O medo é um tema que está em evidência na atualidade, pois diariamente temos que conviver com o temor da violência urbana, o medo de atentados terroristas, medo da guerra, medo de catástrofes naturais, medo do desemprego, medo da solidão e exclusão (BAUMAN, 2008). 

Resumo

O medo é um tema que está em evidência na atualidade, pois diariamente temos que conviver com o temor da violência urbana, o medo de atentados terroristas, medo da guerra, medo de catástrofes naturais, medo do desemprego, medo da solidão e exclusão (BAUMAN, 2008). E como meio compensatório passamos a investir energia em meios que venham a provocar o “alívio” dessas sensações e angústias provocadas por esses medos, meios esses que acabam por trazer mais ainda um vazio subjetivo e identitário. A fluidez dos laços e a fragilidade das relações são aspectos bem visíveis na atualidade, onde a busca pelo novo é constante, produzindo um homem sem referências, consumista exacerbado. Diante de tal realidade este artigo se propõe a caracterizar os medos produzidos pela contemporaneidade, procurando conhecer os fatores produtores de subjetivação, fazendo uma reflexão sobre suas consequências para esse homem atual, sujeito ao acometimento de diversas neuroses, onde o medo se apresenta de forma sorrateira, disfarçada e tácita.

Palavras-chave: medo, subjetividade, contemporaneidade.   

Abstract

Fear is a theme that is in evidence today, as every day we have to live with the fear of urban violence, fear of terrorist attacks, fear of war, fear of natural disasters, fear of unemployment, fear of loneliness and exclusion (Bauman, 2008). And as compensatory means we invest energy in ways that may cause the "relief" of these sensations and anxieties caused by these fears, means those who end up bringing even more a subjective and identity empty. The fluidity of ties and the fragility of relationships are clearly visible aspects today, where the search for the new is constant, producing a man without references, consumerist exacerbated. Faced with this reality this article aims to characterize the fears produced by contemporary, seeking to know the producers factors of subjectivity, making a reflection on the consequences for that modern man, subject to the involvement of various neuroses, where fear is presented in a sneaky way disguised and tacit.

Keywords: fear, subjectivity, contemporary.

Introdução

Vivemos em tempos de fluidez nas relações humanas, regidos pela escassez do tempo, onde tudo acontece de maneira efêmera, e já não podemos mais saborear o gosto dos momentos vividos, pois somos impulsionados a seguir o ritmo ditado pela ordem capitalista, que nos instiga a possuir e consumir cada vez mais, onde a introspecção e reflexão sobre aspectos da vida representam uma perda de tempo sem precedentes. Bauman, sociólogo polonês, se constitui como um dos grandes estudiosos sobre os aspectos contemporâneos, e fornece uma obra rica sobre a dinâmica da contemporaneidade, onde o mesmo vem a caracterizar a vida atual como uma “vida líquida” (BAUMAN, 2007). A vida líquida e a modernidade líquida, segundo ele, estão interligadas. A sociedade “liquido moderna” atual, produz membros que agem em tempos muito curtos, tempo esse insuficiente para que sejam consolidados hábitos e rotinas, das formas de agir desses indivíduos.

O homem estabelece uma relação muito próxima com os objetos materiais, onde as máquinas cada vez mais ocupam o lugar de pessoas. Essa dinâmica contemporânea produz um homem sem referências, levado pelas aparências e pela volatilidade das circunstâncias vividas, marcado pelo espetáculo, na busca de “receitas” de como se obter uma vida feliz, tornando-se angustiado, marcado pelo medo da solidão. Neste sentido,  Miranda (2005) afirma que os avanços tecnológicos proporcionam uma fugacidade do tempo, trazendo juntamente uma infinidade de (des)encontros, sendo o sujeito contemporâneo um ser vazio, que assiste a uma corrida desenfreada pelo novo, numa mesma medida que essas mesmas novidades se tornam ultrapassadas. Esse indivíduo se torna insensível às desigualdades sociais e a proliferação da miséria, sendo um consumidor extremo, onde o mercado se aproveita dessa superficialidade, apostando neste aspecto efêmero e mutável dos bens a serem consumidos, para gerar essa massificação, aglomerando o maior número de consumidores possíveis.

