Resumo

As formações do inconsciente são criadas devido a uma falha no recalque, que resulta em sonho, ato falho, chiste e sintoma. O foco desta investigação consiste em determinar em quais aspectos específicos, o sintoma se diferencia das demais formações do inconsciente. A relevância deste tema para a população em geral é a apropriação de conhecimento a respeito dos fatores inerentes ao sintoma. Os dados foram levantados a partir de uma revisão sistemática da literatura vigente na área psicanalítica. Os resultados mostram que a principal diferença do sintoma em relação às demais formações refere-se ao dano causado à saúde do sujeito.

Palavras-chave: Sintoma; diferenças; formações do inconsciente.

Introdução

O inconsciente só pode ser acessado através de suas manifestações na consciência, na qual está disfarçado pela censura dos sistemas pré-consciente e consciente. Desta forma, os conteúdos inconscientes manifestados são distorcidos e modificados na consciência (Cordeiro, 2010). O inconsciente se revela de forma que surpreende e atropela a intenção do sujeito quando fala, de forma que este fala mais do que pretendia, revelando assim, sua verdade. A ocorrência deste fato permite com que o inconsciente exista e isso só se concretiza a partir da existência de um outro (psicanalista) que o escute e o reconheça (Nasio, 1993).

         Os fenômenos lacunares que ocorrem na consciência trazem à investigação psicanalítica os indicadores de ordem inconsciente, os quais Lacan chamou de formações do inconsciente. Estes são os chistes, os sonhos, os atos falhos e os sintomas que ocasionam uma descontinuidade no discurso consciente do individuo, surgindo um sentimento de atropelamento por outro sujeito (o inconsciente) desconhecido (Garcia-Roza, 2007). É importante salientar que os sintomas se diferenciam das outras formações do inconsciente, que por sua vez, são o foco deste estudo.

O presente trabalho visa proporcionar uma maior compreensão acerca dos quatro tipos de formações do inconsciente, priorizando a diferenciação do Sintoma sobre os demais (Chistes, Atos Falhos e Sonhos). A relevância do tema consiste na apropriação de conhecimento a respeito das formações do inconsciente, priorizando o caráter diferencial do sintoma. Todas as informações a respeito do sintoma são importantes devido à recorrência deste fenômeno na clínica psicanalítica, sanando assim, possíveis dúvidas.

Metodologia

O presente estudo trata-se de uma pesquisa bibliográfica, elaborada a partir de notas e artigos que abordam as diferentes formações do inconsciente, no que se refere ao ponto de vista psicanalítico. Vários autores foram utilizados para que fosse possível atingir um maior número de informações sobre o tema abordado neste trabalho.

Resultados e Discussão

Segundo Freud (1915), através das lacunas das manifestações conscientes pode-se achar o caminho para o inconsciente, essas lacunas são denominadas formações do inconsciente que se referem aos sonhos, atos falhos, chistes e sintomas. Essas formações produzem no discurso consciente do sujeito uma descontinuidade, bem como um sentimento de ultrapassagem (Garcia-Rosa, 1988). Ainda segundo este autor, as formações do inconsciente consideradas normais (parapraxias, chistes e sonhos) foram as que primeiro chamaram atenção de Freud, porque serviam de indícios seguros do determinismo psíquico e dos motivos inconscientes. No entanto, não retira a importância de se estudar os sintomas, que têm caráter patológico e causam danos a saúde do sujeito, sendo este a principal diferença entre as outras formações do inconsciente.

O grande marco da obra freudiana foi a publicação da obra “Interpretação dos Sonhos”. Baseado nos estudos de Freud percebeu-se a manifestação dos conteúdos inconscientes através dos sonhos, no qual estes são o caminho que conduzem aos recessos inconscientes e obscuros da mente. O sonho é ainda, um fenômeno regressivo que leva o sujeito de volta aos estados primitivos da infância (Silva & Sanches, 2011).

Os sonhos simbolizam a realização de um desejo, que por sua vez, quanto menos aceito pela consciência, mais disfarçado ou destorcido aparecerá, desta forma, mensagens codificadas são enviadas do inconsciente para a consciência (Hermeto & Martins, 2012). Para a Psicanálise o sonho é também chamado de onírico e sua importância ocorre devido ao fato de que, na interpretação do conflito que o paciente traz para terapia, grande parte é expressa através dele (Silva & Sanches, 2011). O significado do sonho é expresso principalmente nos conteúdos latentes, desta forma dá-se a importância de estudar tanto os conteúdos manifestos quanto latentes e fazer sua distinção.

Sobre os Chistes, o que se pode afirmar é que se trata da formação do inconsciente mais próxima do conceito de social, considerando que precisa do outro para referendá-lo. Além do mais, estabelece relação com a comicidade, ou seja, o humor atua como sugestão de uma verdade do sujeito que até então não fora capaz de ser dita. Na sua relação com o inconsciente, muitas verdades são anunciadas através da “brincadeira”, como afirma Morais (2008): “O recurso ao falei de brincadeira ou é de mentirinha, pode ser a maneira de uma verdade ser enunciada”.

Através das leituras das obras de Freud, percebe-se o quanto ele utilizava os chistes, considerando que o humor é uma forma inteligente de lidar com o sofrimento e a dor, tirando algum prazer nisso. Com as contribuições de Lacan é possível afirmar que, o chiste faz parte do simbólico, o cômico da ordem do imaginário e o humor do real (Morais, 2008).

Outra manifestação do inconsciente é o ato falho, considerado por Freud uma troca involuntária de palavras que soam de forma parecida, mas que revelam algo que o indivíduo sente de fato, mesmo sem o seu intuito, ou seja, é um “lapso de linguagem”, que revela uma convicção, uma emoção ou um pensamento reprimidos. O ato falho pode-se dizer, é um deslize que expõe os verdadeiros pensamentos de quem o realiza (Hermeto & Martins, 2012).

