O presente estudo tem como objetivo avaliar as representações sociais de adolescentes de escolas públicas acerca do abuso sexual.

Resumo

O presente estudo tem como objetivo avaliar as representações sociais de adolescentes de escolas públicas acerca do abuso sexual. Trata-se de um estudo qualitativo do qual participaram 220 estudantes de duas escolas públicas, na faixa etária dos 14 aos 19 anos. Para a coleta de dados utilizou-seuma entrevista aberta.Analisaram-se os referidos dados obtidos a partir da técnica de análise de conteúdo de Bardin. Os resultados demonstraram queos adolescentes representam o abuso sexual como um ato inaceitável efetivado a partir de um processo de dominação centrado na figura do agressor, e como uma experiência com significado potencial nocivo. Contudo, percebeu-se que os adolescentescentraram-sena culpabilização da vítima. Identificou-se também a presença de mitos em relação ao abuso sexual, como acreditar que este ato é efetivado exclusivamente por meio da violência física.

Palavras-chave: Representação Social, adolescentes,escolas públicas, abuso sexual.

Abstract

This study aims to evaluate the social representations of adolescents of public schools about sexual abuse. This is a qualitative study with the participation of 220 students from two public schools, aged from 14 to 19 years. To collect data, we used an open interview. Analyzed those data obtained from the Bardin content analysis technique. The results showed that adolescents represent sexual abuse as an unacceptable act effected from a process centered domination in the figure of the aggressor, and as an experience meaningful potential harmful. However, it was noted that adolescents have focused on victim-blaming. Also identified himself the presence of myths about sexual abuse, how to believe that this act is effected solely by means of physical violence.

Keywords: Social Representation, adolescents, public schools, sexual abuse.

Introdução

A população juvenil está sujeita a ser vítima de uma pluralidade de atos violentos. Dentre estes, o abuso sexual de sobressai em virtude de sua significativa incidência e dos extensos malefícios que podem ocasionar ao desenvolvimento de suas vítimas, podendo afetá-las nas diversas esferas de sua vida (Amazarray&Koller, 1998; Drezett, 2001; Tackett, Williams &Finkelhor, 1993).

De acordo com Faleiros e Campos (2000), o abuso sexual é compreendido como uma interação na qual uma criança ou adolescente é usada para a gratificação sexual de uma pessoa geralmente em uma faixa etária mais avançada. Assim, caracteriza-se como uma relação de poder que desrespeita o nível de desenvolvimento da vítima, ultrapassando o limite do que esta sabe, pode discernir e/ou fazer.

Neste sentido, o abuso sexual é definido, sobretudo, pela natureza da relação, que se passa em um contexto autoritário no qual coexistem atores com forças, pesos e poderes desiguais em termos de conhecimento, autoridade, experiência, maturidade e recursos. Esta relação assimétrica pode ser efetivada por meio de ameaças, manipulação, assédio, sedução e uso de violência física (Azambuja, 2004; Azevedo & Guerra, 1989; Diégoli, Lerner & Ramos, 1996; Faleiros & Faleiros, 2008).

Critérios estabelecidos por Gael (1997) eHabizang e Carminha (2004), a respeito do que caracterizaria um ato como abuso sexual, provavelmente lança luz sobre essa temática. A princípio o autor conceituou o abuso sexual como qualquer ação cujo objetivo é controlar a sexualidade da criança ou do adolescente, elencando três condições peculiares do ato abusivo: a) uma relação assimétrica de poder; b) um grau de conhecimento mais elevado observado no agressor, em virtude da idade cronológica, do estágio do desenvolvimento ou de uma inteligência superior à vítima; c) a relação abusiva de ter como propósito a satisfação do perpetrador, sendo que qualquer prazer vivenciado pela vítima é acidental.

