A proposta deste artigo é refletir sobre a influência do clima organizacional nas instituições escolares, do ponto de vista dos seus reflexos nos casos de sucesso ou de fracasso escolar.

Resumo

A proposta deste artigo é refletir sobre a influência do clima organizacional nas instituições escolares, do ponto de vista dos seus reflexos nos casos de sucesso ou de fracasso escolar.

Para tal, foram divulgados alguns estudos de caso que possuem em comum as análises de métricas do desempenho escolar como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e análises da gestão escolar refletida no cotidiano: relações dos principais atores (diretores, professores e alunos) com seu próprio meio.

Os resultados apresentados sugerem que as questões referentes ao clima organizacional merecem atenção especial na medida em que oferecem diagnósticos do contexto escolar numa determinada época, suscitando determinadas intervenções que poderão contribuir para a eficácia da escola.

Palavras-chave — clima organizacional, gestão escolar, desempenho escolar.

1. INTRODUÇÃO

Diversos artigos e trabalhos acadêmicos têm se dedicado ao estudo do clima organizacional que paira sobre determinadas instituições de ensino, cada qual com sua própria cultura escolar e objetivos bem definidos dentro do que se pretende alcançar enquanto entidade responsável pelo processo ensino-aprendizagem seja na educação fundamental, no ensino médio, no ensino profissionalizante ou no nível superior.

Diante desta gama de estudos sobre o tema, é possível encontrar autores que se dedicam aos métodos e instrumentos capazes de medir o clima organizacional e outros autores que preferem se dedicar ao efeito do mesmo na eficácia do ensino, analisando o sucesso e o fracasso escolar sob a ótica das relações entre os principais atores do meio: gestores, professores e alunos.

Os estudos de caso, trabalhos de campo e levantamentos bibliográficos acerca deste tema sugerem a importância de se dedicar às constantes verificações do clima organizacional nas relações internas do ambiente escolar.

2. OBJETIVO

Perante as diversas vertentes que podem ser exploradas a respeito do clima organizacional nas instituições escolares pretende-se focar os resultados obtidos pelos estudos de casos e literaturas levantadas sobre as relações entre sucesso/fracasso escolar e relacionamento interpessoal da equipe diretiva, do corpo docente e discente.

Independentemente dos métodos e instrumentos utilizados ao mensurar o clima organizacional, pretende-se divulgar as pesquisas que, em sua maioria, demonstram a existência de elos intrínsecos entre o referido clima, a cultura escolar a eficácia da escola.

Os trabalhos que servem de base para a discussão do tema são os estudos de caso de Arana(2010), Campos(2002), Cunha(2012), Pereira, Oliveira e Teixeira (2013). A discussão também será permeada pelas observações de Brunet(1995).

3. DISCUSSÃO

Quando se procura entender os fatores de sucesso ou fracasso no ambiente escolar há certa predisposição em focar as análises nas questões metodológicas do processo ensino-aprendizagem ou nas análises individuais dos atores aí envolvidos: os procedimentos do gestor escolar, a formação do professor e os aspectos cognitivos e comportamentais dos alunos.

Há de se concordar que todos os fatores citados são preponderantes para bem ou para o mal da instituição na sua missão de ensinar, porém, devem ser analisados de forma conjunta, fazendo-se ecoar no clima organizacional daquela entidade. Trata-se do modo de agir do indivíduo dentro do conjunto do espaço escolar, como afirma Brunet(1995) ao dizer que “o clima organizacional reporta-se às percepções dos actores escolares em relação às práticas existentes numa dada organização”.

Dentro de suas percepções sobre o clima que paira sobre a instituição da qual fazem parte, os membros podem qualificá-lo de duas formas:

Um clima fechado corresponde a um ambiente de trabalho considerado pelos seus membros como autocrático, rígido e constrangedor, onde os indivíduos não são considerados nem consultados. Pelo contrário, um clima aberto descreve um meio de trabalho participativo, no qual o indivíduo tem um reconhecimento próprio, no quadro de uma estratégia de desenvolvimento do seu potencial. (BRUNET,1995, p.130).  

A percepção de “clima aberto” e “clima fechado” parecem ter grande participação para a eficácia do papel da escola, conforme demonstram os estudos de casos a seguir.

Arana(2010) desenvolveu seu estudo em três escolas do ensino fundamental da cidade de João Pessoa, onde analisou aspectos do clima organizacional no corpo docente e no corpo discente destas instituições.