Nos dias de hoje nos apresentamos temerosos a uma série de eventos, medo das catástrofes naturais, epidemias, endemias, guerras, atentados terroristas, violência, desemprego, exclusão, solidão, e como alternativa para compensarmos tais problemas, nos munimos de conhecimentos, nos fechamos em nossas casas , que cada vez mais contam com um aparato de segurança mais sofisticados, evitamos manter proximidade e contato com pessoas ditas estranhas, nos trancafiamos em carros blindados, demonstrando, dessa forma, que nesse ambiente líquido-moderno, as incertezas, perigos e ameaças são uma constante (BAUMAN, 2008).

De acordo com Santos (2003), o tema do medo está em evidência nos dias de hoje. O que pode ser percebido na quantidade de informação veiculada sobre o tema na atualidade, em diversas matérias em jornais e revistas, que o abordam em suas várias dimensões. O medo é um tema que vem atravessando o cotidiano e marcando de forma cada vez mais palpável a vida coletiva e individual, levando à modificação de comportamentos sociais e hábitos mentais.

Diante de tal realidade este artigo se propõe a caracterizar os medos produzidos por essa contemporaneidade, procurando conhecer os fatores constituintes e produtores de subjetivação na “Pós-Modernidade, modernidade tardia, ou como muitos preferem chamar de contemporaneidade, fazendo uma reflexão sobre suas consequências para esse homem atual, sujeito ao acometimento de diversas neuroses, onde o medo se apresenta de forma sorrateira, disfarçada e tácita.

Primeiramente será feita uma contextualização sócio-histórica e econômica da época atual a qual estamos inseridos, em seguida se falará da influência da mesma nas relações humanas e dos processos de produção de subjetividade atuais, trazendo um panorama dos medos produzidos pela contemporaneidade.

O termo “Pós-modernidade” utilizado por muitos estudiosos para retratar o momento atual, é marcado por muitas controvérsias, portanto não há um consenso entre os mesmos quanto ao seu uso. Este termo pode ser empregado, de acordo com Camargo (2009), nos mais variados campos do conhecimento, entre eles: na economia, na estética, na filosofia, na política e na sociologia. Denomina-se, “Pós-modernidade” as transformações ocorridas no campo da literatura, da arquitetura, da música, do cinema e da pintura, por volta da década de 1970 do século passado, marcando, dessa forma, uma ruptura com os padrões estéticos do modernismo, (EAGLETON, 1996, apud Camargo, 2009, p. 116).

         Sanches (1992) aponta que é necessário antes de tudo relativizar esse termo, pois cada momento histórico pode ser nomeado de modernidade por quem o vive, existindo então um processo modernizador, um esquema de modernidades sucessivas, e cada modernidade é seguida pela modernidade que lhe sucede. E por quê então que se fala que os dias de hoje podem ser chamados de “Pós-modernidade”?

Severiano (2001) concebe a “Pós-modernidade”, como o momento em que há uma quebra entre os padrões estabelecidos na era moderna, trazendo uma crise da racionalidade, do método científico e das certezas da modernidade sólida, que pregavam a construção de um conhecimento objetivo que traria melhorias à vida do ser humano. A Modernidade marcada principalmente pela introdução do sistema capitalista e a desagregação da sociedade feudal, traria uma proposta de superação dos antigos valores defendidos na Idade Média, tais como o misticismo, a superstição, onde a Igreja era o centro de todas as coisas (Teocentrismo).

A autora acrescenta que na Modernidade o Homem agora é o centro do universo (Antropocentrismo), um ser que busca sua emancipação, dotado de uma razão, regido pelo método científico que produz verdades universais sobre a realidade.

Bauman (2008) fala que na contemporaneidade as certezas produzidas pela modernidade entraram em crise e com isso o controle que o homem acreditava que teria sobre a natureza e os aspectos sociais sucumbiram. Agora o homem não tem mais o domínio sobre a natureza, vive em meio a avanços tecnológicos movidos por uma economia globalizada, produtora de ansiedade e medos constantes.

