Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.|

Um filme, muitas vezes, vai além do que pretende. Óbvio, pois é esta a diferença entre o grande artista e o artesão esforçado. Digamos que, psicanaliticamente falando, o grande artista alcança maior intimidade com seu inconsciente que o cidadão comum, ou Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.|

Um filme, muitas vezes, vai além do que pretende. Óbvio, pois é esta a diferença entre o grande artista e o artesão esforçado. Digamos que, psicanaliticamente falando, o grande artista alcança maior intimidade com seu inconsciente que o cidadão comum, ou mesmo o artista apenas bom. Lá, desse oceano sem fundo que subjaz à consciência do homem, o grande artista tira com sua rede as criaturas primevas que habitam a alma humana, e por isso o que ele produz afeta a tantos – cuja rede pende em geral de uma corda bem mais curta, mas que nem por isso ignoram totalmente o que se passa nessas profundezas. A matéria prima da arte é a mesma dos sonhos – e todos sonham, mesmo que disso não se lembrem.

Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.

Não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Muita coisa levar a crer que não, mas a argúcia dos artistas já me driblou mais de uma vez. Ocorre que o filme é, entre outras coisas, uma aula de psicanálise, bem como – mais obviamente – de comunicação humana. Ver o filme com os óculos da psicanálise o torna infinitamente mais interessante – ao menos para mim. Como ignoro a cultura psicanalítica do autor, digo que não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Se sabia, é um sábio. Se não sabia, é um gênio.

De início, o que parece apenas uma disputa acerba entre um professor – excelente, por sinal – e sua aluninha ranheta revela-se uma grande rapsódia épica sobre a questão da verdade. Quem tem razão: O professor lúcido e articulado, que muitas vezes diz coisas cujo sentido não é óbvio, contando sempre com a capacidade de sua aluna de get the message, ou seja, "pegar o espírito da coisa", deixando de lado o seu sentido literal? Ou a aluna que se sente humilhada pela demonstração esmagadora de brilho intelectual, quando na verdade ela queria justamente respostas simples e diretas, pois o sentido sofisticado das idéias do professor ela desde o início não havia compreendido, no livro que ele havia escrito?

Creio que, de um modo geral, o espectador medianamente intelectualizado, aquele que foi ver justamente esse filme, tendeu a identificar-se inteiramente com o personagem do professor. Dada a obtusidade inicial e a antipatia final do personagem da aluna, poucos teriam sido os que se identificaram com ela, creio eu. No entanto, colocando-se sobre o nariz os óculos da psicanálise, surge no filme um outro enredo, no qual a figura heróica é justamente a da mocinha desajeitada, e o belo professor passa para o lugar do vilão.

A meu ver, a verdadeira guerra travada no filme é, ao final de todas as contas, sobre quem tem o direito à palavra: aquele que melhor a domina, ou aquele que ainda não consegue utilizá-la? Dito de outro modo: Quem deveria ter a preferência, na hora de expressar-se – aqueles que possuem palavras em abundância, e podem até se dar ao luxo de usar sinônimos rebuscados para termos simples, como o professor, ou aqueles que, em matéria de palavras, podem se considerar despossuídos, aqueles cuja voz sai trêmula e cujas idéias não conseguem se articular?

Na primeira parte do filme, vemos como o professor brilhante e articuladíssimo dá um show de raciocínio e lucidez. Muito rapidamente, analisa a questão do fracasso escolar e da sua pertinência essencial ao contexto da escola, e o elemento trágico nele embutido. Depois analisa a questão do estudo universitário como uma demanda falsamente criada por uma sociedade que governa tudo, até os anseios de seus jovens cidadãos e seus sonhos para o futuro. Depois diagnostica celeremente o "complexo de inferioridade" de sua jovem aluna, mostrando como ela poderia estar presa à armadilha de, sentindo-se condenada ao fracasso, cumprir sem perceber a própria profecia. Além disso, ele se depara com a questão da verticalidade, decidindo no ato que é absurdo o professor julgar que os seus problemas estão acima do alcance dos alunos, e assim por diante, interminavelmente, até que a aluna, num paroxismo de ansiedade provocado pelo silêncio a que a reduz o professor, deixa cair – e quebrar – a xícara de chá que o professor tão "democraticamente" lhe havia preparado.

