O desenho infantil é uma das principais esferas no desenvolvimento da aprendizagem, oportunizando a criança a expressar seus sentimentos e representar o mundo que a cerca. Contribui tanto na construção da linguagem como na construção do pensamento. Através dela que a criança comunica a leitura de imagens e constrói na sua consciência. 

Abstract

The children's drawing is one of the main areas in the development of learning, providing opportunities for children to express their feelings and represent the world around. Thus the design influences both in the construction of language and the construction of thought. It is through her that the child communicates reading images that builds in your consciousness. Thus, this work was carried out in order to justify theoretically the role of drawing in the construction of early childhood education, to propose a reflection about the development of learning, discuss the teacher's role in the process, relate activities that may facilitate the perpetration . For this was made a bibliographic checking through the conceptions of the authors which the design contributions for the acquisition of thought and child's language. It was understood through this work by drawing the child develops learning and communication skills to build a positive, enabling the construction of social relations through symbolic mediation. Child development within this perspective needs to happen in its entirety and subjectively, the child draws in the learning phase of construction, develop their motor and cognitive skills, enables the acquisition of language and encourages social interaction.

Keywords: Early childhood education, Symbolic Mediation, Meaningful Learning, Educational Psychology.

1 Introdução

    A idade inicial das crianças é de fundamental importância por ser o momento em que os fundamentos da personalidade começam a tomar formas, o desenho infantil é uma importante esfera de atividades simbólicas que envolvem diversos aspectos que possibilitam a compreensão de mundo, e a construção da aprendizagem significativa, ampliando o cenário e as possibilidades do crescimento subjetivo da criança. O desenho tanto estimula a imaginação como proporciona a leitura de mundo em que a criança está inserida, oportunizando assim o entendimento das relações entre si e o meio.

    Esse trabalho tem como objetivo fundamentar teoricamente o papel do desenho na construção da educação infantil, propor uma reflexão a cerca do desenvolvimento da aprendizagem, discutir sobre o papel do professor no processo de aquisição da linguagem e pensamento, assim como relacionar a função do desenho no processo da aprendizagem significativa , direcionando o estudo para o processo do desenvolvimento da construção dos inúmeros conceitos envolvidos no mundo da criança através da atividade do desenho, onde observaremos a evolução do ato motor como ferramenta para a aquisição da aprendizagem, contribuindo para despertar a percepção do meio em que a mesma esta inserida, nas inúmeras dimensões existentes tais como social, familiar, ambiental e corporal.

    A importância que o desenho infantil tem no desenvolvimento da criança e na construção dos diversos conceitos em seu cotidiano é inquestionável, pois é através dele que temos a representação mental do que a criança conhece e tem registrado na memória. Exatamente por isso, a justificativa dessa pesquisa fundamenta-se acerca do conhecimento do desenho infantil que pode ser usado como técnica para um bom desenvolvimento intelectual da criança, uma vez que está relacionada com o processo de aprendizagem.

    O presente trabalho enfatizará uma melhor compressão sobre o desenho e suas evoluções no processo de desenvolvimento infantil, contribuindo dessa forma no processo de significação e cognição.

    A pesquisa foi realizada de forma qualitativa, pelos os procedimentos de abordagem direta e indireta, através de pesquisas bibliográficas. A metodologia terá caráter dialético, considerando que tudo se transforma permanentemente, tudo se relaciona, e que existem ações impulsionando a transformação e as relações. Assim a seleção e organização na busca de autores para exploração mais profunda do tema foi fundamental para gerar os argumentos que afirmam a importância da temática.

    A pesquisa abre novos caminhos para o professor, com base nos estudos do desenho como linguagem. Ao evidenciá-lo como dispositivo pedagógico de forma a enriquecer o processo inicial educativo, possibilita um olhar mais aproximado para a Educação, revelando possibilidades para o fazer pedagógico, em que o professor possa utilizar o desenho como estratégia de ensino com a criança. O desenho como linguagem para a arte, para a ciência e para a técnica, é um instrumento de conhecimento, e uma ferramenta como meio de comunicação e expressão.