Paralelamente a isto, Guattari e Rolnik (1996) trazem a cartografia dos principais fatores que interferem na produção de subjetividade nas sociedades capitalísticas, podendo-se destacar a cultura de massa. Essa cultura de massa age exatamente produzindo indivíduos normalizados, articulados uns aos outros, determinados por sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão implícitos, diferentemente do que ocorre na etologia animal, ou nas sociedades antigas, pré-capitalistas, mas sistemas de submissão muito mais dissimulados. Os autores complementam que tal processo de produção de subjetividade – aqui eles colocam mesmo num sentido de fabricação – fabricado pela máquina capitalística produz não só uma subjetividade individuada, mas coletiva, determinando desde o que pensamos e desejamos, e até pelo que devemos nos apaixonar; contrariando à ideia de que possuímos uma essência subjetiva, aquilo que nos é próprio, algo substancial, tal como Filosofia e as ciências “psi” defendem, na tentativa de apreenderem tal construto, tendo-o como algo estático.

Com a disseminação das tecnologias, os processos de subjetivação perpassam cada vez mais por uma infinidade de sistemas maquínicos (GUATTARI, 1993). O autor tece uma crítica à essa maquino-dependência, que atua diretamente na produção de subjetividade, uma vez que é permeada por um jogo de enriquecimento e empobrecimento, pois ao mesmo tempo que se apresenta como um processo de democratização do acesso aos dados e aos saberes, trazendo uma série de outros benefícios, se mostra paradoxalmente como produtora de particularismos e racismos, segregadora e excludente. Contudo, complementa que já não faz sentido para o homem tentar fugir ou desviar-se dessas máquinas, pois elas já se constituem como formas hiperdesenvolvidas e hiperconcentradas de vários aspectos subjetivos seus.

A produção de subjetividade nos sistemas capitalísticos se dá em escala mundial, através dos enunciados de subjetivação, carregados de significados e significantes, o que Guattari e Rolnik (1996) denominam de Capitalismo Mundial Integrado (CMI). O agenciamento coletivo de enunciação nem é uma entidade individuada, como também não corresponde à uma entidade social predeterminada. Os autores trazem que esses agenciamentos semióticos e produtores de subjetividade não são centrados em agentes individuais, quer seja no funcionamento de instâncias intrapsíquicas, egóicas ou  microssociais, e nem em agentes grupais. Pode-se dizer que esses processos são duplamente descentrados e sofrem influências recíprocas, que implica no funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extrapessoal, extra-individual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia, enfim, sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra humana, infrapsíquica, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagens, de valor, modos de memorização e de produção de ideias, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos, etc.).

Guattari e Rolnik (1996) trazem que a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza as identidades, implica também na produção de kits de perfis-padrão, de acordo com as dinâmicas de mercado, para serem consumidos pelas subjetividades, não levando em consideração o contexto geográfico, nacional, cultural, etc. As identidades locais fixas acabam por desaparecerem, dando lugar à identidades globalizadas flexíveis, que mudam ao sabor dos movimentos do mercado e com igual velocidade.

Segundo a mesma autora, isso implica uma abertura dos indivíduos para o novo, conquistando uma flexibilidade para adaptar-se ao mercado em sua lógica de pulverização e globalização: novos produtos, novas tecnologias, novos paradigmas, novos hábitos, etc. No entanto, isto nada tem a ver com flexibilidade para navegar aos ventos dos acontecimentos - transformações das cartografias de forças que esvaziam de sentido as figuras vigentes, lançam as subjetividades no estranho e as forçam a ganhar novas formas. Abertura para o novo não envolve necessariamente abertura para o estranho, nem tolerância ao desassossego que isto mobiliza e menos ainda disposição para criar figuras singulares orientadas pela cartografia destes ventos, ventos estes tão inconstantes na atualidade. Esse quadro nos leva à uma crise identitária, sem falar do risco constante de nos tornarmos pouco significantes, caso não consigamos produzir o perfil ideal para gravitar em quaisquer das órbitas do mercado.

         Um dos primeiros estudiosos a tentar descrever o mal-estar social foi Sigmund Freud, afirmando que os sofrimentos psíquicos estão na órbita de uma coletividade e por isso são constituídos socialmente.

Guattari e Rolnik (1996) apontam que diariamente todos nós, de alguma maneira, vivemos diante de uma crise: crise da economia, especialmente a do desejo, crise dos modos que vamos encontrando para nos adaptarmos à vida, onde mal conseguimos desenvolver uma maneira ideal de agir, pois essa maneira dentro de pouco tempo já se torna absoleta. Vivemos sempre em defasagem em relação às atualidades das nossas experiências, pois precisamos nos tornar íntimos dessa incessante desmontagem de territórios: treinamos, todos os dias, e nos munimos de técnicas e estratégias para nos mantermos equilibrados em meio à isso tudo. Somos forçados a nos tornar exímeis construtores de territórios, e isso de maneira, caso seja possível, tão rápida e eficiente quanto o ritmo com que o mercado desfaz situações e constrói outras.