Na segunda parte do filme, a mocinha (que é a bandida – até segunda ordem) toma a iniciativa. Para ela não há justiça no fato de ter sido reprovada – apenas um exercício de poder, que do ponto de vista dela o professor manipula a seu bel prazer – exatamente como manipula as idéias e as palavras... Não "entra na sua cabeça" que os motivos da reprovação sejam abstratos, impessoais – a Lei! No mundo dessa moça, a Lei ainda não chegou – por enquanto (etapa da ruthlessnes, como diria Winnicott, há apenas a força com que se rejeita o outro. Portanto, ela não foi reprovada pelo professor – ela foi rejeitada!

Para vingar-se, ela inventa uma série de acusações, e "suja a barra dele" junto ao Conselho da Universidade. O qual, diga-se de passagem, toma as coisas por seu "face value", como se diz em inglês, por seu valor aparente, e nem se dá ao trabalho de verificar se a acusadora está falando de fatos ou de suposições. Não se trata, a meu ver, de um lapso. O autor do filme, sutil como se mostra, faz aqui uma acusação, uma denúncia da superficialidade com que as denúnicias muitas vezes são tratadas na sociedade ali esboçada. O que dizem outros alunos do mesmo professor, por exemplo, nem chega a ser mencionado como algo a averiguar.

As acusações revelam-se, todas, meras leituras literais de uma série de metáforas verbais e gestuais do professor (por exemplo, a mão sobre o ombro da aluna é visto como sedução – portanto odiosa.) Da forma magistral como o autor trama a trama e a põe na boca da aluna, cada gesto casual, cada afirmação do professor que pudesse ter mais de um sentido, é retirada de modo brutal de seu território original, das brincadeiras verbais, das amabilidades, da cordialidade ou da metáfora, e atirada para o lodaçal das intenções malévolas, dos preconceitos abjetos, das pretensões inconfessáveis.

É tamanha a veemência da aluna, ao sustentar suas convicções/difamações/delírios/maledicências (num primeiro momento é realmente difícil saber de qual se trata), que o professor perde o pé, seu raciocínio tão lógico vê-se lançado ao caos, e ele fraqueja. Não ante a idéia de talvez não ser inocente, mas ante a idéia – muito pior – de talvez não lhe ser possível defender-se desse discurso – essencialmente bárbaro.

Principalmente quando seu advogado lhe diz, por telefone, que a última acusação, a pior de todas, é a de tentativa de estupro. Nesse momento apossa-se do professor um verdadeiro estupor, tamanho é o absurdo com o qual ele é confrontado. A aluna infringe, de modo esmagador, a regra número um do mundo da lógica – a de que uma proposição deve relacionar-se a um objeto no mínimo abordável. Com isso, todo o paradigma existencial do professor é desestruturado, e ele se vê nu e impotente diante do que ele mais abomina – a selvageria, a barbárie, o ato de força puro e simples: justamente aquilo de que a aluna o acusa! E assim, ao final de uma história em que tudo se passava exclusivamente num mundo de palavras, idéias e representações, o puro simbólico, o sangue jorra.

No entanto, de fato houve um estupro, ou no mínimo um ato de violência. Não um estupro sexual, evidentemente. O estupro foi de natureza intelectual, ou mais especificamente, de natureza emocional: E aqui entramos, finalmente, na leitura psicanalítica do filme, prometida no início.

Em primeiro lugar, quanto ao tema central da história. Aparentemente, tratava-se de uma história sobre as dificul|NULL

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