Tais conceituações são complementadas por Safiotti (1999, 2001) eRenk, Jequist, Steinberg, Bosco e Phares (2002) que introduzem o componente sexista, característico das sociedades patriarcais em que o abuso sexual seria uma extensão da ordem social assimétrica, na qual o homem exerce poder sobre a mulher. Ampliam, ainda, acrescentando a concepção de violência de gênero, incluindo, além de vítimas mulheres, crianças e adolescentes independentes do seu sexo.Esta relação hierárquica entre homens e mulheres é construída e legitimada culturalmente a partir do processo de socialização que proporciona à criança e ao adolescente orientações normatizadoras sobre os papéis e significados atribuídos ao homem e a mulher (Safiotti, 1997; Yépez& Pinheiro, 2005).

De acordo com Korin (2001), atualmente o modelo masculino, ou seja, o repertório comportamental que é convencionado para o homem, centra-se em princípios como poder e capacidade para exercer o controle. Neste sentido, traços considerados como masculinos associam o homem à força, postura ativa, agressividade, autonomia e comportamento competitivo. Em contrapartida, os traços identificados socialmente como típicos da dimensão feminina são: passividade, fragilidade e dependência. O contexto cultural descrito fundamenta uma estrutura social hierárquica que autoriza e incentiva o poder do forte sobre o mais fraco, representados na esfera cultural como o homem e a mulher, respectivamente (DeSouza, Baldwin & Rosa, 2000).

Corroborando essa concepção, DeSouza, Baldwin e Rosa (2000), identifica na cultura brasileira o ideal feminino materializado a partir do arquétipo de “Maria”, mulher mártir capaz do sacrifício, submissa, tendo como traço definidor a maternidade e a ausência de desejo sexual. Contrapondo-se a este modelo, está o arquétipo do machão presente no universo simbólico da masculinidade que está relacionado a características, como indiferença à família, assédio sexual, agressividade contra outros homens e dominação sobre as mulheres.Ainda nesta perspectiva de gênero, permanecem visões deturpadas no universo consensual, que legitimam o abuso sexual e atuam no sentido de culpabilizar a vítima mulher, a qual é percebida como símbolo da sedução que estaria protegida, caso ficasse confinada ao âmbito privado e domiciliar reconhecido como seu lugar de origem.

Desta forma, a emancipação feminina que contraria o arquétipo de “Maria” é apontada como a causa da vitimização, ou seja, a partir do momento que a mulher desobedece ao roteiro comportamental imposto, ela estará suscetível a sofrer uma série de punições que podem ser aplicadas em forma de violência. Além disso, o homem é representado como dotado de um impulso sexual incontrolável cuja virilidade está intrinsecamente associada a um comportamento sexual agressivo. Neste sentido, percebe-se que a construção social dos papéis sexuais masculinos e femininos contribuem para a naturalização do abuso sexual (Bandeira, 2009; Cavalcanti, Gomes &Minayo, 2006).

É necessário considerar também a dimensão intergeracional que perpassa esta problemática.Historicamente, em várias épocas e países, as crianças e os adolescentes sempre foram vitimizados por diversos tipos de maus tratos, devido às concepções autoritárias e coercitivas características da sociedade adultocêntrica que embasam as condutas educativas, orientadas para a punição, por meio de castigos corporais e pela ausência de políticas públicas incumbidas de dar proteção ao segmento infanto-juvenil (Faleiros & Faleiros, 2008; Libório, 2006; Vivarta, 2003).

Nesta perspectiva, o sistema cultural construído ao longo da história é pautado por valores que autorizam uma posição de controle e dominação do adulto sobre a criança e o adolescente. Além disso, Felipe (2003,2006) aponta o processo de “pedofilização” que perpassa a sociedade contemporânea, efetivado de propagandas e outros artefatos culturais que retratam a criança de forma erotizada como um misto de pureza e sensualidade, revestindo-a do papel de objeto de desejo e sedução que mobiliza a fantasia dos adultos. Dessa forma, considerando-se a vulnerabilidade do público infanto-juvenil ao abuso sexual, percebe-se a necessidade de investigar a compreensão e o universo imaginário que os adolescentes têm acerca deste fenômeno.

