O presente artigo fundamenta-se em estudos teóricos que apresentam uma visão integrada do ser humano pautada em uma relação não dicotômica entre razão-emoção, cognição-afetividade. 

Resumo

O presente artigo fundamenta-se em estudos teóricos que apresentam uma visão integrada do ser humano pautada em uma relação não dicotômica entre razão-emoção, cognição-afetividade. Emoções e sentimentos fazem parte de nossas vivências e são importantes na solução de problemas, no raciocínio e no funcionamento inteligente em relação às questões que o ser humano se depara em sua vida, num constante equilíbrio/desequilíbrio em busca de uma homeostasia. Defende-se uma relação entre inteligência e afetividade, entre o pensar e o sentir com conexão sem que possa haver dicotomia entre eles. Assim, quanto ao fato de a emoção ser desorganizadora ou organizadora no ser humano, com base em estudos filosóficos, psicológicos e da neurociência, corrobora-se a hipótese de que a emoção é organizadora, quando possibilitamos um exercício intelectual nas emoções, ao lutar e substituir uma emoção negativa por uma emoção positiva com força mais intensa, numa busca pela homeostasia. Observa-se assim, a importância da compreensão do funcionamento não dicotômico entre razão e emoção no trabalho voltado para as diversas áreas humanas e sociais.

Palavra-chave: emoção, razão, inteligência, homeostasia.

Abstract

The present article is based in theoretical studies, which introduce an integrated view of human being, based in a relation not dichotomous between reason and emotion, cognition and affection. Emotions and feelings are part of our living experience and are important in the problem solving, in the reasoning and the intelligent operation concerning about questions that the human being faces in your life, in a constant balance / imbalance in search of a homeostasis. Defends a relation between intelligence and affection, among think and sense with a connection, without dichotomy among then. Therefore, as the fact of the emotion be disorganizing or organizing in human being, based in philosophical, psychological, and neuroscience studies, it attests the hypothesis which emotion is organizing when we enable an intellectual exercise in the emotions, when we fight and substitute a negative emotion for a strongest positive emotion, searching for homeostasis. Is observed the important the comprehension of the working not dichotomous between reason and feeling on the working for diverse humanity and social area. 

Keywords: Emotion; Reason; Intelligence; homeostasis

Resumen

El presente artículo se ha fundamentado en estudios teóricos que presentan una visión integrada del ser humano basada en una relación no dicotómica entre razón - emoción, cognición - afectividad. Emociones y sentimientos hacen parte de nuestras experiencias y son importantes en la resolución de problemas, en el razonamiento y en el  funcionamiento inteligente en relación a las cuestiones que el ser humano enfrenta en su vida, en un equilibrio / desequilibrio constinuo em búsqueda por la homeostasis. Se defiende una relación entre  inteligencia y afectividad, entre el pensar y el sentir conectados sin que pueda haber dicotomía entre ellos. Así, cuanto al facto de la emoción ser o no organizadora en los seres humanos, con basis en estudios filosóficos, psicológicos y de la neurociencia, se  corrobora la hipótesis de que la emoción es organizadora, cuando posibilitamos un ejercicio intelectual en las emociones, al luchar y sustituir una emoción negativa por una emoción positiva con fuerza mayor, em una búsqueda por la homeostasis. Se observa, así, la importancia de la comprensión del funcionamiento no dicotómico entre razón y emoción en el trabajo direccionado a las diversas areas humanas y sociales.

Palabra clave: emoción, razón, inteligencia, homeostasis.

Introdução

Este estudo, que tem o título “Interação emoção e razão: dimensão afetiva da inteligência” é um dos quatro estudos tratados na tese de doutoramento intitulada “A dimensão afetividade da inteligência”. Fundamenta-se em estudos teóricos que apresentam uma visão integrada do ser humano, pautada em uma relação não dicotômica entre razão e emoção, cognição e afetividade. Esta visão embasa a relação aqui defendida entre inteligência e afetividade, entre o pensar e o sentir, conectados, sem que possa haver dicotomia entre corpo e mente, entre razão e emoção. A importância da dimensão afetiva da inteligência está aqui fundamentada em autores e estudos que tratam da emoção e da razão nos diversos campos, a saber: Psicologia, Filosofia, Neurociência e Educação entre outros.

Ressalta-se a contribuição de Gazzaniga & Hearheherton (2005) que fazem uma revisão histórica com base nos estudos teóricos sobre a natureza da emoção.  Segundo estes autores, em 1872, Charles Darwin (1809/1882) argumentou que, para muitas espécies, as emoções são de natureza adaptativa; em 1884, Wlliam James (1842/1910) e Carl Lang, embora trabalhando separadamente, apontam que as reações físicas podem causar emoções; em 1927, Walter Cannon, em contraste com James, evidencia que os estados emocionais levam a uma resposta fisiológica.  Segundo Gazzaniga & Hearheherton (2005), na década de 30, o endocrinologista Hans Selye descreveu que os estressores levam a reações corporais e que o estresse prolongado pode levar a uma deficiência no sistema imune, esta descoberta teve uma repercussão no campo da Psicologia da Saúde, apontando pela primeira vez a importância da emoção no sistema imunológico; em 1937, James Papez apresenta a hipótese de que a expressão emocional é mediada por vários sistemas neurais; apenas em 1962, com a teoria dos dois fatores, de Stanley Schachter & Jeome Singer (1962), se propõe que as emoções dependem de excitação física e explicações cognitivas. Ressalta-se que muitas são as discussões e reflexões sobre a natureza da emoção, sendo esta fisiológica, adaptativa, excitações físicas com explicações cognitivas. O que não podemos deixar de considerar é a importância da emoção e da sua natureza nos processos reguladores da vida.

