Reconhecer a importância da literatura infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância, é proposta deste trabalho, enfatizando o gênero literário contos de fadas. No contexto educacional, sabemos da importância que as atividades lúdicas têm para o de...

Resumo

Reconhecer a importância da literatura infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância, é proposta deste trabalho, enfatizando o gênero literário contos de fadas. No contexto educacional, sabemos da importância que as atividades lúdicas têm para o desenvolvimento da criança. São frequentes os estudos que comprovam a necessidade e os benefícios que os jogos,as brincadeiras e a literatura infantil têm para a ampliação do imaginário do aluno/leitor. A literatura infantil é considerada uma ferramenta poderosa para o aprendizado de conteúdos e comportamentos socialmente valorizados, pois permite que as crianças vivenciem situações e problemas, e assim possam interagir e superar situações consideradas difíceis. A literatura infantil serve como objeto de formação da mentalidade das crianças, no intuito de reafirmar valores e normas que assegurariam a formação de indivíduos passivos e obedientes. Desde cedo, é preciso formar um leitor que tenha o envolvimento integral com aquilo que lê,mas para isso, é preciso ajudá-lo a sentir liberdade e prazer ao estar lendo. Existem dois fatores que contribuem para que a criança desperte o gosto pela leitura: curiosidade e exemplo. Neste sentido, o livro deveria ter a importância de uma televisão dentro do lar. Os pais deveriam ler mais para os filhos e para si próprios. A escola é o espaço privilegiado para o encontro entre o leitor e o livro em face dessa realidade concreta e desafiante, torna-se cada vez mais urgente uma nova reflexão sobre a educação e o ensino.

Palavras-chave: Literatura. Contos de Fadas.Educação Infantil.

Abstract

Recognizing the importance of children's literature and encourage the formation of the habit of reading at the age where all habits are formed, ie, in childhood, is proposed in this work, emphasizing the literary genre of fairy tales. In the educational context, we know the importance of play activities have to the development of the child. Are frequent studies showing the need and the benefits that games, games and children's literature have to expand the imagination of the student / reader. Children's literature is considered a powerful tool for learning contents and behaviors socially valued because it allows children to experience situations and problems, and so can interact and overcome difficult situations considered. Children's literature serves as the object of forming the minds of children, in order to reaffirm the values ​​and standards that would ensure the formation of passive and obedient subjects. Early on, we need to form a reader who has the full involvement with what they read, but for that, you need to help you feel free and happy to be reading. There are two factors that contribute to the child awaken a taste for reading: curiosity and example. Accordingly, the book should have the significance of a television within the household. Should parents read more to their children and for themselves. The school is the privileged place for the encounter between the reader and the book in the face of this reality and challenging, it becomes increasingly urgent new thinking about education and teaching.

Keywords: Literature. Fairy Tales. Educat

As histórias e os contos de fadas trazem a rotina escolar uma atividade insubstituível repleta de expressão, fantasia e anseios, ajudando a criança a lidar com determinadas questões mentais inquietantes a seu ponto de vista. Em outro aspecto, no contexto escolar as historias são fonte de aprendizagem e desenvolvimento.

É evidente que a literatura infantil serve para reforçar os laços de desenvolvimento e descobertas da criança. Elas aprendem desde cedo, que a linguagem dos livros tem as suas próprias convenções, e que as palavras podem criar mundos imaginários para além do aqui e agora.

As histórias infantis irão desenvolver a linguagem das crianças, cativando-as pelo prazer de ouvir o outro, pela entonação e sonoridade da voz do narrador, pela ampliação do vocabulário, medindo a compreensão de conceito necessário ao reconhecimento da importância e valorização da cultura escrita nos diferentes portadores e suportes de textos.

A escolha deste tema se deve a abrangência e possibilidades que a literatura propicia, não sendo algo meramente simples, uma ferramenta que contribuirá apenas para distrair a criança; uma terapia que se ministra quando necessário, mas um caminho de infinita possibilidade para a descoberta de si própria e do mundo.

Os objetivos consistem em verificar quais estratégias de leitura são utilizados pelos professores; identificar, o quanto à literatura infantil contribui para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança; analisar os resultados que traz a literatura para o desenvolvimento da linguagem e criatividade.

A literatura infantil tem como ferramenta fundamental, despertar na criança o habito saudável de se ouvir histórias, pois é nesta fase que se tornam prováveis leitores. E com isso se garante não apenas possíveis leitores, mas o que se evidencia são os caminhos infindáveis que o simples ato de ler nos oferece.

As historias contribuem para que a criança entre em contato com diversos modos de ver e sentir o mundo e com o “contar historias” é que se lida com os aspectos emocionais, socioculturais, históricos, linguísticos e literários.

O simples fato de se ouvir historia já coloca a criança em contato com a linguagem oral e a linguagem escrita, pois elas oferecem um amplo leque de conhecimentos além de ser fonte de prazer e diversão, a criança aprende história, matemática, geografia, sem se dar conta de que esta aprendendo vários conteúdos pedagógicos. Não considerando este ato em um simples passatempo lúdico.

A criança permite o envolver, e mesmo que isso aconteça sem que se julgue sua própria realidade, ela torna-se parte da realidade porque a lógica abstrata do mundo não foi compreendida pela criança que ainda não faz paralelos entre o real e o imaginário, esta é a razão que elas encontram para buscar na linguagem imaginaria a busca de explicações para seus conflitos humanos.

Ao se identificar com os contos de fadas a criança passa a querer ouvi-la incontáveis vezes, por sentir que naquela personagem algo semelhante ao que vive ou sente no momento.

As historias precisam trazer temas que abordem sobre a morte, laços familiares desfeitos, política e que falem sobre o crescimento amadurecimento da criança e outros conflitos que povoem seu imaginário, podendo ser um forte aliado no auxilio do equilíbrio emocional.

A criança que é estimulada com as historias que lhe são contadas, a enfrentar seus medos, vencer suas dificuldades e, sobretudo o preparo para a vida e é com este contato primordial, que ela encontrará meios para o seu desenvolvimento afetivo e emocional, pois sua sensibilidade capta a sua realidade. 

Deve-se reconhecer o papel que a literatura exerce; espaço de ampla significação aberto as emoções, ao sonho e a imaginação, favorecendo também a construção de conceitos, como os de cultura, civilização e tempo histórico durante a infância.     

É preciso que o professor haja de maneira adequada, partilhando com os alunos suas historias pessoais, produto do espaço sociocultural em que vivem com prazer propriedade e sabedoria.

Devem-se levar as crianças historias que falem de acontecimento ou fatos próximos a suas vivencias internas e de seu cotidiano esta oportunidade de vivenciar experiências que as personagens das historias passam, e sentido na criança não como algo imediato, mas como algo que se processa aos poucos na vida do ouvinte que fará relações com a mesma. 

Afinal, não ler é acastelar-se e sentenciar a si próprio a solidão diante das experiências vividas por aqueles que deixaram suas memórias registradas, como um desenho rupestre que atravessa gerações. Ler, ouvir histórias é um gesto de libertação, é estar em vários lugares ao mesmo tempo, sentir o que o outro sente, antecipar outros mundos que não existem, é fazer castelos e deixar que o mar os leve, este é o jeito mais simples de fazer perguntas, de rir, de alimentar a alma.

Por isso se deve despertar nas crianças o desejo, o gosto pelas histórias, para fazer delas adultos leitores, críticos e inseridos no contexto social e histórico. A literatura abre todas as comportas para os conhecimentos é um rio que se entregará depois de muito percorrer ao mar.