As respostas obtidas permitiram detectar que o sucesso escolar possui ligação com fatores ambientais da entidade, sobretudo na dimensão do relacionamento interpessoal. Evidenciou-se o desejo de maior compreensão às necessidades afetivas e emocionais ao corpo discente, que pode contribuir para o seu desenvolvimento dentro da escola. Neste caso, no momento da pesquisa o sentimento que perdura entre os alunos é o do “clima fechado”, uma vez que seus anseios e expectativas não são levados em consideração pelos demais membros do ambiente escolar.

Outro trabalho realizado por Pereira, Oliveira e Teixeira (2013) em uma escola de ensino fundamental do Rio Grande do Norte procurou relacionar o sucesso escolar com sua cultura aí enraizada e o clima organizacional aí presente. A escolha da escola em questão se deu ao bom desempenho no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) se comparado às demais escolas do município.

No escopo deste trabalho, os autores procuram elucidar a definição de “cultura escolar” para que não ocorram confusões com o clima organizacional:

A relação entre o clima organizacional e a cultura de uma organização se confundem por serem intrinsecamente muito próximas. No entanto, vale ressaltar que a cultura, por suas características relacionadas a crenças e valores, se apresentará de forma mais consistente e pouco mutável em relação às características que dizem respeito ao clima, já que este vai estar mais voltado aos elementos do ambiente organizacional e a forma como estes influenciam o comportamento dos colaboradores na organização.(PEREIRA; OLIVEIRA; TEIXEIRA, 2013, p.12).

Suas conclusões partem da premissa de que a cultura escolar bem definida e marcante no cotidiano escolar aliada à gestão atuante e participativa têm grandes contribuições para um clima organizacional positivo com consequente sucesso na eficácia escolar. Tem-se aí um exemplo do “clima aberto” onde se percebe comprometimento e envolvimento de todos os membros da instituição.

Fica claro o papel do líder, na sua função gestora, como principal responsável pela cultura que se estabelece e pelo clima que permeia o atual momento do ambiente de trabalho, pois “quando se pensa em uma gestão democrática e participativa é possível imaginar uma liderança também participativa, afinal todos compartilham da opinião do líder” (PEREIRA; OLIVEIRA; TEIXEIRA, 2013).

É interessante notar também no trabalho apresentado que, além da liderança, fatores como o reconhecimento pelos trabalhos prestados e o comprometimento da equipe tiveram grande importância na configuração do clima positivo. O fator “salário”, por sua vez, foi um fator discordante, mas não chegou a comprometer o clima observado, conforme exposto nas considerações finais de Pereira, Oliveira e Teixeira (2013):

Em relação ao clima organizacional os resultados demonstraram que os entrevistados atribuem à dimensão liderança o posto de maior importância dentre as dimensões de clima organizacional estudadas. As correlações mais fortes, que demonstraram maior relação de interdependência foram entre as dimensões Reconhecimento e Comprometimento o que vem a corroborar com o papel da influência positiva da liderança no ambiente de trabalho. No entanto, verificou-se que em relação à dimensão salários alguns entrevistados demonstraram uma percepção de discordância em relação ao clima organizacional da instituição em questão.

Ainda analisando as relações entre o clima organizacional e o desempenho do ensino fundamental aferido pelo Ideb, encontra-se o trabalho de Cunha(2012) realizado em duas escolas da cidade de Salvador. Na ocasião, foram estudadas duas escolas com desempenhos opostos: a chamada “Escola A” apresentou índice superior a 5.0, enquanto a “Escola B” apresentou valores inferiores a 3.0 pontos no Ideb.

O autor deixa claro que outras variáveis certamente tiveram influências sobre estes resultados contrastantes, porém, acredita que a questão do clima organizacional também se faz presente.

A análise da “Escola A” denota gestão participativa e comprometimento dos membros da equipe escolar, características do “clima aberto”:

Na primeira instituição, a qual foi denominada de Escola A, a partir da perspectiva normativa, verificou-se que esta escola tinha um Conselho Escolar em atuação, administrava recursos financeiros e havia indícios de participação dos pais nas reuniões, no colegiado e outras atividades da Escola. Além disso, verificou-se na dimensão burocrático-administrativa da gestão, valores em comum, que defendiam a hierarquia das funções e maior controle dos resultados pela direção, sem, contudo desconsiderar a importância dos processos de participação nas decisões.

