O presente estudo tem como escopo, discussões a respeito da transexualidade no mundo infantil e suas respectivas características abordadas nos contextos atuais. 

Resumo:

Objetivo: O presente estudo tem como escopo, discussões a respeito da transexualidade no mundo infantil e suas respectivas características abordadas nos contextos atuais. Métodos: O presente estudo desenvolveu uma revisão bibliográfica, utilizando-se das bases de dados, tais como: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e ScientificElectronic Library Online (SCIELO) e sites de interesses; dispondo de artigos publicados na integra entre os últimos anos, onde serão empregado os seguintes descritores pautados na transexualidade infantil no âmbito da educação e na sociedade, uma breve visão da psicanálise e por fim o cinema como perspectiva para melhor compreensão ao tema. Resultados: Foram restabelecidos 10 artigos, aos quais fazem referência a transexualidade como relações de gênero que se diferem do nascimento ao sexo biológico. Neste sentido, surgem diversos debates a caracterizar a transexualidade. E é perceptivo o número mínimo restrito a tratar no contexto infantil. Conclusão: Os estudos aqui discutidos firmam-se ideias de que ainda há muito que se falar em transexualidade infantil, pois em decorrência é considerável os errôneos conceitos obscuros e longínquos da realidade que a sociedade se detém.

Descritores: transexualidade infantil; contexto na educação e na sociedade; visão da psicanálise; cinema.

Abstract

Objective: This study has the scope, discussions of transsexualism in the world of children and their characteristics addressed in the current context. Methods: This study developed a literature review, using databases such as: Latin American and Caribbean Health Sciences (LILACS) and Scientific Electronic Library Online (SciELO) and interest sites; featuring articles published in full from the last few years, which will be used the following descriptors guided in child transsexuality in education and in society, a brief view of psychoanalysis and finally the film as a perspective to better understand the topic. Results: There were restored 10 articles, to which reference transsexuality as gender relations that differ from birth to biological sex. In this sense, there are many debates to characterize transsexuality. And it is the least perceptive restricted number to treat the child context. Conclusion: The studies discussed here are ideas steadies that there is still a lot to talk about transsexuality child as a result is considerable erroneous obscure and distant concepts of reality that society holds.

Keywords: transsexuality child; context in education and society; view of psychoanalysis; movie theater.

Introdução

         Muito se tem discutido, recentemente, acerca da diversidade sexual. Esta diversidade se refere às múltiplas formas de relações entre a raça humana. Hoje, há uma grande consistência do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) em decorrência do reconhecimento como diversidade. É de suma importância entender o quão grande é a luta dos que protestam cujo propósito é conquistar seus respectivos direitos mediante reivindicações para melhor aceitação na sociedade.

        No que concerne a transexualidade, de acordo com a 4ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV), o transexualismo está atualmente caracterizado como Transtorno da Identidade de Gênero (TIG) e pode ser definido, de forma bastante breve e simples, como o sentimento de infelicidade ou depressão quanto ao próprio corpo (ÁRAN, 2009).

         É preciso levar em consideração que a transexualidade não é um ato de vontade pessoal e sim, segundo o manual, uma patologia como qualquer outra e que, portanto, ninguém a escolhe ter. A troca do nome e do sexo no registro civil é apenas uma das várias etapas do processo de readequação de gênero (BORDAS, MÁRCIA & GOLDIM, 2000).

      No entanto, quando se aborda a transexualidade no mundo infantil, é necessário destacar que é um tema polêmico, todavia, muito pouco ou dificilmente discutido. Em outros aspectos, é por tal motivo que existem inúmeros preconceitos. Porquanto, a compreensão que se esclarece no termo da transexualidade no presente artigo denota :

Siqueira (apud BENTO, 2006), em seu prefácio ao livro Reinvenção do Corpo, revela que a autora discute a transexualidade como conflito identitário e não como enfermidade, na perspectiva de que o processo de organização social das identidades é o mesmo tanto para transexuais quanto para não transexuais. Nessa direção, a norma de gênero postula que somos o que nossas genitálias informam, de modo a haver uma concordância entre gênero, sexualidade e corpo.