Neste sentido, para viabilizar a apreensão do abuso sexual pelos adolescentes, adotou-se como referencial a teoria das Representações Sociais (RS). Estas são definidas como sistemas de significação que orientam nossas relações com o mundo e os outros, contribuindo para tornar a realidade física e social inteligível. As RS são concepções que o indivíduo tem sobre o mundo que o cerca, nas quais pode se detectar uma série de elementos, quais sejam valores, ideologia e contradições, que facilitam a compreensão do comportamento social (Moscovici, 1978, 2003).Assim,entender a representação social dos adolescentes sobre o abuso sexual pode facilitar a compreensão do universo de conhecimento que este grupo tem sobre o fenômeno em questão e dar indicadores sobre as principais diretrizes que podem orientar a sua percepção e possível comportamento diante do abuso sexual.

As RS abarcam diversas dimensões, pensamentos, práticas, afetos, sentimentos, emoções e cognições, que vivenciam constante transformação ao longo do tempo e da história (Moscovici, 1978). Sua construção ocorre principalmente quando as pessoas estão expostas às instituições, aos meios de comunicação e à herança histórica cultural. O conceito situa-se na fronteira entre o individual e o social introduzindo uma articulação entre as experiências, a leitura individual acerca dos fenômenos e os modelos sociais, o que desemboca em uma forma particular de apreensão da realidade. Quando Moscovici teceu a noção de RS, sua finalidade foi estabelecer uma ponte de ligação entre os fenômenos individuais e sociais, ou seja, entre o indivíduo e a sociedade (Moscovici, 2003; Nóbrega, 2003).

Dessa forma, a RS é um corpus de conhecimento elaborado e partilhado coletivamente quese configura em um saber prático na medida que trata-se de um elemento norteador para a ação, sendo prescritiva de comportamentos, além de determinar o que é legítimo, tolerável ou inaceitável em um dado contexto social (Jodelet, 2001; Moscovici, 1985). Portanto, compreender as representações sociais dos adolescentes acerca do abuso sexual pode dar subsídios para a elaboração de programas educativos, que tenham como finalidade promover para este público, discussões sobre os significados e mitos que permeiam essa temática.

Método

Caracterização da amostra

                Desenvolveu-se o estudo em duas escolas públicas da cidade de João Pessoa-PB, localizadas na periferia da cidade, em um bairro de classe baixa. A amostra compôs-se por 220 estudantes sendo136 do sexo feminino e 84 do sexo masculino. Estes estavam divididos igualmente entre o nono ano do ensino fundamental, e o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio (55 indivíduos por turma). Todos se encontravam na faixa etária dos 14 aos 19 anos, sendo que 96 dos participantes tinham idades de 14 a 15 anos, 62 tinham de 16 a 17 anos, e 62 tinham de 18 a 19 anos.

Instrumentos

Para obtenção dos dados utilizou-se um questionáriosócio demográfico para caracterização da amostra bem comouma entrevista aberta elaborada para o referente estudo com a finalidade de investigar o universo de conhecimento que os estudantes possuíam acerca do abuso sexual. A entrevista era composta por uma questão única: O que você pensa/entende sobre abuso sexual?

Procedimento

Inicialmente solicitou-se a autorização dos diretores das escolas pesquisadas para a realização do estudo. Confirmada a permissão dos responsáveis pelas escolas, partiu-se para o contato com os estudantes. Nessa ocasião, os pesquisadores apresentaram em cada uma das salas avaliadas os objetivos da pesquisa, solicitando a cada participante que respondesse de forma voluntária aos instrumentos que foram distribuídos. Os participantes foram informados, previamente a respeito da confiabilidade dos dados e do anonimato da sua colaboração.

