O presente artigo retoma a discussão sobre o transtorno do défict de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças/adolescentes, dentro da visão psicopedagogica de trabalho. 

Resumo

O presente artigo retoma a discussão sobre o transtorno do défict de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças/adolescentes, dentro da visão psicopedagogica de trabalho. Sabemos que muitas crianças/adolescentes são ditas com TDAH e rotuladas só por que não conseguem desenvolver uma tarefa completa ou porque não param sentadas em sala de aula. O objetivo principal desse artigo é apontar questões básicas para promover o trabalho psicopedagógico na clínica e nas escolas esclarecendo e colaborando para o trabalho pedagógico dos professores como também para os pais dessas crianças.

Palavra chaves: TDAH – criança/ adolescente – trabalho psicopedagógico clínico – família - escola.

Abstract

The present article comes again with the discussion about attention deficiency disruption and children/adolescent hyperactivity in the psychoeducation view. We know wany children/adolescent are talken on “TDAH” just because they cannot develop a complete task or do not keep quiet in class. This article’s objective is to bring knowledge of basic questions to promote the psychoeducation work in clinics ano schools clarifying and collaborating with the tbacher’s pedagogical work as well as education the children’s parents.

Key words: TDAH – children/adolescent – psychoeducation work clinics – parents – schools.

            Como sabemos estar desatento ou com dificuldades em manter a atenção e a concentração é um “problema” antigo e que geralmente é manifestado e encontrado pela escola, pois é no período de ingresso a série inicial do ensino fundamental que as crianças manifestam esse comportamento não esperado (de não parar na cadeira, de não completar a atividade) pelos pais e professores. Mas, alguns pais já estão desenvolvendo um olhar mais atencioso às crianças em idades mais tenras e estão buscando a ajuda de profissionais mais cedo.

            Segundo Mattos (2005) há referência à inquietude desde o berço (sono agitado, choro fácil e intensa movimentação) e quando chega na escola apresenta uma energia maior, parece estar “movido a um motor”, interrompendo a vez de falar das pessoas, não aguardando a sua vez de participar em brincadeiras com as outras crianças, recebendo apelido como “bicho-carpinteiro”, fala de mais, responde perguntas antes de serem concluídas, fica se mexendo na cadeira, perde objetos, parece estar “no mundo da lua”, distraído com facilidade, esquece dos compromissos diários e têm dificuldade de concluir uma tarefa principalmente as escolares. Sendo assim, “é classicamente caracterizado por alterações dos sistemas motores, perceptivos, cognitivos, de comportamento, comprometendo o aprendizado de crianças com potencial intelectual adequado”(GUARDIOLA, 2005, p. 479).    

             As crianças com TDAH não conseguem respeitar os limites, não esperam sua vez de falar interrompendo seus pais e professores, não param quietas e estão geralmente com o pensamento em outro lugar. Considerando essa agitação, desatenção e a hiperatividade alguns outros sintomas devem ser considerados como baixa auto-estima, sonolência diurna, irritabilidade, dificuldade de memorizar informações, dificuldade de estar ativo pela manhã, adiamento crônico de compromissos, mudança de interesse o tempo todo, intolerância a situações monótonas ou repetitivas, variações de humor e busca constante por situações estimulantes e diferentes.

             A etiologia do TDAH é multifatorial e fazem dela os fatores genéticos e os ambientais em diferentes combinações (ROTTA, 2007, p. 303); de ordem neuropsiquiátrico ou psiquiátrico que afeta os responsáveis pela transmissão de substância mais especificamente os genes relacionados a dopamina e a noradrenalina.[1]   Isso não significa que o TDAH esteja fadado a problemas eternos como de relacionamento ou psicosocial. A criança e/ou adolescente poderá encontrar muitas dificuldades e muitas cobranças por não ser igual aos demais, contudo sua família terá que procurar ajuda de profissionais, pois não eliminará por vontade própria esses sintomas que aparece na infância e pode acompanhar o indivíduo a vida toda.  

