O presente artigo aborda a discussão do tratamento clínico da perversão, com o objetivo de defender o posicionamento da impossibilidade do tratamento.

Resumo

O presente artigo aborda a discussão do tratamento clínico da perversão, com o objetivo de defender o posicionamento da impossibilidade do tratamento. Realizou-se uma revisão bibliográfica para averiguar se há consenso entre os autores quanto ao tema e levantar indícios que justifiquem o posicionamento das autoras. Através dos resultados percebeu-se que não há concordância entre os autores, nem  é possível a eficácia clínica do tratamento do perverso dado que o mesmo não é capaz de formar sintoma, condição primordial para a angústia e consequentemente a cura.

Palavras-chave: perversão; tratamento; clínica.

Introdução

A perversão teve seus estudos iniciados no campo da medicina, entretanto, a partir de Freud, novos conceitos foram formulados gradativamente. Em “O Fetichismo” (1927), este mesmo autor criou um mecanismo psíquico especifico da perversão.  A partir da releitura de Freud, Lacan  destacou o conceito  da estrutura perversa, que por sua vez, implica  uma resposta plausível frente a castração (Ferreira & Meneses, 2011).

Pode-se definir a perversão como uma estrutura psíquica decorrente de uma falsa aceitação do sujeito diante da castração no complexo de Édipo, o qual pretende transgredí-la. Desta forma, o perverso conhece a lei, mas  a ignora (Santos & Besset, 2009).

Um grande questionamento levantado pela psicanálise é: existe um possível tratamento para a estrutura perversa?  Desta forma, são levantados muitos pontos de vista sobre o assunto, que se posicionam tanto contra, como a favor do possibilidade de tratamento.  Apesar de inúmeras discussões, ainda não se chegou à um consenso amplamente aceito sobre o assunto, que permanece polêmico e complexo.

Por fim, diante dos diversos argumentos presentes na literatura, defende-se neste trabalho que não existe a possibilidade de uma clinica psicanalítica eficaz ao tratamento da perversão. Apesar do posicionamento defendido, sabe-se que esta discussão ainda necessita de um maior aprofundamento, a fim de avançar  os limites da literatura atual ( Queiroz, 2004).

O objetivo deste estudo é argumentar contra a possibilidade de tratamento clínico para a estrutura Perversa, além de levantar questionamentos  que visam a reflexão a cerca da prática na clínica.

Metodologia

         Para a produção e elucidação deste trabalho, realizou-se uma revisão bibliográfica do que a literatura dispõe enquanto teorização  e argumentos contra  a clínica possível no que diz respeito ao tratamento da perversão. Buscou-se ainda, retratar de forma clara o ponto de vista das autoras, que negam a possibilidade clínica para esta estrutura.

Resultados e Discussão

A temática da perversão foi inicialmente tratada pela medicina como  práticas sexuais que se desviavam daquilo que era moralmente aceito. As investigações nesta área  tentavam interligar as perversões às desordens neurofisiológicas e degenerativas. Foi a partir da classificação dos vários tipos de perversões sexuais, elaboradas por Krafft-Ebing e Havelock Ellis que Freud  as estudou minuciosamente para a elaboração de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Segundo Valas (1990) a postura tomada por Freud pode ter ocorrido pelo fato de o mesmo apresentar  receio em ir contra a ditames morais de sua época. (Santos & Besset, 2009).

Em 1905, Freud, em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, caracteriza a criança como um ser sexual com aspectos de perverso-polimorfa, podendo chegar a fase adulta inalterada, além de relacionar a perversão como o “ negativo” das neuroses. A partir de 1919, Freud associa o complexo de Édipo à perversão, o que trouxe contribuições à Lacan, no que diz respeito a  perversão enquanto estrutura psíquica ( Ferreira & Meneses, 2011).

Com o passar do tempo, Freud ordena suas referências sobre a perversão, conferindo-lhe um mecanismo psíquico especifico, que difere da psicose e neurose. Em 1927 foi lançada a obra “O Fetichismo”, que resulta na recusa da castração e nas divisões do Ego (Santos & Besset, 2009). Desta forma, o fetichismo passa a ser visto a partir de Freud, como o modelo da perversão por excelência.

Lacan, em sua releitura de Freud, proporcionou avanço no que se refere à perversão com o estatuto da estrutura psíquica. Sua teoria trata da posição do sujeito em relação ao gozo, tendo-se como instrumento do gozo do outro. O perverso não pode suportar a castração, por isso recua sem atravessá-la. Portanto, não há formação de sintoma pelo sujeito do desejo, tendo em vista que o mesmo está preso à função de objeto de gozo do outro (Lacan, 1960/1966).

No complexo de Édipo, no momento em que criança descobre que a mãe não possui o pênis, desenvolve o medo de ser castrada e a partir da reação à castração sua estrutura psíquica será formada. Se houver a aceitação da castração e a lei de interdição ao incesto, resulta-se em uma neurose. Se houver a aceitação com o intuito da transgressão, será desenvolvido um processo de renegação da realidade, resultando em uma estrutura perversa (Pfitscher & Braga, 2012 ).