Análise dos resultados

Realizou-se a análise do material proveniente a partir da técnica de análise de conteúdo de Bardin (2002), que permite a compreensão crítica do sentido das comunicações por meio do seu conteúdo. Para tanto, fez-se necessário proceder comas seguintes etapas operacionais: a) Leitura flutuante inicial, que consiste numa leitura superficial do material obtido, com a finalidade de tomar conhecimento dos dados; b) Constituição docorpus formado pelo material coletado; c) Decomposição do corpus e codificação dos temas, agrupando-se o material em subcategorias e categorias simbólicas formuladas de forma empírica. No presente estudo, efetivou-se a categorização do corpus de acordo com o consenso de três juízes. Além disso, contabilizaram-se o número das categorias e subcategorias para visualizaçãoda representatividade de cada uma delas.

Resultados

Modalidades do abuso sexual

                A primeira categoria compreende os atos sexuais definidos pelos adolescentes como abuso sexual. Dentre estes, apontou-se em maior quantidade a relação sexual sem consentimento: (112) (m) forçar alguém a praticar sexo... (h) quando uma pessoa é forçada a manter relações sexuais...(m) forçar o ato sexual contra a vontade.Além disso, mencionaram-se outros tipos de agressão sexual (47) que não envolviam a consumação do ato sexual, mas que também era realizado a partir de processo autoritário por meio de ameaças ou uso da violência física.

Causas do abuso sexual

                Os indivíduos representaram as causas do abuso sexual como tendo raízes na esfera psicológica do agressor. No que diz respeito ao aspecto psicológico (21), o agressor é objetivado como portador de um transtorno mental: (h) ...um psicopata que tem atração por crianças... (m) ...é a manifestação de um distúrbio mental... (h) ...pessoa doida, maluca, que não tá nem aí pras consequências...

                Em relaçãoàs causas biológicas (09) os adolescentes conceberam o agressor como dotado de um desejo sexual incontrolável que o impulsiona para a efetivação da situação abusiva.Outra explicação para ocorrência do abuso sexual mencionada pelos sujeitos foi a culpabilização da vítima (03) pautada numa imagem da mulher e da criança como a evocadora do abuso: (h) ...sei que a maioria das mulheres sofre abuso por causa das roupas que são muito pequenas. (m) ...na maioria das vezes acontece isso porque as parceiras dos homens não estão fazendo o que eles querem. (m) ...às vezes as crianças são inocentes e não sabem de nada...

Repercussões do abuso sexual

                Essa categoria refere-se às menções dos adolescentes sobre as possíveis consequências nas esferas psíquica, social e física acarretadas pelo abuso sexual nas suas vítimas. Na dimensão psicológica (25) relataram que:(m) ...as vítimas levarão sempre com tristeza as lembranças daquele acontecimento. (m) ...as pessoas que sofrem este tipo de abuso tornam-se infelizes para sempre. (h) ...fazem as vítimas sofrerem o resto da vida psicologicamente... Observou-se também que os adolescentes representaram os efeitos deletérios da situação abusiva em um contexto mais amplo (social) por ser uma experiência que eles relataram ser capaz de “acabar com a vida social da vítima”.Salientaram-se também os efeitos físicos (03), materializados nas feridas corporais e nas doenças decorrentes desta violência, como relatados pelos participantes.

Posicionamento frente ao abuso sexual

                Com relação ao posicionamento dos adolescentes frente ao abuso sexual, ou seja, a forma como estes avaliam o abuso sexual, de forma geral foi desconfortável (27), pois os participantes da pesquisa adotaram uma postura de reprovação, representando o abuso sexual como um fenômeno inaceitável e horrível: (h)... um ato nojento... (h)... é inaceitável... (m)... inadmissível e sem lógica...