No campo das neurociências, Damásio (2011a) faz uma distinção entre a essência da emoção e a essência do sentimento. Enquanto as emoções são relacionadas com programas de ações complexas, os sentimentos referem-se às percepções que temos, diante de uma emoção que, ao ser examinada, leva-nos a refletir sobre as questões da vida e de nossos valores, sendo de grande importância nos processos reguladores do ser humano.

Murray (1973) descreve emoção como “reações fisiológicas e psicológicas que influem na percepção, aprendizagem e desempenho” (Murray, 1973, p. 80), podendo ser inatas ou aprendidas. Ao definir emoção, este autor afirma que não há um consenso na definição de emoção quanto à sua natureza sendo, por vezes, considerado um processo isolado da motivação e, por vezes, considerado como simplesmente uma classe de motivos.  Outro aspecto ainda apontado por este autor é de não haver consenso também sobre a importância da subjetividade na emoção, sendo considerada, por alguns autores, em termos de sentimento, enquanto outros a veem somente como transformação física no corpo. 

As emoções e os sentimentos fazem parte de nossas vivências e são importantes na solução de problemas, no raciocínio e no funcionamento inteligente, em relação às questões que o ser humano se depara em sua vida, num constante equilíbrio/desequilíbrio em busca de uma homeostasia.  Para Damásio (2013), a ligação do corpo com a emoção se relaciona com o que chamou de homeostasia, que seria uma maquinaria que regulariza a vida e que, neste processo, também pode-se incluir as relações sociais e culturais os quais o ser humano está inserido, provocando um movimento no sujeito capaz de influenciar o grupo social e a cultura deste grupo. O ser humano reage à detecção de um desequilíbrio no processo de vida e, ao perceber este desequilíbrio, procura corrigí-lo, no sentido de adaptar-se, dento dos limites da biologia humana e do ambiente físico e social.

Observa-se que, ao pesquisar sobre a homeostasia, Damásio distinguiu duas classes amplas de homeostasia: (1) a homeostasia básica, sob o controle subcortical, puramente biológica e que seria uma homeostasia automatizada; e a (2) a homeostasia sociocultural ou reflexiva, sob o controle cortical, que seria uma construção puramente cultural. Para Damásio, a homeostase biológica e cultural são interativas e fazem parte da regulação da vida.

Para aprofundamento nos estudos, Damásio (2009) aponta a proposição de uma distinção entre emoção e sentimento, sendo uma estratégia de pesquisa para investigar a natureza de cada construto e propõe, em seu estudo, unir emoção e sentimento sob a forma de afetos. Entende-se, entretanto, a afetividade como a junção entre emoção e sentimento, fazendo uma reflexão sobre a relação entre afetividade e inteligência.

O objetivo deste estudo é realizar um aprofundamento nas questões sobre a relação não dicotômica entre razão e emoção, afetividade e inteligência, defendida, com base em teóricos e estudiosos que apontam a importância da afetividade nas soluções de problemas, nas respostas criativas e inteligentes inerentes à natureza do ser humano. 

Método

Amostra

       Este artigo trata de uma revisão da literatura científica, onde se busca analisar os principais teóricos que tratam das temáticas aqui apresentadas, buscando uma inter-relação entre eles, seja sócio-histórica, seja teórico-metodológica. Busca-se trazer à tona debates que envolvam às relações entre razão e emoção, afetividade e inteligência.    A Amostra foi composta por artigos cadastrados e capturados na base de dados eletrônica Periódicos Eletrônicos de Psicologia/PePSIC, Google Acadêmico, Scielo, além de publicações editoriais dos autores referendados neste artigo.

Procedimentos

       O levantamento dos artigos presentes nas bases de dados eletrônicas, utilizadas neste artigo, foi selecionado a partir dos descritores Afetividade e Inteligência. Os textos selecionados compuseram a análise teórica deste artigo, além das publicações editorias dos teóricos que tratam da temática apresentada.

Resultados e discussão

       Para tratar da relação não dicotômica entre razão e emoção, afetividade e inteligência na solução de problemas, nas respostas criativas e inteligentes inerentes ao ser humano, apresentam-se, para melhor compreensão das discussões propostas neste estudo teórico, os subtemas que, integrados, apontam para a não dicotomia corpo e mente, defendida pelos autores presentes neste estudo teórico, são eles: (1) a interação corpo e mente; (2) conceitos de inteligência e afetividade; (3) a relação corpo e mente no sistema nervosos autônomo; (4) a importância da dimensão afetiva no funcionamento da inteligência; (5) inteligência, afetividade, julgamento moral e ética.

       Para fazer um estudo sobre a interação corpo e mente, se faz necessário realizar uma reflexão sobre o objeto de pesquisa da Psicologia como ciência, Pasquali (2008) faz uma crítica às inúmeras teorias que tentam explicar a mente e propõe ser “mais produtivo analisar as características da mente” (Pasquali, 2008, p. 129). Assim, este autor aponta a importância de estudar a relação corpo e mente, pois destaca que “o problema mais saliente que aparece em todas as teorias da mente é a relação entre mente e corpo” (idem, 2008, p.129).