Contudo, a natureza de tais territórios não pode ser de qualquer maneira, pois vemo-nos convidados o tempo todo e de todos os lados a investir a poderosa fábrica de subjetividade serializada, produtora destes seres que somos, reduzidos a condições de suporte de valor – e sobretudo quando ocupamos os lugares mais prestigiados na hierarquia dos valores. Tudo leva a esse tipo de economia. Muitas vezes não nos resta outras saídas. E que quando na desmontagem, atônitos e desconcertados, nos tornamos fracos, a tendência é que adotemos posições meramente defensivas, pois o medo da marginalização na qual corremos a risco de ser confinados quando ousamos criar qualquer território singular, independente de serializações subjetivas; por medo dessa marginalização chegar a comprometer até a própria possibilidade de nossa sobrevivência, o que acaba sendo possível, acabamos reivindicando um território no edifício das identidades reconhecidas. Tornamo-nos, dessa forma, indivíduos que agem em dissonância com nossa própria consciência, e produtores de algumas sequências da linha de montagem do desejo (GUATTRI; ROLNIK, 1996).

De acordo com Miniaurélio Século XXI Escolar (2001), medo significa sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; susto, pavor, temor, terror. Assim o medo tem tanto aspectos positivos, como negativos, pois pode auxiliar o indivíduo em situações delicadas, situações essas que podem comprometer sua própria sobrevivência, como também pode ser muito prejudicial às pessoas, principalmente quando esta passa a comprometer a qualidade de vida dos indivíduos, adquirindo, dessa forma, aspectos patológicos.

O medo provoca diversas reações no organismo dos indivíduos, onde de acordo com Delpierre (1974 apud Santos, 2003, pág. 49) , “o medo pode provocar efeitos contrastados segundo as características apresentadas pelos indivíduos e circunstâncias vividas, ou até reações alternadas em uma mesma pessoa: a aceleração dos batimentos cardíacos ou diminuição dos mesmos, uma respiração demasiadamente rápida ou lenta, uma contração ou uma dilatação dos vasos sangüíneos, uma hiper ou uma hipossecreção das glândulas, constipação ou diarréia, poliúria ou anúria, um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta”. O mesmo completa que o medo humano apresenta-se de maneira mais complexa, diferentemente daquele presente nos animais, pois o medo humano apresenta-se de maneira múltipla, e conta com a influência de fatores imaginativos.

         De acordo com Soares (2010) é impossível dissociar o medo da condição humana, pois ele sempre vai se mostrar como um companheiro inevitável e inseparável nosso, como também sua companhia é garantia da nossa sobrevivência, desde o início do nosso percurso histórico, como também ao longo de todo processo de evolução da espécie humana. A qualidade e a importância do medo para a humanidade não se trata, somente, de uma questão de sobrevivência individual, mas engloba fatores que garantem a sobrevivência da espécie como um todo.

O medo pode adquirir diversos sentidos ao longo da história de uma civilização, que de acordo com Santos (2003) o medo está no rol das emoções básicas inerentes aos seres humanos, no entanto seu significado varia de acordo com os aspectos culturais de cada povo, não se tratando unicamente de algo inerente à nossa natureza, dessa forma, não podemos concebê-lo como imutável; o mesmo é envolvido, sobretudo, por crenças subjacentes, tratando-se, portanto, de um sentimento construído historicamente, aprendido e ensinado de formas diferentes, dependendo da época em que o mesmo está inserido.

Bauman (2008) afirma que o medo se torna mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros, quando o mesmo nos assombra sem que haja uma explicação visível, palpável ou material, quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la. “Medo’ é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito - do que pode e do que não pode - para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance” (BAUMAN, 2008, p. 6).