Crenças dos adolescentes acerca do abuso

                Essa categoriadiz respeito aos mitos presentes no imaginário social sobre a situação abusiva. No universo simbólico referente ao abuso sexual permeiam crenças geradoras de imagens estereotipadas acerca deste fenômeno. Um deles foi o de relacionar a violência física como o único meio de penetração (11). Outra crença expressada pelos adolescentes foi a de que o agressor sexual é sempre do sexo masculino (08).

Discussão

                As representações sociais elaboradas pelos adolescentes acerca do abuso sexual corroboram o conceito deGabel (1997). Este odefine como uma relação de poder que intimida e humilha os indivíduos à medida que os expropria de sua autonomia corporal.

Nesse sentido, as vítimas perdem o seu direito de impor limites sobre a ação do outro, devido à tirania do agressor que estabelece uma relação unilateral e autoritária. Assim, a situação abusiva é considerada uma agressão à autonomia e liberdade do sujeito que é destituído do seu direito de ser o agente de suas escolhas.

Tal compreensão é semelhante também à visão de Faleiros e Campos (2000). Estes apontam como uma das principais características da violência sexual a impossibilidade de escolha das vítimas, seja por estar sofrendo um processo de coerção ou por estar em um nível de desenvolvimento que não os permite ter discernimento a respeito da situação.De acordo com Faleiros e Campos, essa relação desequilibrada de poder impede que a vítima tenha possibilidade de reagir, porestá submetida a um processo de intimidação psicológica e/ou física, algumas vezes em situação análoga à tortura, ao sequestro e à ameaça de morte.

A representação do agressor como portador de transtorno mental é reflexo também da forma como o abuso sexual e os atores sociais envolvidos são veiculados pela mídia. Assim, no imaginário social, o agressor geralmente é concretizado na imagem do doente mental. Neste sentido, é provável que para os adolescentes, o agressor sexual apresente um comportamento diferenciado do que é considerado comum.

O uso de imagens estereotipadas é algo frequente no tratamento dado ao abuso sexual nos jornais de maior circulação. É possível observar também, que há uma maior divulgação de crimes sexuais cujo agressor apresenta transtorno mental. Além disso, é corriqueiro o uso de metáforas inadequadas pautadas numa visão parcial: monstro, tarado, pastor do diabo, portador de desvio de caráter, psicopata e desequilibrado (Vivarta, 2003).

Do mesmo modo, Landini (2003,2006) constatou que, a partir da década de 1990, ocorreu uma mudança na forma como a violência sexual era tratada na mídia impressa. A investigação das causas dos crimes sexuais passou a dar maior ênfase no questionamento da sanidade mental do perpetrador.

Compartilhando desta perspectiva, Libório e Castro (2010) chamam atenção para o uso indiscriminado da nomenclatura “pedófilo” para se referir aos agressores sexuais, pressupondo a ideia de que todos que efetivam esta modalidade de violência apresentam um transtorno mental. Libório e Castro ressaltam as diferenças destas duas categorias. Elas são impulsionadas por motivações díspares.

O pedófilo apresenta um quadro de parafilia caracterizado por ter fantasias sexuais recorrentes com o segmento infantil e pode ou não se tornar um abusador.Já o perpetrador sexual escolhe a criança ou adolescente por estes serem mais vulneráveis. Um dos motivos que pode levar a isso se trata do processo de erotização do corpo infantil efetuado pelo setor midiático, que converte a criança em um objeto de desejo para o adulto, naturalizando o relacionamento sexual entre estes.

                Além disso, a herança histórico-cultural da sociedade ocidental traçou como paradigma hegemônico de masculinidade o fato destes serem ativos, dominadores, exibindo uma postura sexual agressiva e impulsiva. Na ótica do senso comum, esse modelo foi naturalizado como uma manifestação biológica sendo destituído das suas origens socioculturais evidenciado pelas falas listadas dos adolescentes.

Esta concepção concorre para a conservação do paradigma hierárquico que fundamenta relações assimétricas de poder entre homens e mulheres (Korin, 2003). Dessa forma, o agressor é simbolizado como alguém dominado pelo imperativo biológico de saciar o seu desejo sexual, fato que é contrariado pelo caráter de premeditação presente em alguns crimes sexuais.

