Esta premissa é hoje assumida pela maioria dos educadores. Entretanto, o uso que dela tem feito a pedagogia, tem se dado, ao que parece, numa via de mão única. A pedagogia moderna pretende estabelecer um "uso pedagógico do jogo", da brincadeira, enfim, do lúdico.|

Uma das grandes novidades trazidas à Educação pelas pesquisas do epistemólogo suíço JEAN PIAGET foi o fato, depois dele incontestável, de que o pensamento infantil é qualitativamente diferente do pensamento do adulto. E Esta premissa é hoje assumida pela maioria dos educadores. Entretanto, o uso que dela tem feito a pedagogia, tem se dado, ao que parece, numa via de mão única. A pedagogia moderna pretende estabelecer um "uso pedagógico do jogo", da brincadeira, enfim, do lúdico.|

Uma das grandes novidades trazidas à Educação pelas pesquisas do epistemólogo suíço JEAN PIAGET foi o fato, depois dele incontestável, de que o pensamento infantil é qualitativamente diferente do pensamento do adulto. Esta diferença aparece em diversos aspectos, principalmente no que se refere à primazia de uma concepção lúdica da realidade. O mundo existe para a criança na medida em que lhe é possível jogar com ele, extraindo dos objetos possibilidades de prazer e de harmonia. O jogo seria, então, a forma de interação por excelência da criança com seu entorno; sem ele não havendo, inclusive, condições suficientes para que esta interação ocorra.

Esta premissa é hoje assumida pela maioria dos educadores. Entretanto, o uso que dela tem feito a pedagogia, tem se dado, ao que parece, numa via de mão única. A pedagogia moderna pretende estabelecer um "uso pedagógico do jogo", da brincadeira, enfim, do lúdico.

Atualmente, têm se tornado clichê de publicidade educacional máximas do tipo "aprender brincando" ; as escolas estão repletas de jogos e de brinquedos cuja finalidade seria adquirir habilidades e, na melhor das hipóteses, ajudar na construção de conceitos (os chamados brinquedos pedagógicos). A todo momento, os educadores se perguntam se, enquanto propõem jogos ou brincadeiras, as crianças estão "trabalhando" este ou aquele conceito; em que este ou aquele jogo irá desafiá-la enquanto ser cognoscente.

Na verdade, o "uso pedagógico do jogo" pode ser apontado como um avanço. Não deixa de ser uma entrada do lúdico na sala de aula, antes quase que desprovida de ludicidade. O problema é considerar-se apenas este lado da moeda: existe ainda um outro lado, muitas vezes obscuro, do percurso em direção a um verdadeiro encontro de dois mundos – adulto e criança.

O que alguma reflexão mais acurada sugere é que o centro da prática pedagógica seria ainda, apesar deste avanço, a cultura do adulto. Estamos sempre tentando trazer a criança para o conhecimento culturalmente acumulado pelos homens (e até levá-lo a ela da melhor maneira possível...) mas quase nunca nos debruçamos sobre o conhecimento dela, sobre o verdadeiro manancial de conhecimentos que cada criança do mundo foi tecendo aqui e ali e que, a exemplo da teia cultural do adulto, também se instituiu como cultura.

Os educadores modernos conhecem e se interessam pelas diversas áreas de conhecimento (estão se tornando mais generalistas, propagam a interdisciplinaridade...). Buscam informar-se técnica e estruturalmente acerca dos diversos conteúdos no intuito louvável de transmiti-los da maneira interessante e didática, lúdica, prazerosa a seus alunos. Mas poucos se interessam em escutar as crianças, conhecer seus segredos e suas invenções.

A Cultura da Criança precisa, com urgência, ser resgatada pela Educação, sem contudo ser abarcada pela pedagogia, transformando-se em método pedagógico . O começo deste processo seria que o educador se dispusesse a escutar as crianças, como já se disse; mas a partir daí o caminho é longo em direção a uma mudança ampla de perspectiva. Pois quem assume a Cultura da Criança como viés educacional precisa abrir mão de certos pressupostos já consagrados pela pedagogia.

O encaminhamento básico seria educar em duas vias inter-relacionadas; assumir a educação como um encontro de dois mundos, em que nem um nem outro deve prevalecer.

Se para a criança é fundamental adquirir a cultura do adulto, para o adulto é também fundamental não deixar apagar-se a criança possível dentro de si .