       Segundo Pasquali (2008), as soluções teóricas que tentam explicar e resolver o problema de corpo e da mente podem ser sintetizadas da seguinte forma: (1) Monismo Reducionista: encontrado na base das teorias da identidade, no materialismo das Ciências e defendida na Psicologia Evolucionista e Neuropsicológica, onde o que existe é uma realidade apenas. O Monismo Reducionista pode ser dividido em: Monismo Materialista - neste, a mente é reduzida ao corpo - e Monismo Idealista - neste, o corpo é reduzido à mente; (2) Monismo Neutro: embora haja também uma realidade apenas, interpreta corpo e mente em termos de linguagem, evitando, assim o problema ontológico da natureza entre corpo e mente; (3) Dualismo: afirma ser a mente distinta do corpo, sendo a relação corpo e mente reduzida a três categorias, a saber, (a) Paralelismo ou sincronismo: onde o corpo e mente são duas realidades distintas, independentes e incomunicáveis, embora sincronizados; (b) Epifenomenismo: onde corpo e mente são realidades distintas, sendo que a mente é um epifenômeno ou sombra do corpo, ou seja, o corpo age sobre a mente; e (c) Interacionismo: onde corpo e mente são duas realidades distintas e que atuam uma sobre a outra, não com sobreposição, mas com interação.

       Para Pasquali (2008) o problema da Teoria Interacionista é explicar como “sendo duas realidades totalmente distintas, parece inconcebível que elas estejam em contato direto e se afetando mutuamente” (Pasquali, 2008, p138). Assim, Pasquali (2008) aponta que alguns autores pensam que Descartes (1596-1650) defenderia uma posição do tipo paralelismo, porém tal filósofo, ao afirmar a glândula pineal como local onde se dá a conexão entre corpo e mente, encontrou uma solução interacionista entre estes, “ainda que esta relação seja muito nebulosa” (Pasquali, 2008, p137).

       Quanto à relação corpo e mente em Spinoza (1632-1667), Pasquali (2008) aponta que “alguns autores interpretam a posição de Spinoza como sendo uma teoria do paralelismo, contudo o filósofo defende o corpo e a mente como, simplesmente, dois pontos de vista de ver uma mesma realidade, a substantia” (Pasquali 2008, p137).  Para Spinoza a substantia, ou seja, a realidade é uma só, mas “ela pode ser descrita em termos de extensão e então, ela se chama natureza, ou pode ser expressa em termos de pensamento, e então ela se chama Deus” (Pasquali, 2008, p.135). Para este autor, a grande questão apontada pela história da filosofia antropológica e que “ninguém consegue explicar é como corpo e mente, duas substâncias heterogêneas podem constituir uma união e interagir entre si” (Pasquali, 2008, p139). 

      Quanto ao conceito de inteligência pauta-se este estudo em autores que também defendem uma relação entre inteligência como um processo interno e social. Conforme   descrevem Sternberg & Dettermann(1988); Mettrau(2000, 2012,2013) e Teoria Triárquica de Sternberg (2000) que aponta que o locus da  inteligência deve ser buscado simultaneamente no indivíduo, no comportamento e no contexto do mundo real. Ao definir o tema de pesquisa inteligência e afetividade, várias questões reflexivas surgiram: o que é inteligência? O que é afetividade?  Existe uma relação entre afetividade e inteligência? Para responder a estas questões, destacamos os temas, aqui apresentados, com a finalidade de analisar estudos teóricos e empíricos que auxiliem na compreensão e redimensionamento das abordagens relativas à interação entre emoção e razão, afetividade e inteligência.

       Quanto à inteligência, filósofos, pesquisadores, cientistas, educadores, pais tentaram responder esta pergunta, sendo várias as respostas encontradas desde o senso comum até o conhecimento científico que envolve estudos e pesquisa sobre o tema. A etimologia da palavra inteligência vem do latim intelligentia, ae, (Houaiss & Villar, 2009, p 1094) que significa entendimento, conhecimento. Assim, segundo a etimologia inteligência, esta palavra está relacionada a entender e conhecer, mas para um bom funcionamento da inteligência nas soluções de problemas, nas respostas às situações que o ser humano se depara em seu cotidiano, nas grandes inovações e criações, nas respostas inéditas, basta somente entender e conhecer a situação, dilema ou problema? A inteligência é um potencial inato?  Há consenso na definição de inteligência? O que é inteligência?

Em seus estudos sobre a inteligência, Hebb (1971) faz uma distinção entre inteligência A e inteligência B, sendo que a primeira seria o “potencial inato de desenvolvimento cognitivo” (Hebb, 1971.p. 284), e a segunda “refere-se, aproximadamente, ao nível médio ou geral de desenvolvimento da habilidade de perceber, prender, solucionar problemas, pensar e adaptar-se” (idem, p.284). Este autor chama a atenção que, ao descrever a inteligência, na maioria dos livros, o termo inteligência é utilizado tanto para inteligência A como para inteligência B, o que “tem produzido confusão na discussão de problemas importantes” (Hebb, p.167). Ressalta-se que Hebb reconhece que tanto a hereditariedade quanto o meio afetam a inteligência.

       Observa-se ainda, na atualidade, posições antagônicas presentes, em diversos relatos de estudos e pesquisa, sobre a discussão entre a base genética da inteligência, o potencial inato e do que é aprendido, o que depende da aprendizagem, das habilidades no ser humano. A fundamentação teórica, que segue os pressupostos do empirismo, coloca a experiência como fator fundamental para o estudo da inteligência. Por outro lado, ao acreditar na base genética da inteligência, a fundamentação teórica passa a ser pautada no modelo inatista. Entretanto, é importante mencionar a ideia mediadora, que acredita na base genética da inteligência sem descartar a importância da experiência e da dimensão afetiva. Tal ideia mediadora serve de ponto de partida para as abordagens defendidas neste estudo.