   Neste sentido, essa definição para o mundo infantil não se faz alterada, por conseguinte, o objetivo de estudar e discutir esse importante tema, trás consigo suas respectivas peculiaridades e revela conceitos e informações imprescindíveis para o conhecimento. Para isso, o estudo ressalta inicialmente as disposições da educação, tal como as ideias da sociedade, a fim de mostrar a realidade de casos e em sequência pontuar a posição da psicologia, envolvendo a visão da psicanálise e sobretudo o cinema como uma ferramenta de intervenção para melhor reverberar a discussão do assunto em destaque.

Metodologia

       A metodologia utilizada no artigo foi de cunho qualitativo, sendo eminentemente bibliográfica, por viabilizar uma pesquisa mais célere e efetiva teoricamente, embasando-se de forma substancial em artigos, salientando veementemente trabalhos como o de Anacleto (2009), Cruz (2008) e o pesquisador Da Silva (2013). Contudo nosso trabalho mira a posteriori vislumbrar alternativas que alonguem esse artigo, que de forma sucinta e em amadurecimento tratou sobre o tema de gênero e sexualidade infantil, polêmico e extasiante mote, que nos satisfará transcender a um viés quantitativo, concernente a uma pesquisa de campo num futuro próximo.

      A partir da análise feita em discussões no entorno, geradas por interesses mútuos do grupo, percebemos que não era o bastante ficar estagnado na esfera verborrágica plantada em discussões informais e sim aprofundar mesmo que, de forma bastante incipiente o conteúdo aqui trazido e refutado, decerto as matizes que permeiam a pesquisa são válidas, porém apostam no porvir respondente que nos cerca. Sabe-se das dificuldades enfrentadas para se reverberar um tema, ainda mais quando posicionados e defendidos por dogmas culturais, religiosos e científicos. Por isso passamos a encarar o fato como conflitos de várias instâncias, direcionando objetivos, mas não se findando na proposta de trazer superficialmente uma luz acerca da sexualidade infantil e seus enfrentamentos maturacionais. É assim, que esperamos construir e facilitar percepções, dando voo a discussões e debates que traduzam o sentimento de quem sofre e passa por momentos de adversidade enfrentados no cerne da questão tratada.

O contexto da transexualidade infantil no âmbito da educação e na sociedade

         O decorrente assunto vem sendo uma problemática na educação infantil. O número de evasão tem aumentado significativamente devido ao preconceito de educadores e alunos. Elizabeth Zambrano (2011) destaca como as escolas vêm sendo um espaço institucional de exclusão dos transexuais e travestis, agredidos pelos colegas e educadores diante da “aparência monstruosa”, sendo forçados a deixarem o ambiente escolar pela frequência de insultos e agressões que são vítimas. Isso porque, ainda é preconizado pela sociedade o que sejam características masculinas e femininas, trazendo esta diferença entre sexos, o que torna impossível explicar a natureza não heterossexista para a criança.

          Desde os primeiros anos de vida a criança diverte-se com brinquedos escolhidos pelos os pais que acham ser adequados para o gênero. Não sendo um instinto materno e sim uma construção e representação social.  Mas embora haja essa construção social na humanidade, podemos reconhecer a diversidade de gênero em respeito às particularidades do sujeito e sua historia de vida. Na escola brasileira os professores ainda constituem uma imagem heteronormativa na construção de uma família onde homem e mulher sexualmente acasalam-se e reproduzem a espécie, para dar continuidade a humanidade culturalmente exigida pela a sociedade.

Afirma Louro (1997):

É necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade em um dado momento histórico. Para que se compreenda o lugar e as relações entre homens e mulheres numa sociedade, importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo o que socialmente se construiu sobre os sexos. O debate vai se constituir então, através de uma nova linguagem, na qual gênero será um conceito fundamental. (LOURO, 1997, p. 21).

        No presente artigo avaliado para este trabalho foi identificado um problema a partir de uma pergunta feita por um professor, se a pessoa for um transexual qual o banheiro ele/ela vai usar? Diante deste assunto muitos foram os questionamentos, usar o banheiro dos meninos por que tem pênis ou o das meninas por que se vestem de mulher? Colocar horário diferente para os transexuais, ou usar o banheiro da diretora? Uma aluna ainda disse: faça xixi em casa e as crianças da escola perguntaram “e isso não é preconceito?” Essa problemática deu o que falar, de modo geral, em questão foi percebido que o banheiro se tornou um marcador de identidade, ou melhor o RG do aluno. Diante de tal atrocidade incompreensiva, voltou-se ao entendimento menino/pênis e menina/vagina, preconizado no contexto escolar gerando confusão sexual, quando destacado um tema fora dos padrões heteronormativos.