O ambiente pós-moderno não é propício à ludicidade, à infância. As pessoas mais jovens estão sendo precocemente trazidas ao universo adulto: diariamente circulam pela mídia pesquisas mostrando que as crianças são cada vez menos criança, ou porque muito cedo precisam trabalhar para sobreviver, ou porque estão misturadas aos adultos dentro dos apartamentos (o quintal, reino da infância, quase não existe mais...). Além disso, os adultos, muitas vezes, não têm o cuidado de afastá-las de seus dramas, sejam eles domésticos ou mundiais. Assim, o que tem ocorrido é um desencanto precoce, uma adolescência antes da hora, antes das estruturas cognitivas estarem "armadas" o suficiente (mais uma vez citando o mestre Piaget, uma criança de 8, 9 anos não consegue ainda compreender o mundo segundo uma lógica formal, própria do pensamento adulto médio). O resultado disso são crianças agressivas, revoltadas, e acima de tudo angustiadas. E a pedagogia moderna tem muita responsabilidade nesse estado de coisas.

Em relação aos adultos, o quadro é semelhante. Poucos de nós enfrentam a vida de maneira leve, brincalhona. Alguns artistas, talvez. A maioria está submersa num mar de stress e de busca incansável de informação, como se fôssemos feitos de notícia e conhecimento. O que está por trás disso tudo é uma luta desenfreada por poder e possibilidade de consumo; talvez até saibamos disso, mas não conseguimos ser de outro jeito. Inteirar-se da Cultura da Criança poderia contribuir – e muito – para este fim.

Então, falar de jogo, de brincadeira, da Cultura da Criança, soa mal a nossos ouvidos: "Mas como? – argumentam alguns – num mundo competitivo como o nosso, as crianças precisam ser informadas desde muito cedo em diversos aspectos, não sobra tempo para ficar brincando". Em termos, é verdade. Mas apenas com algum auxílio de processamento de informação, elas aprendem como selecionar as informações e interpretá-las eficazmente. Tarefa relativamente simples para um educador bem formado. Entretanto, "ficar brincando" é que é prioritário para elas, e não informar-se. Pois "num mundo competitivo como o nosso" as pessoas precisam de formação muito mais que informação, inclusive para lidar de maneira saudável com esta competitividade, sem se tornar o tipo freqüente de adulto descrito acima. E é exercendo a ludicidade que a criança se forma como ser humano pleno.

No livro "Histórias de índio" Daniel Munduruky escreve que

Educação para nós se dava no silêncio. Nossos pais nos

ensinavam a sonhar com aquilo que desejávamos. Com-

preendi então que educar é fazer sonhar. Percebi que,

na sociedade indígena, educar é arrancar de dentro para

fora, fazer brotar os sonhos e, às vezes, rir do mistério

da vida.

Daniel comenta ainda, um pouco abaixo, que os sonhos ficam presos dentro das crianças ocidentais pós-modernas, sem tempo para sair; as crianças ocidentais não têm tempo para sonhar. Segundo me parece, também os adultos ocidentais não o têm. E se os adultos das sociedades indígenas ensinam suas crianças desta maneira, deve ser porque mantém para si a importância de sonhar, que aqui pode ser utilizado no mesmo sentido de brincar, de exercer o lirismo e a ludicidade.

Em termos propriamente educacionais, o que significa adotar a Cultura da Criança como perspectiva mestra de ação?

Em primeiro lugar, aceitar calmamente a idéia de que a escola não é o lugar por excelência da aprendizagem. Muitas aprendizagens significativas se dão fora da escola, e muitas crianças aprendem apesar da escola. A maioria dos educadores afins à Cultura da Criança, inclusive, não se encontram dentro das salas de aula, mas nas ruas, nos palcos, nos livros, nas bibliotecas, nos museus ... Daí a importância, para quem quer se iniciar nesta "arte de fazer sonhar" , de estar sempre se aproximando dessas pessoas, procurando novos recursos, novas estratégias com elas.

Em segundo lugar, e tão importante quanto a primeira idéia, é adotar uma postura de observação constante, não só da criança, mas de tudo e de todos. Observando de maneira ativa, participante, interessada, é que construímos nossas mais fortes abstrações, e o que é a interação senão a possibilidade de compreensão mútua|NULL

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