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Resumo:

Diante das diversas queixas relacionadas ao fracasso escolar nos mais diversos contextos da sociedade, se tem sentido a necessidade cada vez maior da atuação de psicopedagogos. O presente estudo pretendeu investigar o quanto os educadores entendem sobre a função deste profissional e sobre como se dá essa atuação na escola, para refletir sobre a importância de uma ampliação e troca de conhecimentos entre os diversos profissionais da educação, de forma que se efetive uma diminuição no quadro de fracasso escolar que se tem observado.

Palavras-chave: Psicopedagogo. Educadores. Escola.

Introdução

                Os problemas e dificuldades de aprendizagem têm sido alvo de diversas discussões em vários âmbitos da sociedade e tem sido cada vez mais comum a constatação, por parte de todos, do grande número desses problemas, especialmente, como é de se esperar, nas instituições escolares, onde o processo de aprendizagem encontra um espaço privilegiado para se estabelecer em nossa sociedade.

Mas constatar não significa, necessariamente, é claro, que se entenda as muitas e difíceis razões por que esses problemas se dão. E, embora se coloque muita responsabilidade no que diz respeito ao fracasso escolar na figura do professor, é importante refletir sobre a formação oferecida a esse profissional diante dos grandes desafios que ele precisa enfrentar em seu trabalho e sobre como é difícil para ele compreender toda essa gama de problemas de aprendizagem sem essa formação.

É diante deste contexto que a figura do Psicopedagogo vem tendo uma grande relevância, pois esse profissional tem a missão e a formação necessária para estudar o processo de aprendizagem e suas dificuldades em seus vários aspectos, intervindo de maneira que esse processo se dê da melhor maneira e tais dificuldades sejam sanadas.

Mas será que um dos principais atores do processo de aprendizagem e também, pode-se dizer assim, vítima das mal compreendidas dificuldades de aprendizagem, o educador, sabe o papel da Psicopedagogia nesse contexto? Ele entende a atuação do profissional desta área na instituição escolar, direta ou indiretamente?

É com o objetivo de fazer uma reflexão em relação a essa compreensão do papel destes profissionais na escola e da importante relação entre educadores e eles para o desenvolvimento da aprendizagem, além de tentar perceber e refletir sobre os equívocos existentes ou não, presentes nessa relação, que se desenvolveu esse estudo, de maneira que ao final dele essa reflexão leve a uma melhor compreensão das relações que se estabelecem dentro do processo de aprendizagem e que assim se possa fazer esse processo cada vez mais bem sucedido.

Tendo em vista a clara necessidade do trabalho de psicopedagogos junto às instituições escolares, devido ao conhecido quadro de fracasso escolar entre os discentes, observa-se a indispensabilidade do trabalho conjunto deste profissional com os educadores.

                Reconhece-se, portanto, que é necessário que estes educadores conheçam o papel da Psicopedagogia na escola, para que assim possam, junto aos profissionais desta área, desenvolver o melhor trabalho junto aos estudantes, fazendo com que estes superem as dificuldades de aprendizagem muitas vezes advindas do próprio contexto escolar.

                Como nem sempre esse conhecimento fica claro para os educadores, é preciso fazer chegar a esteso real papel da Psicopedagogia na escola, para que ela assuma sua função da maneira mais produtiva e efetiva possível.

                Sente-se a necessidade, atualmente, de um professor mais reflexivo, que entenda melhor os problemas educacionais e como estimular uma melhor relação entre professor e aluno e entre estes e a família.

Para os professores, portanto, seria de grande importância ter em seu currículo algo relativo à área de Psicopedagogia, mesmo que parcialmente, para que pudesse entender um pouco desse trabalho, inclusive, em qual momento seria realmente adequado contar com ele e como ouvir este profissional quando com ele viesse a executar um trabalho com sua instituição e seus alunos.

Entende-se, portanto, a necessidade de englobar os psicopedagogos dentro das instituições escolares, para que a doença do século a qual batizam de “DÉFICIT DE APREDINZAGEM” não venha mais a fazer parte da cultura educacional atual. É possível que os psicopedagogos, assim integrados ao contexto escolar, levem aos professores uma ampla visão sobre a educação escolar e aos alunos o desejo de fazer parte desse novo contexto educacional.