2 Referencial teórico

2 1 O Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Sócio- Histórica

    A teoria sócio interacionista atribui enorme importância ao papel da interação social como base no desenvolvimento do ser humano, essa é a principal razão do interesse nos estudos da infância, entender como acontece a aprendizagem e quais os caminhos para que ela aconteça de forma positiva nas crianças. Esse é um dos principais eixos que norteiam a pesquisa de Lev Semenovich Vygotsky, que apesar das suas formulações sobre a gênese do desenvolvimento humano não se apresentar como um sistema teórico organizado e articulado como o do epistemólogo Suíço Jean Piaget  e do psicólogo Francês Henri Wallon, que chegaram a delinear os traços fundamentais do processo de estruturação psicológica da criança até a fase adulta, encontramos em seu pensamento reflexões relevantes acerca do processo de desenvolvimento e aprendizagem.

    É importante conhecer as suas críticas quanto aos paradigmas “botânicos” e “zoológicos”, abordados nas teorias psicológicas para explicar o desenvolvimento, para ele à primeira tendência compara o estudo da criança à botânica, entendendo que o desenvolvimento da criança depende da maturação do organismo em sua totalidade. Para essa concepção “a mente da criança contêm todos os estágios do futuro desenvolvimento intelectual: eles existem já na sua forma completa, esperando o momento adequado para emergir” (Vygotsky, 1984, p.26). Para ele a maturação biológica é um processo secundário no desenvolvimento das formas complexas do comportamento humana, na sua concepção depende da interação da criança com o meio cultural, social e emocional.

    Na segunda abordagem, apesar de considerar mais avançada que a anterior, é na sua concepção equivocada na medida em que busca respostas às questões sobre a criança, a partir de experimentos com animais. Existem contribuições dessas experiências nas bases biológicas, porém sua critica reside no fato de que a questão da psicologia animal e da criança tem limites para o processo intelectual que é uma característica humana, para Vygotsky a estrutura fisiológica humana, não é suficiente para produzir o indivíduo humano este estando ausente do ambiente social.

    No processo do desenvolvimento da aprendizagem, é possível distinguir duas linhas qualitativamente diferentes, diferentes na sua origem: “de um lado, os processos elementares, que são de origem as funções psicológicas superiores de origem sociocultural. A história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas linhas.” (VYGOTSKY, p. 52). Dessa maneira surgi à necessidade de compreensão quanto às relações entre pensamento e linguagem: “Os signos e palavras constituem acima de tudo um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem torna-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, distinguindo-as dos animais” (VYGOTSKY, 1984, P. 31).

    Dentro desse contexto a linguagem tanto expressa o pensamento da criança como o organiza, a construção do pensamento que se dá a partir da interação com o meio. A criança faz a construção da consciência, nessa fase ainda não consegue expressar verbalmente ou de maneira escrita, utilizando assim a mediação simbólica para regular as ações sobre o psiquismo humano.

    Os sistemas simbólicos (entendidos como sistemas de representação da realidade), especialmente a linguagem, funcionam como elementos mediadores que permitem a comunicação entre indivíduos, o estabelecimento de significados compartilhados por determinado grupo cultural, a percepção e interpretação dos objetos, evento e situações do mundo circundante. É por essa razão que Vygotsky afirma que os processos de funcionamento mental do homem são fornecidos pela a cultura, através da mediação (REGO, 2014, p. 55).

    O uso de instrumentos e dos signos, tais como o desenho, está ligado ao longo do desenvolvimento da espécie humana, o processo de abstração possibilita a linguagem tornando possível analisar, abstrair e generalizar as caraterísticas dos objetos na realidade, dessa forma a linguagem não somente designa os elementos, mais também tem a função de fornecer conceitos e modos de ordenar o real em categorias conceituais.

2 2 O desenho e o jogo simbólico
    O desenho é considerado a primeira linguagem da criança na aquisição da escrita. É ele que oferece a possibilidade de entendimento, quanto às emoções, medos e angústias das crianças que ainda não sabem explicar com palavras o que sente. O desenho também pode ser considerado um signo, no qual é representado por meio do traço e da forma. Para Derdyk (1990) o signo gráfico é resultante de uma ação carregada de uma intencionalidade, ainda não totalmente expressa. O olho expectador dessa conversa entre a mão, o gesto e o instrumento, percebe formas.
    O desenvolvimento do pensamento da criança está internamente ligado à capacidade de representar e para que isso aconteça é necessário que haja a capacidade de substituir coisas ausentes por meio de palavras ou imagens. A cada representação que a criança faz os desenhos passam a ser uma necessidade e é assim que elas vão se inserido no processo de aprendizagem. A partir do estágio pré-operatório, que Segundo Sole (2000) a capacidade invocadora é a simbólica ou a semiótica, os meios são a linguagem, a imitação diferida, a imagem mental, o desenho e o jogo simbólico.