                O discurso social que imputa a culpa à vítima é sedimentado por representações culturais, construídas ao longo da história, nas quais perpassam símbolos que evocam interpretações múltiplas e contraditórias. O universo feminino é simbolizado por meio de arquétiposque comportam uma pluralidade de significados. No entanto, aqueles são reduzidos a uma interpretação binária e situada em polos opostos, a pecadora e a santa.

É na representação de Eva, por exemplo, que a mulher é significada como ícone de sedução, associada ao pecado e responsabilizada pela atração sexual do homem. Mesmo à criança, algumas vezes, é imputado o papel de sedução e de desencadeadora do abuso (Cordeiro, 2004).

                De acordo com Pérez e Fiol (2000), a explicação que culpabiliza a vítima é amparada em crenças que perpassam o tecido social, como: a) toda mulher é sedutora; b) mesmo que a mulher se esquive das investidas sexuais do homem ela quer dizer sim; c) somente as mulheres de reputação duvidosa são vítimas de abuso sexual. Essas crenças reforçam, assim, o papel da violência de controle e restrição da liberdade feminina.

                Nessa perspectiva, as causas do abuso sexual são ancoradas na dimensão psicológica e sociocultural. No que diz respeito à esfera psicológica, trata-se das explicações fundadas no questionamento da sanidade mental do agressor e na avaliação do seu caráter. As causas fundamentais nas questões socioculturais referem-se à visão naturalizada do impulso sexual incontrolável dos homens apresentado como uma manifestação biológica e na culpabilização das vítimas que encontra apoio na associação do universo feminino com a sedução.

                A partir das falas dos participantes da pesquisa, observa-se que o abuso sexual é representado como uma experiência com significativo potencial nocivo, capaz de causar elevado sofrimento psíquico e de acarretar consequências passíveis de afetar os relacionamentos interpessoais dos sujeitos vitimizados.A literatura científica também destaca uma gama de consequências advindas desta experiência adversa, o que denota uma similitude entre ciência e conhecimento cotidiano.

Segundo Amazarray e Koller (1998) e Faleiros (1997), o abuso sexual pode ter prejudiciais consequências em suas vítimas podendo afetá-las nas diversas esferas de sua vida. Dentre os sintomas elencados com maior frequência, estão: presença de quadro depressivo, comportamento autoagressivo, retraimento, sentimentos de culpa, vergonha e autodesvalorização e evitação de relacionamentos afetivos.

O universo científico, também descreve possíveis sequelas físicas, lesões corporais, o risco de contrair DST’s/AIDS e a possibilidade de gravidez que pode representar um sério transtorno na vida da vítima do abuso sexual. Além disso, os indivíduos vitimizados têm a maior possibilidade de se envolverem em situações de risco: exploração sexual, abuso de substância e realização de atos ilegais (Amazarray&Koller, 1998; Faleiros, 1997; Tackett, Williams &Finkelhor, 1993).

Nos dados coletados, essa informações são confirmadas na medida em que o abuso sexual é representado pelo senso comum adolescente como uma experiência com elevado impacto deletério psíquico e social ancorado em aspectos psicoafetivos como sofrimento e trauma. Além disso, a vítima é percebida como alguém suscetível a sofrer com o estigma da sociedade.

                As falas dos adolescentes da pesquisa demonstram que estes percebem o indivíduo vitimizado como um sujeito em sofrimento, estigmatizado socialmente. Nesta perspectiva, acredita-se que as vítimas de abuso sexual estão expostas a serem alvo da censura social, materializada no descrédito em sua história (Faleiros, 1997; Habizang& Caminha, 2004).Entretanto, considerando os diferentes modelos normatizadores do comportamento feminino e masculino que perpassam o contexto sociocultural, as vítimas do sexo feminino e masculino são alvos de respostas discriminatórias específicas.