Os contos de fadas não se restringem apenas em meros apanhados de informação ou reprodução de lendas e contos de uma determinada época, mas um valioso instrumento a matéria prima para o enriquecimento das vivências emocionais e do âmbito escolar, considerando que o universo particular de uma criança é repleto de significação.

Isto mostra que ela não se desvincula de seu mundo mágico mesmo que já tenha formado seu pensamento lógico, conservam seu mundo particular como escapismo as reações e incompreensões dos adultos.

Pode-se considerar este momento oportuno para a introdução da criança não apenas no contexto literário, mas em todas as formas de representação da cultura e da arte.

A questão está em oferecer as crianças histórias apropriadas, que se adéquem as suas necessidades que correspondam a todas as suas expectativas sendo um ato de libertação, mostrando a elas que uma vida de realizações e boa está ao alcance de todos, basta não esmorecer diante das divergências que lhe são apresentadas, pois sua identidade apenas será adquirida verdadeiramente vivenciando as adversidades.

Embora a literatura infantil tenha surgido no século XVIII, foi somente no século XIX que, relativizando, ainda que de maneira incipiente, o flagrante pacto com as instituições envolvidas com a educação da criança, ela define com maior segurança os tipos de livros que mais agradam aos pequenos leitores, determinando suas principais linhas de ação: histórias fantásticas, de aventuras e que retratem o cotidiano infantil Zilberman (1984).

Descoberto e valorizado esse interesse, o gênero ganha consistência e um perfil definido por meio do trabalho dos autores da segunda metade do século XIX, garantindo sua continuidade e atração.

É nesse contexto que a vertente brasileira do gênero emerge. Embora os livros para crianças comecem a ser publicados no Brasil em 1808 com a implantação da Imprensa Régia, a literatura infantil brasileira nasce apenas no final do século XIX.

Mesmo nesse momento, a circulação de livros infantis no país é precária e irregular, representada principalmente por edições portuguesas que só aos poucos passam a coexistir com as tentativas pioneiras e esporádicas de traduções nacionais.

Enquanto sistema (de textos e autores postos em circulação junto ao público), a literatura destinada ao jovem público brasileiro se consolida somente nos arredores da Proclamação da República. Esse processo não é gratuito: no final do século XIX, vários elementos convergem para formar a imagem do Brasil como um país em processo de modernização, entre os quais se destacam a extinção do trabalho escravo, o crescimento e a diversificação da população urbana e a incorporação progressiva de levas de imigrantes à paisagem da cidade.

Visto que essas massas urbanas começam a configurar a existência de um virtual público consumidor de produtos culturais, o saber obtido por meio da leitura passa a deter grande importância no emergente modelo social que se impõe, fazendo com que a escola exerça um papel fundamental para a transformação de uma sociedade rural em urbana Zilberman (1984).

Como elementos auxiliares nesse processo, os livros infantis e escolares são dois gêneros que saem fortalecidos das várias campanhas de alfabetização deflagradas e lideradas, nessa época, por intelectuais, políticos e educadores, abrindo espaço, nas letras brasileiras, para um tipo de produção didática e literária dirigida especificamente ao público infantil.

Aberto esse campo, começa a despontar a preocupação generalizada com a carência de material de leitura adequado às crianças do país as quais contavam apenas com adaptações e traduções dos clássicos infantis europeus que, muitas vezes, circulavam em edições portuguesas cujo código lingüístico se distanciava bastante da língua materna dos leitores brasileiros. Em função da necessidade do abrasileiramento dos textos, aumentando sua penetração junto às crianças, o início da literatura infantil brasileira fica marcado pelo transplante de temas e textos europeus adaptados à linguagem brasileira.

Uma vez que a escola é um ambiente privilegiado para a difusão desses textos, na medida em que nela se encontram os leitores-consumidores visados pelo projeto de alfabetização, a disponibilidade do mercado para o consumo por ela evidenciada justifica a repetição de fórmulas e a ênfase na missão formadora e patriótica dessa literatura para crianças Zilberman (1984)

Transformando o movimento de nacionalização em nacionalismo, a literatura lança mão, para a arregimentação de seu público, do culto cívico e do patriotismo como pretexto legitimador, conceitos que se manifestam por meio da exaltação da natureza, da grandeza nacional, dos vultos e episódios históricos e do culto à língua pátria.

Nesse sentido, se por um lado a preocupação com o destinatário infantil motivou a adaptação que fez esses textos afastarem-se dos padrões europeus; por outro, o compromisso escolar e ideologicamente conservador atribuiu a essa literatura a função de modelo.

Embora o autor de O Sítio do Pica Pau Amarelo seja a grande referência da literatura infantil brasileira, há quem tenha pavimentado o caminho antes que Monteiro pisasse Matheus Moura.

Assim, antes de pensar na história da literatura infantil brasileira é preciso regressar alguns anos no passado para que possamos contextualizá-la. Isso é necessário porque não só a história da literatura infantil nacional, mas também a história da literatura brasileira como um todo é bastante recente.

Dentre os gêneros literários, aquele que contempla o público infantil originou-se, na verdade, das obras escritas para adultos. Algumas dessas obras possuíam um teor fantasioso que logo chamou a atenção do público mirim. O pendor de despertar a imaginação infantil através de leituras adultas não se deu por acaso: se nos dias de hoje, com as puberdades prematuras aparecendo por toda parte, o universo infantil é tão preservado quanto possível, na Europa do século XVIII as crianças eram vistos como adultos em miniatura, tendo participação efetiva na vida dos mais velhos. Dessa forma, em se tratando de leituras, tanto as crianças quanto os adultos compartilhavam de um só cálice Zilberman (1984).

Século XVIII a ideia de infância não passa de um fenômeno histórico. Embora o pensamento contemporâneo diferencie o mundo das crianças do dos adultos, nem sempre foi assim. Até o século XVIII, boa parte dos países do mundo não possuía mecanismos que protegessem as crianças de maus-tratos e esse foi um dos fatores para que o conceito de infância não existisse de forma claramente delimitada. Crianças eram tratadas como adultos, vestiam-se como eles e a fase da puberdade e adolescência era “pulada”, passando-se diretamente à vida adulta. Não havia proibição para o trabalho infantil e estudar numa instituição própria para este fim era um luxo.

Essa visão passou a mudar e exigiu-se uma reavaliação dos conceitos pedagógicos, o que fez com que a educação fosse dividida através de escalas. No Brasil não foi diferente. Com a chegada da Família Real, em 1808 , introduziu-se a imprensa nacional e com ela teve início o desenvolvimento dos primeiros impressos em terras tupiniquins. Surgia, assim, a Imprensa Régia, uma das providências para modernizar a colônia, que agora tinha status de sede real. Também foram abertas escolas, como as Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, fundadas por D. João Zilberman (1984)

Brasil e as mudanças na não mais colônia continuaram com força ainda maior. Criado o Império do Brasil, evoluções de caráter educacional, político e social foram executadas: em 1824 é criada a Constituição do Império; as cidades crescem e nelas se instalam as primeiras indústrias. Mas a modernização não poderia ser completa sem que a área educacional fosse incentivada, uma vez que eram necessárias pessoas qualificadas para aquela nova fase.

Em 1822 deu-se a Independência do Brasil e as mudanças na não mais colônia continuaram com força ainda maior. Criado o Império do Brasil, evoluções de caráter educacional, político e social foram executadas: em 1824 é criada a Constituição do Império; as cidades crescem e nelas se instalam as primeiras indústrias. Mas a modernização não poderia ser completa sem que a área educacional fosse incentivada, uma vez que eram necessárias pessoas qualificadas para aquela nova fase.