    De acordo com as ideias sugeridas pelo Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (Brasil, 1998), o desenho indica signos históricos e sociais que possibilitam ao homem significar o mundo. Os desenhos expressam, comunicam e atribuem sentidos, sentimentos e pensamentos por meio da organização de forma bem simples, como desenhar no chão, na areia, no muro, na parede, utilizando materiais diversos que expressam a linguagem para a comunicação humana, justificando assim, sua presença na educação. Dessa forma evidenciamos tal processo como a apropriação das diversas formas de linguagens e expressões.

    Quando observamos desenhos feitos por crianças pequenas, não conseguimos identificar o carro, o avião ou o balão, do ponto de vista dos traçados, ainda não há qualquer semelhança com o que eles afirmam ter feito. Ao mesmo tempo em que os traçados vãos sendo interpretados, as crianças começam a anunciar o que pretendem fazer antes da execução.

    Segundo Dolle (2000), a criança tendo transposto à barreira da simples percepção, que exige o contato direto com o real, a inteligência atinge o nível da representação pela interiorização da imitação, ela própria favorecida pela instalação simbólica ou semiótica através da análise detalhada das representações sociais definidas como sistema de significação. A criança tem, então, acesso à linguagem e ao pensamento. Elabora igualmente imagens que lhe permitem se assim podemos dizer transportar o mundo para sua cabeça. É até mesmo capaz de representar esse mundo através de desenhos. O desenho é uma das formas que através das quais a função de atribuição da significação se expressa e se constrói. Desenvolve-se concomitantemente às outras manifestações, entre as quais o brinquedo e a linguagem verbal (PIAGET, 1973).

2 3 Desenvolvimento da cognição

    Considerada uma manifestação semiótica que surge no período simbólico e evolui em conjunto com o desenvolvimento da cognição. Compartilha mais intimamente, por um lado, as fases da evolução da percepção e da imagem mental, subordinando-se às leis da conceituação e da percepção. Por outro lado, compartilha a plasticidade do brincar, constituindo-se em meio de expressão particular, isto é, “em sistema de significantes construído por ela e dóceis às suas vontades” (PIAGET, 1973, p. 52).

    Embora focalizando diferentes aspectos do desenho, as concepções dos principais autores que norteiam as teorias do desenvolvimento da aprendizagem, ambas possuem considerada proximidade e relação à importância do desenho infantil no processo de desenvolvimento e a característica de que ela desenha o que interessa , representando o que ela sabe do objeto.

    Segundo a classificação de PIAGET (1896-1980) existem determinados períodos de transição, essas fases que são: Sensório-Motor (0-2 anos); Pré-operatório (2-7,8 anos); Operatório-Concreto (8-11 anos); Operatório-Formal (11-14 anos). De 0 a 2 anos o bebê começa a assimilar ações para o desenvolvimento mental do meio em que está inserido, destacamos aqui a capacidade da construção das noções de espaço, objetos e tempo necessitando exclusivamente da prática. Entre 2 a 7 anos, surgi o período em que a criança tem a necessidade de substituir um objeto ou um acontecimento, por uma representação através dos esquemas de linhas, caracterizando a função simbólica ou estágio da inteligência simbólica, momento no qual a criança através do desenho consegue comunicar seu mundo imaginário, e sua forma individual de ver o meio. Também caracteriza o egocentrismo, a criança não consegui ainda se colocar no lugar do outro. Já no Operatório-Concreto (8 aos 11 anos) a criança desenvolve noções de espaço, tempo e causa se tornando capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair informações da realidade, preparando a criança para o Operatório-Formal, no qual o desenvolvimento cognitivo já alcançou provavelmente o nível mais elevado, agora é permitido uma abstração mais concreta, já possui a capacidade de pensar logicamente, formular hipóteses e buscar soluções sem depender mais apenas de observar a realidade.