       Nos estudos de Eysenk (1988), se observa uma crítica aos termos que têm sido usados para definir inteligência, tais como: capacidade para aprender, memória, aptidão para resolver problemas, raciocínio, julgamento, adaptação ao meio, compreensão, desenvolvimento de estratégias, afirmando que, na realidade, são “consequências da aplicação da inteligência e, portanto, não servem como definição para a mesma” (Eysenk, 1988, p 87).  Já Sternberg & Detterman (1988) apontam que a inteligência é um fenômeno psicológicos de grande importância tanto para a ciência como para a sociedade, mas que não há um consenso dos psicólogos quanto à definição de inteligência. Para solucionar tal problema, Sternberg (1988) propõe um esquema para entender as diferentes concepções do que é inteligência descrevendo, quanto a sua localização, em três categorias: inteligência no indivíduo; inteligência no meio ambiente e inteligência na interação entre indivíduo e meio ambiente.

       Ainda no esquema de Sternberg (1988), os estudos que apontam a localização da inteligência no indivíduo consideram: (a) o nível biológico, que pode ser Inter organismos, intra organismos e a interação inter-intraorganismo; (b) nível molar, que seria o aspecto cognitivo que abrangeria a metacognição, a cognição, a interação metacognição-cognição e o aspecto motivacional que se relaciona ao nível de energia, a direção e a interação entre nível e direção; (c) nível comportamental, que se refere aos aspectos acadêmicos, social e prático; e (d) interação entre níveis, que seria a interação entre o nível biológico, molar e comportamental. Os estudos que localiza a inteligência no meio ambiente consideram: (a) o nível de cultura/sociedade; (b) nível de posição intracultural / sociedade; (c) interação nível e subnível, que seriam as demandas, os valores e interação demandas-valores. Há ainda os estudos que localizam a inteligência na interação entre o indivíduo e o meio ambiente.

       A partir de extensas pesquisas, Guilford (1967/1968) ressalta que a inteligência está ligada à capacidade de realizar operações mentais com eficácia. Para este autor, na solução de um problema ou situação difícil, é preciso reconhecer os elementos disponíveis e constitutivos da situação, sendo que a cognição significa descoberta, redescoberta ou reconhecimento. Mettrau (2000; 2012; 2013), Sternberg (2000) e Jiannong (2004) também relaciona os aspectos voltados para a importância da criatividade no funcionamento inteligente.

      Jiannong (2004) propõe um Modelo Sistemático da Criatividade Funcional onde o desempenho criativo de um indivíduo é tratado como uma função da inteligência, por meio de tarefas executadas por este indivíduo e que são avaliadas e observadas no meio ambiente, pela sociedade em geral. Mettrau (2000; 2012; 2013), por sua vez, propõe a criatividade como uma dimensão do funcionamento inteligente, assim como o sentir e o conhecer (Diagrama do funcionamento inteligente. Mettrau, 2000, 2012, 2013).  

       Guilford (1967/1968) descreve que o pensamento criativo tem sido denominado, por alguns autores, pensamento divergente, em contraste com o pensamento convergente, que se refere ao reconhecimento da informação, oferecendo uma só resposta correta ou uma resposta convencionalmente reconhecida como a melhor. No pensamento convergente, há um processamento e elaboração dos processos mentais de conformidade com os padrões convencionais, que se mede pelos testes usuais de inteligência ou por respostas únicas e já predeterminadas. Ressalta-se a importância dos estudos de Guilford ao redimensionar e ampliar a possibilidade do pensamento divergente, na solução dos problemas, ou seja, a base do ato inteligente está ligada à criatividade.

       Neste artigo corrobora-se com os estudos que apontam a importância do reconhecimento de uma base genética no estudo da Inteligência, porém é importante também considerar as experiências vivenciadas, as relações com o outro, suas emoções, sua afetividade. Nenhum ser humano é pronto e acabado ao nascer e a sua relação com o mundo que o cerca e com o outro é de extrema importância. À medida que aprendemos, este aprendizado é incorporado por nós, passando a fazer parte de nossa visão de mundo.

       Quanto à afetividade, ressalta-se que ao apontar o item afetividade separado da inteligência foi apenas para atender a um fim didático de definição, uma vez que, este estudo defende a ideia de indissociabilidade destes dois construtos. Segundo Rodrigues, Marques e Gomes (1989), a afetividade costuma ser definida como um conjunto de sentimentos e emoções, porém deve-se salientar que as emoções são fenômenos afetivos internos que podem, na maioria das vezes, surgir de forma brusca, assim como desaparecer ou perder a importância. Já os sentimentos são tratados pelos referidos autores como fenômenos afetivos estáveis, resultantes da intelectualização das emoções. Percebe-se, nesta afirmativa a presença indissociável da emoção e da inteligência, no sentido de buscar compreender as emoções, dando-lhe sentido e tornando-a sentimento.

       Vigotsky (1993) aponta que há uma deficiência na psicologia tradicional ao tentar separar as dimensões afetivas e cognitivas, enquanto objetos de estudos, uma vez que ambas estão relacionadas dialogicamente com as necessidades, inclinações e interesses daquele que pensa. Assim, emoção e inteligência não podem ser pensadas “dissociados da plenitude da vida” (Vigotsky, 1993, p.6).