        É Interessante enfatizar a expressão que surgiu depois de toda essa temática em questionamento que foi “Abafa o caso”, por isso, os professores pensaram como estratégia atenuadora da lide, tentar amenizar as diferenças de gênero e deixar tolerantemente o anormal a conviver em meio ao “normal”, provendo assim, um distanciamento ao banheiro da diretora. Será a melhor solução para o dito “anormais”?o banheiro dos professores e diretora seria assexuado? Segundo Teixeira e Raposo (2007) o banheiro surge como um espaço emblemático da constituição das diferenças de gênero, um espaço marcado por jogos sexuais, descobertas, ameaças e potencialidades. Nas palavras das autoras:

Os banheiros são espaços de alta densidade simbólica para a investigação das relações de gênero e sexualidade no contexto público e escolar. Materializam e expressam concepções e práticas de cuidado do corpo e do meio ambientejá que são locais de depósito das excreções –marcadas por significados de sexo e gênero: como são arquitetados e organizados? Como são usados? Quem os mantêm limpos? Tais questões sugerem reflexões que articula gênero, sexualidade, corpo e educação. (TEIXEIRA E RAPOSO, 2007.p.1).

         Em análise dos presentes artigos, ressalta-se que referente à problemática dos banheiros na rede estadual da educação infantil do estado do Paraná, ficou estabelecida a orientação pedagógica 001/2010 do departamento de diversidade da secretaria de educação que orienta os estabelecimentos da rede de educação pública estadual quanto ao uso do banheiro:

Quanto ao uso do banheiro, orienta-se que os/as transexuais e travestis utilizem o banheiro das/dos alunas/os de acordo com a identidade de gênero que apresentam. Ressalta-se que a arquitetura da escola não precisará sofrer qualquer alteração, ou seja, não é preciso construir um terceiro banheiro, bem como, também não se orienta que os/as alunos/as travestis e/ou transexuais utilizem o banheiro das/os professoras/es ou deficientes. (DEDI-SEED, 2010).

       Neste contexto educacional destaca-se a relevância das políticas públicas na educação infantil, com a abordagem de diversos temas relacionada a gênero e diversidade, visando diminuir a homofobia e a violências entres alunos não heterossexistas.

         Luiz Ramires (2011) em sua pesquisa destaca que uma das primeiras áreas que o governo teria que atuar no combate ao preconceito em relação a sua orientação sexual e identidade de gênero seria na escola, tendo a percepção deste ambiente lotado de desigualdades sociais, bem como, um espaço de construção de respeito à diversidade e transformação social. Logo, numa sociedade comvalores patriarcais, preconceituosos e presumidamente determinados pela força religiosa, aceitar as diferenças não é uma das tarefas mais fáceis. Nos últimos anos, diversas ações têm sido tomadas na tentativa de diminuir o sofrimento das classes minoritárias, no cunho da valorização e respeito às diferenças étnicas, de cor, de diversidade sexual e de gênero.

       No tocante à diversidade sexual e de gênero, principalmente natransexualidade infantil, temos uma árdua tarefa de quebra de paradigmas sociais e reestruturação dos espaços públicos e privados, pensando em uma resignificação dos conceitos socialmente aceitos como padrões de masculino e feminino, algo ainda meio utópico se partirmos de um pensamento heteronormativo. “Quando uma mulher engravida e vai ao médico para saber o sexo do bebê, logo os pais começam a pensar como será essa criança e nas cores do quarto e brinquedos a serem comprados para montar o enxoval do filho”. (SILVA, 2013, p. 12-25).

       É quase improvável comprar roupas róseas para o “menininho” que está por vir ou azuis para pequena “menininha” que está chegando. Em seus primeiros anos de vida como continuidade de ações socialmente aceitas lhe será apresentado os brinquedos e as brincadeiras de cunho valorativo cultural que lhe impõem o seu papel na sociedade, enquanto os meninos jogam futebol e brincam de carrinho as meninas brincam de casinha e boneca como se numa extensão do papel desempenhado pela mulher de cuidar da casa e dos filhos, imposição intolerante e acima de tudo machista.