Foi, então, com o objetivo de analisar a visão que os educadores têm em relação ao papel da Psicopedagogia na instituição escolar, através da identificação do papel desse profissional na escola, da verificação da relação entre ele e o educador, tanto no que de fato acontece, como nas expectativas criadas por ambos os profissionais, reforçando a necessidade de compreensão dos papeis destes atores do processo de aprendizagem, bem como a necessária integração de seus trabalhos para o sucesso deste processo; que se realizou este trabalho.

Diante do quadro cada vez mais crescente e visível de fracasso escolar é imprescindível que se reflita sobre o papel dos novos profissionais que têm adentrado nesse âmbito e sobre a contribuição que eles podem dar para os educadores.

Ao fazer essa reflexão não se pode deixar de questionar o quanto esses educadores compreendem a respeito da função da Psicopedagogia, que tem se mostrado uma das principais áreas de atuação nesse contexto, ao reunir em seu escopo, teórico e prático, diversas outras áreas afins de atuação na área educacional e ao agir de modo a unir os conhecimentos dessas áreas para compreender a aprendizagem e as dificuldades relacionadas a ela.

Como a atuação da Psicopedagogia está diretamente ligada, nas instituições escolares, de modo especial, também ao modo como o professor aprende e, a partir disso, como ele trabalha, é importante que se conheçam as relações entre psicopedagogo e professor, e que, não só o psicopedagogo compreenda o trabalho do docente, como que este docente compreenda o trabalho da Psicopedagogia e o quanto e como esse trabalho pode ajudar na efetiva realização da aprendizagem de todos envolvidos nesse processo, que deve ser de troca e nunca de doação unilateral, para que seja bem sucedida.

Como a Psicopedagogia é uma área relativamente nova em nosso país, inclusive no que diz respeito a sua formalização e formação, e por ter um corpo teórico e atuação multidisciplinar, é natural que gere algumas dúvidas e mesmo equívocos em relação à sua atuação e, por isso, se faz necessário que se questione e reflita sobre essa atuação, principalmente se se é um dos principais atores do processo de aprendizagem.

Foi feita uma pesquisa de campo de abordagem qualitativa entre professores de três instituições de ensino, uma pública, em que não há o suporte do trabalho de um Psicopedagogo, uma particular que também não conta com este trabalho e uma particular em que há um Psicopedagogo atuando. O Psicopedagogo desta instituição também foi entrevistado.

No que diz respeito à abordagem adotada diz Severino,

São várias metodologias de pesquisa que podem adotar uma abordagem qualitativa, modo de dizer que faz referência mais a seus fundamentos epistemológicos do que propriamente a especificidades metodológicas. (2007)

Os profissionais abordados foram cerca de quinze professores da escola pública e cinco de cada instituição privada, a partir deentrevistas semiestruturadas, com perguntas a respeito do conhecimento e perspectivas desses professores sobre um novo profissionalque vem se instalando nesse novo contexto da educação, o Psicopedagogo.

Entrevistou-se também um psicopedagogo para saber como eles veem sua atuação nas instituições, diante das perspectivas criadas em sua formação, em sua relação com os professores e como eles entendem que estes professores veem seu papel no contexto educacional atual.

A técnica de pesquisa de entrevista semiestruturada nos permite, a partir de questões básicas formuladas com base no que se pretende conhecer dos entrevistados, fazer uma reavaliação e ajuste das mesmas no decorrer das entrevistas, com vistas a se obter uma melhor qualidade de informação acerca do tema em estudo.

         A pesquisa, assim realizada, foi embasada por referências bibliográficas relacionadas ao assunto, visitando os teóricos que ajudam na reflexão e compreensão do atual contexto educacional e do papel do psicopedagogo nele e da relação do professor com este profissional, levando a melhor compreender como se dá essa relação e o que fazer para que ela seja ampliada e melhorada na busca pelo sucesso da aprendizagem.

Análise das respostas obtidas nas entrevistas

Como afirma Fernandez,

Necessariamente, nas dificuldades de aprendizagem que apresenta um sujeito, está envolvido também o ensinante. Portanto, o problema de aprendizagem deve ser diagnosticado, prevenido e curado, a partir dos dois personagens e no vínculo. (1991, p. 32)

Sendo assim, fica claro que o educador é parte muitíssimo importante na compreensão das dificuldades de aprendizagem apresentadas pelos aprendentes.