A renovação da literatura infantil brasileira, que ocorre especialmente nos anos de 1970, na trilha de Lobato, vai se consolidando, nas décadas seguintes, com um projeto estético que valoriza o diálogo entre texto, ilustração e aspectos gráficos, num processo de co-autoria.

As narrativas se caracterizam pela presença do humor e da irreverência, da aventura, do suspense e da temática do cotidiano. Há um aprofundamento estético no texto literário, seja na construção da voz narrativa que procura estabelecer pontes entre a perspectiva do adulto e a da criança; manifesta-se também nas obras um apelo à imaginação e um incentivo à construção de um leitor crítico.

A poesia infantil também se insere neste cenário, ganhando, depois de Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles, Sidônio Muralha; Vinícius de Moraes, dimensões significativas, com o aparecimento de vários poetas e obras, seja na forma do poema, da prosa poética, ou da narrativa em versos, muitas vezes em ritmos populares como o cordel Zilberman (1984).

No capítulo “Industrial cultural e renovação literária”, do livro Literatura infantil brasileira: história e histórias, Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1984) apresentam os escritores e as tendências atuais, considerando como atual a década de 1980, e a expansão da literatura infantil após os anos 60 e 70. As tendências apresentadas pelas autoras incluem: 1) a crítica da sociedade brasileira principalmente através da miséria e do sofrimento infantil, numa representação realista do contexto social – o Justino, o retirante (1970), de Odette Barros Mott, Pivete (1977), de Henry Correia de Araújo, O menino e o pinto do menino (1975), de Wander Piroli, O dia de ver meu pai (1977), de Vivina de Assis Viana, características literárias presentes em toda a Coleção do Pinto, lançada em 1975. 2) A imagem exemplar da criança obediente e passiva é suplantada pela criança capaz de rebeldia, de ruptura com a normatização do mundo dos adultos na busca da liberdade de expressão e pensamento.

Essa é uma forte tendência dos anos 70/80 especialmente com as histórias de Ruth Rocha e Ana Maria Machado. A valorização da criatividade e da capacidade infantil de inventar, imaginar novas realidades, deslocar as verdades cristalizadas ou estereotipadas (Marcelo, marmelo, martelo, Ruth Rocha, O menino maluquinho, Ziraldo e tantos outros.) 3) A ruptura da normatividade, o incentivo a criatividade, a liberdade e a autonomia de pensamento representaram a expressão estética mais significativa da literatura infantil à época.

A normatividade adulta é suplantada por uma outra lógica, que estabelece uma nova ordem social, regulada pela desconstrução, pela utopia, pela liberdade de ação e pela inventividade. Dessa forma o narrador adulto coloca-se na pele da criança, tentando reduzir a distância entre o narrado e a experiência vivida pelas personagens e pelos leitores. 4) Outra tendência presente nos anos 70/80 é a proliferação de alguns gêneros e temas, como a ficção científica e a narrativa de suspense, basta lembrar as obras de Stella Carr e João Carlos Marinho. 5) A valorização dos aspectos gráficos já aparece como uma tendência em destaque nos anos 70/80. 6) Delineia-se, também, nesse período, o auto-referenciamento do discurso literário no livro infantil, com procedimentos narrativos de metalinguagem e intertextualidade.

Essa breve retomada dos anos 70/80, tem como objetivo balizar a reflexão sobre a produção mais contemporânea, publicada nessa primeira década do século XXI.

No panorama atual, um levantamento da produção literária para crianças aponta para uma retomada dos clássicos universais, dos clássicos brasileiros, dos contos de fadas, de histórias exemplares, de narrativas das mitologias grega, africana, indígena, entre outras.

Além da publicação em nova edição, bem cuidada, com os avanços dos recursos disponíveis nas artes gráficas, há também a revisitação dessas antigas histórias numa direção da paródia ou da desconstrução pelo humor ou pela crítica dos valores ou paradigmas sociais. Essas formas e temas literários revitalizados trazem como marca estética a presença de dados da contemporaneidade na caracterização do tempo, do espaço e dos conflitos (VIANA, 1977).

Com novas configurações, essa tendência parece sobreviver aos anos e continuar mobilizando criativamente os escritores. Com isso também, se podemos dizer que há os protótipos criativos, com uma estética inovadora, há também os estereótipos que apenas multiplicam os títulos nos catálogos editoriais, mas nada acrescentam no contexto da literatura infantil.

As narrativas apresentam também temas voltados para as relações interpessoais, para os enfrentamentos e descobertas da criança, além de um gosto pela memória, pelo passado, especialmente pelas memórias nostálgicas dos adultos sobre a infância, sobre o núcleo familiar.

 Por outro lado, se as relações interpessoais e os enfrentamentos das crianças e jovens no cotidiano continuam a ser tematizados pelas obras, desaparece, ou fica fora do foco de luz principal, a narrativa pautada na rebeldia infantil, ou na transgressão das crianças da norma adulta imposta como autoridade constituída. Parece um veio já bastante explorado e com sucesso que se esgotou.

As obras têm procurado estabelecer uma ponte de diálogo entre a voz do adulto e a voz da criança, tornando mais maleável a condição de normatividade que não se fixa nem num pólo nem no outro, mas no diálogo e na compreensão mútuas. Nesse sentido, o caminho narrativo que se manifesta mais intensamente é o da simbolização, da valorização poética como caminhos para a humanização das relações interpessoais(VIANA, 1977).

As obras de cunho realista, a crítica da sociedade brasileira principalmente através da miséria e do sofrimento infantil, numa representação realista do contexto social, essa tendência desaparece na atualidade, ou pelo menos, não se manifesta como um conjunto de obras e autores, como ocorreu na década de 1970 e 1980 com as obras de Odett Barros Mott ou os livros da Coleção do Pinto. Basta observar o livro Um garoto chamado Roberto, de Gabriel o pensador, vencedor do Jabuti, em 2006, no qual se o ambiente é de pobreza e dificuldades, o que prevalece é alegria e a esperança na superação da situação social de exclusão, muito diferente da dicção literária dos livros da Coleção do Pinto.

Exemplifica-se essas transformações históricas do gênero em três obras que tratam do tema da separação de pais, ou da perda da mãe que é substituída pela madrasta: O dia de ver meu pai (1977), de Vivina de Assis Viana, A coleção de bruxas de meu pai (1995), de Rosa Amanda Strausz, e O jogo de amarelinha, de Graziela Bozano, que recebeu o prêmio de O melhor para criança, da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), em 2007;em O dia de ver meu pai, a personagem expressa ao longo de toda a narrativa, o sentimento de tristeza, de abandono, de incompreensão.

O texto é muito realista, duro nas imagens, como no trecho: “O problema é que, às vezes, as pessoas mentem. Mesmo as que a gente tem certeza de que gostam da gente. Minha mãe, por exemplo. Ela mente para mim” (VIANA, 1977, p.7). A personagem chora muito, fica em silêncio, “olha as grades das janelas dos apartamentos”, e a narrativa conclui-se de modo pessimista e sem saída, “Quem, no mundo, seria capaz de completar, para mim, as frases incompletas de meu pai e de minha mãe?” (p.33).