            A família poderá auxiliar no tratamento identificando as necessidades da criança ou do adolescente com TDHA. Outra questão importante que deve ser mencionada é que a maioria das crianças que tem o diagnóstico apresenta co-morbidades[2], tais como: problemas de aprendizagens, ligados principalmente a ausência da atenção, depressão e ansiedade. As doenças mais comuns são Transtorno Bipolar, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC), Transtorno Desafiante de Oposição (TOD), Transtorno de Conduta (TC) todos transtornos devem ser diagnosticados por médicos especialistas e ter um tratamento adequado.            . 

            Segundo Rohde e Benczik (1999) o diagnóstico e a conseqüente intervenção precoce pode representar um grande passo para minimizar o impacto negativo que o TDAH pode trazer à vida da criança, pois quando não tratado, pode associar-se a experiências negativas de ordem social, pessoal, familiar e escolar, permanecendo durante a adolescência e a vida adulta.

            O TDAH por si só não causa problemas de aprendizagem, mas é necessário ter alguns cuidados, já que pode acarretar dificuldades de concentração e de atenção. Entretanto, podem existir os problemas de aprendizado na escola, como:

Dificuldades com a leitura (transtorno de leitura ou dislexia), com a matemática (Transtorno da matemática ou discalculia) e com a escrita (Transtorno da Expressão Escrita ou Disortografia) são os mais comuns. Problemas com a linguagem, comprometendo de forma mais global tanto a comunicação verbal quanto a leitura e escrita, também pode ocorrer (Transtorno da Comunicação ou Disfasia), mas são mais raros. A dislexia, a discalculia e a disortografia são chamadas de Transtorno de Aprendizado. Eles ocorrem na população em geral, porém aparece em associação ao quadro de TDAH com maior freqüência do que o esperado. (MATTOS, 2005, p. 37)

            Sabendo que o TDHA não é um problema de aprendizagem, mas que seus sintomas como desatenção, hiperatividade e a impulsividade causam uma grande desestruturação no desenvolvimento escolar e que se o indivíduo não estiver com a sua atenção seletiva voltada aos estímulos relevantes ele não conseguirá aprender.

Psicopedagogo e sua intervenção clínica

            A clínica se torna para pais um lugar de esperança, onde seus filhos poderão trabalhar as suas dificuldades e assim superá-las. A clínica também pode se tornar um eixo de conexão entre a escola e a família, pois ambas devem estar em parceria para que uma mudança na vida do portador do TDAH aconteça.

            Vimos que nem toda a criança ou adolescente tem problema de aprendizagem, mas eles apresentam dificuldades em se organizar e se concentrar, mas sabemos que muitas famílias sozinhas não dão conta, ou seja, não conseguem exercer a função e manter a organização necessária para que o portador do TDAH possa progredir na escola e em suas relações evitando ter problemas futuros quando adulto.

            Quanto mais cedo pudermos trabalhar as dificuldades de um indivíduo TDAH, seja de ordem organizacional estabelecendo regras firmes ou dificuldades como a discalculia, a dislexia, disfasia ou distografia maiores condições de sucesso esse sujeito terá.

            O trabalho psicopedagógico proporciona momentos de percepção da forma individual de aprender e de produzir de cada um.(WEISS, 2007, p. 192.) E essa observação associado a um trabalho médico é que vai proporcionar um melhor condicionamento ao sujeito com TDAH.

            O responsável pela criança ou adolescente com TDAH deve procurar um especialista para entender o que acontece com esse sujeito, porque isso acontece e também saber que não é por sua culpa que seu filho é assim. A vergonha e a culpa são estabelecidas muitas vezes devido às colocações da escola e/ou outros grupos que freqüenta onde criam rótulos desagradáveis a seus filhos deixando os pais em situações desagradáveis. Muitas pessoas confundem má educação com TDAH, entretanto, é notório que a educação influencia o modo como se comporta.