    Outras condições do desenho são destacadas entre elas é relativa ao domínio do ato motor. O desenho é o registro de um gesto, constituindo passagem do que foi observado para a imagem. Essa característica é referente à percepção da possibilidade de representar graficamente, configuram o desenho como precursor da escrita. A percepção do objeto corresponde ao sentido dado pela criança, através da realidade conceituada, e não material. Inicialmente o objeto a ser representado é percebido após o ato de desenhar, quando a criança verbalmente expressa o resultado da ação, identificada a similaridade do objeto. Momento de constatação fundamental de sua evolução, manifestada pela verbalização, indicando a intenção e o planejamento da ação (VYGOTSKY, 1988).

    Essas proposições básicas são compartilhadas por outros pesquisadores interessados no desenho infantil. Entre esses, pode-se destacar Read (1977) que, focalizando o papel das imagens visuais para o desenvolvimento do pensamento, identifica no desenho elo entre a percepção e a imaginação, pois possibilita sua integração em forma concreta, passível de sucessivas modificações. Lowenfeld (1977) é outro autor que ressalta a importância do desenho para o desenvolvimento da criança, seja como veículo de auto expressão ou como de desenvolvimento da capacidade criativa e da representativa. Derdyk (1989) Destaca a influencia da interpretação da imagem visual.

    O desenho é uma forma de pensamento, facilita a criação de oportunidade de momentos em que o mundo interior se confronte com o mundo exterior fazendo com que a observação do real se depare com a imaginação e o desejo do significativo. O desenho é estímulo para exploração do universo imaginário é instrumento de generalização, de abstração e de classificação.

2.4 O desenho infantil e o meio ambiente

    Um conceito interessante é o relacionado a meio ambiente. Costumamos fazer a ligação do conceito de meio ambiente a paisagens naturais, esta expressão é mais abrangente, pois se trata da união de condições e influências naturais que nos cercam, e que age sobre si, partindo desse ponto de vista, o meio ambiente é uma expressão que se refere à relação entre os seres vivos e os não vivos. Dessa forma, aqui enfatizamos que o meio ambiente não é apenas árvores, mares e animais, trata-se também do meio em que vivemos prédios, casas, móveis, luzes e tudo o que podemos ver e tocar, pois é a partir das percepções motoras e exploração do meio em que se vive que se constrói a percepção espacial durante a infância. Através dela torna-se possível conhecer o ambiente onde se vive e a forma como se relaciona com o seu corpo, com os objetos ou com as pessoas através de suas ações motoras. (GALLAHUE, 2005).

    A elaboração da percepção espacial ocorre durante o desenvolvimento sensório motor, sendo lapidada por um processo sequenciado que evolui gradativamente acompanhando o desenvolvimento mental da criança até alcançar o período das operações concretas, quando se torna capaz de desempenhar grande parte das habilidades perceptivas - motoras (PIAGET, 1978).

    As interações genéticas e ambientais influenciam nesse processo fazendo com que as crianças se desenvolvam em ritmos e intensidades diferentes. O ambiente escolar, urbano e familiar pode contribuir positivamente para o desenvolvimento das crianças, uma vez que, ao descobrirem novas possibilidades de interagir com os o meio se multiplicam os estímulos (GETCHEEL, 2004).

    O desenho como linguagem é uma forma de comunicação construída ao longo dos anos. O homem primitivo representou imagens, criou símbolos e registrou a sua história. Para tanto, apontamos que o homem sempre desenhou. Sempre deixou registros da sua existência. O desenho é considerado uma das linguagens mais antiga, desde que o homem inventou o homem. Atravessou as fronteiras espaciais e temporais, e, por não ser difícil, teimosamente acompanha nossa aventura na Terra (DERDYK, 1990).

    Dessa forma, podemos pensar o desenho como linguagem universal que possui convenções que pertencem à sociedade e a cultura de diferentes gerações. Cada qual com suas singularidades próprias, dotada de história.

    Junqueira Filho (2005) nos diz que o desenho é uma linguagem com estrutura e regras próprias de funcionamento. Linguagem esta que significa toda e qualquer realização humana onde o desenho esta enquadrado em um sistema de representação e sentido. Desenhando a criança imprime registros, portanto, expressa e comunica.