Em a Coleção de bruxas de meu pai o conflito de aceitar a separação dos pais é também o tema gerador, mas as soluções narrativas são pela via do humor, aliado à capacidade de inventar, de criar novas circunstâncias. O mesmo ocorre em Mamãe trouxe um lobo para casa, também de Rosa Amanda Strausz. As divertidas histórias que intertextualizam o conto de fadas mergulham no universo das relações familiares contemporâneas, com novos padrões de comportamento, e possibilitam alternativas positivas para o cotidiano das personagens, numa trama em que as emoções explodem no riso.

Em O jogo de amarelinha, de 2007, o enredo desenvolve-se em torno de um tema análogo – a morte da mãe e a aceitação da madrasta. A tristeza da perda da mãe está presente na narrativa, a saudade, a não aceitação da morte da mãe e, menos ainda, da presença da madrasta.

Poeticamente, por meio do conhecido jogo de amarelinha, a possibilidade de diálogo entre a menina e a madrasta vai sendo construída. Trata-se de um texto altamente imagético e metafórico, como é próprio da poesia: A menina caminha dura ao lado da madrasta, a mão pendendo frouxa do seu braço.

Caminham mudas, nada têm a dizer. De repente, um açude. No virar da curva, antes da memória, o olhar de Letícia encontra seu espelho verde, sereno. E Clara volta, está lá, não está em céu nenhum, sua risada ecoa no açude e o peito de Letícia lateja de dor. (HETZEL, 2007, p.11)

A narrativa se desenrola neste processo de expurgo e simbolização da dor da perda da mãe e na atenção e presença da madrasta na tentativa do diálogo e da aceitação. No final, há uma saída, há manifestação de alegria renovada e prazer diante da vida. A grande marca do texto é a presença da linguagem poética nesse processo de simbolização.

A forte presença de imagens poéticas na narrativa, aliada aos processos de simbolização, constitui uma expressão artística recorrente na contemporaneidade, amplamente valorizada pela crítica. Como o livro O jogo de amarelinha, outras obras, também premiadas, se inserem na perspectiva da fusão da poesia e do jogo na construção da narrativa. João por um fio (2005), de Roger Mello, mesmo o mais recente, Zubair e os labirinto (2007). Ou ainda Lampião e Lancelote (2006), de Fernando Vilela. Entre outros. No caminho aberto por Ziraldo, a tendência mais forte da literatura infantil na atualidade manifesta-se no cruzamento de várias linguagens, vários códigos, vários gêneros textuais.

Exemplifica-se com duas obras: Felpo Filva, de Eva Furnari, publicada em 2006, e A caligrafia de Dona Sofia, de André Neves, publicado em 2007. Todos que acompanharam a produção de Eva Furnari, não podem esquecer da Bruxinha Atrapalhada e das outras bruxinhas, do humor dos desenhos e dos textos. Com Felpo Filva, a autora demonstra total domínio da narrativa, dos recursos estilísticos dos vários gêneros textuais, dos gêneros do discurso, numa história de superação de bloqueios, medos, e da busca da alegria e do amor.

O texto originalíssimo faz uma paródia dos hipertextos, desconstruindo o estabelecido e promovendo uma ressignificação de paradigmas num novo contexto. Até mesmo o glossário ao final que poderia ter uma função didática, marcado pela normatividade da regra é desconstruído no livro de Eva Furnari, transformando-se em narrativa também.

Outra obra que manifesta a presença de várias linguagens, vários gêneros textuais, mistura dos gêneros literários, numa ilustração maravilhosa é A caligrafia de Dona Sofia, de André Neves. O texto narrativo vem amalgamado a poemas, cartas, receitas, glossário entre outros gêneros discursivos. Espaço verdadeiramente plural, sem falar numa desconstrução das funções habituais dos espaços e da função dos discursos – parede de casa que serve para escrever poemas, cartas que não esperam respostas, som que vira percurso, versos que abrem caminhos, o lugar do texto, dos hipertextos, das ilustrados se sobrepõem, se misturam e o diálogo juntando todos esses elementos num todo coerente.

 Os poemas para adultos, alguns de poetas clássicos, passam a ocupar um novo espaço, o espaço do livro infantil, e passam a falar para um outro interlocutor, nas pontes criadas pela narrativa da Dona Sofia, pelo universo infantil de quem aprende a escrever, a caligrafia.

Toda essa multiplicidade de linguagens presente na obra e o diálogo que estabelece com o leitor, desestabiliza a tentativa de conceituar a literatura infantil.

 É interessante observar que os dois exemplos apresentados são de autores cuja formação e trajetória na literatura infantil se deu pela via da ilustração. Eva Furnari e André Neves destacam-se, inicialmente, no cenário da literatura infantil, como ilustradores, assumindo, posteriormente, o lugar de escritores.

Por outro lado, a aposta do mercado editorial num projeto gráfico e numa ilustração de qualidade transforma esse produto cultural que é a literatura infantil, dá a ela novas configurações e novas dimensões.

Coelho (2003), em seu livro Os Contos de Fadas mostra alguns autores como Charles Perrault, La Fontaine Jean de La Fontaine e os irmãos Grimm que contribuíram de forma bastante significativa para a recriação dos contos de fadas como literatura infantil Perrault (1628-1703) foi um dos mais importantes escritores de histórias de contos de fadas e fábulas porque não só recolheu as narrativas e as reescreveu, mas também teve a preocupação de apresentá-las como literatura para crianças, por exemplo: os contos da mãe ganso, o pequeno polegar, a bela adormecida, o gato de botas e outros.

Coelho (1991), mostra que Perrault sentia-se atraído pelos relatos maravilhosos guardados pela memória do povo e se dispôs a redescobri-los. Com esse trabalho de exegese e obviamente ignorando o alcance que teria, Perralt cria o primeiro núcleo da literatura infantil ocidental: Histórias ou contos do tempo passado com suas moralidades.

Coelho explica que não se sabe a verdadeira intenção de Perrault, ao realizar esse trabalho de redescoberta e recriação dos contos, pois o próprio autor não as esclareceu. Sendo assim, para que se possa compreender o surgimento desses contos é muito importante nos situarmos no momento histórico em que vivia o autor, a França do século XVII estava passando por um esplêndido momento de progresso e transformações político-sociais, portanto tornou-se o cenário ideal para que Perrault escrevesse os contos, que foram escritos em forma de versos. São eles: A Bela Adormecida no Bosque; Chapeuzinho Vermelho; O Barba Azul; O Gato de Botas; As Fadas; Cinderela ou A gata Borralheira; Henrique do Topete e O Pequeno Polegar.Jean de La Fontaine, de acordo com Coelho (1991), surgiu na mesma época de Perrault e era também intelectual e escritor e tinha grande prestígio na corte francesa, ele se dedicou ao resgate de antigas historietas moralistas, guardadas pela memória popular: as fábulas que são narrativas breves, tal como apólogo e a parábola, visam dar lição aos homens. Seus personagens são animais falantes que se comportam como humanos.

Nas fábulas, as situações narradas denunciam sempre erros de comportamento, que resultam na exploração do homem pelo homem que procurou muitas fontes documentais na antiguidade, na Grécia as Fábulas de Esopo, em Roma as Fábulas de Fedro, também consultou as parábolas bíblicas, coletâneas orientais e narrativas medievais ou renascentistas. Esse autor, durante vinte e cinco anos, trabalhou na busca e no cotejo desses textos antigos e os reelaborou em versos dando-lhes uma forma literária definitiva, conhecidas como as Fábulas de La Fontaine que, há séculos, vêm servindo de fonte para mil e uma adaptações que se espalham pelo mundo até hoje.

