Este é um artigo de revisão sistemática que objetiva revisar e analisar a literatura acerca da relação das habilidades cognitivo-linguísticas, leitura e escrita de estudantes do primeiro ciclo do ensino fundamental.

Resumo 

Objetivo: Revisar e analisar a literatura acerca da relação das habilidades cognitivo-linguísticas, leitura e escrita de estudantes do primeiro ciclo do ensino fundamental. Estratégia de pesquisa: Foi realizada uma busca na base eletrônica CAPES. Critérios de seleção: A busca totalizou 174 artigos, os quais obedeciam aos seguintes critérios: relação direta com o tema; correspondência com anos de 2006 a 2016. Artigos que estavam relacionados a alguma alteração neurológica e aqueles repetidos nas pesquisas foram excluídos. Análise de dados: Como instrumento para análise foi utilizada a ferramenta STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).  Resultados: Dos dez artigos selecionados para análise, apenas seis atingiram a classificação A. Os alunos avaliados nos artigos, apresentaram resultados inferiores ao esperado. Conclusão: A partir das análises, constatou-se que alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental apresentaram desempenho inferior nas competências de leitura ao esperado para a série atual.

Descritores: Fonoaudiologia, Leitura, Escrita Manual, Ensino Fundamental e Médio, Linguagem

Abstract

Objective: To review and analyze literature regarding the relationship between cognitive-linguistic habilities and reading and writing of students of the first cycle of the elementary school.Research strategy: The research was carried on through the electronic CAPES port. Selection criteria: The research comprised 174 articles which complied with the following criteria: straight relationship with the theme; correspondence with the years 2006 and 2016. Articles related to any neurological alteration and those repeated in the researches were excluded.Data analysis: The STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies) tool was used as instrument for analysis.Results: Amongst teen articles selected for analysis, only six of them ranked A. The students assessed in the articles presented results lower than those expected.Conclusion: Based upon the analysis, it has been verified that students of the first cycle of the elementary school did not perform as expected for the grade they are attending as to what concerns the reading competences.

Keywords: Speech, Language and Hearing Sciences, Reading, Handwriting, Education, Primary and Secondary, Language.

INTRODUÇÃO

No entendimento de Queiroga, Gomes e Silva (2015), no âmbito de desenvolvimento da linguagem, os primeiros anos de vidas são de suma importância, uma vez que quando a criança é exposta a novas aprendizagens e experiências. O que predirá essa qualidade da linguagem são as interações com o meio e a criança ao longo do seu desenvolvimento natural.

Segundo eles, diferente da linguagem oral que é um processo de aquisição natural, a linguagem escrita se desenvolve conforme a cultura do local de origem da criança. Quando comparadas, a linguagem oral é adquirida apenas pelo convívio social, porém a escrita demanda de um processo denominado alfabetização. Para ser considerada alfabetizada, a criança deve dominar a leitura e as regras da escrita de sua língua alvo, sendo a escola grande influenciadora para se alcançar tal objetivo.  Devido a tantos fatores importantes para o seu desenvolvimento, a leitura e a escrita não devem ser consideradas missões simples.

De acordo com Montiel e Capovilla (2009), problemas cognitivos e emocionais podem provocam dificuldade de aprendizagem, assim como outras variáveis também dificultam esse processo, como a escola e demais ambiente educacionais. Os exemplos anteriores, bem como outros fatores intrínsecos a cada indivíduo podem levá-lo a desenvolver um distúrbio ou transtorno de aprendizagem.

Há muitas crianças que não conseguem aprender normalmente e apresentam dificuldades de aprendizagem, dificultando o acompanhando do contexto escolar de leitura e escrita. Todavia apesar de apresentarem dificuldades acadêmicas, na maioria das vezes, os alunos passam despercebidos nas classes de aula, segundo Zorzi e Capellini (2008).

Um desenvolvimento insuficiente na linguagem traz por consequência distúrbios de leitura e escrita afirmam os autores Santos e Navas (2002). Eles ainda reconhecem que se a linguagem escrita se constitui com dificuldades, o seu desenvolvimento posterior apresentará déficits, principalmente na compreensão da leitura.

Nota-se assim, que os estudos realizados com estudantes com dificuldades de aprendizagem é de suma importância, uma vez que, o rendimento acadêmico do mesmo resultará na sua vida social e profissional.

Este artigo tem por objetivo revisar e analisar a literatura acerca da relação das habilidades cognitivo-linguísticas, leitura e escrita de estudantes do primeiro ciclo do ensino fundamental.

Estratégias de pesquisa

Foi realizada uma busca entre os meses de agosto e setembro de 2016 na base eletrônica CAPES. Foram consultados artigos utilizando os seguintes descritores: “Ensino Fundamental e Médio”; “Linguística”; “Leitura”; “Escrita Manual”; “Escolaridade”; “Aprendizagem”; e “Estudantes”.