Como no imaginário social um dos atributos femininos é o poder de sedução, a vítima mulher pode ser culpabilizada pelo abuso sexual, sendo apontada como a provocadora do ato. No que se refere ao abuso sexual do sexo masculino, como o homem é associado a um papel ativo, dominador e autossuficiente, a condição de vítima gera alguns tabus como o da fragilidade e da homossexualidade (Libório, 2006).

                Como o abuso sexual é um fenômeno circundado por tabus em função de transgredir leis do universo moral e legal, é comum despertar reações emocionais exacerbadas que, segundo Felizardo (2003), impedem um olhar mais imparcial desta problemática.Considerando que os adolescentes representam o abuso sexual como uma experiência danosa e como um ato violento concretizado a partir de um processo de dominação, compreende-se o posicionamento desfavorável expressado diante desta problemática.

Em relação às crenças que emergiram das falas dos participantes, uma delas referiu-se a associação entre situação abusiva e violência física. De acordo com Landini (2003, 2006), esta crença também é reforçada pela mídia que, geralmente, divulga notícias de abuso sexual envolvendo o uso da violência física. No entanto, autores como Faleiros e Campos (2000), descrevem outros meios de efetivação do abuso sexual como a intimidação ou manipulação psicológica a partir de uma posição de poder desigual.

                Quanto à associação do gênero masculinoa figura do agressor, percebe-se a partir das estatísticas que, embora, na maior parte dos casos o perpetrador seja do sexo masculino, o que é compreendido pela perspectiva de gênero como consequência do paradigma de masculinidade vigente, também há casos em que as mulheres são agressoras. Isso evidenciaque as categorias de gênero não são estáticas e que o poder pode articular de mãos (Libório, 2006).

Considerações Finais

                Deste estudo se apreendeu que o abuso sexual é representado pelos adolescentes, como quaisquer formas de envolvimento sexual ou atividade sexual, sem consentimento, realizada por meio de um processo de dominação que suprime o direito da vítima de ser agente de suas escolhas. Segundo a fala dos adolescentes, essa dominação é efetivada exclusivamente por meio da agressão física, envolvendo umagressor do sexo masculino, doente (físico ou psiquicamente). O mito de que a situação abusiva é efetivada exclusivamente através da agressão física pode dificultar a identificação desse tipo de violência.

Para eles, o abuso sexual envolve ainda uma vítima que é culpada porque se insinua ou se expõe nas vestimentas, e tem consequências tais como o sofrimento psíquico, podendo afetar os relacionamentos interpessoais dos sujeitos vitimizados.Além disso, os dados provenientes desse estudo sugerem que os adolescentes simbolizam o abuso sexual como uma experiência adversa, com forte impacto deletério, capaz de suscitar consequências físicas e sociais nocivas expressas nas referências dos adolescentes ao sofrimento, trauma, dor, vergonha, tristeza e outras sequelas.

                No que concerne às causas do abuso sexual, elas foram centradas no agressor, a partir do questionamento de seu caráter e de sua sanidade mental. O agressor seria ainda subjugado ao imperativo biológico que o impulsiona na busca da satisfação do seu desejo sexual.Outra explicação atribuída à ocorrência do abuso sexual foi a culpabilização da vítima.

Todos estes dados indicam a necessidade da inserção dediscussões sobre os modelos normatizadores dos papéis sexuais e dos impactos deste condicionante em programas educativos sobre o abuso sexual, incrementando a forma de perceber o fenômeno em foco. Dessa forma, por meio dessas informações relatadas no presente estudo, acredita-se que os conteúdos apreendidos podem subsidiar a construção de programas educativos direcionados para o público adolescente que abordem o abuso sexual a partir de uma leitura crítica que discuta os valores culturais arcaicos que o naturaliza.