        Houaiss e Villar (2009) define afetividade como: (1) “qualidade ou caráter de quem é afetivo” (p.60), observa-se nesta definição a afetividade como sendo uma qualidade da pessoa que tem ou denota afeição, ou seja, que é afetuoso; (2) “conjunto de fenômenos psíquicos que são experimentados e vivenciados na forma de emoção e sentimentos” (p.60), ressalta-se, nesta definição defendida neste estudo, embasado na afirmativa de Damásio (2009) que, conforme já descrito neste artigo, a afetividade é uma junção da emoção e sentimento; (3) “tendência ou capacidade individual de reagir facilmente aos sentimentos e emoções” (p.60), sendo esta definição embasada nos aspectos psicológicos do sentir a emoção e a capacidade do ser humano de reagir a esta emoção, conforme  afirma Rodrigues (1989).

       Quanto à emoção, Houaiss e Villar (2009) a define como sendo: (1) “ato de deslocar, movimentar”, nota-se nesta definição o movimento, ou seja, algo que faz o organismo ter um a ação de movimento (p.738); (2) “agitação de sentimentos, abalo afetivo ou moral, turbação, comoção” (p.738), observa-se que esta emoção poderá desorganizar o organismo, com um abalo, e causar uma desordem no organismo; e (2.1) “reação orgânica de intensidade e duração variáveis, acompanhada de grande excitação mental” (p.738), observa-se assim o caráter desorganizador de uma emoção em relação às definições apresentadas por Houaiss e Villar (2009).  Contudo considera-se neste estudo, embasado em Damásio (2011b) que sentimento e emoções são uma percepção de estados emocionais corporais e constitui um elo entre copo e consciência. Para Damásio “a emoção transmite informações cognitivas, diretamente e por intermédio dos sentimentos” (2011b, p.9). Assim, a emoção associada à inteligência, favorece a compreensão destas emoções, equilibrando-as e dando sentido para o indivíduo que a sente, age e reage.

      Pasquali (2008) aponta que “os sentimentos não são objetos mentais da área cognitiva, mas sim do afeto” (Pasquali, 2008, p.182). Assim, faz uma distinção entre emoção e sentimento, pois a emoção é de base e estrutura fisiológica, já o sentimento, ainda que tenha uma base fisiológica, apresenta uma estrutura não fisiológica e sim mental.  Este autor faz uma reflexão crítica sobre a literatura em geral, “onde mente e corpo são a mesma coisa, sendo assim, nesta visão, há uma mistura sentimento e emoção” (idem, p.182).

       Neste estudo, apontam-se ainda algumas questões a serem consideradas, que são: (a) as emoções são organizadoras ou desorganizadoras do comportamento humano? (b) a afetividade, sendo uma junção entre emoção e sentimento (Damásio, 2009), seu efeito é organizador ou desorganizador no comportamento humano? (c) estaria a emoção no pólo oposto da razão? Para responder estas perguntas faz-se necessário aprofundar os estudos sobre a interação entre corpo e mente, razão e emoção, defendida neste artigo.

       Na figura 1, proposta neste estudo, demonstra-se a relação entre a afetividade e inteligência partindo de pressupostos filosóficos apontados por Espinosa (1632-1667), que propõe uma interação entre matéria e espírito, e Descartes (1596-1650) que, embora apresentasse uma dicotomia entre corpo e mente, ao explicar a alma também estabeleceu uma posição de Interacionismo, como se observa em Heidbreder (1960) e Pasquali (2008).

Para Damásio (2011a), os sentimentos emocionais são percepções: (1) de estado do corpo durante uma emoção real ou simulada; (2) de um estado de recursos cognitivos alterados; e (3) o emprego de certos roteiros mentais. Damásio (1994/2011b) aponta, também, sobre a importância do ser humano sentir emoções, bem como a relação do ser humano com o outro e com o mundo que o cerca. O autor faz uma crítica à célebre frase de Descartes (1596-1650) “Penso logo existo”, propondo que a frase deveria ser “Penso, sinto, logo existo”, pois sentir é importante e fundamental para o existir.

FIGURA 1.

Relação afetividade e inteligência - Roteiro de estudos e concepções filosóficas que embasam a relação não dicotômica (Azevedo, 2015).

       Crítico ao dualismo de Descartes, Damásio (2009) busca em Espinosa a base da importância da emoção no ser humano “Espinosa é profundamente relevante para qualquer discussão sobre emoção e sentimento humano” (Damásio, 2009, p.16), pois ao definir afeto levou em consideração o conjunto das pulsões (drives) e motivações, bem como emoções e sentimentos (Damásio, 2009). 

       Embora Damásio faça uma crítica ao mecanicismo e ao dualismo Cartesiano, Heidbreder (1969) em sua reflexão sobre a importância da obra de Descartes para a Psicologia aponta que o dualismo deste filósofo “colocou-o em algumas dificuldades interessantes e esclarecedoras; havia separado a mente e a matéria de forma tão completa que achava difícil juntá-las novamente de forma harmônica” (Heidbreder, p.40). Descartes (1596-1630), embora mecanicista, estabeleceu uma posição de dualismo e interacionismo, conforme descreve Heidbreder (1969): “Descartes se absteve de considerar os seres humanos como meros autônomos; acredita que em cada pessoa havia uma alma provida de razão, uma substância pensante, que tinha o poder de dirigir e alterar o rumo mecânico dos acontecimentos” (p 47).  Assim, observa-se que, embora oriundas de duas substâncias diferentes, a relação entre a mente e o corpo para Descarte (1596-1630) é de interação. Heidbreder (1969) aponta que, “em Descartes, a mente age e sofre influência do corpo através da sensação, emoção e ação” (Heidbreder, p.47).