                Levando em conta essa constatação é que se deve refletir não só sobre como atua o professor no processo de aprendizagem, mas também como ele se coloca diante das dificuldades com que se depara no decorrer deste processo, inclusive entendendo como os outros profissionais da área de educação atuam e em que medida essa atuação contribui com o seu trabalho.

                Nesse trabalho de contribuição para melhoria do desenvolvimento da aprendizagem, na detecção, prevenção e resolução dos problemas que a afetam, o psicopedagogo tem tido crescente destaque e seu papel tem sido progressivamente reconhecido socialmente como um profissional de grande importância em todos os contextos em que a aprendizagem possa se desenvolver.

                Portanto, deve-se começar a questionar como este profissional tem sido visto e como tem atuado no atual contexto educacional, diante das dificuldades encontradas, pois isto pode trazer luz para discussões sobre a educação que serão frutíferas e trarão reais progressos para a área, visto que só se obtêm respostas a partir de perguntas, mesmo que elas nem sempre sejam fáceis.

Análise das respostas obtidas na escola pública

Das opções referentes à base dos problemas enfrentados pelos alunos, dos 14 professores entrevistados, 7 atribuem ao contexto social tais problemas, 3 ao caráter pedagógico, 3 ao cognitivo e 1 ao emocional.

As principais dificuldades apontadas, levando em conta estes fatores foram relacionadas à disciplina, concentração, leitura e interpretação de textos.

Com relação aos novos profissionais de educação, a maioria se sente otimista e veem como algo bom, positivo e que ajudaria bastante. Alguns demonstram a frustração com o fato de não haver uma obrigatoriedade da atuação destes profissionais nas escolas e instituições ligadas à educação, visto que sua presença seria de grande ajuda para eles e para os alunos.

No que diz respeito ao papel do Psicopedagogo e ao trabalho que ele desenvolve junto aos alunos, as respostas rápidas e vagas deixam transparecer a falta de conhecimento sobre a Psicopedagogia, embora em algumas respostas se demonstre a noção de que o foco seria a aprendizagem e as dificuldades a ela relacionadas, mesmo que tais dificuldades tenham sua origem em aspectos sociais e emocionais.

Pode-se perceber também nas respostas dadas a confusão entre o papel do psicopedagogo e o do psicólogo, chegando alguns a declarar, em suas respostas que o papel do psicopedagogo é “orientação psicológica”, ou ainda “... que desempenha um papel como de um psicólogo”, e “ele ajuda no desenvolvimento intelectual e comportamental da criança”, quando se sabe que o comportamento é levado em conta nas investigações psicopedagógicas, mas não é seu foco, sendo mais o foco da psicologia, sabendo que, como diz PONTES (2010),

O objeto de estudo da Psicopedagogia é sempre o sujeito aprendente e esta aprendizagem está sempre relacionada com o próprio sujeito, com o sujeito e o objeto, com o sujeito e o meio, portanto sistematicamente. (2010)

Em se tratando da relação professor Psicopedagogo, todos, de alguma forma, expressam que entendem que deve haver uma relação de parceria entre estes profissionais, mas a maioria não explica como se daria esta parceria, qual o papel de cada um na mesma.

Alguns dizem que o professor deve relatar ao Psicopedagogo os problemas observados no aluno ou encaminhar o mesmo àquele profissional quando tais problemas forem detectados, demonstrando que entendem que seria essa a parte que cabe ao professor na parceria com o Psicopedagogo.

Outros, ainda, relacionam à parceria a algo subjetivo, que é o desejo de ambos os profissionais de que o aluno tenha sucesso em sua aprendizagem, não apontando nenhuma ação que tais profissionais desenvolvam para se chegar a este objetivo, o que deixa claro o desconhecimento ou conhecimento bem limitado de como se dá o trabalho conjunto de educadores e Psicopedagogos.

A Psicopedagogia atua, no entanto, não só com os discentes, mas também com os ensinantes, inclusive analisando e refletindo sobre a forma como estes últimos também aprendem, pois:

Portanto, vemos que a Psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende, como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se produzem alterações na aprendizagem, como reconhecê-las, trata-las e preveni-las. (BOSSA, 2011, p. 33).

Perguntados sobre a diferença da atuação do Psicopedagogo na clínica e nas instituições quase nenhum soube responder. Alguns declararam mesmo não saber e outros repetem as, já não muito precisas, respostas referentes às questões sobre o papel do Psicopedagogo, não apontando qualquer diferença entre o trabalho na clínica e nas instituições. Um dos entrevistados chegou a afirmar em sua resposta não saber que o Psicopedagogo atuava em clínicas, acreditando que o profissional só atuasse junto às instituições educacionais.