Rolnik (1997) afirma que na época atual há uma crise das identidades, onde podemos presenciar um esvaziamento das subjetividades, acrescentando ainda que, as subjetividades estão sujeitas a conviverem com o amedrontamento, pois são tomadas pela sensação de ameaça de fracasso, despersonalização, enlouquecimento ou até de morte. As forças não tem caráter produtivo, ocorrendo o contrário disso, uma vez que ganham um caráter diabólico; e esse desassossego trazido pela desestabilização torna-se algo traumático. Alternativas são criadas para nos protegermos da proliferação das forças e impedir que as mesmas abalem essa ilusão identitária, então, freia-se o processo, anestesiando a vibratilidade do corpo ao mundo e, portanto, seus afetos. Vale acrescentar que um mercado variado de drogas sustenta e produz esta demanda de ilusão, promovendo algo como se fosse uma toxicomania generalizada. O que a autora vem a caracterizar de toxicômanos de identidade.

A mesma fornece as drogas que sustentam esse tipo de ilusão, primeiramente ela traz as drogas propriamente ditas, as que são fabricadas pela indústria farmacológica, que nos proporcionam a doce ilusão de nos fazer crer que essa turbulência pela qual passamos não passa de uma disfunção hormonal ou neurológica, onde para incrementar o coquetel, são fornecidas miraculosas vitaminas prometendo uma saúde ilimitada, vacinada contra o estresse e a finitude. O segundo tipo de droga apontado pela a autora é a droga divulgada pela TV, pela publicidade, o cinema comercial e outras mídias, onde são oferecidas figuras  glamurizadas imunes aos estremecimentos das forças, no entanto, quando estas são consumidas como próteses de identidade, seu efeito tem pouca duração, pois esses indivíduos produzidos, a partir de então, são cópias possuidoras de falsos-selfs estereotipados, também são vulneráveis a quaisquer turbulências de forças que se apresente de maneira  um pouco mais intensa. Indivíduos viciados neste tipo de droga vivem dispostos a mitificar e consumir toda imagem que se mostre de uma forma minimamente sedutora, na esperança de assegurar seu lugar em algum ângulo de mercado.

O terceiro tipo de droga proposto por Rolnik é droga oferecida pela literatura de auto-ajuda ensinando a exorcizar os abalos das figuras em vigência, nesta categoria pode-se incluir a literatura esotérica, o bom evangélico e as terapias que prometem eliminar o desassossego. O quarto e último tipo de droga são as drogas oferecidas pelas tecnologias diet/light, onde múltiplas são as fórmulas mágicas encontradas para uma purificação orgânica e a produção de um corpo minimalista, maximamente flexível. Busca-se nessas drogas corpos ideais, principalmente corpos representados pela “perfeição” dos corpos tidos pelas modelos e top models.

Santos (2003) diz que na atualidade muito se tem falado em síndrome do pânico, e propõe que pode-se dividir as diversas concepções a seu respeito em duas grandes tendências a primeira com inspiração mais objetivista, que concebe a síndrome do pânico como uma entidade com substância própria, independente dos contextos sociais e culturais contemporâneos, já a segunda tem uma orientação mais historicista e anti-essencialista, que concebe essa síndrome como a expressão de uma cultura, de um universo social que lhe dá os elementos de sustentação. Este trabalho contempla essa segunda visão, concebendo conforme Rolnik (1997), que essas crises se devem principalmente a esses aspectos subjetivos ligados a esse vazio identitário observado hodiernamente, sendo que o vem acontecer na síndrome do pânico é uma desestabilização, que é levada a tal ponto que ultrapassa o que se pode suportar. É no corpo que isso parece se manifestar, uma vez que ele parece ser ameaçado de descontrole de forças, promovendo um caos psíquico, moral, social e orgânico.

Bauman (2008) traz que um dos medos mais presentes nas diversas culturas é o medo da morte, servindo este de modelo para retratar todos os outros. Complementa afirmando que temos uma característica, independentemente da cultura a qual fazemos parte, de buscar meios que tornem a morte mais branda e serena. Nos dias atuais, modernidade líquido-moderna, a banalização do “inevitável” se coloca como um desses estratagemas. Sendo que a morte acaba por torna-se um evento banal uma vez que é dramatizada cotidianamente, constituindo-se parte integrante da vida. A pouca duração dos vínculos humanos e a facilidade com que são rompidos servem como ensaios rotineiros da experiência da morte.