       Quanto a relação corpo e mente, discute-se esta relação com base nos estudos de Almeida, Alves, Fernandes, Remonds-Costa (2013) que apontam evidências de interação corpo-mente, considerando o papel do funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), sistema este que garante as necessidades vitais básicas. Almeida et al. (2013) se fundamentam nas reflexões de Damásio e na abordagem holística do estudo da razão, aqui apresentado, com o objetivo de, além de estudar o SNA dentro do Sistema Nervoso (SN), apresentar também “as principais características estruturais e funcionais, respondendo à seguinte questão: será o SNA um mecanismo não mecânico? ” (Almeida, Alves, Fernandes, Remonds-Costa, 2013, p5).

       Almeida et al. (2013) apontam que, para responder a questão do não mecânico do SNA, além da estrutura complexa à qual cabe o controle no meio interno do organismo, o SNA devido à ligação e interação com: (1) o Sistema Nervoso Central (SNC), constituído pelo encéfalo e Medula Espinhal; (2) Sistema Límbico (SL) e Sistema Endócrino (SE), “desempenha uma função primordial na manutenção da homeostasia, por exemplo, em face de situação de stress e alarme ocupando como tal, através de padrões normais do balanço autônomo, um papel fundamental no equilíbrio do meio interno do corpo” (Almeida et al. 2013, p.22). Assim, aponta-se, no equilíbrio do corpo, uma ação não mecânica na relação do corpo com o meio externo (Damásio, 1994/2011b). Ressalta-se a importância de considerar a emoção no processo homeostático, no que se refere ao equilíbrio do corpo, apontado por Espinoza, conforme descreveu Damásio (2009).

       Damásio (2009) aponta que a emoção e o sentimento desempenham um papel no raciocínio e cita Espinoza que “recomendava que lutássemos contra as emoções negativas com emoções ainda mais fortes, mas positivas, conseguidas por meio do raciocínio e do esforço intelectual” (Damásio, 2009, p.20). Desta afirmação, pode-se observar a importância do exercício, do raciocínio e do esforço intelectual no controle emocional. Ressalta-se a importância desta recomendação, pois se é possível lutar contra uma emoção negativa por meio de uma emoção positiva mais forte pode-se observar o caráter homeostático e organizador da emoção. Este exercício emocional pode ser realizado em diversas áreas de estudo e atuação como a psicologia, sociologia, medicina, educação e outros.

       Pode-se entender como emoção negativa desorganizadora como aquela que leva a um desequilíbrio físico / emocional / cognitivo no sujeito, sem possibilidade de reagir a esta emoção. A reflexão (ato inteligente) sobre esta emoção e o exercício emocional para compreendê-la e inferir uma resposta positiva a esta emoção trata de uma tentativa de reorganização diante das diferentes situações onde o equilíbrio deve ser retomado, ou seja, a retomada da homeostasia. Pode-se exemplificar tal fato diante das situações de medo onde o sujeito pode ser tomado por uma paralisia diante da situação e, a partir da necessidade de enfrentar tal situação, é colocado a reagir diante do perigo eminente, ou fugindo, ou escondendo-se, ou enfrentando a situação causadora do sentimento “medo”. Esta escolha de decisão diante desta emoção negativa desorganizadora é a busca inteligente por uma resposta positiva, apontada por Spinoza, para a retomada do equilíbrio.

       Souza (2011), em um estudo teórico sobre a relação entre afetividade e inteligência no desenvolvimento psicológico, aponta que os modelos psicológicos tentam lidar com a dicotomia que possa haver entre razão e emoção com objetivo de ter uma visão integral do ser humano, porém cada modelo apresenta uma tendenciosidade em valorizar, nesta relação, aspectos cognitivos, nas teorias cognitivistas, ou aspectos afetivos, nas teorias afetivas. Objetivando compreender esta relação entre afetividade e inteligência, este estudo, descreve quatro modelos de análise, sendo um dos modelos embasado na perspectiva psicanalítica Freudiana e os demais embasados na perspectiva psicogenética de Piaget, Wallon e Vygotsky.  A escolha destes modelos para este estudo é justificável por três razões: (1) os modelos privilegiam ora a inteligência, ora a afetividade; (2) as articulações entre afetividade e inteligência ficam em segundo plano; (3) devido à contemporaneidade entre Piaget, Wallon, Vygotsky e Freud.

       No que se refere às teorias psicogenéticas, Souza (2011) aponta que, no desenvolvimento psicológico, segundo a teoria proposta por Wallon, há uma alternância entre emoção e cognição, sendo que a cognição tem um papel estruturador em relação à cognição nas primeiras emoções, mas que depois de estruturada as primeiras emoções, há alternância de predominância ora nos aspectos afetivos e ora nos aspectos cognitivos. Em Vygotsky “estas relações são de complementaridade, estando as emoções entendidas no âmbito das funções mentais, das quais o pensamento faz parte” (Souza, 2011, p250). No caso da psicanálise de Freud “não parece ter o interesse de apontar relações entre afetividade e inteligência, mas muito mais submetê-los à teoria das pulsões” (Souza, 2011, p250). Para as concepções de Piaget, através de sua teoria desenvolvimentista, Souza (2011) descreve que “parece ser a única a explicitamente apontar a ideia de uma correspondência constante entre aspectos afetivos e intelectuais em qualquer conduta, não apenas de maneira geral, mas em todas as fases do desenvolvimento” (idem, p 250).