         Quando os pais de uma criança que não a aceitam com o sexo biológico, dita transgênero, se deparam com essa problemática, logo vem a pergunta, onde erramos? “Pois a criança nada mais é do que o desejo do desejo do outro”. (LACAN, 1901) e aos olhos de nossa sociedade, uma criança que nasceu com um sexo biológico e não se reconhece com ele, não pode ser vista como normal, pois foge aos padrões de normalidade pré-estabelecidos. E como lidar com isso? Na tentativa de respostas, muitas vezes estes pais acabam buscando na religião a solução para essa pergunta, pois algum erro aconteceu na concepção desse novo ser e a culpa deve estar em algum erro cometido pelos pais contra Deus, que os puniu com esse filho (a) diferente.

       Concepções culturalmente formadas são difíceis de serem mudadas, pois perpassam por gerações e gerações, o que torna ainda mais difícil a aceitação do que é visto como diferente.

Nesse contexto, o processo que deve ser iniciado começa por mudanças de valores sociais que se mostrem conservadores, com a "quebra" de paradigmas que reproduzam preconceitos e que devem ser conquistados através de modificações profundas das estruturas estruturantes, como diria Bourdieu (2003).

Essa criança dita diferente vive uma luta diária em busca da sensação de pertencimento a um determinado grupo social masculino ou feminino. Algumas mudanças já foram tomadas na tentativa de melhoramento de políticas públicas direcionadas a essas pessoas no Brasil. “Desde 1997 foi autorizada a cirurgia de Redesignação Sexual em Hospitais públicos, porém com idade mínima de 21 anos e o acompanhamento psicológico de duração de dois anos com intervenções multidisciplinares”. (DE MELO, 2013).

  São ações mais voltadas para solução de adultos que passam por esse sofrimento psicológico, mas por outro lado, as crianças que vivem sofrendo com o preconceito na escola e com a não aceitação social, ainda vivem a mercê de políticas públicas muito conservadoras e nada ou pouco preocupadas com esse problema.  Em janeiro de 2016 aconteceu a primeira decisão judicial de mudança de nome e gênero de uma criança de 9 anos no Brasil o que nos mostra uma certa evolução na tentativa de minimizar a dor psicológica sofrida pela criança e pelos pais.

Transexualidade infantil: uma breve visão da psicanálise

          Na psicologia, a ideia do que seja sexualidade vai depender da escola considerada, trataremos aqui da visão psicanalítica freudiana, visto que a história da sexualidade e sua evolução confunde-se com a própria psicanálise, pois sempre estiveram juntas até a contemporaneidade. A teoria de Freud em boa parte fundamenta-se sobre a sexualidade, um conceito que ajuda identificar a influência da mesma sobre o psiquismo, ampliando o conhecimento sobre o desenvolvimento da libido na criança, por exemplo. Para Freud, a sexualidade da criança que é um ser em desenvolvimento, manifesta-se ainda na primeira infância, mais cedo do que se acreditava num determinado nível de sua maturação através das estruturas físicas.

          Podemos relacionar aqui, por exemplo, a boca relacionada na fase oral que Freud considerou como sendo a primeira na ordenação da libido infantil. Concebeu as fases pré-genitais das expressões da libido: a oral, a anal, a fálica e a de latência. Na infância o instinto sexual é friccionado, isto é, composto por parcelas, vindo das zonas erógenas; só mais tarde ocorrerá a junção dos vários componentes. Cada parcela busca obter prazer por seus próprios caminhos. O objeto do instinto sexual na infância é o próprio corpo da criança, ou seja, é autoerotismo. A priori a sexualidade na infância apresenta-se em forma de questionamentos, ocorre que, quando a criança percebe que seu corpo é diferente do outro presume que houve o processo de castração já que o órgão genital da menina é interno e o do menino externo.

