O presente artigo tem como interesse perfazer uma revisão teórica acerca do arquétipo do herói e da heroína, embasando-se no referencial teórico da Psicologia Analítica.

 

Resumo

O presente artigo tem como interesse perfazer uma revisão teórica acerca do arquétipo do herói e da heroína, embasando-se no referencial teórico da Psicologia Analítica. Ao longo do texto são apresentadas as características do arquétipo do herói, seu conceito, significado e representação em produções culturais (livros, filmes, mitos e contos de fada) e a influência de tal elemento psíquico no desenvolvimento humano e no processo de individuação.

Palavras-chave: Jornada do herói; Arquétipos; Psicologia Analítica; Desenvolvimento humano;

Abstract

This article is interest make up a theoretical review of the archetype of the hero and the heroine, basing on the theoretical framework of Analytical Psychology. Throughout the text shows the characteristics of the hero archetype, its concept, meaning and representation in cultural products (books, movies, myths and fairy tales) and the influence of such psychic element in human development and the process of individuation.

Key-words: Hero and heroine; Archetype; Analytical Psychology; Human Development;

1. Conceito

Ao vermos os heróis nas histórias infantis percebemos que estes possuem características sobre-humanas, que ultrapassam as capacidades de pessoas normais, e com frequência, superam limites para conseguir alcançar seu desejo ou necessidade. Este fato é discutido por Trindade (2010) afirmando que o arquétipo do herói/heroína reúne características de superação, transposição de obstáculos e transformação de ameaças em situações de segurança para si próprio e para outros.

Segundo Samuels, Shorter e Plaut (2003) o herói representa a vontade e a capacidade de procurar e suportar repetidas transformações em busca da totalidade ou significado. Por isso, às vezes parece ser o Ego, outras vezes, o Self. Em outros termos, ele é a personificação do eixo Ego-Self.

Assim, segundo Oliveira (2007) a tarefa do herói consiste em trazer à luz às dificuldades pessoais e erradicá-las em favor do próprio crescimento.

2. A expressão do herói nos mitos e histórias

Segundo Zacharias (2012) as histórias que narram a saga de um herói ou heroína destacam que este (a) parte de uma condição de comodidade e tem que enfrentar inúmeras dificuldades, vencer seus medos, lutar com inimigos mortais e conquistar um reino, um tesouro ou um amor. A narrativa, em geral, envolve libertar-se de um poder opressor, que ao mesmo tempo amedronta e protege, e adquirir o próprio poder de escolha e decisões.

A jornada apresenta vários personagens que interagem com o protagonista, alguns o auxiliam e outros o confrontam, o conduzindo a enfrentamentos inimagináveis. Estas outras personagens são partes da própria personalidade, tais como medos, potenciais, instintos, criatividade etc.

Outros elementos presentes são mais impessoais como objetos mágicos, mapas, indicadores da jornada a ser seguida, que representam o impulso natural para o crescimento e amadurecimento, ou seja, é a presença do Self como organizador da psique individual e coletiva (JUNG, 2008).

2.1 A jornada da Heroína no Filme Valente

Foi realizada a análise do filme Valente (2012) à luz da jornada do herói proposta por Joseph Campbell (2007), representado na figura 1, e composta por 12 etapas:

Descrição: Jornada+do+Herói_thumb[5][1].jpg

Figura 1: Representação da jornada do herói segundo Joseph Campbell

  Fonte: Campbell (2007)

1) Mundo comum: vida cotidiana do herói. É apresentada a protagonista, a princesa Merida, da Escócia, uma jovem mais ligada a sua contraparte masculina em detrimento de seu aspecto feminino;

2) Chamado à aventura: a rotina é quebrada por um problema. A mãe da personagem faz um evento para noivar sua filha;

3) Recusa ao chamado: rejeição em sair da zona de conforto. Merida não aceita se casar e foge.

4) Encontro com o mentor (ou ajuda sobrenatural): pessoa ou situação mágica que direciona o caminho. Merida encontra uma bruxa que lhe entrega um doce mágico.

5) Travessia do Umbral (ou Primeiro limiar): o herói entra num novo mundo ou encara um novo problema. O doce transforma a mãe de Merida em um urso.

6) Ventre da baleia: testes, aliados e inimigos. Merida faz um discurso como princesa e demonstra lições dadas por sua mãe. O pai de Merida se mostra um inimigo tentando matar o urso (a mãe de Merida), os irmãos caçulas ajudam a princesa e outro inimigo é um rei transformado em urso que não desfez o encanto.

7) Aproximação do objetivo (Caverna oculta): o objetivo da missão se aproxima e tudo fica incerto. A personagem tenta reatar um manto rasgado, para quebrar o feitiço, mas sua mãe é caçada pelo pai.

8) Provação suprema: crise da história e resposta ao problema. A mãe de Merida é quase morta pelo marido, mas a protagonista a salva e ao final expressa seu arrependimento e amor pela mãe.

9) Conquista da recompensa: o herói consegue seu prêmio. A mãe de Merida volta ao normal.

10) Caminho de volta: conquistado o objetivo, o herói volta ao mundo normal. A família volta a estar reunida.

11) Depuração (ou Ressurreição): trama secundária não resolvida. Não aparece na história.

12) Retorno com o Elixir: final da história, o herói volta transformado. Merida integra e aceita seu aspecto feminino, que até então era rejeitado, cria uma relação mais próxima com sua mãe e torna-se madura e responsável por seus atos.