Muitos contemporâneos deram testemunhos sobre suas fábulas e afirmavam que eram textos cifrados que denunciavam as intrigas, os desequilíbrios e muitas vezes as injustiças que acontecia na vida da corte ou entre o povo. Algumas de suas fábulas são: O lobo e o Cordeiro; O Leão e o Rato; A Cigarra e a Formiga; A Raposa e as Uvas etc. Assim, é possível perceber que os contos de fadas são histórias muito atuais, porque todas elas são alimentadas de sabedoria prática que não envelhece, pois se fundamenta na natureza humana, nos sentimentos, medos, angústias, esperanças,alegrias e esses aspectos continuam os mesmos, independente do século.

Perrault contribuiu para o reconhecimento dos contos de fadas como literatura infantil, porém, somente após um século na Alemanha no século XVII, com as pesquisas realizadas pelos irmãos Grimm (JACOB, 1863 e WILHELM, 1859), ela foi definitivamente construída e se desenvolveu pela Europa e pelas Américas. Os irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, de acordo com Coelho, eram folcloristas alemães, filólogos, estudiosos da mitologia germânica e catalogaram dezenas de histórias orais, boa parte delas também utilizada como leitura para crianças.

A Literatura infantil na Alemanha no século XVII teve um grande avanço com as pesquisas realizadas pelos irmãos Grimm (JACOB, 1863 e WILHELM, 1859), ela foi definitivamente construída e se desenvolveu pela Europa e pelas Américas.

Jacob e Wilhelm realizaram importantes pesquisas no campo da tradição popular, deixando um rico acervo de histórias, lendas, anedotas, superstições e fábulas da Germânia, preservado graças a sua iniciativa. Eles percorreram a Alemanha registrando as narrativas populares que recolhiam de pessoas humildes, muitas vezes analfabetas: comadres de aldeia, velhos camponeses, pastores, barqueiros, músicos, e cantores ambulantes.Tudo isso acontecia nos primeiros anos do século XIX, quando os velhos costumes pouco tinham mudado e as antigas tradições conservavam ainda toda sua força.

Os irmãos Grimm foram precursores da ciência folclore, reunindo tradições culturais populares, dos mais variados grupos. Eles empenharam-se na elaboração de uma obra patriótica, não apenas recuperando e imortalizando os relatos conhecidos por todos nós como contos de fadas, como também iniciando o Grande Dicionário Alemão, cujo primeiro volume saiu em 1854.

Seu trabalho ganhou proporções que romperam a esfera nacional de importante documento das tradições populares alemãs para espalhar-se pelo mundo, sendo traduzido e imortalizado entre crianças, jovens e adultos que contam e recontam as histórias por eles escolhidas. Hans Christian Andersen (1875), no século XIX, prosseguiu essa tarefa e também escreveu suas próprias histórias como “A sereiazinha”. Coelho enfatiza que:Os Contos de Andersen, resgatados do folclore nórdico ou inventados, mostram à saciedade as injustiças que estão na base da sociedade, mas, ao mesmo tempo, oferecem o caminho para neutraliza-las: a fé religiosa. Como bom cristão Andersen sugere a piedade e a resignação, para que o céu seja alcançado na eternidade (COELHO, 2003, p. 25)

E acrescenta: Andersen passou à história como a primeira voz autenticamente romântica a contar histórias para as crianças e a sugerir-lhes padrões de comportamento a serem adotados pela nova sociedade que naquele momento se organizavam (COELHO, 2003, p. 25).

Os irmãos Grimm e Andersen procuraram valorizar outros sentimentos que não fossem violentos, porque eles achavam que mais importante que a punição violenta era destacar, por exemplo, o bom caráter da princesa, ou a esperteza do fraco sendo mais eficiente que a força bruta do vilão. Foi desse modo ameno e romantizado que os contos de fadas chegaram aos dias atuais. Numa viagem através dos textos (muitos dos quais nasceram no século antes de Cristo), é possível descobrir as sábias e místicas regiões da Índia ou do misterioso Egito, assim como a bíblica Palestina do velho testamento e a Grécia clássica, para descobrimos as migrações narrativas realizadas na Pérsia.

Por exemplo, nos primeiros contos, a punição da bruxa era ser queimada na fogueira ou estraçalhada por cavalos bravos. Na Idade Média havia guerras constantes e brutais e por isso é até compreensível essa violência que eram contadas nos contos de fadas.

Já na Idade Média, é possível perceber que todo esse lastro pagão, funde-se ou deixa-se absorver pela nova visão de mundo gerada pelo espiritualismo cristão e, transformado, chega ao Renascimento. Com a passagem da era clássica para a romântica, grande parte dessa antiga literatura destinada aos adultos é incorporada pela tradição oral popular e transformada em literatura para crianças.

A literatura é, sem dúvida, uma das expressões mais significativas do desejo permanente do ser humano de saber e de domínio sobre a vida, que caracteriza o homem de todas as épocas. Ânsia que permanece latente nas narrativas populares legadas pelo passado remoto. Fábulas, apólogos, parábolas, contos exemplares, mitos, lendas, sagas, contos jocosos, romances, contos maravilhosos, e os contos de fadas etc. Portanto, todos esses autores contribuíram de uma forma muito significativa para que houvesse uma ressignificação dos contos de fadas, visto que muitas dessas histórias eram extremamente violentas.

Todas essas formas de contar histórias pertencem às narrativas nascidas entre os povos da Antiguidade que, fundidas, confundidas, transformadas se espalham por toda parte e permanecem até hoje como uma rede, cobrindo todas as regiões do globo. No seu livro O conto de fadas o professor Coelho traz uma definição muito importante sobre a história e seu principal objetivo: Histórias são narrações de acontecimentos ou situações significativas para o conhecimento da evolução dos tempos, culturas, civilizações, nações etc. Não é mera exposição de fatos, mas resulta de uma indagação inteligente e critica dos fenômenos que tem por fim o conhecimento da verdade. (COELHO, 1991, p. 85)

Diante desses aspectos, é possível perceber o imenso papel das histórias na formação dos indivíduos e nesse universo narrativo algumas formas de literatura se destacaram devido a grande divulgação, ao longo dos séculos. Entre elas estão os contos de fadas, que estão presentes em todos os lugares e tem várias denominações.

Na França é conhecido como conte de fées; na Inglaterra, fairy tale; na Espanha, cuente de hadas; na Itália, raccontodi fata; na Alemanha, marchen. Povos da Antiguidade que, fundidas, confundidas, transformadas se espalham por toda parte e permanecem até hoje como uma rede, cobrindo todas as regiões do globo.

O primeiro contato da criança com um texto é realizado oralmente, o pai, a mãe, os avós ou outra pessoa conta-lhe os mais diversos tipos de histórias. A preferida, nesta fase, e a história da sua vida. A criança adora ouvir como ela nasceu, ou fatos que aconteceram com ela ou com pessoas da sua família. À medida que cresce já é capaz de escolher a história que quer ouvir, ou a parte da história que mais lhe agrada. É nesta fase, que as histórias vão tornando-se aos poucos mais extensas, mais detalhadas.

A criança passa a interagir com as histórias, acrescentam detalhes, personagens ou lembra-se de fatos que passaram despercebidos pelo contador.