    A criança aprende sobre sua própria humanidade, de forma que, ao desenhar, a criança está realizando e reafirmando sua historicidade: onde observam a capacidade e a necessidade dos seres humanos de se deixarem em marcas. Foram os seres humanos que inventaram o desenho e puderam dizer algo de si por meio de imagens. Foi possível representar graficamente em aspectos de sua humanidade; deixando assim a sua contribuição para a produção de sua humanidade, de sua história; que contribuíram para a  significação  e comunicação de sua passagem pela vida, pelo planeta Terra, pelo mundo (JUNQUEIRA FILHO, 2005).

    O desenho como linguagem também se constitui um instrumento do conhecimento e leva a criança a percorrer novos caminhos e apropriar-se do mundo. A criança que desenha estabelece relações do seu mundo interior com o exterior, adquirindo e reformulando conceitos para melhorar as capacidades, operando mentalmente e afetivamente. Ela internaliza sentimentos e expressa pensamentos.

    Read (2001) afirma que o desenho é um modo de expressão da criança e pode ser considerado um processo mental. É também através do desenho que a criança imagina e inventa, despertando a curiosidade e o conhecimento. Fenômeno cultural, portanto, linguagem, o desenho, presente em todos os povos desde o início da civilização, constitui uma representação da vida. A prática do desenho é parte da vida e a criança que desenha vivencia descobertas, extrapola ideias e pensamentos.

    Dessa forma é necessário o questionamento a cerca do conceito do que entende por meio ambiente, e sua forma de enxergá-lo, as crianças costumam remeter-se a situação já vivenciadas que costuma ficar na sua memória, e assim reproduzem nos desenhos, por esse motivo é importante instiga-los a explorar os ambientes do cotidiano, como ele observa a sua casa, seu bairro, sua escola, o caminho que percorre, por que tal situação também faz parte do processo de aprendizagem.

    O desenho infantil retrata a expressão natural e espontânea da criança. Para Montessori existem três condições para que uma criança se expresse pelo desenho: um olhar que veja, uma mão que obedeça e uma alma que sinta (apud READ, 2001, p. 128). A partir disso, pensamos que o desenho é produzido através do sentir, do pensar e do agir. O olho segue a mão que por sua vez retrata o que o coração sente.

    O ato de criar envolve tanto criatividade como a necessidade do pensar, possibilitando a inteligência artística. Através da ação, a criança busca o saber, pois desenhar é embarcar numa fantástica aventura para conhecer o mundo que a rodeia. Para Lowenfeld (1977) a arte do desenho é fundamental na vida da criança, visando formar um novo significado para tudo que vê, sente e observa, pois constitui um complexo em que a criança reúne diversos elementos de sua experiência para formar um novo e significativo todo.

    Sabemos que o desenvolvimento ocorre em processo gradual. As crianças vão evoluindo e com elas também os seus desenhos. Por isso, não pode ser compreendido como simples ato mecânico; cada gesto e movimento têm funções simbólicas capazes de contribuir para o desenvolvimento humano.

    A criança, a grande autora dos eventos mantém uma relação de prazer que impulsiona e estimula este seu fazer. O corpo inteiro da criança desenha concentrado na pontinha do lápis, que lhe abre a possibilidade da experiência da conquista das formas. O desenho estabelece um elo de participação entre a criança e o mundo, evocando e despertando formas, imagens, significados, através de seus recursos materiais (DERDYK, 1990).

    Segundo Widlöcher (1998), os desenhos infantis são objeto de nossa curiosidade por representar a formação da identidade intelectual da criança, até porque o adulto geralmente desenha com outras intenções e de forma consciente. Se o adulto não é um artista, ele não desenha. Sua atividade gráfica é reduzida a alguns rabiscos não figurativos. As crianças, no entanto, revelam, em relação aos desenhos, um tipo de conduta que parece de forma própria e espontânea.

    A criança não é fiel à aparência visual que permite reconhecer o objeto. Obedece antes de tudo, a sua forma de reproduzir o significado. Se um detalhe permite fazer um reconhecimento melhor do objeto, ele será representado contra toda a aparência. Em relação à evolução da criança, Luquet (1994) afirma que, é necessário saber se livrar de todas as referencias intelectuais e esquecer o que se sabe. A partir do momento em que a criança desenha, devido ao progresso de suas capacidades de atenção e de concentração.