Com relação à liderança pedagógica, foi evidenciado o acompanhamento e apoio aos professores pela coordenação e, sobretudo, um clima de cooperação entre os docentes, os quais focavam suas ações na busca pela aprendizagem dos alunos: “leitura”, “escrita” e “valores”, conforme sinalizavam. No âmbito político, a interação entre os professores e a participação desses profissionais ganharam evidência.

Entretanto, considera-se que o envolvimento desses profissionais nos processos decisórios não estava somente relacionado à institucionalização da participação por meio de instrumentos normativo-legais, como o Conselho Escolar. A cooperação entre os membros foi constatada como um valor coletivo emergido da própria cultura da escola, herdados dos seus membros mais antigos. Entende-se, desse modo, que tais características influenciaram positivamente os resultados do Ideb, em 2009, que se expressou média acima de 5,0.(CUNHA, 2012, p.147)

A “Escola B”, por sua vez, possui características típicas do clima organizacional “fechado”, como a falta de participação coletiva, o que pode explicar, em parte, seu desempenho inferior:

Na segunda instituição, que no estudo recebeu o nome fictício de Escola B, não tinha Conselho Escolar em atuação e não recebia recursos financeiros, devido a problemas de ordem burocrática no período anterior a sua municipalização. Havia pouca participação dos pais, em menor proporção se comparada a Escola A. Com

relação ao âmbito burocrático-administrativo, foram identificadas muitas dificuldades relacionadas ao controle dos resultados pela chefia. Apresentaram-se relações amistosas e emotivas entre direção e demais profissionais, o que acarretava em surgimento de conflitos e situações de falta de comprometimento dos atores com relação à execução de suas tarefas.

Nesta mesma direção, a liderança pedagógica enfrentava dificuldades na condução do planejamento e sua execução, o que indicava uma falta de apoio as atividades fim, pela gestão. Além disso, não foi verificada uma predominância nas concepções de gestão que valorizassem os processos de decisão coletiva, além de serem reveladas dificuldades na interação entre os docentes. Desse modo, entende-se que tais características emergidas das formas de empreender a gestão influenciaram,

negativamente, os resultados do Ideb, em 2009, que expressou valor abaixo de 3,0. (CUNHA, 2012, p.147-148)

Passando da análise das escolas do ensino fundamental para as instituições de nível superior, percebe-se que a gestão do clima organizacional é igualmente importante no sentido de garantir o bom funcionamento das faculdades no atendimento aos alunos e no sentido de oferecer um ambiente adequado para o desenvolvimento do seu corpo docente com algumas necessidades pertinentes ao seu desenvolvimento acadêmico e profissional, como a obrigatoriedade da constante atualização de seus cursos e publicações.

Neste sentido, o trabalho de Campos(2002) faz uma análise do clima organizacional junto aos docentes de uma universidade de psicologia do Estado de São Paulo, justificando assim sua importância:

O estudo do clima organizacional em instituições de ensino tem como intuito contribuir para uma melhor compreensão da relação indivíduo-organização, podendo gerar dados que possibilitem a melhor administração do sistema educacional superior, além de fornecer diretrizes preliminares que ofereçam uma possível ajuda na reformulação das condições existentes, que resultem em melhores índices de satisfação no trabalho, motivação, produção científica e outros aspectos relativos ao pessoal docente e aos seus alunos. As pesquisas referentes ao diagnóstico de clima organizacional, por trazerem à tona um retrato atual e realista do cenário institucional existente, podem contribuir para o melhor desempenho e desenvolvimento da instituição. (CAMPOS, 2002, p.129-130)

Nesse estudo, observa-se através de instrumentos utilizados para aferir o clima organizacional, que as relações entre os docentes com a direção e com seus próprios pares são deficitárias:

Como o processo de reconhecimento e liderança revelam-se principalmente no contexto de decisões administrativas, pode-se supor que, provavelmente, o comportamento e a relação com a direção são percebidos pelos sujeitos como deficitários.