Outro fato relevante e o vínculo afetivo que se estabelece entre o contador das histórias e a criança. Contar e ouvir uma história aconchegada a quem se ama e compartilhar uma experiência gostosa, na descoberta do mundo das histórias e dos livros. Depois, passam a se interessar por histórias inventadas e pelas histórias dos livros, como: contos de fadas ou contos maravilhosos, poemas, ficção, etc. tem nesta perspectiva, a possibilidade de envolver o verdadeiro e o imaginário que Eduardo Sandroni e Machado (1998, p.15) afirmam "os livros aumentam o muito prazer de imaginar coisas. A partir de histórias simples, uma criança começa a reconhecer e interpretar sua experiência da vida real ".

Garantir a riqueza da vivência narrativa desde os primeiros anos de vida da criança contribui para o desenvolvimento faz seu pensamento lógico e autonomia de sua imaginação, que segundo Vigotsky (1992, p.128) caminham juntos: "a imaginação é um momento totalmente necessário, inseparável fazer Pensamento Realista”.

Neste sentido, o autor enfoca que na imaginação a direção da consciência tende a se afastar da realidade. Esse distanciamento da realidade através de uma história, por exemplo, é essencial para uma penetração mais profunda na própria realidade: "afastamento foca aspecto externo aparente da realidade, dada imediatamente na percepção primária, possibilita processos cada vez mais complexos, com a ajuda dos quais uma cognição da realidade se complica e se enriquece”. (VYGOTSKY, 1992, p.129)

O contato da criança com o livro pode acontecer muito antes que os adultos imaginam. Muitos pais acreditam que a criança que não sabe ler não se interessa por livros, portanto não precisa ter contato com livros. O que se percebe é bem ao contrario. Segundo Sandroni e Machado (2000, p.12) "a criança percebe muito cedo, que livro é uma coisa boa, que dá prazer". Como crianças bem pequenas interessam-se pelos núcleos, formas e figuras que os livros possuem, que mais tarde, darão significados a elas, identificando-as e nomeando-as.

É importante que o livro seja tocado pela criança, folheado, de forma que ela tenha um contato mais íntimo com o objeto. A partir dai, ela começa a gostar dos livros, percebe que eles fazem parte de um mundo fascinante, onde a fantasia apresenta-se por meio de palavras de e desenhos.

Sandroni e Machado (1998, p.16) "o amor pelos livros: não é coisa que apareça de repente". É preciso ajudar a criança a descobrir o que eles podem oferecer. Assim, pais e professores tem um papel fundamental nesta descoberta: serem estimuladores e incentivadores da leitura.

Infelizmente, muitos pais desejam ver seus filhos com a cabeça funcionando racionalmente como a deles, e acreditam que a sua maturidade depende exclusivamente do ensinamento oferecido pela maioria das escolas que, via de regra, em nossa sociedade moderna, pouco fazem além de repassar um conteúdo pedagógico desprovido de maiores significados para a vida.

Esquecem-se de explorados sentimentos como integrante fundamental da formação do caráter e, ainda que bem alfabetizem, algumas escolas desconsideram os contos de fadas como se esses só gerassem confusões quanto aos conceitos sólidos de realidade que devem ser ensinados às crianças.

A sabedoria, afinal, não é coisa que nasça pronta como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada, pulou fora da cabeça de Zeus; é, antes, algo delicado, que se constrói desde os tenros anos da infância e que passa necessariamente por um estágio de extraordinário potencial, o qual só se desdobrará convenientemente num bem explorado e maduro psiquismo. Obrigatoriamente, isso leva à necessidade de lidar com os sentimentos (ZILBERMAN, 1985).

O mundo interior, desconhecido pela consciência intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda metade de nós mesmos, e sua assimilação é imprescindível para todo aquele que deseje conhecer-se melhor ou que esteja buscando respostas honestas para os enigmas da existência.

Nesse particular, os contos de fadas cumprem relevante papel: eles são uma expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico profundo. De estruturas mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo muito mais rico do que o teor moral encontrado na maioria das fábulas, são os contos de fadas a fórmula mágica capaz de envolver a atenção das crianças e despertar-lhes sentimentos e valores intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto (ZILBERMAN, 1985).

Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança.

Nesse processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre de acordo com seu momento de vida. Elas extraem das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para ser aí aplicado.

Oportunamente pedem que seus pais lhe contem de novo esta ou aquela história, quando revivem sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme suas necessidades do momento.

Os contos de fadas nos impressionam, porque sempre foram populares como tradição oral, mas, antes, porque suas histórias são instigantes. Não há como alcançar completamente seu sentido em termos puramente intelectuais, fato que nos desperta a percepção intuitiva. A fantasia irracional a ponto de permitir que a Vovó, engolida pelo Lobo Mau, permaneça viva em sua barriga até ser salva; que Bela Adormecida durma enfeitiçada um sono de cem anos; e que João suba num pé de feijão até alcançar no céu o castelo de um gigante. Justamente pelo inverossímil que expõe, provoca uma reviravolta em nosso mundo psíquico, o qual estimula, aguça-se na tentativa de compreendê-la.E não há como explicá-la pelos padrões da razão metódica(ZILBERMAN, 1985).

A história de fadas é por si sua melhor explicação, do mesmo modo que as obras de arte encerram aspectos que fogem do alcance do intelecto, já que suscitam emoções capazes de comover os que fogem do alcance do intelecto; já que suscitam emoções capazes de comover os que diante delas se colocam. O significado desses contos está guardado na totalidade de seu conjunto, perpassado pelos fios invisíveis de sua trama narrativa.

Claro que, diante desse mistério, muitas formas de abordá-lo são possíveis e igualmente válidas, posto que acrescentam luz à sua compreensão.

Para Zilberman(1985) a literatura dirigida ao público infantil foi produzida a partir do século XVII, uma vez que antes desta data, a sociedade feudal não reconhecia que as crianças possuíam características próprias da infância. Com a queda do sistema feudal, a família tornou-se unicelular, ou seja, mais unida e privada, e a criança é tida como frágil (biologicamente), distanciada dos meios produtivos; e então, como consequência, é ser dependente do adulto, de quem precisa ajuda para agir na sociedade.

Segundo o modelo familiar burguês que surgiu na Idade Moderna, a criança passou a ser valorizada, e juntamente com as ideias para seu desenvolvimento intelectual surge a necessidade de manipulação de suas emoções. É neste contexto que a escola e a literatura aparecem para atender a essas questões. Prova disto é que os primeiros textos para as crianças são de caráter educativo.O cunho educativo é dotado de um pragmatismo que não aceita a literatura como arte, mas como atividade de dominação da criança, ou seja, de cunho exclusivamente moralista e ditadora de regras.

Essa ideia de dominação é incorporada pela escola como objetivo, uma vez que esta introduz a criança na vida adulta, mas ao mesmo tempo, protege-a contra as agressões do mundo exterior, separando-a de seu coletivo (família, sociedade) e a fazendo esquecer o que já sabe.

“O sistema de clausura coroa o processo: a escola fecha suas portas para o mundo exterior [...]. As relações da escola com a vida são, portanto, de contrariedade [...] É por omitir o social que a escola pode se converter num dos veículos mais bem sucedidos da educação burguesa; pois a partir desta ocorrência, tornou-se possível a manifestação dos ideais que regem a conduta da camada do poder, evitando o eventual questionamento que revelaria sua face mais autêntica.” (ZILBERMAN, 1985, p. 19).

As relações entre literatura e escola possuem aspectos comuns e divergentes; as duas são de natureza formativa e divergente, pois a escola busca transformar a realidade viva e sintetizá-la nas disciplinas. Nesse processo de síntese, interrompem-se os vínculos com a vida atual. Já a literatura infantil sintetiza, por meio dos recursos de ficção, uma realidade que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive cotidianamente.