No primeiro levantamento de dados, que pode ser observado na Figura1, a pesquisa deu-se início no portal CAPES, usando os descritores “Ensino Fundamental e médio”; “Linguística”; “Leitura”; “Escrita Manual” foram encontrados 12 artigos. Na pesquisa seguinte, foram encontrados 120 artigos com os seguintes descritores “Escolaridade”; “Aprendizagem”. Na última busca, foram encontrados 42 artigos usando os descritores “Leitura”; “Estudantes”; “Ensino Fundamental e médio”.

Observa-se que habilidades cognitivo-linguísticas não foi apresentado na pesquisa no portal CAPES, por não ser reconhecido como um descritor em ciências da saúde no portal DeCS. Os autores optaram por substituí-lo por leitura e escrita, sendo estes sinônimos segundo os autores dos artigos utilizados por esta pesquisa como base.

Critérios de seleção

A busca totalizou 174 artigos, os quais foram selecionados por duas pesquisadoras discentes do curso de Fonoaudiologia da Universidade Vila Velha, que obedeciam aos seguintes critérios de inclusão: relação direta com o tema; correspondência com anos de 2006 a 2016.

Foram excluídos os artigos que estavam relacionados a alguma alteração neurológica e aqueles repetidos nas pesquisas.

Análise de dados

Após essa etapa, os artigos foram avaliados segundo o instrumento denominado STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).

A iniciativa STROBE produziu uma tabela com 22 critérios adotados como ferramenta de triagem analítica dos artigos selecionados identificando a sua autenticidade e relevância para pesquisas observacionais.

A pontuação da avaliação determinada por esta pesquisa contém uma escala de 0 a 22, no qual cada item corresponde ao valor de no mínimo zero e máximo um. Caso, um dos itens apresente subitens, a pontuação sofrerá uma análise qualitativa diferenciada, que corresponderá a uma regra numérica de três em que a maior pontuação é equivalente a um.

Exemplo:  5 ---------- 1%

                 3 ---------- X%

                 X= 0,6%

Para melhor compreensão dos dados a avaliação foi transformada em percentual.

Nos escores do STROBE, os trabalhos são classificados como A,B ou C, sendo que C corresponde de 0 a 49%, B de 50 a 74% e A de 75 a 100%. (Tabela 1).

Ao final foi elaborado outra tabela (Tabela 2) na qual foram consideradas as seguintes variáveis: Nome do artigo; Autores; Ano de publicação; N da amostra dividido pela quantidade de cada sexo usado nas pesquisas; Média de idade dos alunos; Séries avaliadas; Testes usados nos artigos para avaliar os estudantes.

RESULTADOS

Os resultados dessa pesquisa evidenciaram que as idades variavam de seis a dezesseis anos, com predominância da média de oito anos de idade.  Os estudos realizados na região Sudeste, mais precisamente no Estado de São Paulo foram maioria dentre os artigos selecionados seguidos da região Sul do Brasil. Essa pesquisa ainda destaca que os estudos em sua maioria são classificados como seccionais.  (Tabela 1).

*Os dados não foram apresentados no artigo.

Todos os artigos selecionados para a revisão atingiram percentuais maiores que 50%. É indiscutível que 60% dos artigos compreendem valores acima de 80% segundo a classificação do STROBE, dos quais observa-se uma representação maior dos estudos caso-controle. Embora todos os artigos tenham atingido uma média de pontuação positiva, é perceptível que nenhum deles tenha chegado a meta de 100%.

Quanto ao tipo de estudo, seis foram do tipo seccional enquanto os outros artigos remanescentes, caso-controle ( Tabela 2).

Segundo o Programa de Avaliação Internacional de Alunos (PISA) disponibilizado pela Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCED), órgão que é responsável pela avaliação de escolares entre 15 e 16 anos de idade, entre os anos de 2003 a 2012, o Brasil alcançou uma melhora de 65% do rendimento escolar a 78% respectivamente, embora ocupe uma posição entre 54 e 56 no ranking internacional contendo 78 países. Embora tenha apresentado melhoras nos escores, o desempenho da leitura de estudantes apresenta um índice muito baixo, chegando a atingir 410 pontos, ficando abaixo de países como Colômbia, Uruguai e Tunísia15.

Esse resultado é semelhante ao encontrado por este artigo, o qual tem por maioria artigos que apresentam desempenho escolar inferior ao esperado pela série do estudante em questões de compreensão leitora (Tabela 3).

* Os dados não foram apresentados pelo artigo

Legenda: Teste de Competência de Leitura de Palavras e Pseudopalavras – TCLPP ; Teste Contrastivo de Compreensão Auditiva e de Leitura – TCCAL ; Teste de Processamento Ortográfico Computadorizado – TPOC ; Teste de Velocidade de Leitura Computadorizado – TVLC ; Teste de Desempenho Escolar – TDE ; Brazilian Children’s Test of Pseudoword Repetition – BCPR ; Prova de nomeação automatizada rápida – NRA ; Prova de consciência fonológica – PCF

CONCLUSÃO

A partir das análises dos artigos revisados, os estudantes do primeiro ciclo do ensino fundamental quando expostos a testes de desempenho escolar, apresentam resultados inferiores nas habilidades cognitivo-linguísticas ao esperado para a série em que estão matriculados.

