários dos periódicos, conhecedores da arma ideológica que tinham em suas mãos, buscavam defender suas ideologias de maneira a inculcar em seus leitores uma determinada imagem, não meramente, a figura de D. Pedro II, enquanto um mecenas das artes.

Através da imprensa o Imperador D. Pedro II foi elogiado – e, por vezes criticado, porém, está não foi a abordagem da nossa análise. Os periódicos, e de modo especial, a revista Semana Illustrada, colocavam-se estampando em suas páginas uma visão positiva sobre o Imperador. Em um país monárquico, a dualidade de posicionamento marcava os caminhos que eram traçados pela imprensa e, paralelamente, a história do país.

No entanto, a revista Semana Illustrada, não só era partidária do regime monárquico e do Imperador, como também fez grande propagação de sua faceta intelectual, mesmo que afirmasse não defender um único partido. O que vinha publicado nas páginas do periódico eram “verdades mascaradas” pela admiração de Henrique Fleiuss ao monarca. O alemão naturalizado brasileiro demonstrou em suas páginas, aquilo que, em sua visão, considerou atos de grandiosidade do Imperador. Dedicado à formação de uma cultura brasileira e sua representação no exterior, D. Pedro II fez o que melhor aprendeu durante sua infância: buscar conhecimentos eruditos que visam formar um monarca culto aos moldes da época.

Embora não tenha se preocupado tanto em desenvolver o ensino formal a todas as classes sociais, o Imperador se envolveu com diversas instituições, financiou bolsas de estudos no exterior para vários artistas e cientistas e patrocinou projetos científicos. Também custeou projetos relacionados à formação intelectual do país com seu próprio dinheiro. Foi responsável, enquanto incentivador e financiador, de grande parte da iconografia que se tem produzida durante seu reinado.

Por meio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Imperial de Belas-Artes, do Colégio Pedro II, entre outras instituições, permitiu que diversos estudos fossem desenvolvidos e que obras artísticas fossem produzidas, bem como expostas e catalogadas, como por exemplo, as obras que retratam a fauna e a flora do país. Ao que nos revelou a pesquisa, seu grande objetivo era formar uma identidade cultural do país, promovendo o progresso e a modernização nos trópicos.

Era esse lado de intelectual e incentivador da formação da cultura do país que a Semana Illustrada passou a transmitir em suas publicações, uma imagem do Imperador estampada em várias edições. Para Henrique Fleiuss, D Pedro II era digno de todo o engrandecimento pela sua dedicação em busca do progresso e da modernização do Brasil. Neste sentido, representou em suas ilustrações situações em que o monarca praticava ações em favor do desenvolvimento do país.

As publicações na Semana Illustrada mostram que apesar de Henrique Fleiuss ser partidário de D. Pedro II, não deixava de criticar os políticos e as situações que considerava desagradáveis. Seus escritos e publicações são importantes para se conhecer como estava estabelecido o incentivo de D. Pedro II ao progresso e a modernização, na visão de um periódico que foi publicado por 15 anos e foi formador de parte da opinião social. Logo, a Semana Illustrada de certa forma serviu como propagadora de uma ideologia a favor do Imperador e do governo monárquico.

Sendo assim, torna-se inegável a contribuição da imprensa  para se conhecer as ideologias veiculadas a determinados períodos, neste caso, o século XIX. As ideias por ela defendidas tendiam a influenciar diretamente o público leitor, sobretudo  na defesa de um Imperador intelectual, “mecenas” das artes, da ciência,  do progresso, e da modernização do Brasil.

Referências

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SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM: Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011. 705 p.

 

 

[1] José Carlos de Oliveira realizou um estudo detalhado sobre o papel desempenhado pela Gazeta do Rio de Janeiro na constituição da cultura científica durante o governo joanino. Consultar em A Cultura Científica e a Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1821). Revista da SBHC, Rio de Janeiro, n. 17, p. 29-58, 1997.

[2] A primeira caricatura publicada em um jornal brasileiro é atribuída a Manuel de Araújo Porto-Alegre (1896-1879) no impresso Jornal do Commercio, no ano de 1837. Como descreve Martins (2013, p. 65-66), tratava-se de “[...] Uma cena de suborno, metáfora prenunciadora e recorrente até nossos dias da corrupção no país”. Nas próximas páginas dessa pesquisa, ao tratar especificamente da imprensa ilustrada, serão apresentadas outras especificidades inerentes a obra de Porto-Alegre.