2.5 O papel do professor

    O desenho infantil é a maneira que a criança tem para se comunicar e dá mesma forma que o desenvolvimento acontece por etapas, o desenho também passa por esse processo em consonância com o seu desenvolvimento global, isto é, o motor, o psicológico e o intelectual. Cabe, portanto, ao professor da Educação Infantil conhecer estas etapas para facilitar na interpretação dos desenhos e se estão adequados à faixa etária na qual a criança está inserida, sempre lembrando que estas etapas devem ser flexíveis. A criança pode e deve ser vista por meio de diferentes olhares, assim também é o desenho que ela realiza, esta visão possibilitará ao professor um olhar subjetivo a cerca dos desenhos onde passa a analisá-los como linguagem.

    O desenho enquanto ação realizada pela a criança transita entre o passado, o presente e o futuro, há uma integração entre estes momentos, pois a criança desenha no momento presente e poderá fazê-lo buscando colocar na folha algo que está em sua memória ou usar de sua imaginação. (DERDYK, 2004)

     A influência cultural faz com que a compreensão sensível do mundo fique em segundo plano, priorizando a visão racional e intelectual. Sendo assim, com o tempo a criança vai perdendo o prazer de expressar o mundo com os olhos da sensibilidade, por meio dos desenhos, pois recebe a crítica do adulto, e vai ficando crítica em relação aos seus desenhos, considerando que é dessa forma que é ensinado pela a sociedade na qual vive, e que deve ter um olhar racional sobre o mundo que o cerca e com as situações com as quais convive. A prática do desenho possibilita ao professor conhecer o interior das crianças, podendo desenvolver atividades que favorecem as crianças um melhor entrosamento, para desenvolver a aprendizagem de forma positiva, proporcionando assim a oportunidade de sugerir aos pais algumas maneiras de lidar melhor com seus filhos em relação às questões do dia a dia.

    Caberá ao professor saber entender esta etapa que segundo as estudiosas Fusari e Ferraz (FERREIRA, 2008), deduz que há nessa etapa o sentimento estético e afirmam que há também nessas representações mentais que vêm da percepção que agora tem do mundo, uma reorganização e uma recombinação de fatos o quais são trazidos pela imaginação. Por as crianças estarem em processo de desenvolvimento e por este motivo ainda não conseguirem se expressar através de palavras, assim, não conseguindo identificar e expressar os seus sentimentos e podem inconscientemente trazer para os desenhos suas ansiedades, medos e desejos.

    Jung (2002) defende que os símbolos nos mostram aspectos e direções diferentes daqueles que conseguimos perceber somente com a mente. Os símbolos, segundo Jung, estão relacionados com o inconsciente ou com os aspectos parcialmente conscientes. Estes conteúdos inconscientes no chegam por meio da linguagem dos desenhos, dos sonhos e das pinturas. Para o professor analisar os desenhos é necessário considerar vários aspectos que precisam ser abordados, como o espaço utilizado na folha, os tamanhos dos desenhos comparados ao espaço da folha, as cores, o tempo que leva para fazer o desenho, as expressões que utiliza durante a produção ou até mesmo o quanto usa de pressão para fazer o seu desenho, como são seus traçados, fortes ou fracos.

    Essas observações leva o professor ao caminho subjetivo da criança e alerta coordenadores, diretores de creches e escolas da Educação Infantil da importância que o desenho infantil traz no desenvolvimento da aprendizagem como também na valorização do desenho como instrumento de linguagem que nos fala sem palavras.

Conclusões

    A partir dos estudos realizados a cerca do desenho, reconhecemos a importância dessa manifestação gráfica, altamente criativa que faz parte do universo infantil. O ato de desenhar é visto como a atividade artística preferida das crianças cuja produção é rica em detalhes que expressam e comunicam.

    Por ser o desenho uma linguagem gráfica em que a criança deixa registrada a sua história, cada traço, cada risco e rabisco revelam um pouquinho da identidade, do sentir e do pensar desse ser pequeno, mas histórico. Como é carregado de significados, o desenho registra as alegrias, medos, sonhos e nos leva a conhecer um pouquinho da criança, de como pensa e de como age no meio que a rodeia.    