       Quanto a importância da dimensão afetiva no funcionamento inteligente, este artigo corrobora-se com os estudos de Piaget (1967), Souza (2011) e Mettrau (2000,2013), que apresentam uma visão integrada do ser humano, apontando a relação entre a afetividade e a inteligência sem hierarquia e sem priorizar uma ou outra, tanto no processo de desenvolvimento humano como no funcionamento da inteligência. Discute-se ainda a reflexão teórica de Souza (2011), embasada nas teorias de desenvolvimentistas, sendo importante realizar também uma reflexão nas teorias e estudos que levam em conta o funcionamento da inteligência.

       Mettrau (2000, 2012,2013) elaborou um Diagrama (figura 2), onde descreve o funcionamento da inteligência como um processo dinâmico, sem hierarquia, chamando a atenção para a importância das diferentes expressões da inteligência no ser humano: o criar (criação), o sentir (emoção) e o conhecer (cognição).

FIGURA 2.

Funcionamento da Inteligência Humana (Mettrau, 2000, 2012, 2013).

       Observa-se, ao centro do diagrama, o ser humano e o grupo social, uma vez que, para esta autora, a inteligência é um Patrimônio Social (Mettrau, 2000) e é no meio social que ela se desenvolve. Assim, “estas diferentes expressões se iniciam, se realizam e se desenvolvem no contexto do grupo social, isto é, o homem não existe, não se realize e nem se desenvolve, fora do grupo social” (Mettrau, 2013,p28).

 

       Para Mettrau (2000, 2012, 2013) somente a partir da visão integrada do ser humano, nos seus aspectos cognitivos, criativos e afetivos, pode-se compreender o que chamou de manifestações inteligentes, sem esquecer a influência do afeto e do meio onde estas se manifestam e se expressam. Desta forma, observam-se tais expressões no ato de criar, sentir e transformar a realidade.

       O funcionamento dinâmico e global da inteligência encontra-se descritos também nos estudos da inteligência prática de Sternberg (2000). Este autor, em sua Teoria Triárquica, trata da relação da inteligência com o mundo interno de cada pessoa, com as experiências vivenciadas e com o mundo exterior.   Desta forma, a inteligência compreende três aspectos, observando a triarquia da capacidade de pensamento, sendo estas: (1) analítica que é usada quando se faz uma análise e se avalia, compara ou contrasta; (2) crítica que é utilizada quando se cria, inventa ou descobre; (3) prática que é empregada quando se aplica ou se usa nos conhecimentos aprendidos na prática (Sternberg, 2000, 2003).

       Observa-se em Mettrau (2000, 2012,2013) e Sternberg (2000) o funcionamento da inteligência em uma relação contextual, isto é, em um contexto do mundo real. Neste sentido, estes autores vinculam a inteligência ao significado da vida cotidiana, na adaptação, modificação e seleção destes contextos. Ressalta-se nesta perspectiva o que Mettrau (2000) aponta ser a Inteligência um Patrimônio Social.

       O ser humano é capaz de se situar no mundo, refletir sobre o mesmo e criar sua história. O homem faz sua história, é produto e produz seu mundo e esta é talvez, a grandiosidade do ser humano, que deve ter consciência do seu papel no mundo. Para tanto, se faz necessário saber julgar o seu papel dentro de uma perspectiva global, em suas relações afetivas e sociais. Assim, ressalta-se a importância de refletir a relação entre inteligência, afetividade, julgamento moral e ética.

       La Taille (2006) aponta que as definições diferentes para o termo moral e para a ética se devem aos papeis da inteligência e da afetividade na moralidade. Ressalta que cada palavra apresenta respostas a duas perguntas, sendo que a moral corresponde à pergunta como devo agir?  E a reflexão ética cabe responder que vida eu quero viver?

       Para Vásquez (1998) a Ética é teórica e reflexiva, enquanto a Moral é eminentemente prática. Uma completa a outra, havendo um inter-relacionamento entre ambas, pois na ação humana, o conhecer e o agir são indissociáveis. 

Segundo Chauí (1994, p.340) o termo ética deriva do grego ethos que significa “caráter, índole natural, temperamento”.  O sujeito moral é, por definição, aquele capaz de distinguir entre o bem e o mal, e, portanto, capaz de realizar um julgamento moral. Ressalta-se um componente tanto da afetividade como da inteligência para o exercício deste julgamento moral.

       O estudo de caso de Elliot, apresentado por Damásio (2011), demonstra a importância da relação entre afetiva e inteligência, bem como da capacidade de julgamento e tomada de decisão em situações e dilemas da vida.  Elliot teve que remover um tumor no lobo frontal e a partir deste episódio apresentou alterações em seu comportamento. Foi aplicado o teste de inteligência, sendo que seu coeficiente de inteligência (QI) encontrava-se a cima da média, bem como os testes neuropsicológicos.  A memória imediata de dígitos também era de nível superior, bem como a memoria verbal de curto prazo e a memoria visual, entre todos os outros testes que evidenciavam a normalidade nestas áreas. Assim, os problemas apresentados por Elliot de comportamento social, que envolvia a tomada de decisão em assuntos pessoais e sociais, não eram devidos à doença orgânica ou de disfunção neurologia, mas de problemas de ajustamento emocional e psicológico.