Bauman na mesma obra citada acima ao afirmar que a crença moderna na racionalidade humana e, consequentemente no maior controle do mundo natural e social não se efetivou, acabou por acarretar males produzidos por seres humanos tão inesperados, incalculáveis e imprevisíveis quanto qualquer catástrofe natural que possa ter ameaçado nossos antepassados, males estes que temos que enfrentar atualmente. Na modernidade líquida presenciamos uma mistura de sinais, onde cada vez mais se torna difícil se estabelecer limites, identificar ou separar o bem do mal, dessa forma se torna bastante complicado separarmos os amigos e os inimigos.

O mal está implícito, podendo surgir de todos os lados, e a qualquer momento. As cidades se transformaram em fontes de ameaça e de perigo permanentes. Os encontros no espaço urbano tendem a ser deixados para segundo plano ou marcados pela desconfiança extrema, mediados por procedimentos de segurança, ou pelo que as modernas empresas de segurança possam oferecer para os habitantes amedrontados e, claro favorecidos do ponto de vista econômico. Nesse cenário, a confiança não se fortalece e o medo não se dissipa, pois antes ele encontra um ambiente favorável a sua autocriação. E de acordo com Bauman, já não temos confiança nas pessoas na atualidade. Nesse contexto de incertezas e medo, as relações humanas e os vínculos sociais encontram-se extremamente ameaçados. O que nos resta é o distanciamento, alternativa que pode trazer um pouco de alívio e segurança.

         Bollas (1992) aponta que esse meio atual o qual estamos inseridos é um “criadouro” propício para o surgimento de um nova doença pessoal, a normose, que é um transtorno de personalidade, onde há uma supressão parcial dos aspectos subjetivos. Pessoas que possuem tal transtorno não possuem o elemento criativo, e nem uma reflexão subjetiva sobre aspectos da realidade.

Uma pessoa normótica é aquela que é anormalmente normal. É demasiadamente estável, segura, à vontade e socialmente extrovertida. É fundamentalmente desinteressada da vida subjetiva e tende a refletir na concretude dos objetos, na sua realidade material, ou nos “dados” que se relacionam com os fenômenos matérias (BOLLAS, 1992, p. 171).

O autor traz ainda que essas pessoas são dotadas de uma baixa capacidade de simbolização, e acabam por alojar diversas partes e funções de seus mundos internos nos objetos materiais, estando vivas em meio a um universo de coisas sem sentido.

Santos (2003) aborda um outro tipo de medo vivenciado na atualidade, que é a busca por aventuras e a prática de esportes de risco. A mesma acrescenta que diante de um mundo sem muitas referências, sem grandes horizontes, sem projetos históricos, sem ambições coletivas, na ausência de um valor mais alto, a força e o sentido da vida ficam na imanência da vida de cada um, e mesmo na experimentação física da existência, na fruição das sensações. Diante da busca de aventuras e riscos para a vida, paradoxalmente, agora, se busca o medo como algo relacionado ao bem-estar, que traz alegrias, satisfação e felicidade.

O medo já não é mais sacralizado, não tem mais relação com Deus, já é inscrito no corpo sob a forma de pânico. Há uma invasão de sentimentos de incerteza, fragilidade, insegurança, fragmentação, como maneira decomposta, banalizada, de uma experiência que antes era tão densamente carregada como o medo. Não faz parte mais do trágico, mas do comum; o medo aparece o tempo todo, criando-se inclusive estratégias para lidar com essa emoção, sendo uma delas o medicamento. O medo surge inscrito no corpo, o grande medo o de se descontrolar, de perder o controle corporal (SANTOS, 2003, p. 54).

Bauman (2008) fala que a busca moderna e incessante para tornar o mundo cada vez mais previsível, cognoscível, claro e regular originou tais transformações que presenciamos atualmente, e isso até de forma imprevista, porém trágica, o que acabou causando certa semelhança entre as catástrofes sociais com relação aos desastres naturais. Traz ainda que o homem atual tem concentrado muita de sua energia na tentativa incessante de resolver problemas ocasionados por experiências anteriores, que se tratavam já de tentativas frustradas de solução de outros problemas já existentes. O homem tem depositado crença na capacidade dos meios tecnológicos, na tentativa de promover o alívio e maior controle das nossas incertezas e ansiedades, uma vez que elas crescem numa medida desenfreada. Nos causa medo aquilo que nos foge, aquilo que se esvai, que é da ordem do incontrolável, e o medo nada mais é aquilo do qual não podemos nos defender.

