A ideia de confinamento permeia tudo (dentro e fora de casa) e as restrições à liberdade tornam-se um fator concreto: vai desde os muros altos e fechados de uma casa, passando pelas paredes de um apartamento, até os vidros rigorosamente fechados de nossos carros!|

I. INTRODUÇÃO:

"Meu filho quer tudo que vê; quando vou ao shopping com ele, pede is A ideia de confinamento permeia tudo (dentro e fora de casa) e as restrições à liberdade tornam-se um fator concreto: vai desde os muros altos e fechados de uma casa, passando pelas paredes de um apartamento, até os vidros rigorosamente fechados de nossos carros!|

I. INTRODUÇÃO:

"Meu filho quer tudo que vê; quando vou ao shopping com ele, pede isso e aquilo, quer que lhe compre tudo. Acabo não resistindo e termino por dar o que ele quer..."

"Minha menina parece insaciável: pede novas coisas todo o tempo e se não dou reage como se não gostasse dela..."

"Minha mulher é uma eterna insatisfeita; nada que eu faça lhe basta... Não sei mais o que fazer para ela..."

"Meu marido não tem limites para trabalhar; em compensação, para familia nunca ele tempo..."

"Minha namorada é uma consumista inveterada; só pensa em comprar, comprar, comprar; dá até medo de me casar com ela..."

"Meu namorado só pensa naquilo; quer mais e mais, e mais... parece que só tem sexo na cabeça; nas mãos dele sinto-me como um objeto..."

"Meu pai é superexigente; não consigo me entender com ele; prá ele tudo não pode..."

Meu ofício é o do psicanalista e o tema sobre o qual me pediram para falar - LIMITES - tem como nome uma palavra que, curiosamente, não faz parte do jargão da psicanálise. Então, faz-se necessário, em primeiro lugar, que tentemos definir o que queremos dizer quando pronunciamos essa palavra - limite.

Essa noção - a de limites - tão conhecida por todos nós (não apenas psicanalistas), vem representando um importante ponto de controvérsias e de conflitos, não só nas relações entre pais e filhos, mas também - ousaria dizer - em todas as relações de modo geral. É claro que entre pais e filhos a questão se torna usualmente mais contundente talvez em virtude do fato de que nessa posição - de pais - sintamo-nos como que "obrigados" a colocá-la em prática e com maior frequência que em outras circunstâncias. Embora possamos pensar que os limites devessem acontecer aí com certa naturalidade, de fato não é assim que ocorre: frente a eles, são comuns a dúvida e os tropeços!
Penso que além das dificuldades de se pôr em prática aquilo que aqui tomamos como uma noção - o limite, a questão intriga e embaraça sobretudo pela nebulosidade que envolve uma definição dessa coisa. Possivelmente porque a questão não é simples, implicando uma gama complexa de fatores. Também e antes de tudo, porque limite mais se pratica do que propriamente se explica...

Frases como essas que acabamos de citar são comuns a todo instante hoje em dia.
Vemos, com freqüência, pais aflitos e desorientados frente às solicitações continuadas e inesgotáveis de seus filhos e frente às mais variadas estratégias que eles usam para obter aquilo que demandam: argumentações por vezes refinadas, chantagens emocionais e até escândalos vexaminosos em público, vale tudo para alcançar os seus fins. E entre adultos não é muito diferente: apenas mudam - por vezes - os meios... Brigas, desentendimentos, mal humor, vemos isso a todo momento.
Além disto é preciso lembrar que não são só os pais que põem limites aos filhos. Também os filhos impõem limites aos pais e tornando então necessário dar conta de lidar com esses momentos.
Queremos e devemos auxiliar tais pessoas na lida com tal tipo de questões; mas para isso faz-se imprescindível apreender a significação e as origens desses acontecimentos e, antes de tudo, a significação do que é chamado limite.

Nesta perspectiva há de se separar inicialmente o que é do campo do sintoma psíquico e o que é da esfera simplesmente social. Bom lembrar aqui que a linha demarcatória entre os dois campos nem sempre se revela de fácil distinção. Mas que essa não seja uma razão para mandarmos todos para um analista ou um psicólogo, evitando falar do tema num ambiente leigo como esse em que estamos (entenda-se por leigo a conotação que dou ao fato de não tratar-se aqui de um debate entre "especialistas psi"). Deliberadamente vou evitar o uso do vocabulário especificamente psicanalítico lançando unicamente mão de uma ou duas palavras, porque me pareceram impossíveis de substituir.

Nosso tempo é verdadeiramente curto em relação com a complexidade e o interesse do tema, mas que isso não nos impeça de tentar nos posicionar aqui, ainda que seja marcando alguns pontos que posso considerar fundamentais.
A questão do limite poderia ser enfocada abrangendo também mais aspectos do que farei aqui, mas isso tornaria minha exposição muito extensa. Elegi, pois, alguns elementos a meus olhos mais fundamentais, por razões de ordem prática. Este deve, portanto, ser considerado um "pré-texto" através do qual pretendo nos instigar - a todos - para debater a questão.
Frente a isso, gostaria de destacar genericamente três vertentes que se entrelaçam no tratamento da questão, tentando mostrar o tema de uma forma enxuta e, quem sabe simples, sem contudo, extrair dele toda essa complexidade que envolve:

  • A primeira, socio-cultural, que diz respeito ao contexto em que nós vivemos, ou seja, nosso ambiente social.
  • A segunda, subjetivo-estrutural, que diz respeito ao próprio modo de funcionamento psíquico do ser humano, aos elementos constituintes de nossa estrutura psíquica pessoal.
  • A terceira, intersubjetiva, que diz respeito a certas características que marcam as relações de convivência que se desenvolvem através da linguagem.

II. A VERTENTE SOCIO-CULTURAL:

Ao tocar em aspectos sociais é necessário que eu delimite um pouco a fatia da população de que vou predominantemente falar. Vou ater-me principalmente às questões entre pais e filhos pertencentes às classes sociais média até alta e vivendo em centros urbanos. Tais pessoas inserem-se num contexto social e familiar do qual não podem, em geral, escapar e ao qual reagem através de condutas diversas.

Nossas crianças de hoje, relativamente àquelas de outros tempos, estão cada vez mais confinadas às suas casas (que cada vez mais, por opção ou força das circunstâncias, têm a forma de apartamentos), cada vez mais em contato com os recursos da mídia (televisão, computadores com internet) e cada vez mais privadas de um tipo de contato lúdico com os pais que, em contrapartida e por razões diversas, dedicam cada vez mais tempo ao trabalho. Lembro ainda que ficam todos - pais e filhos - submetidos a constantes tensões (como a de um trânsito cada dia mais complicado, por ex.) e preocupações de naturezas várias (como aquela contra a violência urbana, por ex.).
A ideia de confinamento permeia tudo (dentro e fora de casa) e as restrições à liberdade tornam-se um fator concreto: vai desde os muros altos e fechados de uma casa, passando pelas paredes de um apartamento, até os vidros rigorosamente fechados de nossos carros!
A rua, antes lugar privilegiado de ampliação de contatos com o mundo torna-se ameaça cada vez maior e muitas vezes é substituída ou mostrada através de uma telinha...
De outro lado, só para enfocar um aspecto, uma dona de casa tinha, noutros tempos, com certa facilidade, uma, ou duas, ou três, até quatro pessoas|NULL

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