       O estudo do caso de Elliot, entre outros, foi significativo para Damásio (2011) que, a partir destes estudos, faz uma crítica ao dualismo cartesiano mente e corpo, razão e emoção, propondo a hipótese de que é preciso que a razão e a emoção trabalhem juntas.  Para Damásio, uma pessoa incapaz de sentir poderá ter o conhecimento racional, mas será incapaz de tomar decisões com base nessa racionalidade.

Considerações finais

       A primeira concepção que trata este estudo é a discussão entre o empirismo, o qual se fundamenta na experiência como base única dos conhecimentos, o que se opõe ao racionalismo clássico que admite a existência do inato, da hereditariedade. O empirismo é uma teoria filosófica segundo o qual o conhecimento que temos das coisas deriva da nossa experiência, do contato que o homem tem com o mundo, por meio dos sentidos se constitui a totalidade do seu saber. Contrapondo essa perspectiva, temos o racionalismo que, baseado na razão, admite que as ideias procedam não só da experiência, mas da própria razão.

       Nesse sentido temos, assim, duas perspectivas, no que se referem à base dos nossos conhecimentos, duas visões antagônicas: o racionalismo e o empirismo. Este trabalho buscou dialogar entre estas duas vertentes, ao propor uma visão dialógica entre emoção e razão, afetividade e inteligência, onde sujeito e grupo social agem e interagem num contínuo, quando busca compreender os sentidos dados a ele, num sistema simbólico de inter-relação.

       Já a segunda concepção, abordada aqui, diz respeito à visão holística do ser humano, contrapondo-a com o dualismo corpo e mente. O homem está inserido em um contexto sociocultural e sua relação com este contexto é dinâmica: ele cria, recria e transforma o mundo que o cerca. A partir do momento em que o sujeito cria, recria e transforma sua realidade, está influenciando e sofrendo as influências, mesmo que num microcosmo, da cultura que o cerca. As ações do meio externo provocam reações no sujeito e, da mesma forma, suas reações são sentidas neste ambiente onde está se relacionando.

       Este estudo defende a interação entre razão e emoção no processo de desenvolvimento do ser humano, nas resoluções de problemas, bem como na relação do ser humano com o outro e no mundo que o cerca. Buscou-se embasamento em estudos da filosofia, psicologia, educação e da neurociência, que tratam de uma perspectiva não dicotômica entre corpo e mente, afetividade e inteligência.

       Desta forma, ressalta a ideia mediadora, ou seja, a inteligência apresenta uma base genética, mas, não se descarta a importância da experiência, da relação do ser humano com o mundo que o cerca e com o outro. Ressalta-se ainda a importância da dimensão afetiva na inteligência, praticada no meio social e nas diferentes situações vivenciadas e sentidas pelo sujeito, a partir do seu olhar sobre o mundo e as pessoas. Dar sentido ao mundo que o cerca, possibilitando compreendê-lo e transformá-lo.

       Assim, respondendo à questão apresentada inicialmente, quanto ao fato de a emoção ser desorganizadora ou organizadora no ser humano, corrobora-se a hipótese de que a emoção é organizadora, conforme apontado nos primórdios filosóficos de Espinoza (1632-1667), citado por Damásio (2009), quando possibilitamos um exercício intelectual nas emoções, ao lutar e substituir uma emoção negativa por uma emoção positiva com força mais intensa. O exercício intelectual pode ser entendido ora como uma adequação às situações enfrentadas no meio externo, ora como a tentativa de compreender os diferentes sentidos dados tanto às emoções internas como os sentimentos vivenciados no / pelo meio social. Observa-se assim, a importância da compreensão do funcionamento não dicotômico entre razão e emoção no trabalho voltado para as diversas áreas humanas e sociais.

       A partir das proposições aqui apresentadas, aponta-se a necessidade de dar continuidade a estudos e reflexões, tanto teóricos quanto empíricos, sobre a dimensão afetiva da inteligência, levando em consideração nos diversos campos do saber em estudos inter e transdisciplinares de diferentes áreas do conhecimento.

       Diante das reflexões apresentadas, baseadas nos autores aqui elencados, observa-se a importância da interação entre inteligência, emoção e afeto no dinamismo do funcionamento da inteligência apontado por Mettrau (2000, 2012,2013), a qual propõe três expressões da inteligência no ser humano, sem hierarquia, que são: o criar, o sentir e o conhecer. Portanto inteligência, emoção e afeto, da mesma forma, não apresentam hierarquia de um sobre o outro, devendo ser compreendidos de modo indissociável nas ações do ser humano, mesmo quando um se põe em maior evidência que o outro em determinado momento para atender as demandas impostas pelo ambiente ou situação.

 

Referências

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Autores:

Sonia Maria Lourenço de Azevedo – Psicóloga Clínica e Educacional, Professora, Doutoranda em Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO. E-mail, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

Márcia Maria Peruzzi Elia da Mota – Psicóloga, Doutora em Psicologia pela Universidade de Oxford- Inglaterra, Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UNIVERSO e Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Uerj, Bolsista de Produtividade nível 2 do Cnpq. E-mail, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Marsyl Bulkool Mettrau– Doutora em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho - Portugal, PhD em Educação pela UFF. E-mail, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

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