O mesmo ocorre quanto ao sentimento de amizade

e apoio mútuo entre os componentes do próprio grupo, o que parece indicar a necessidade de maior atenção para esses pontos, a fim de que as boas relações prevaleçam no ambiente de trabalho.(CAMPOS, 2002, p.130)

Diante de dados que configuram um clima desestimulante para o desenvolvimento dos profissionais e, consequentemente, da própria instituição, esta não deve ficar inerte no sentido de procurar meios para melhorar as relações internas:

Conclui-se, portanto, que a avaliação do clima organizacional de uma instituição de ensino superior pode ser entendida como um diagnóstico ou como uma coleta de informações que tem valor preventivo e o ponto primordial é que a universidade tenha melhor conhecimento de si mesma e aja em função desse conhecimento. (CAMPOS, 2002, p.130)

Tem-se aí a principal função do clima organizacional: oferecer um ponto de partida para as mudanças, quando necessárias.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Determinar variáveis que se consolidam para explicar o sucesso e o fracasso escolar não é tarefa simples, porém, as relações entre o indivíduo e o meio dentro do contexto escolar podem prejudicar ou contribuir para com os objetivos da instituição, como afirma Brunet (1995, p. 138): “...é importante sublinhar que a eficácia da escola e o sucesso dos alunos são afetados pelo clima organizacional.”

Os estudos de caso aqui divulgados demonstram alguns níveis de influência do clima organizacional na gestão escolar, nas relações entre direção e docentes, nas relações dos docentes com seus pares e com seus alunos. Tais influências afetam o cotidiano no escolar fazendo-se sentir nos momentos de planejamento, nos conselhos escolares, no ato de ensinar da prática docente, no ato de aprender da prática discente, culminando nos resultados verificados no desempenho escolar da escola como um todo.

Entende-se então, que o retrato da instituição registrado naquele momento pelo clima organizacional, sugere interferências para que se mantenham os aspectos positivos e que se revertam os aspectos negativos, pelo bem da própria instituição e dos seus membros.

Conforme Brunet(1995, p. 138), cada escola tem a sua personalidade própria, que a caracteriza e que formaliza a interligação dos seus participantes. Assim, o clima de uma escola é multidimensional, em que seus efeitos são importantes ao processo de avaliação, o qual poderá fornecer subsídios para constituir um momento de mudança. O êxito de novas políticas ou de novas estratégias de desenvolvimento organizacional está estritamente dependente da natureza do clima da escola.

O autor diz ainda que o conhecimento do clima permite identificar as dimensões que desempenham um papel fundamental na percepção do ambiente de trabalho, e deste modo, facilita a planificação dos projetos de intervenção e de inovação.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANA, Andressa Maria Freire da Rocha. Clima organizacional e integração no trabalho: um estudo de caso em escolas de ensino fundamental. Universidade do Grande Rio. XIII SEMEAD – Seminários em administração, setembro, 2010. Disponível em: http://www.ead.fea.usp.br/semead/13semead/resultado/trabalhosPDF/651.pdf. Acesso em: 07 jul. 2015.

BRUNET, Luc. Clima de trabalho e eficácia da escola. In: NÓVOA, António (Org.). As organizações escolares em análise.2. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote/instituto de Inovação Educacional, 1995. p. 123-140.

CAMPOS, Keli Cristina de Lara. Análise do clima organizacional do curso de psicologia de uma universidade comunitária.Psicol. Esc. Educ. (impr.), Campinas, v. 6, n. 2, p.123-131, dez. 2002. FapUNIFESP (SciELO). DOI: 10.1590/s1413-85572002000200002.

CUNHA, Eudes Oliveira. A gestão escolar e sua relação com os resultados do Ideb: um estudo em duas escolas municipais de Salvador. 2012. 172 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/9266/1/Eudes Oliveira Cunha.pdf>. Acesso em: 07 jul. 2015.

PEREIRA, Fernando Antonio de Melo; OLIVEIRA, Elane de; TEIXEIRA, Jeanne Christine Mendes. A INFLUÊNCIA DO CLIMA E CULTURA ORGANIZACIONAL NA GESTÃO DE UMA ESCOLA DO ENSINO FUNDAMENTAL. Qualitas Revista Eletrônica,João Pessoa, v. 14, n. 1, p.1-16, 2013. Semestral. Disponível em: <http://revista.uepb.edu.br/index.php/qualitas/article/view/1521/925>. Acesso em: 06 jul. 2015. 

Autores

DANIEL TEODORO DE MELO

Mestrando em Educação pelo Centro Universitário de Araraquara-SP (UNIARA) – Mestrado Profissional em Processos de Ensino, Gestão e Inovação Especialista em Engenharia de Sistemas, Bacharel em Ciência da Computação, Licenciado em Informática e Pedagogia. Professor e Coordenador da área de Informática da Rede Municipal – Mococa-SP. Professor de Informática do Centro Estadual de Educação Tecnológica “Paula Souza”-SP 

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