Em outra resposta foi dito que a diferença seria o fato de na escola o profissional orientar alunos e professores, enquanto na clínica só o aluno seria orientado. Apenas um professor relacionou o trabalho clínico ao terapêutico, enquanto o trabalho na instituição pode assumir mais uma ênfase preventiva, embora não seja a isto que se resuma a diferença entre estas instâncias.

Quando perguntados sobre qual a responsabilidade do professor diante das dificuldades dos alunos a maioria atribui ao docente o papel de identificar tais problemas e se mobilizar de forma a buscar soluções para que eles sejam resolvidos ou “pelo menos amenizados”, criando novos “métodos” e buscando o apoio da família. Poucos apontaram a busca pelo Psicopedagogo e apenas dois afirmaram que a responsabilidade é apenas a de pedir ajuda, sem esclarecer de quem seria essa ajuda.

Essas respostas mostram que, em geral, o professor não se isenta da responsabilidade, mas também reforça o quanto se desconhece sobre o entrosamento do trabalho dele com o do Psicopedagogo e em que nível ele se desenvolve no decorrer do trabalho psicopedagógico, quando ele ocorre. Isso talvez seja reflexo da ausência do profissional na rede pública e de qualquer orientação ou formação nesta área.

Análise das respostas obtidas na escola privada

                O quadro das dificuldades enfrentadas pelos alunos apresentou um perfil diferente do que foi visto na análise da rede pública, pois, enquanto lá teve-se destaque o contexto social, aqui se destacou o caráter emocional com 7 dos 10 professores entrevistados atribuindo a este caráter a base das dificuldades apresentadas pelos seus alunos.

                Quando se trata de apontar essas dificuldades de forma mais específica os professores entrevistados são quase unânimes em mencionar o problema do comportamento, destacando que este é fruto da falta de limites e permissividade por parte dos pais. Problemas com leitura, ortografia, interpretação de textos são mencionados, mas em segundo plano, em relação aos problemas comportamentais.

                Perguntados sobre como se sentem em relação aos novos profissionais de educação as respostas se dividem quase igualmente entre aqueles que se sentem otimistas e aqueles que duvidam um pouco da qualidade da formação e preparação destes profissionais. Este sentimento pode ser fruto do pouco contato com estes profissionais e pouca divulgação a respeito de seu trabalho e de sua formação, mesmo por se tratar de uma formação e oficialização relativamente recentes.

                Então, sobre o papel do Psicopedagogo e do trabalho por este desenvolvido as respostas, nesse caso, foram um pouco mais aprofundadas que as do grupo de professores da escola pública, vendo-se, por exemplo, a expressão “dificuldade de aprendizagem” atrelada à análise do contexto e trabalho conjunto de profissionais de educação ou a esta área, de alguma forma, relacionada, na construção de novas medidas que ajudem a sanar as dificuldades encontradas, contando com o apoio da família.

                Mas também entre estes professores aparece um pouco a confusão do papel do Psicopedagogo com o do Psicólogo quando eles mencionam que o Psicopedagogo possa trazer soluções para os problemas emocionais que foram apontados por estes professores.

                Quando a questão é a relação entre o Psicopedagogo e o professor as respostas não divergem daquelas apresentadas pelos professores da rede pública entrevistados. Parceria é palavra que se repete, assim como a ideia de que ambos os profissionais têm preocupação com a qualidade da aprendizagem do aluno, mas não fica definido com exemplos de ações como essa parceria se daria, em que sentido se fala nela.

Deve se ter consciência que essa relação deve ser bem delineada e trabalhada para que dê certo, pois além da detecção das dificuldades, deve haver um trabalho conjunto para analisar o que levou a estas e como encontrar medidas de acabar com elas, o que pode requerer dos professores uma mudança na forma como conduzem seu trabalho e como veem seu próprio papel e analisar seu próprio papel pode ser a base para trabalhar de forma coordenada com outros profissionais.