[3] A definição dos gêneros foi se estabelecendo gradualmente e diversos sentidos foram atribuídos  aos termos utilizados na imprensa. Jornal, revista e magazine são os mais correntes e foram se ajustando com o tempo. Hoje é comum definir o gênero jornal ao periódico de publicação diária, em folhas separadas e ao gênero revista para os de periodicidade espaçada, enfeixadas por capa e com grande diversidade temática. No entanto, encontramos jornais semanais com grande variedade temática e revistas estritamente especializadas, o que faz com que a classificação de um periódico não se limita aos seus aspectos materiais e estruturais. Assim, a classificação de um periódico deve considerar o contexto em que foi produzido e os sentidos conferidos no momento de sua publicação (LUCA, 2006).

[4] Charles Paul de Kock (1793-1871) foi um novelista e dramaturgo francês.

[5] Segundo Schwarcz (1998), a Imperatriz Maria Leopoldina dedicou grande parte de sua vida aos estudos. Iniciou coleções nas áreas da antropologia, da numismática – ciência que tem por objetivo o estudo de moedas e medalhas,  da mineralogia e da arqueologia. Mais tarde D. Pedro II doaria ao Museu Nacional a coleção de sua mãe, que foi intitulada de Coleção Imperatriz Leopoldina (CARVALHO, 2007).

[6] D. Pedro I percebia que não havia recebido formação suficiente para ser um Imperador culto e racional, afirmando que ele e seu irmão, D. Miguel, não agiam de maneira adequada. D. Pedro II “[...] lembrava-se de ter ouvido dele, antes da abdicação, que ‘ele e o Miguel haviam de ser os últimos malcriados da família’, querendo dizer, com a expressão, mal-educados” (CARVALHO, 2007, p. 26).

[7]  Carvalho (2007) resume a relação de D. Pedro II  e D. Amélia, inferindo que ao partir para Portugal em 1831, a madrasta deixou uma carta de despedida, na qual “chamou d. Pedro de ‘menino querido’ e fez um apelo às mães brasileiras para que adotassem como filho o órfão coroado. Manteve depois intensa correspondência com o enteado. Chegaram até nós umas seiscentas cartas, em que tentava, mesmo de longe, orientar o jovem imperador [...]. Em 1871, D. Pedro a visitaria em Portugal em seu palácio das Janelas Verdes. A correspondência entre os dois perdurou até a morte de d. Amélia em janeiro de 1873” (CARVALHO, 2007, p. 16-17).

[8] A influência do grupo era tão perceptível que se referiam a eles como a facção áulica ou clube da Joana, em referência a um riacho de nome Joana que passava pelas bandas da Boa Vista (SCHWARCZ, 1998).

[9] Nos anos de 1822 e 1823, D. Pedro I combatia a favor da consolidação do Brasil como Estado-nação e teve como seu ministro-chefe José Bonifácio, importante articulador na derrocada dos inimigos do novo Império (BARMAN, 2012). Schwarcz (1998, p. 38) afirma que José Bonifácio “juntamente com a elite do Centro-Sul, a qual gravitava em torno da nova corte, empenhou-se na manutenção da unidade territorial do Império brasileiro, impedindo que se repetisse o exemplo da América espanhola”.

[10] Von Martius fez parte da comitiva que veio da Áustria junto com a Princesa Leopoldina em 1817, quando viajou ao Brasil para seu casamento com D. Pedro I. 

[11] Para a realização desta pesquisa utilizamos arquivos digitalizados pela Biblioteca Nacional Digital. Assim a informação sobre suas medidas foram retiradas de texto publicado por Max Fleiuss na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, volume 148, tomo 94, 1923, p. 776.

[12] De acordo com NERY (2011, p.175), “lanterna mágica, artefato ótico cuja invenção é atribuída ao alemão Athanasius Kircher no  século XVII, é uma referência literária e visual recorrente no século XIX, associando-se às primeiras experiências do cinema e tornando-se o símbolo da modernidade na literatura, no teatro e nas artes gráficas do período”.

 

Autores:

Sara Talitiane Viana Ana Machado Leandro de Lima - Mestranda em Educação PPE-UEM, Especialização em andamento em Psicopedagogia Clínica e Institucional DTP-UEM, Graduação em Pedagogia DPD-UEM. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Alessandro Santos da Rocha - Doutor em Educação PPE-UEM, Mestrado em Educação PPE-UEM, Graduação em História DHI-UEM.

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