3. O arquétipo do herói no desenvolvimento e na individuação

Segundo Gomes e Andrade (2009), o mito do herói é marcado por dificuldades e lições que devem ser empreendidas a fim de atingir seu desenvolvimento e autodescoberta, ou seja, o processo de individuação. Este representa a própria finalidade da vida, sendo um movimento de profundo autoconhecimento, no qual se integra medos e conteúdos inconscientes.

Nessa perspectiva, o processo de individuação se mostra como a base da nossa existência. Em algum momento a psique chama o Ego a voltar-se para si. A partir daí novos horizontes se abrem para a realização pessoal. E desta forma é estabelecida uma relação mais equilibrada, com o propósito de uma integração mais completa do ser (SANTOS, 1976; HALL, 2007).

4. Função do arquétipo do herói em seu aspecto positivo e negativo

Para Lima Filho (2002) o ser humano deve se diferenciar do mar inicial (relação de dependência parental) empreendendo uma luta heroica por sua independência e autonomia.  Já Neumann (1990, apud LIMA FILHO, 2002), cita que o arquétipo do herói está sempre constelado nas grandes transformações e manifesta-se em quatro tipos: o herói matriarcal que atua em função do acolhimento e cuidado; o patriarcal, que implanta a lei e sacrifício para atingir uma meta; o da alteridade que valoriza a individualidade e os aspectos inconscientes; e o da sabedoria, ligado ao sentido da vida e da morte.

A agressividade inerente à energia do herói pode se expressar como construtiva (realizadora e criativa) ou destrutiva (violenta e venenosa). Assim, a sombra do herói pode se mostrar por meio de fraudes, roubos, crimes, bem como todas as violências e monstruosidades conhecidas, atuando como foras-da-lei. Outra possibilidade é a identificação com o arquétipo, inflação do ego, trazendo sentimentos de onipotência, presunção e invulnerabilidade.

Baseado em tais reflexões, percebemos, portanto, a grande importância e influência do arquétipo do herói/heroína na existência humana.

 

Referências

ANDREWS, Mark. Valente. (Filme-vídeo). Produção de Katherine Sarafian e direção de Mark Andrews. Estados Unidos, Walt Disney Pictures, 2012. DVD, 93 min.

CAMPBELL, J. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 2007.

GOMES, V. R. R.; ANDRADE, S. R. Mitos, símbolos e o arquétipo do herói. CESUMAR, v. 11, n.2, p. 139-147, 2009. Disponível em: <http://www.cesumar.br/epcc2009/anais/vinicius_romagnolli_rodrigues_gomes2.pdf>. Acesso em: 23 maio 2014.

HALL, James A. Jung e a interpretação dos sonhos: manual de teoria e prática. São Paulo: Cultrix, 2007.

JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

LIMA FILHO, Alberto Pereira. O pai e a psique. São Paulo: Paulus, 2002.

NEUMANN, E. História e origem da consciência. São Paulo: Cultrix, 1990.

OLIVEIRA, Luísa. A jornada do herói na trajetória de Batman. Boletim de Psicologia, 2007, v. 57, n.127, p. 139-152. Disponível em:

<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S000659432007000200003&script=sci_arttext>. Acesso em: 23 maio 2014.

SAMUELS, A.; SHORTER, B.; PLAUT, F. Dicionário crítico de análise junguiana (Edição Eletrônica). Rubedo, 2003. Disponível em: <http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/heroi.htm>. Acesso em: 25 maio 2014.

SANTOS, C. C. Individuação junguiana. São Paulo: Sarvier, 1976.

TRINDADE, Lucia. O arquétipo do herói no “Show de Truman”: vivências do heroísmo na contemporaneidade. 2010. Disponível em: <http://humanopsc.blogspot.com.br/2010/06/o-arquetipo-do-heroi-no-show-de-truman.html>. Acesso em Maio de 2014.

ZACHARIAS, J. J. M. A imagem do herói ou heroína na adolescência: uma visão analítica. Anais do 2º Congresso Brasileiro de Psicologia e Adolescência. Escola Paulista de Psicologia Avançada (EPPA): São Paulo, 2012. Disponível em:

<http://www.eppa.com.br.corphost.com.br/congresso/Adolescencia_2012/inicial.htm>. Acesso em: 1 jun. 2014.

 

 

Autores

Thiago Ribeiro Borges - Centro UNISAL- Campus Lorena
Pós-graduando em Psicopedagogia e Psicomotricidade pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL) – Campus Lorena e em Formação de Docentes e Tutores em EADpelo Centro Universitário Internacional (UNINTER). Especialista em Psicologia Analítica pelo Centro UNISAL e em Docência no Ensino Superior pelo Centro Universitário SENAC. Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL – Campus Lorena). Trabalha como psicólogo clínico e educacional. É professor no Instituto de Tecnologia e Saúde (ITS – Lorena) e atua como orientador acadêmico (professor-tutor de EAD) no Centro Universitário Internacional (UNINTER - Lorena). Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Flávia Moreira da Silva – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
Mestranda em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Especialista em Psicologia Analítica pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). Graduada em Psicologia pelo Centro UNISAL – Campus Lorena. Atua como psicóloga perita no Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Aparecida. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Francine Antunes Pinho de Vasconcellos – Centro UNISAL
Especialista em Psicologia Analítica pelo Centro UNISAL. Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL – Campus Lorena). Atua como psicóloga clínica. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Zugiane de Barros Pereira – Centro UNISAL
Especialista em Psicologia Analítica pelo Centro UNISAL. Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL – Campus Lorena). Atua como psicóloga clínica. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Fábia Rímoli – Centro UNISAL
Mestra em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Especialista em Psicologia Junguiana pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Professora da Pós-graduação em Psicologia Analítica do Centro UNISAL. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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