            O TDAH é bastante comum e segundo Mattos (2005) a prevalência, ou seja, o número total de casos varie entre 5% a 8% das crianças. Sendo assim, é provável que a maioria das pessoas conheçam crianças ou convivam com o TDAH, mesmo não identificando.

            A família, assim como as crianças, devem ser orientadas que a organização e a firmeza nas regras estabelecidas são os instrumentos para se ter mais qualidade de vida, paralelo a uma escola com professores que conheçam o TDAH e saibam trabalhar com ele.

Intervenção familiar

            A família é muito importante para o desenvolvimento da criança ou do adolescente com TDAH, pois é ela quem deve estabelecer as normas à esses indivíduos, tendo em vista que para quem tem TDAH o cumprimento das normas é uma tarefa difícil, mas necessária. É preciso que as regras sejam criadas e cumpridas, sempre tendo a participação da criança ou do adolescente, além das rotinas claras.

            Quando não é estabelecido rotina e também não exista regras a relação entre a família e a criança/adolescente pode ser muito complicada. Para Jou; Kunrath; Wagner (2006, p 238) o ambiente familiar em que essas crianças encontram-se inseridas é freqüentemente descrito como caótico, conflituoso e exaustivo.

            As atitudes que os pais têm em relação a seu filho não são a causa do TDAH, mas podem contribuir para acentuar os comportamentos inadequados que eles apresentam (MATTOS, 2005, p. 57).

            Conforme pesquisa realizada por Jou; Kunrath; Wagner (2006, p. 240) a família normalmente cria estratégias com a finalidade de suprimir comportamentos considerados inadequados ou de incentivar a ocorrência de comportamentos adequados. A punição e o uso de castigos se enquadrariam em formas de chantagem ou sob forma de ameaça, a negociação e a tomada de consciência ou o outro extremo que é o bater (agressão física), estratégias essas usadas pelas famílias. Analisando-as, observa-se que a tomada de consciência que vem aliada a conversa e as combinações, paralela a busca do entendimento das ações é uma das formas mais eficazes para lidar com a criança ou adolescente com TDAH.   

Para os pais de crianças/adolescentes portadoras de TDAH recomenda-se: estabelecer prioridades, pensar antes de agir, usar o reforço positivo antes da punição, manter constância nas estratégias, antecipar problemas, estabelecer uma comunicação clara e eficiente, proporcionar uma atividade física regular para o seu filho, escolher cuidadosamente a escola (desde que possa) e planejar atividades futuras.

Já que as crianças não conseguem sozinhas se organizar (dar início às atividades como temas e finalizá-las), os pais têm que assessorar diariamente essas crianças.

Intervenção escolar

            A escola é o espaço em que a criança e o adolescente buscam se afirmar no grupo e é onde se inicia o processo de socialização, de trocas. Mas, se o professor não tiver o conhecimento necessário e o apoio de profissionais para trabalhar com o TDAH não será nada fácil, nem para o professor nem para o estudante.

O professor, entendendo bem a situação do escolar, deve colocá-lo sentado na primeira fila, em turmas com pequeno número de alunos, e em classes individuais, quando necessário. Deve haver disponibilidade especial do professor, possíveis aulas de reforço, estabelecimento de rotinas, como, por exemplo, na realização das tarefas, e reestruturação dos horários de atividades não-acadêmicas, a fim de otimizar as condições de aprendizagem. É importante que, conhecendo as dificuldades do aluno, o professor consista em um tempo maior para realização de tarefas e de provas. (ROTTA, 2007, p. 309)

 Para o professor que trabalha com casos de TDAH, recomenda-se bom senso e quando esse não tiver formação que a escola ajude-o a buscar. O entendimento do rendimento do aluno e a forma como este estuda necessita ser entendida individualmente. Saber que a criança/adolescente tem maior possibilidade de crescimento se o professor usar estratégias de ensino flexíveis; encorajar a auto-informação e monitorização; criar um caderno “casa-escola-casa”; elogiar os sucessos; fixar regras, sendo que essas regras e instruções deverão ser breves e claras; transformar, quando possível, tarefas em jogos; estimular a organização para o adolescente; se escrever a mão é difícil, tentar a digitação; eliminar ou reduzir testes cronometrados; avaliar mais pela qualidade do que pela quantidade são algumas formas que fazem a prática do professor mais qualificada e assim, qualifica também a vida do adolescente e/ou da criança com TDAH.