    Ao desenhar, a criança desenvolve seus processos criativos, ampliando suas potencialidades de expressão. Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento gráfico infantil é inato da inteligência humana, também corresponde às condições socioculturais da criança e aos estímulos recebidos ao longo de sua vida. Para tanto é preciso dar oportunidades para que a criança crie e desenvolva seu estilo de representação. A criança da Educação Infantil está no auge do seu desenvolvimento pelo desenho, pois se encontra na idade em que experimenta pela primeira vez essa atividade mágica que vai evoluindo com o passar do tempo concomitante ao seu desenvolvimento. A prática de desenhar é parte da vida. É uma ação indispensável ao bem estar da criança. Lembramos que a infância é a época das descobertas e das aventuras. Portanto cabe a nós educadores oferecer condições que estimulem o gosto pela arte de registrar o mundo num pedacinho de papel, permitindo às crianças inventar, criar e sonhar.

    O desenho está estreitamente relacionado com o desenvolvimento global da criança, conforme ela vai evoluindo, vai modificando também a sua maneira de se expressar graficamente. Desenhando ela estabelece relações do seu mundo interior com o exterior, adquire e reformula seus conceitos e aprimora suas capacidades, envolvendo-se afetivamente, convivendo socialmente e operando mentalmente, rumo a um desenvolvimento sadio do intelecto e das emoções.

    Devido à relevância da temática sugere-se a realização de pesquisa prática experimental, inclusive com professores além de alunos para compor uma possível amostra.  Uma observação direta intensiva aberta por parte do pesquisador pode enriquecer uma futura pesquisa ação-participante.

    Nesse caso o desenho infantil é, portanto considerado uma possibilidade de conhecer a criança através de outra linguagem, pois possibilita o educando, antes de saber escrever, comunicar através do desenho suas sensações, sentimentos e imaginação quanto à realidade e assim justificar suas ideias a cerca do meio em que vive.

    Assim, trabalhar todo esse universo da criança, envolve a coordenação motora, criatividade e linguagens que através da utilização dos desenhos servem na tomada de base para facilitar a construção de uma aprendizagem significativa. O desenvolvimento infantil dentro dessa perspectiva necessita acontecer em sua totalidade e de maneira subjetiva, a criança que desenha na fase de construção da aprendizagem, desenvolve suas habilidades motoras e cognitivas, possibilita a aquisição da linguagem e estimula as interações sociais.

Referências

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DERDYK, Edith. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo: Scipione, 1989.

DOLLE, Jean-Marie, Para compreender Piaget/tradução de Regina Vasconcelos. – Rio de Janeiro: Agir, 2000.

VIGOSTSKY, L. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos superiores. São Paulo, Martins Fontes, 1988.

INHELDER, B. A psicologia da criança. São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1973.

READ, H. Aa educação é uma arte. Buenos Aires: Paidós, 1977.

LOWENFELD, V. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestra Jou, 1977.

DERDYK, E. Formas de pensar o desenho. São Paulo: Scipione, 1989.

GALLAHUE, David; OZMUN, John. Compreendendo o Desenvolvimento motor: bebes e crianças, adolescentes e adultos. 3. Edição. São Paulo: Phorte, 2005.

PIAGET, Jean: INHELDER, Barbel. A PSICOLOGIA DA CRIANÇA. São Paulo: Difel, 1978.

DERDYK, Edith. O desenho da figura humana. São Paulo: Scipione, 1990.

JUNQUEIRA FILHO, Gabriel de Andrade. Linguagens Geradoras: seleção e articulação de conteúdos em educação infantil. Porto Alegre: Mediação, 2005.

LOWENFELD, V. A criança e sua arte. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

READ, Herbert. A educação pela arte. Tradução Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins fontes, 2001.

Autores

Maria Magnólia Batista Florêncio
Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade Vale do Jaguaribe. Graduada em Pedagogia pela a Universidade Regional do Cariri – URCA.
 
Maria Engracia Loiola
Pós- Doutorado em andamento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina do ABC. Doutora em Ciências da Educação pela a Universidade Nacional de Cuyo-UNCUYO-República da Argentina. Especialista em Educação Básica pela Universidade Regional da Cariri- URCA. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa: Tecnologia da Informação, sociedade, Narratividade e Identidades Plurais-UFC/ CNPq.
 
Petronio Silva de Oliveira
Possui Mestrado em Desenvolvimento Regional Sustentável pela Universidade Federal do Ceará, Graduado em Química pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (2004) e Tecnologia de gestão Ambiental pela Universidade Metodista de São Paulo (2013). Atualmente é gestor Ambiental na Superintendência Estadual de Meio Ambiente do Ceará – SEMACE.

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