        A psicanálise tem como um de seus fundamentos o Complexo de Édipo, que poderia abrir caminhos para uma premissa sobre a criança transgênero; contudo, outras visões são pontuadas. O desejo de ter o amor do progenitor do sexo oposto gera a disputa pela atenção e que não for bem trabalhada trará sérios problemas na vida adulta. Freud teorizou sobre a fase fálica no desenvolvimento das meninas e a inveja que as mesmas sentiam do pênis, encontrando então importantes opositores como: Melanie Klain, que acreditava que a menina, desde pequena, possuía o conhecimento da vagina, embora fosse reprimido em função do clitóris. A posição falocêntrica, defendida ferrenhamente por Freud, foi contestada até por feministas. Freud salientou as injustiças sociais e das classes oprimidas, mesmo evitando falar da opressão social que sofriam e sofrem as mulheres. Em se tratando da psicologia, menciona-se a identidade de gênero e de papel de gênero para designar o modo que a pessoa vive o gênero ao qual se identifica em resposta à sociedade e/ou a fatores historicamente construídos e conferidos ao gênero em questão.

       Sobre o quesito do gênero em psicanálise ficam claras duas concepções: a confluência do individual - do EU; ou do sujeito - e as edificações sociais como afluentes históricos. Sendo para o séquito de psicanalistas esses conflitos em sua maioria individualmente relacionados ao inconsciente, sendo raramente causado por questões sociais. Os trabalhos de Freud sobre a sexualidade, principalmente a infantil, trazem em seu dogma, avançadas e genuínas ideias alterosas e originais para a época sobre a questão de gênero. Partindo da famosa observação freudiana segundo entende-se que “toda psicologia individual é, ao mesmo tempo, psicologia social” (FREUD, 1921), a chave para certos conflitos. Robert Stoller, psicanalista norte-americano, segrega para melhor descrever os aspectos da psicossexualidade que, em sua visão particular, são "independentes" do biológico: gênero. Para tanto, ele parte do que Sigmund chama de "caracteres sexuais mentais” (atitude masculina e feminina) até certo ponto, independentes das características físicas sexuais que o sujeito apresenta. Para Lacan, o acolhedor do recém-nascido na função fálica transformará a criança em ser falante, homem ou mulher, ou seja, é aprendido. Nada, no psiquismo, permite que o sujeito se situe como macho ou fêmea. Em Freud, existe uma seriação quanto ao gênero; uma diferença que se inicia numa etapa anterior à castração, sem considerar a anatomia, cuja base é a distinção pai/mãe.

      O apresamento dos gêneros faz-se sem levar em conta o órgão sexual. A presença ou a ausência do órgão sexual masculino ou feminino não constituem garantia que o sujeito se coloque do lado dos homens ou do das mulheres: otransexualismo é o maior exemplo disso. A distinção de gênero é dada à criança desde cedo, quando se diz que menina pode chorar, pois é frágil e menino não, pois tem sempre que ser forte. O que leva uma criança a crer ser menino ou menina é a consolidação que começa após o nascimento – com a ecografia, a partir da descoberta do sexo/gênero do bebê e mais tarde, pela inscrição no cartório civil tradicionalmente. Eis então a razão pela qual, em Freud, não há uma " teoria de gênero".

Ao aceitarmos que as castrações iniciadas logo nos primeiros anos de nossa existência, quando aprendemos que algumas coisas cabem apenas aos meninos, outras às meninas desviaremos a rota de nossos desejos inconscientes, afetando a sexualidade e mais que isso; dando ênfase negativo ao sexo/gênero e determinado ainda mais as diferenças sexuais e isso pode ser feito de forma involuntária. (MÁRCIA ARÁN, 2009).

Disfarçados com seus discursos pseudo moralistas, a sociedade tenta a todo custo impor seus mandamentos, pregando a procriação e o casamento entre héteros. Longe disso, na visão psicanalítica, está a libido que se desenvolve em proporções diferentes em ambos os sexos; e projetamos no outro, que é o  nosso objeto de desejo, sempre.( L.R. MARQUES, 2010) .

A sexualidade infantil versus gênero no filme minha vida em cor de rosa

É sabido que o cinema é uma ferramenta que dispensa comentários e preceitos, devido seu caráter ambíguo de ser democrático e por muitas vezes complexo em divagações, norteando o expectador a reflexões que não se concluem nunca. Porém quando definido títulos a se pautar, surpreende em utilidade meditativa, desdenha de parâmetros que venham a incomodar os mais ortodoxos e avista um horizonte de possibilidades.