                Um professor registra em sua resposta a resistência de alguns professores em aceitar a intervenção dos Psicopedagogos e realizar mudanças na forma de conduzir seu trabalho, com base nesta intervenção, pois “interpretam como se não estivessem dando conta do papel que exercem”. Esta fala chama a atenção, pois é a única em que se declara de forma aberta a existência de alguma resistência por parte do professor em relação ao profissional em questão, embora na questão sobre o sentimento no que diz respeito aos novos profissionais de educação, se perceba, na dúvida sobre a formação destes profissionais, um pouco desta resistência de forma subliminar.

                Quanto a diferenciação entre o trabalho clínico e o institucional escolar, também viu-se repetir um pouco o que aconteceu nas entrevistas com os professores da instituição pública, em que se retoma apenas o que já foi dito quanto ao papel e trabalho do Psicopedagogo, sem fazer distinção entre as duas abordagens. No entanto, agora, vê-se alguns poucos apontarem o papel preventivo do trabalho institucional, enquanto o clínico abrangeria mais o caráter terapêutico, o que, como já foi dito, não é suficiente para diferenciar a abordagem clínica da institucional, mas já permite perceber algum embasamento, visto que este critério é explorado nas teorias e estudos psicopedagógicos.

                No que diz respeito à responsabilidade do professor diante das dificuldades dos alunos, mais uma vez diz-se que a cabe ao professor identificá-las e buscar estratégias para saná-las. Mas, neste grupo há uma maior referência ao trabalho do professor com outros profissionais, demonstrando um maior conhecimento sobre, pelo menos, alguns deles, ou mesmo que já estão acostumados com algum suporte, visto que em ambas as instituições há Psicólogos, o que, de alguma forma, coloca estes educadores em contato com um apoio de outros profissionais na escola.

Análise da entrevista com a Psicopedagoga

                A Psicopedagoga entrevistada confirma a queixa dos professores da escola pública sobre as dificuldades relatadas sobre os alunos, em relação ao comportamento, desobediência e falta de limites, como resultado da permissividade dos pais.

                Relata se sentir bem recebida por parte dos educadores, que, segundo suas observações, “na medida do possível, têm buscado melhorias na sua área, porém estão sobrecarregados com as cobranças e falta de limites dos alunos”.

                Diz ainda estabelecer uma relação de parceria em que auxilia os docentes, apoiando e orientando-os quando estes compartilham os problemas encontrados e que eles buscam analisar os elementos que facilitem ou dificultem o processo de ensino-aprendizagem, buscando intervir, sob a sua orientação, na superação destas dificuldades.

                No entanto, ao ser perguntada sobre o trabalho que desenvolve na instituição, afirma orientar os discentes quantos os valores morais e regras ou limites, além de realizar um plano de estudo que viabilize o hábito e a organização dos estudos. Mas nesta fala percebe-se que o papel do profissional foi, de alguma forma, minimizado, ou mesmo desviado, visto que, segundo PONTES,

O trabalho do psicopedagogo na escola é de prevenção das dificuldades de aprendizagem. Ou seja, vai fazer um trabalho institucional: averiguar a formação dos professores; o currículo que está sendo dado e se está sendo adequado às necessidades dos alunos. E a partir dessas necessidades, se o professor está ou não preparado para atender ao aluno. O psicopedagogo vai intervir na formação do professor, supervisor ou orientador pedagógico.(2010).

                Talvez isso explique porque mesmo aqueles profissionais que trabalham com o suporte de um Psicopedagogo, assim como aqueles que não o tem, não consigam definir claramente o seu papel e o seu trabalho, pois ele acaba não atuando de acordo com o que propõe sua formação.

Análise comparativa das entrevistas

Embora se deva chamar a atenção para o caráter qualitativo e não quantitativo da pesquisa, mesmo apresentando algumas diferenças, advindas, como se espera, do diferente contexto social em que estão inseridos os grupos de professores entrevistados, no que concerne ao foco deste trabalho, que está em como é percebido ou entendido o papel do Psicopedagogo pelos educadores, pode-se perceber que as respostas refletem uma insegurança ou mesmo desconhecimento em relação à atuação daquele profissional, mesmo dentre aqueles que trabalham em contato com ele, o que pode ser, de alguma forma, entendido, a partir do que diz Bossa:

A Psicopedagogia se encontra em fase embrionária, e seu corpo teórico acha-se em construção, amalgamando-se ou estruturando o seu arcabouço lógico-principal ou ideal.(2011, p. 44).

                Ou seja, assim como em quase tudo relacionado com a educação, os progressos são muito lentos e levam muito tempo para chegar adequadamente para aqueles que fazem a base de todo esse processo, num desencontro com o contexto social mais amplo que se altera rapidamente, deixando os educadores desnorteados por causa de toda essa desatualização.