REFERÊNCIAS

Brito L. O.; Ambiel R. A. M.; Pacanaro S. V.; Grisard E.; Alves G. A. S.; Rabelo I. S.; Leme I. F. A. S. Relação das variáveis idade e escolaridade com desempenho escolar de estudantes de ensino fundamental. Avaliação Psicológica, 2012, 11(1): 83-93.

Capellini S. A.; Gonzaga C. S. J.;  Galhardo M. T.;  Cruvinel P.;  Smythe I.. Desempenho cognitivo - linguístico de escolares de 1ª a 4ª séries do ensino público municipal. Rev. Psicopedagogia 2007; 24(73): 30-44.

Cunha V. L. O.;  Capellini S. A..Análise psicolinguística e cognitivo- linguística das provas de habilidades metalinguísticas e leitura realizada em escolares de 2ª a 5ª série.Rev. CEFAC. 2010 Set-Out; 12 (5):772-783.

Cunha V. L. O.;  Capellini S. A.. Desempenho de escolares de 1ª a 4ª série do ensino fundamental nas provas de habilidades metafonológicas e de leitura – PROHMELE. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2009;14(1):56-68.

Cunha V. L. O.;  Capellini S. A. Eficácia do programa de remediação fonológica e leitura no distúrbio de aprendizage. Marília, Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2009. F: 115-126.

Deuschle-Araújo V.; Souza A. P. R.. Análise comparativa do desempenho textual de estudantes de quarta a quinta série do ensino fundamental com e sem queixa de dificuldades na linguagem escrita. Rev. CEFAC. 2010 Jul-Ago; 12 (4).

Giangiacomo M. C. P. B.; Navas A. L. G. P.. A influência da memória operacional nas habilidades de compreensão de leitura em escolares de 4ª série. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2008;13(1):69-74.

Kawano C. E.; Kida A. S. B.; Carvalho C. A. F.; Ávila C. R. B..Parâmetros de fluência e tipos de erros na leitura de escolares com indicação de dificuldades para ler e escrever. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011;16(1):9-18.

Montiel J. M., Capovilla F. C.. Atualização em Transtornos de Aprendizagem. São Paulo: Artes Médicas; 2009. Dificuldades de aprendizagem: Enfoque psicopedagógico; p. 4 - 5.

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OECD: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Avaible from:  http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/PISA-2012-results-brazil.pdf.

Queiroga B. A. M., Gomes A. O., Silva H. J.. Desenvolvimento da Comunicação Humana nos Diferentes Ciclos de Vida. São Paulo: Pró-Fono; 2015. Desenvolvimento da Linguagem Escrita na Primeira Infância ; p.79 - 81.

Santos M. T. M., Navas A. L. G. P.. Distúrbios de Leitura e Escrita. 1ª ed. Barueri: Manole Ltda, 2002. Distúrbios de Leitura e Escrita; p.31.

Seabra A. G.; Dias N. M.; Montiel J. M.. Estudo fatorial dos componentes da leitura: velocidade, compreensão e reconhecimento de palavras. Psico – 2012 mai./ago.17 (2): 273 – 283.

STROBE - Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology. Avaiblefrom:http://www.strobe-statement.org/fileadmin/Strobe/uploads/translations/STROBE_translation_portuguese_Commentary_Malta_RevSaudePublica_2010_checklist.pdf.

Zorzi J., Capellini S.. Dislexia e Outros Distúrbios da Leitura - Escrita. Letra Desafiando a Aprendizagem. São José dos Campos: Pulso, 2008. Questões e desafios atuais na área de aprendizagem e dos distúrbios de leitura e escrita; p. 18.

Autoras:

Márcia Emília Eloi - Doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo,Mestre em Ciências Fonoaudiológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (2014), Especialista em Fonoaudiologia Educacional pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia (2016) Psicopedagoga pela Faculdade Fead (2013), graduada em Fonoaudiologia pela mesma instituição (2011). Docente do curso de Fonoaudiologia da Universidade de Vila Velha. Assessoria e Consultoria em Fonoaudiologia Educacional. Integrante do GEFF - Grupo de estudos de fluência da Fala de Belo Horizonte. Participa de pesquisas principalmente com os temas: Fonoaudiologia, Linguagem, Formação Docente; Fluência e de organização de eventos acadêmicos nas áreas da saúde e educação.

Claudia Soares Magalhães - Graduanda em Fonoaudiologia pela Universidade Vila Velha.

Fernanda do Espírito Santo Costalonga - Graduanda em Fonoaudiologia pela Universidade Vila Velha.

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