O professor precisa estar consciente dessas questões e trabalhar para que a relação literatura e escola aconteça de forma harmônica. Um dos passos que precisa ser bem construído refere-se a escolha dos textos e a adequação dos mesmos ao leitor.

O mais importante que resta disso tudo é que nunca esqueçamos a lição, crianças, jovens ou adultos no mundo das fadas, todos seguimos encantados e felizes para sempre!   

Para que seja possível uma maior compreensão sobre os contos de fadas é muito importante que se faça uma análise sobre a sua origem. No livro “Os sete contos de fadas” a autora Kupstas (1993) afirma que os contos de fadas são narrativas muito antigas e que, logo no começo, não se destinavam às crianças, eram mitos difundidos por inúmeros povos, como os Hindus, os persas, os gregos e os judeus.

Essas primeiras histórias eram conhecidas como mitos e eram, na verdade, expressões narrativas de conflitos entre o homem e a natureza.

Segundo Coelho (2003), o mito perde-se nos princípios dos tempos e são narrativas que nos falam de deuses, duendes e heróis fabulosos ou de situações em que o sobrenatural domina.

Na verdade, os mitos estão sempre ligados a fenômenos inaugurais como: a criação do mundo e do homem, a explicação mágica das forças da natureza etc.

Portanto, a autora mostra que desde os primórdios da humanidade, o homem deve ter nascido com certa consciência de que, para além dele e do mundo que o rodeava, deveriam existir forças misteriosas e invisíveis que tinham poder sobre todos os fenômenos.

Ainda de acordo com Coelho (2003), essa necessidade de contar histórias surgiu quando o homem primitivo sentiu a precisão de obter explicações racionais para o mundo. Sendo assim, ele começou a buscar no mito e nas narrativas fantásticas a compreensão de algumas coisas, por exemplo: eles pensavam que os relâmpagos serão armas dos deuses, as águas seriam controladas por sereias ou determinadas árvores ou plantas teriam surgido de algum ato mágico entre outros vários mitos criados pelo homem primitivo.

Assim, podemos perceber que os contos de fadas nada mais eram do que relatos de fatos da vida de pessoas simples, recheadas de conflitos, aventuras e muitas vezes não eram indicados a serem contados para as crianças. Esses relatos apenas serviam como entretenimento e só muitos anos mais tarde com a descoberta das fadas, que eram idealização de uma mulher perfeita, linda e poderosa, a qual era dotada com poderes sobrenaturais, assim as sociedades mais antigas sentiram a necessidade a de utilizar essas histórias alienadas também à educação, já que as crianças gostavam muito desses contos e a fantasia inserida neles, estava ajudando a formar a personalidade dessas pequenas pessoas.

Os contos de fadas existem a milhares de anos e é importante para a formação e a aprendizagem das crianças. Escutar histórias contribui de forma significativa para o início da aprendizagem e para que o indivíduo seja um bom ouvinte e um bom leitor,mostrando um caminho absolutamente infinito de descobertas e de compreensão do mundo.

Assim, Coelho (2003), afirma que os contos abrem espaços para que as crianças deixem fluir o imaginário e despertem a curiosidade, que logo é respondida no decorrer dos contos.

Ao longo da sua história, o homem vem sendo seduzido pelas narrativas que, de maneira simbólica ou realista, direta ou indiretamente, relatam a vida a ser vivida ou a própria condição humana, seja relacionada aos deuses, seja limitada aos próprios homens. Portanto é possível perceber que desde os primórdios os contos de fadas encantam e reencantam.

Coelho dá uma importante contribuição no que se refere ao valor dos contos ao longo dos séculos: Os contos de fadas fazem parte desses livros eternos que os séculos não conseguem destruir e que, a cada geração, são redescobertos e voltam a encantar leitores ou ouvintes de todas as idades. (COELHO, 2004, p. 21)

De acordo com Kupstas (1993), os contos de fadas são de origem celta e surgiram como poemas que revelavam amores estranhos, fatais e eternos. Por volta do século II a.c até o século I da era cristã, o povo celta acrescentou, a tantas histórias bem antigas,a presença forte das fadas, que seriam mulheres iluminadas capazes de prever o futuro de outra pessoa, normalmente alguém especial a quem elas protegiam. Assim,a imaginação popular dotou-as de asas, varas de condão e diminuiu o seu tamanho, mas sempre as vendo como belas e bondosas.

Os contos de fadas constituíram durante toda a Idade Média e Moderna para a literatura popular das populações européias em geral. A partir do século XVII, essas narrativas foram sendo reunidas e recontadas por escritores, como Perault, La

Fontaine e os irmãos Grimm, que lhes deram um estilo mais elegante e as traduziram da tradição popular para como as conhecemos hoje

A palavra fada vem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo). As fadas fazem parte do folclore europeu ocidental (e dele emigraram para as Américas) e tornaramse conhecidas como seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações limites, quando nenhuma solução natural seria possível.

Segundo Coelho (1991), as fadas também podem encarnar o mal e apresentarem-se como o avesso da imagem anterior, isto é, como bruxas. Vulgarmente, se diz que fada e bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher ou da condição feminina.

De acordo com Coelho (2003) é impossível determinar com exatidão o ponto geográfico ou o momento temporal em que as fadas teriam nascido. Entretanto, o mais provável é que elas tenham surgido e se arraigado naquela fronteira ambígua entre o real e o imaginário, que vem, desde a origem dos tempos, atraindo os homens.

A autora afirma que têm sido grandes os esforços para descobrir o possível local de nascimento das fadas. Pacientes pesquisas de historiadores, arqueólogos, filósofos, etnólogos, cronistas ou compiladores, que através dos tempos se debruçaram sobre a literatura primitiva dos mundos oriental e ocidental, acabaram por tecer uma intricada rede de dados históricos, míticos e lendários, que pacientemente percorridos e confrontados entre si, oferecem algumas pistas plausíveis para uma possível elucidação acerca da presença das fadas na vida dos homens.

No entanto, Coelho(1991) explica que entre os pesquisadores não há dúvidas que as fadas sejam de origem celta, porque desde a mais antiga menção a tais seres, tudo leva a essa certeza; Pomponius Mela (Geógrafo que viveu no século I) afirmou que na ilha do Sena, nove virgens dotadas de poder sobrenatural, meio ondinas (gênios da água) e meio profetisas, que com suas imprecações e seus cantos, imperavam sobre o vento e sobre o Atlântico, assumiam diversas encarnações, curavam enfermos e protegiam navegantes.

Sendo assim, facilmente se comprova que as primeiras referências às fadas, como personagens ou figuras reais, aparecem na literatura cortesã-cavaleiresca surgida na Idade Média, nos País da Bretanha e nas novelas de cavalaria do ciclo arturiano,ambos de origem cético-bretã.

Coelho menciona a origem das fadas: “Enfim, o que se divulgou, durante a Idade Media até a Renascença, como peculiar ao espírito celta, levou os estudiosos a determinarem, quase com exatidão, o povo no seio do qual nasceram às fadas: o povo celta”. (COELHO, 1991, p, 33)

Através das fadas ocorreu um delírio amoroso, dando à mulher um poder que, entre os demais povos ela estava longe de ter. Em seu livro “O conto de fadas” Coelho (1991) cita Dora Van autora do livro O Mundo Real das Fadas que afirma que fadas são criaturas que pertencem aos quatro reinos elementares: ar, terra, fogo, e água.