                A Psicopedagogia tem, portanto assumido grande importância, especialmente nas instituições escolares, pois ajuda a ampliar a visão a respeito dos diversos aspectos presentes e influentes na efetivação ou não da aprendizagem. E essa visão é algo necessário a todos aqueles envolvidos com a educação, por isso é importante que os educadores compreendam o papel da Psicopedagogia, tanto na relação com os aprendentes quanto no trabalho com eles mesmos, que, a partir desse trabalho, podem precisar fazer uma alteração em sua postura profissional e aceitar essa mudança como algo necessário para um melhor desempenho dele e de seus aprendentes. No entanto não foi o que foi percebido nas entrevistas com os professores consultados, seja na rede pública ou na rede privada, que mesmo contando com a atuação de um profissional em um dos casos,também não aparece compreender a atuação deste profissional em toda sua multiplicidade e extensão, o que, ao que parece, acaba limitando e desviando o trabalho do Psicopedagogo dentro das instituições, de acordo com o que se espera dele, talvez como reflexo mesmo dessa desinformação e despreparo de todos para receber o psicopedagogo.

Considerações finais

Diante da atual situação da educação no que diz respeito aos problemas e dificuldades dos alunos e da grande responsabilidade do educador em lidar com elas se faz necessário que se invista num trabalho de formação do mesmo que o coloque em contato com os novos conhecimentos construídos na área e com os novos profissionais da educação, afim de que se possa estabelecer um trabalho em equipe, que amplie as possibilidades de sanar os problemas que interferem na aprendizagem. Então, é muito importante, no contexto atual, que os professores conheçam o papel do psicopedagogo, tanto para delegar a ele certas funções como para melhor assumir as suas próprias.

É esse conhecimento que foi o alvo de reflexão no presente trabalho com base nas concepções teóricas e nos teóricos aqui, ligeiramente, mencionados, entre outros que serviram de base para essas e outras reflexões a cerca do tema abordado.

O estudo mostrou que há uma grande lacuna na compreensão por parte dos professores do que seria o papel do psicopedagogo, o trabalho que este desenvolve e como se dá a parceria entre estes profissionais para que a aprendizagem de todos se desenvolva.

Esta análise permite refletir sobre a importância de se discutir sobre o papel e formação do psicopedagogo na atualidade, em que ele se tem mostrado tão necessário, diante do quadro já mencionado, visto a sobrecarga de responsabilidades dada aos educadores e o caráter complexo e multidisciplinar de sua atuação, sobre a qual, como se tem percebido, não se sabe o suficiente.

 

Referencias

BARBOSA, Laura Monte Serrat. A Psicopedagogia no âmbito da instituição escolar. Curitiba: Expoente; 2001.

BERTOSO, Eunice B. F.; AMORIM, Andressa G. O papel do psicopedagogo na percepção dos professores. Psicopedagogia online. São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br> Acesso em 11 de agosto de 2014.

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 4 ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.

CARVALHO, FabríciaBignotto de; CRENITTE, Patrícia Abreu Pinheiro; CIASCA, Sylvia Maria. Distúrbios de aprendizagem na visão do professor. Psicopedagogia online.São Paulo, 2007. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org>Acesso em 11 de agosto de 2014.

FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada- abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. 2 reedição. Porto Alegre: Artmed, 1991.

FERNANDEZ, Alicia. O idioma do aprendente: análise das modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Tradução Hickel NK. Porto Alegre: Artes Médicas; 2001.

PONTES, Idalina Amélia Mota. Atuação psicopedagógica no contexto escolar: manipulação não; contribuição sim. Psicopedagogia online. Ceará, 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org>Acesso em 11 de agosto de 2014.

SEVERINO, Antonio J. Metodologia do Trabalho Científico. 23 ed. São Paulo: Cortez, 2007.

Notas

Artigo apresentado à Universidade Salgado de Oliveira, como requisito parcial para conclusão do curso de Pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional, orientado pela Professora Maria Quitéria Lustosa de Sousa.

 

Autores

Gleice Ribeiro Araujo - Graduada em Química pela Universidade Católica de Pernambuco. Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Salgado de Oliveira.

Paula Cristiane Bezerra Costa - Graduada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Salgado de Oliveira.

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