Partindo da premissa sexualidade, há vários filmes que abordam a temática, contudo escolheu-se um único para exemplificar, trata-se do filme Minha vida em cor de rosa, filme sensível e instigante, poético em nuances, dramático em temas, o filme perdura na mente de quem o assiste por anos, pode ser tratado como cinema ou como vida, é transcendente em diversas opiniões, tendo como maioria pautada sobre discussão de gênero na infância.

Sobre tal filme recaem elucubrações difusas, porém impossíveis de trazer ao artigo pela extensão que tomaria. Destarte o filme apresenta a história de Ludovic um menino de sete anos que possui uma família tradicionalmente nuclear, dois irmãos, pais estabilizados no relacionamento que adoram cultivar e apreciar a opinião dos vizinhos, representados aqui como primeira camada do chamado desejo social. Ligado a isso, a cena que introduz o filme remete a Ludovic que aparece rutilante em seu vestido rosa, cabelos bem escovados e brincos pueris, mas lisonjeiros.

Logo, quem assiste ao filme encanta-se pelo menino que se veste de menina, sente-se como uma e luta até exaurir-se de probabilidades para ser, viver e agir como uma garota, afinal está sentindo-se uma. Os pais de Ludovic, são compreensivos no começo, por acharem uma brincadeira de criança, logo percebe que os ensejos de seu filho são privilegiados pelo gênero feminino. A gota d’água acontece quando Ludovic se apaixona pelo filho do patrão de seu pai, logo o enquadramento do cinema traz na cena, com extrema delicadeza a descoberta natural das crianças pelo corpo do outro avistado e desconhecido, contudo diante desse momento são interrompidos pelos pais, quando que se acariciando, nada demais visto por uma ótica da fase apregoada pelo desenvolvimento humano, mas para os pais dos garotos aquilo é uma humilhação e uma alavanca para a homossexualidade latente nos filhos.

Em consequência o pai de Ludovic perde o emprego, o garoto cria para si uma imagem de culpado, pois a situação envolve para isso. O filme desvela inúmeros pontos importantes e interessantes para o debate acerca do tema proposto pelo artigo, no plano das objetivas o diretor representa a escola da criança e a família através de cenas, traz então a falta de compreensões pelos educadores, que diante dos fatos, se engessam em relação ao que acontece com o garoto, não conduz explicações que possam acolher Ludovic diante das outras crianças, dos seus pais, perdurando a diferença entre menino e menina como algo taxado, explícito e inconteste, portanto alguns resultados constam como propícios a uma turva concepção sexual de ludovic.

É válido salientar que apesar das adversidades na recepção, Ludovic era encontrado afetivamente pela a avó, pelos irmãos e pelos pais no findar do filme, denotando o aspecto de entendimento das escolhas, ressaltando aqui que nessa idade a criança busca o prazer, o jogo, o brincar, mesmo com autenticidade nas vontades de se tornar uma menina, Ludovic não nutre máculas a respeito do assunto tampouco sabe o que é ser um menino, por simplesmente desde que se percebe como criança é no gênero feminino que se faz desejoso. Como ainda é uma criança Ludovic não entende o que se passa até a metade do filme, quando percebe os fatos preconceituosos da sociedade rodeando a sua família.

Os autores Anacleto e Maia (2009) trazem em seu artigo um excerto esclarecedor”As simbolizações que Ludovic faz dos comportamentos que observa remetem para a satisfação de seus desejos, de modo que, somente depois que é levado à psicóloga e ouve seus pais dizendo que é um menino é que toma consciência de que faz parte desse gênero”.

Referente citação orienta o expectador, contribuindo com afirmações contemporâneas de nosso viver que são deletérias, expondo a falta de diálogo dos pais, do colégio e muito mais da sociedade que cerca por todos os lados, diante das situações como a de ludovic, a discriminação, exclusão consolidam intolerância, e explicita nossa educação ocidental, como cultura falocêntrica e machista. Outro tema que o filme apresenta para os que assistem é a ótica de que o garoto pelo fato primevo até a idade de sete anos considerar-se uma menina, tangenciando a classificação (De forma alguma uma decepção existencial e conceitual) de Transexual, convergindo ao caráter de única e notoriamente não se perceber e se ajustar ao sexo que nasceu e convive. Sustentando-se na referência (2003, p.6 apud RINALDI E BITTENCOURT) contribuem “a problemática transexual se dirige para a relação que o sujeito estabelece com o seu sexo anatômico e com sua identidade de gênero, já que a integração de sua sexualidade se dá pelo reconhecimento simbólico que este faz”.