Do mesmo modo, e por fim, esses dados podem auxiliar na tentativa de construir estratégias que privilegiem a chamada de atenção para alguns mitos expressos pelos adolescentes que podem dificultar a identificação da situação abusiva. Nesse sentido, outros estudos que subsidiem e complementem esses dados precisam ser realizados para o melhoramento da compreensão cientifica a respeito da percepção dos adolescentes a respeito dessa temática e de outras inerentes.

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Pérez, V. A. F. &Fiol, E. B. (2000). Violencia de género e misoginia: Reflexionespsicosociales sobre unposible fator explicativo. PapelesdelPsicologo, 75, 13-19.

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Vivarta, V. (2003). O Grito dos Inocentes:Os meios de comunicação e a violência sexual contra crianças e adolescentes. São Paulo: Cortez.

 

Autores

Débora Najda de Medeiros Viana¹, possui Licenciatura e Formação em Psicologia (2010) pela Universidade Estadual da Paraíba, Especialista em Saúde Coletiva pelas Faculdades Integradas de Patos (2011) e Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (2014). Atualmente, concluinte da Especialização em Avaliação Psicológica pelo IPOG. Desde 2012 é professora de Curso de Psicologia das Faculdades Integradas de Patos e desde 2014 é Coordenadora Adjunta do referido curso. Atualmente também é professora substituta da Universidade Estadual da Paraíba.  Atua como membro do Colegiado do Curso desde o ano de 2013 e foi Coordenadora de Atividades Complementares, participando atualmente como membro do NDE contribuindo diretamente com a gestão colegiada do curso. Possui experiência em Psicologia na área de com ênfase em Psicologia Organizacional e do Trabalho, tendo atuado como psicóloga em empresas privadas nos setores de Recursos humanos e de Gestão de Pessoas como Analista e Consultora. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Diana Sampaio Braga, possui graduação em Licenciatura em Psicologia pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (2003), mestrado (2007) em Psicologia (Psicologia Social) e doutorado em Psicologia (Psicologia Social - em andamento) pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Atualmente é professora efetiva da UEPB e do grupo SER Educacional - Faculdade Maurício de Nassau. Ministrou as disciplinas Psicologia do desenvolvimento e aprendizagem, Educação especial I e II, Psicologia Social , Psicologia aplicada a pessoas com necessidades especias, Psicologia jurídica, Fenômenos e Processos Psicológicos, nos cursos de Psicologia, Pedagogia e Direito. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Jandilson Avelino da Silva, possui Licenciatura (2008), Formação (2009), Mestrado (2011), e Doutorado (2015) em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sendo que atualmente é professor efetivo de Psicologia das Faculdades Integradas de Patos (FIP), Patos, Paraíba, Brasil. Tem experiência na área de Psicologia Clínica (Cognitiva, Comportamental e Cognitivo-comportamental), e em Neurociências (Psicofísica e Neuropsicologia), atuando principalmente nas temáticas relacionadas aos Processos Psicológicos Básicos. É pesquisador colaborador do Laboratório de Percepção, Neurociências e Comportamento (LPNeC) e do Laboratório de Pesquisa em Comportamento e Cognição (LAPECC), ambos do Departamento de Psicologia da UFPB, e filiado à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC) e ao Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento (IBNEC). Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Maria de Fátima Pereira Alberto, possui mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba (1991) e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (2002). Atualmente é professora associada da Universidade Federal da Paraíba, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social (mestrado e doutorado). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Social, Infância e Adolescência em Situação de Risco, Subjetividade e Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: infância, adolescência e juventude, situações de risco, trabalho infantil, trabalho precoce, meninos e meninas em condição de rua, direitos humanos, violência sexual e políticas públicas. Representa a UFPB no Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba (FEPETI). Integra o GT Juventude, Resiliência e Vulnerabilidade da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia. Integra também a RedIberoamericana para laDocencia e InvestigaciónenDerechos de laInfancia (REDIDI). Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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