No processo da perversão, o sujeito se recusa a reconhecer a ausência do pênis em qualquer pessoa do sexo feminino. No entanto, só é possível a castração pela Clivagem do eu, uma vez que o perverso sabe da castração e ainda assim, a nega. Portanto, a Clivagem do eu possibilita que essas duas energias psíquicas habitem no sujeito (Barbieri, 2013).

A perversão é caracterizada como construto teórico-clinico complexo e de difícil consenso entre as diversas teorias da psicanálise, e é por esse e outros motivos, que envolvem principalmente as questões éticas, que clínica do perverso é improvável.

“Apostar em uma clinica possível da perversão, é apostar na possibilidade de que em algum momento, a relação com o gozar possa ser perturbada, fazendo advir sintomas” (Miller, 1997). Como acreditar nessa possibilidade se a estrutura de um perverso não permite que este manifestem sintomas? Embora alguns autores defendam a possibilidade do gancho neurótico, como o psicanalista dependerá dessa ocorrência para o efetivo tratamento?

Dentro da clínica o psicanalista encontra bastante dificuldade de colocar em prática sua técnica. A dinâmica da transferência, segundo Freud (1912), é uma tarefa árdua para o analista,considerando que em muitas vezes o perverso, ao tentar delegar sua angustia, poderá acirrar sua divisão e desejar que  o analista seja participante do ato perverso produzido em análise. Além do posicionamento característico do perverso de recusar o analista, o pedestal do sujeito suposto saber, que a todo momento tem  sua atuação posta em prova, ocasionando situações angustiantes e de difícil aceitação para este profissional (Ferraz, 2005). Como o psicanalista conseguirá reverter  as situações que são inerentes ao perverso?

Conclui-se que a clínica psicanalítica para a perversão é impossível, pelo  fato de que uma estrutura não poder ser mudada, assim como suas características inerentes.   Como enfatizado por Lacan (1960/1966 ) não há possibilidade de tratamento para alguém que não deseja ser tratado, tendo em vista que o principal aspecto levado em consideração pela Psicanálise, no que diz respeito ao tratamento, é a demanda.

Coutinho et al. (2004, p. 20) ressalta que: “Sabe-se, ainda, que o perverso verdadeiro dificilmente busca a psicanálise, mesmo porque a prática perversa lhe garante o acesso ao gozo”. Este autor duvida de uma eficiente atuação do analista, pelo fato de o mesmo não conseguir estabelecer a relação transferencial com o perverso.

Considerações Finais

O objetivo deste trabalho consistiu em argumentar contra a possibilidade de tratamento clínico psicanalítico para a estrutura perversa, levando em consideração aspectos como a falta de demanda, não formação de sintomas e posicionamento do terapeuta frente ao paciente.

         Embora este seja um tema polêmico e muito estudado por psicanalistas e teóricos da área, ainda não há unanimidade no tocante a conclusão de possibilidade ou impossibilidade da clínica. Desta forma, destaca-se a importância de abordar este assunto com alunos de psicologia, profissionais da psicanálise e pesquisadores que possam desenvolver conclusões satisfatórias e coerentes. 

         O referido estudo foi de suma importância para as autoras, a medida que foi possível a aquisição de conhecimento frente as duas posições (contra e a favor da clínica ), que ainda permitiu a construção de um debate que reflete a argumentação teórica existente nos dias atuais.

Importa saber que as limitações deste estudo englobam a pouca quantidade de pesquisas que chegam a uma posição concreta e definitiva frente ao tema. O que muito se lê, é que os próprios autores não têm opinião formada e preferem concluir seus artigos com questionamento ao invés de certezas.        

 

Referências

Barbieri, C. P. (2013). Clube da luta: a clivagem do eu. Cógito.

Coutinho, A. H. A., Salles, A. C. T. D. C., Silva, B. R., Delfino, E. M., Silva, E. M. D., Moraes, G. D.,  & Drummond, S. B. (2004). Perversão: uma clínica possível. Reverso.

Ferraz, F. C. (2000). Perversão. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Ferreira, B. O. & Meneses, H. S. (2011). Perversão à luz da psicanálise. Disponível em: https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/perversao-a-luz-da-psicanalise Visto em 06/02/2015.

Freud, S. (1912). A dinâmica da transferência. In_Edição standard brasileira das obras completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Lacan, J. (1960/1966). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente Freudiano. In_Escritos. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar.

Miller, J. (1997). Sobre Kant com Sade. In_ Lacan elucidado. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar. 

Pfitscher, M. A & Braga, D. B. (2012). Estrutura perversa: Efeitos midiáticos e articulações com o social. Congresso internacional de direito e contemporaneidade. Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Santos, A. B. R. & Besset, V. L. (2009). A clínica psicanalítica da perversão. Anais do XIII Colóquio Internacional de Psicossociologia e Sociologia Clínica, Belo Horizonte. 

Queiroz, E. F. (2004). A clínica da perversão.  São Paulo: Editora Escuta.

Valas, P. (1990). Freud e a perversão. Editora Jorge Zahar - Rio de Janeiro.

 

Biografia

Gabriela Oliveira do Nascimento, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Rafaela Martins Rodrigues, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Maria Gabriela Costa Ribeiro, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Daniella de Carvalho Moura, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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