Com respeito à globalização Bauman (2008) tem uma visão negativista a respeito da mesma, definindo-a como a nova ordem mundial, de caráter indeterminado, indisciplinado e sem um controle central, sendo que esse mundo negativamente globalizado, em sua opinião, torna os efeitos das ações fora do controle e não calculáveis. Acrescenta que as origens de nossos medos são de ordem política, ética e globais, não cabendo uma solução para os mesmos que seja de ordem local, advertindo ainda que enquanto não forem buscadas medidas que sejam globais para amenizar os nossos medos atuais, eles ainda por muito tempo atormentarão nossas sociedades.

Diante da discussão realizada acima podemos afirmar que os medos podem ser construídos socialmente e são permeados por um conjunto de símbolos e crenças, portanto são passíveis de julgamentos e o modo como são criados podem ser postos à prova, como também podemos fazer uma reflexão sobre como o mundo atual está organizado.

Precisamos elaborar meios alternativos que possam trazer novas  formas de nos lançarmos no mundo, bem como possibilidades de experiências e jeitos de ser. A esse respeito Guattari e Rolnik (1996) afirmam que é possível a criação de modos alternativos e criativos de subjetivação, aquilo que denominaram de “processos de singularização”: como uma maneira de recusar todos os modos de “encodificação” estabelecidos de antemão, todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver; com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são nossos, privilegiando sempre novas possibilidades.

Bauman (2008) afirma que não adianta esperarmos passivamente que nossos gestores façam algo para mitigar o medo que se propaga, algo que se torna até utópico, mas cabe a cada um de nós buscarmos formas e repensarmos maneiras de eliminar as raízes do medo que assola o mundo líquido moderno. Propõe que devemos nos manter esperançosos para atingirmos um equilíbrio estável entre liberdade e segurança.

Este artigo buscou não só apresentar os medos que assolam nossa modernidade líquida, mas antes de tudo fornecer meios que possam gerar uma reflexão a respeito dos dias atuais e sobre aquilo que nos escraviza, e que cada vez mais nos afastam da possibilidade de sermos nós mesmos, como uma escolha consciente do que queremos ser realmente. Entretanto, este artigo não teve como anseio esgotar a temática aqui tratada, de modo que pesquisas e revisões sobre a mesma a posteriori se fazem necessárias.

 

 

Referência

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Autores

Laurentino Gonçalo Ferreira Filho (http://lattes.cnpq.br/4967739571274971). Psicólogo formado pela Universidade Federal do Piauí - UFPI, pesquisador vinculado ao Núcleo de Avaliação Psicológica do Delta - NAPsiD. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental - TCC pela Faculdade Latino Americana de Educação-FLATED, atualmente trabalha no no núcleo de apoio à saúde da família-nasf. Crateús-Ce.

Monalisa Pontes Xavier (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4758959Y5).   Doutora em Ciências da Comunicação pela UNISINOS (2014). Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal do Ceará (2009), mesma instituição pela qual é graduada em Psicologia (2005). Professora do curso de Psicologia da Universidade Federal do Piauí e do Programa de Pós Graduação em Comunicação/UFPI. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.                                                             

Hysla Magalhães de Moura (http://lattes.cnpq.br/7122089827569853). Psicóloga formada pela Universidade Federal do Piauí (2013). Especialista em Teoria Cognitivo-Comportamental (2013) pela Faculdade Latino Americana de Educação (FLATED). Mestranda em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Bruna da Silva Nascimento (http://lattes.cnpq.br/7844954780017268) - Doutoranda em Psicologia na Universidade de Stirling (Reino Unido). Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB (2015). Vinculada ao Núcleo de Pesquisa Bases Normativas do Comportamento Social. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Piauí - UFPI (2013).

Káren Maria Rodrigues da Costa (http://lattes.cnpq.br/2516909328937299)- Psicóloga formada pela Universidade Federal do Piauí-UFPI, especialista em Saúde Mental e em Atenção Integral aos usuários de substâncias psicoativas no estado do Piauí, com interesse na área clínica utilizando como aporte teórico a abordagem cognitivo- comportamental. Grande interesse na área de comportamentos anti-sociais e delitivos, substâncias psicoativas, redução de riscos e danos, família, saúde mental.