Os atos falhos são divididos em três grupos (1) lapsos, (2) esquecimento e (3) extravio. Os lapsos são subdivididos em: lapso de língua (por exemplo, quando uma pessoa quer usar uma determinada palavra e acaba usando outra); lapso de leitura (quando o sujeito lê algo diferente do que na realidade está escrito); lapso de audição (ouvir algo diferente do que lhe foi dito), entre outros (Freud, 1915-1916).

Os fenômenos com base no esquecimento (temporário) podem ser exemplificados como: uma pessoa incapaz de recordar uma palavra que conhece bem ou que esquece de fazer algo em determinado momento, embora se lembre mais tarde. Ao contrário, no terceiro grupo o caráter temporário inexiste, por exemplo: quando alguém coloca um objeto em determinado lugar, mas não consegue encontra-lo novamente (Freud, 1915-1916).

Os sintomas são atos prejudiciais e/ou inúteis à vida que causam sofrimento, assim como os atos falhos e os sonhos tem íntima relação com as experiências do sujeito, dessa forma possui um sentido inconsciente estabelecido.  Os sintomas causam desperdícios (dispêndios) tanto psíquico quanto de energia, sendo este ultimo ocasionado devido a luta contra o sofrimento existente. Na ocorrência de inúmeras formações de sintomas, as duas formas de dispêndio podem ocasionar um enorme empobrecimento do indivíduo, relativo à energia psíquica que lhe é disponível, ou seja, a paralisação deste para a realização de suas obrigações, o que não ocorre como consequência das demais formações. Se o sentido do sintoma for descoberto pode-se então elaborar maneiras de desfazê-lo (Freud, 1916-1917), diferentemente dos outros fenômenos lacunares que, embora descoberto seu sentido não existem maneiras de revertê-los.

É importante destacar que os sintomas são substitutos para a satisfação frustrada. ”Assim como as demais formações do inconsciente, há uma satisfação de desejo, mas esta satisfação tem um caráter problemático e paradoxal, uma vez que é também uma satisfação real, uma “satisfação às avessas” (Dias, 2006). A partir desta citação, o caráter diferencial do sintoma é evidenciado novamente. Outra característica importante é que o sintoma é externo, perceptível e somático.

As pulsões sexuais que não são aceitas pelos padrões éticos e morais do eu, são recalcadas, afastando-se da possibilidade de satisfação. No entanto, o recalque facilmente fracassa e a libido represada procura outras saídas do inconsciente, resultando em um sintoma, ou seja, um substituto (deformado e irreconhecível, considerando que o sintoma não escapa inteiramente a censura) para algo que foi afastado pelo recalcamento (Dias, 2006).

Os sintomas são considerados uma ferramenta de grande importância para os psicanalistas, pois a medida que os sentidos dos sintomas se tornam conhecidos, estes desaparecem. No entanto o conhecimento deve ser baseado em uma modificação interna no paciente, e esta só pode ser realizada por meio de uma parcela de trabalho psicológico guiado para um propósito determinado (Freud, 1916-1917).

Considerações Finais

No desenvolvimento dessa revisão sistemática pôde-se evidenciar as diferenças que circundam o sintoma em relação às demais formações do inconsciente, a saber: a sua relação com o recalque, seu caráter patológico, somatização e expressão da libido sexual reprimida. Reconhecer o sintoma como formação diferenciada permite a melhor compreensão de sua função, bem como do método para desfazê-lo. Embora o sentido do sintoma possa ser interpretado, o mesmo não pode ser decifrado, considerando o seu caráter substitutivo da satisfação sexual frustrada, como afirma Freud (1916-1917).

            Outro aspecto a ser destacado é que o surgimento do sintoma ocorre devido a uma falha no recalque, permitindo que o impulso reprimido ache outras saídas do inconsciente, no entanto, o recalque ainda consegue “barrar” o impulso em partes, fazendo com que o mesmo manifeste-se de forma distorcida e deformada (Dias, 2006).

           No geral, a compreensão a respeitos das diferenças das formações do inconsciente, especialmente do sintoma é importante tanto para a população acadêmica com interesse na área, quanto para profissionais e leigos no que se refere a atualização e aquisição de conhecimentos psicanalíticos. 

 

Referências

Cordeiro, E. V. (2010). O inconsciente em Sigmund Freud. Psicologia pt.

Dias, M. G. L. V. (2006). O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em estudo.

Freud, S. (1916-1917). Conferências introdutórias à Psicanálise. Companhia das letras.

Freud, S. (1915-1916). O Inconsciente. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (1996). Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1915-1916). Parapraxias. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (1996). Rio de Janeiro: Imago.

Garcia-Roza, L. A. (1988). Freud e o inconsciente. 4. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora Ltda.

Garcia-Roza, L. A. (2007). Freud e o inconsciente. 22. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora Ltda.

Hermeto, C. M. e Martins, A. L. (2012). O livro da Psicologia. São Paulo: Globo.

Morais, M. B. L. (2008). Humor e Psicanálise. Estudos de Psicanálise.

Nasio, J. D. (1993). O inconsciente. In: Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora Ltda. 

Silva, E. A. e Sanches, J. A. R. (2011). Os sonhos como manifestações de desejos inconscientes. Psicologado. Retirado de  https://psicologado.com/abordagens/

psicanalise/os-sonhos-como-manifestacao-de-desejos-inconscientes.

 

Bibliografia

 

Rafaela Martins Rodrigues, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Maria Gabriela Costa Ribeiro, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba.Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Gabriela Oliveira do Nascimento, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Daniella de Carvalho Moura, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.