Seria um crime de redução temática querer expor de forma científica, psicológica e existencial nesse artigo de poucas páginas a importância do assunto e do cinema como arte tenaz e didática, porém o que se reverbera é a premente necessidade de diálogo sobre esse contexto atual que ainda assusta muitas pessoas, trazemos nesse tópico à luz do cinema e sua capacidade em transmitir as emoções do humano para quem os assiste humanizando-os. Assim precisamos afirmar que com uma vida em cor de rosa, pintamos um belo quadro.

Considerações finais

       Em virtude dos fatos mencionados e os estudos a respeito da transexualidade infantil apurada, firma-se a concepção de que é necessário muito mais diálogo para produções, pois a decorrência de errôneos conceitos, de materiais consideravelmente ininteligíveis e longínquos da realidade subjetiva de nossa sociedade é nítida nos materiais de pesquisa.

     Conclui-se ainda que, os primeiros parâmetros para mobilização consciente é tentar conhecer o vasto campo da transexualidade infantil, diminuindo o preconceito presente em nosso meio que por si só é absurdo. Considerando no mais, as diversas perspectivas para abordar o presente tema. Logo, quanto maior for à difusão do assunto, mais extensa será a capacidade para compreender o ser humano como um ser holístico e não como ser patológico, oportunizando a convivência inteligente e ética entre os seres humanos.

 

Referências

ANACLETO, A..A.A.; MAIA, A.C.B. Gênero na infância: Análise do filme “ La vie in rose” como instrumento pedagógico em educação sexual. Revista Ibero-Americana de estudos em educação,v.4, n. 3, 2009.

ARÁN, M. A psicanálise e o dispositivo diferença sexual. Revista estudos feministas, Florianópolis, 2009.

CRUZ, E.F. A identidade no banheiro: travestis, relações de gênero e diferenças no cotidiano da escola. . Fazendo gênero 8- corpo, violência e poder.Floriopólis, 2008.

DENIS,T.R.M; SIGNORELLI, M.C. Refletindo sobre questões de gênero e diversidade em centro municipal de educação infantil de Irati/ PR. Cadernos de gênero e diversidade, 2015.

DE MELO, Taciana Feitosa; DE SOUZA, AnaysaCamara; MUNIZ, Lucilayne Maria da Silva, A Vivência Transexual: Uma Perspectiva Psicanalítica. Disponível em: <https://psicologado.com/psicologia-geral/sexualidade/a-vivencia-transexual-uma-perspectiva-psicanalitica>.  Acesso em 04 de junho de 2016.

DA SILVA, A. K.L.S. Diversidade sexual e de gênero: a construção do sujeito social. Revista do NUFEN, v. 5, n. 1, p. 12-25, 2013.  

MAKSOUD, F.R.; PEGORARO, R.F.; PASSOS, X.S. Reflexões acerca do transtorno de identidade de gênero frente aos serviços de saúde: revisão bibliográfica. Revista psicologia e saúde. ISSN: 2177-093X. v. 6, n. 2, jul. /dez. 2014, p. 47-55.

MARQUES, L.R. As homossexualidades na psicanálise. Trivium. 2010.

PINHEIRO,R.K. Gênero em cena – abordagens da feminilidade e da masculinidade através do cinema e da literatura. Fazendo gênero 8- corpo, violência e poder.Floriopólis, 2008.

RINALDI, D.; BITTENCOURT, V.B. O transexualismo e a questão de identidade. Rio de Janeiro, 2003.

 

Autores

Felipe Savio Cardoso Teles Monteiro- professor assistente –a do departamento de medicina da universidade federal do maranhão e professor da faculdade maurício de nassau – curso de psicologia. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Andréia Marcia Moreira de Araujo², Carlos José Lima Guedelho², Calos Vitor Esmeraldo Albuquerque Beserra² - Acadêmicos de psicologia da Faculdade Maurício De Nassau – Unidade Parnaíba – PI

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