Recomenda-se ainda, algumas estratégias específicas para o manejo de comportamentos como: planejar e antecipar as atividades, mantendo o esquema de trabalho o mais constante possível; aumentar a atenção sustentada por meio do ensino participativo, dividir tarefas grandes em várias tarefas pequenas; utilizar diferenciados recursos de ensino.    

Conclusão

            Trabalhar com a criança ou o adolescente com TDAH exige do psicopedagogo conhecimento teórico e acompanhamento dos demais profissionais que também trabalham com o TDAH para que juntos possam observar e saber como tratar o TDAH.

            Observava-se que os problemas de aprendizagens podem estar presentes na família e na escola e o psicopedagogo deve procurar fazer as intervenções que sejam necessárias junto à família e o meio escolar. Pois, as famílias muitas vezes estão desamparadas e sem conhecimento do que está acontecendo com seu filho, julgando-se muitas vezes como culpada, pela forma como seu filho age na escola ou em casa com a família. E a escola sente-se desamparada, uma vez que possui muitos alunos e uma diversidade de problemas para enfrentar. Mas, é com o apoio psicopedagógico estruturado e capacitado que professor desenvolverá seu trabalho, sendo apoiado e ajudado.

            Sendo assim, a criança e o adolescente com TDAH terá mais condições de explorar suas potencialidades com a ajuda desses três sistemas que são a escola, a família e a psicopedagogia fazendo com que os ajude a viver com a falta de atenção e hiperatividade.

 

Referências

GUARDIOLA, Ana; SPANEMBERG, Lucas; POSSA, Marianne de Aguiar. Comorbidades do tratamento de déficit de atenção e hiperatividade em crianças escolares. Arq. Neuropsiquiatria; 63 (2-B): 479-483, 2005. Disponível em: www.scielo.br/pdf/anp/v63n2b/a21v632b.pdf - acessado em 31/10/08.

JOU, Graciela Y. de; KUNRATH, Letícia Hoffmann; WAGNER, Adriana. A educação dos filhos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: o que fazer?
Psicologia em Revista; v. 12, n 20 dezembro de 2006 p 235 – 250.

MATTOS, Paulo. No mundo da lua: perguntas e respostas sobre transtorno do déficit de atenção com hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Lemos, 2005.

PINHEIRO, Maria Antonia Serra. SOUZA, Isabella. Co-morbidades. In: ROHDE, Luís Augusto. Princípios e práticas em transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. Porto Alegre: Artmed, 2003.

ROHDE, Luís Augusto P.; BENCZIK, Edyleine B. P. Transtorno de Déficit de Atenção Hiperatividade: O que é? Como ajudar? Porto Alegre: ARTMED, 1999.

ROTTA, Newra Tellechea. Transtorno da atenção: aspectos clínicos. In: ROTTA, Newra Tellechea[et al.] Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre, Artmed, 2006.

WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia Clínica – uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 12ª ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007.

 

Autor

Eliandra Silva Model
Titulação: Pós-Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo Centro Universitário La Salle - RS. Graduada em Pedagogia pela UNISINOS - RS.
Instituição pertencente: Professora na rede municipal de Ensino de São Leopoldo - RS e Psicopedagoga Clínica no Centro de Atendimento Clínico, Empresarial e Escolar em Sapucaia do Sul – RS.  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


[1] Essas substâncias existem no sistema nervoso permitindo a comunicação entre células nervosas e que o lobo frontal do cérebro e suas conexões estão envolvidas. (MATTOS, 2005, p. 42).

[2] Co-morbidade é o termo utilizado para designar a ocorrência de dois ou mais transtornos em um mesmo individuo. (PINHEIRO, SOUZA, 2003, p. 85).