As fadas do ar dividem-se em: sílfides ou fadas das nuvens, criaturas altamente desenvolvidas, que vivem nas nuvens e que evoluíram da terra, da água e da desenvolvidas, que vivem nas nuvens e que evoluíram da terra, da água e da experiência do fogo, sendo por isso dotadas de elevada inteligência. Há também as fadas do vento e das tempestades, espíritos dotados de poderosa energia, que giram por cima das florestas e ao redor dos altos picos das montanhas.

As fadas da terra dividem-se em espíritos da superfície e do subsolo: fadas dos jardins ou bosques (as de superfície) e gnomos ou fadas dos rochedos (as do subsolo ou reino mineral).As fadas do fogo ou salamandras habitam a região do subsolo vulcânico e estão relacionadas com o relâmpago e as fogueiras acima do solo. Têm mais força do que as fadas dos jardins, mas ficam mais distantes da humanidade.

As fadas das águas ou ondinas habitam as profundezas das águas e uma de suas principais tarefas é retirar energia do sol para transmiti-la á água. Há ainda aquelas que vivem junto á praia e marés: são pequenas, alegres e mais conhecidas como bebês d’água.

A literatura infantil proporciona à criança um desenvolvimento emocional, social e cognitivo indiscutíveis. Desenvolver o interesse e o hábito pela leitura é um processo constante, que começa muito cedo, em casa, aperfeiçoa-se na escola e continua pela vida inteira. Existem diversos fatores que influenciam o interesse pela leitura. O primeiro e, talvez mais importante, é determinado pela “atmosfera literária”, que, segundo Bamberguerd (2000, p.71) a criança encontra em casa.

A criança que houve histórias desde cedo, que tem contato direto com livros e que seja estimulada, terá um desenvolvimento favorável ao seu vocabulário, bem como a prontidão para a leitura. “Ler para mim, sempre significou abrir todas as comportas para entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivência das personagens [...] Ler foi sempre maravilha, gostosura, insubstituível [...] E continua, lindamente, sendo exatamente isso! (ABRAMOVICH,1997, p.17).  

De acordo com Bamberguerd (2000), a criança que lê com maior desenvoltura se interessa pela leitura e aprende mais facilmente, neste sentido, a criança interessada em aprender se transforma num leitor capaz. Sendo assim, pode-se dizer que a capacidade de ler está intimamente ligada a motivação. Infelizmente são poucos os pais que se dedicam efetivamente em estimular esta capacidade nos seus filhos.

Outro fator que contribui positivamente em relação à leitura é a influência do professor. Nesta perspectiva, cabe ao professor desempenhar um importante papel: o de ensinar a criança a ler e a gostar de ler. No início da vida escolar, já na Educação Infantil, é necessário o trabalho com textos que circulam socialmente, dando maior importância a Literatura Infantil.

O contato da criança com materiais de leitura deve ser constante para que desperte o gosto por esse ato, tornando-se um hábito e não um momento esporádico.

Por meio da literatura, o aluno satisfaz suas necessidades, sendo-lhe permitido assumir uma atitude crítica em relação ao mundo, advinda das diferentes mensagens e indagações que a literatura oferece. Como escrevia Jacinto do Prado Coelho, "não há disciplina mais formativa que a do ensino da literatura. Saber idiomático, experiência prática e vital, sensibilidade, gosto, capacidade de ver, fantasia, espírito crítico - a tudo isso faz apelo à obra literária, tudo isto o seu estudo mobiliza".

A criança que lê desenvolve o senso crítico e melhora a escrita. Para tanto, devemos incutir em nossos alunos que a literatura é algo bom, natural, fácil e prazeroso e não exige esforços nem dificuldades. Sendo assim, faz- se imprescindível que o convívio com os livros extrapole o desenvolvimento sistemático da sua escolarização e que a literatura passe a ser difundida com mais intensidade nas escolas.

Sabemos que a literatura, seja ela brasileira ou estrangeira, não está tão presente nas salas de aula quanto deveria. Isso porque para muitos professores a literatura é um conteúdo sem significado, pois não tem um objetivo técnico, preciso de obter algum conhecimento. Ou seja, a literatura só tem valor acompanhado de algum ensinamento objetivo, exato e que possua estritamente cunho pedagógico. Nenhum professor de literatura deverá inibir-se de pôr em prática leituras, comentários ou interpretações que estimulem nos estudantes a sensibilidade, o senso crítico, à capacidade argumentativa, e sejam assim susceptíveis de lançar alguma luz sobre essa realidade indefinível a que chamamos universo literário.

Durante o seu desenvolvimento, a criança passa por estágios psicológicos que precisam ser observados e respeitados no momento da escola. Essas etapas: não dependem exclusivamente de sua idade, mas segundo Coelho (2002) do seu nível de amadurecimento psíquico, afetivo e intelectual e seu nível de conhecimento e domínio do mecanismo da leitura.

Neste sentido, necessária e a adequação dos livros como diversas etapas pelas quais uma criança normalmente passa. Existem cinco categorias que norteiam como estrados o desenvolvimento psicológico da criança: o pré-leitor, o leitor iniciante, o leitor-em-processo, o leitor fluente e o leitor crítico (COELHO, 2002).

O pré-Leitor: categoria que abrange duas fases. Primeira infância (dos 15/17 meses aos 3 anos) nesta fase a criança começa a reconhecer o mundo ao seu redor através do contato afetivo e do tato. Por este motivo ela sente necessidade de pegar ou tocar tudo o que estiver ao seu alcance. Outro momento marcante nesta fase e a aquisição da linguagem, onde uma criança passa a nomear tudo a sua volta. A partir da percepção da criança com o meio que vive, é possível estimulá-la oferecendo-lhe brinquedos, álbuns, chocalhos musicais, entre outros. Assim, ela poderá manuseá-los e nomeá-los e com ajuda de um adulto poderá relacioná-los propiciando situações simples de leitura.

Segunda infância (a partir dos 2/3 anos) e o início da fase egocêntrica. Mais adaptada ao meio físico e aumenta sua capacidade e interesse pela comunicação verbal. Como se interessa por atividades lúdicas, o "brincar" com o livro será, de suma importância e significativo parágrafo ela.

Nesta fase, os livros adequados, segundo Abramovich (1997) devem apresentar um contexto familiar, com predomínio absoluto da imagem que deve sugerir uma situação. Não se deve apresentar texto escrito, já que é através da nomeação das coisas que a criança estabelecerá uma relação entre a realidade e o mundo dos livros.

A técnica da repetição ou reiteração são elementos segundo Coelho (2002, p.34) "favoráveis para manter a atenção e o interesse desse difícil leitor de serviços conquistado".

O leitor iniciante (a partir dos 6/7 anos) essa é uma fase onde a criança começa a apropriar-se da decodificação dos símbolos gráficos, mas como ainda encontra-se no início do processo, o papel do adulto como "agente estimulador” é fundamental.

Os livros adequados nesta fase devem ter uma linguagem simples com começo, meio e fim, as imagens devem predominar sobre o texto. Como personagens podem ter humanos, bichos, robôs, objetos, especificando sempre os traços de comportamento, como bom e mal forte e fraco, feio e bonito. Histórias engraçadas, ou o bem que vença o mal atraem muito o leitor nesta fase. Indiferentemente de se utilizarem textos como contos de fadas ou do mundo cotidiano, Coelho (2002, p. 35) afirma "eles devem estimular a imaginação, a inteligência, a afetividade, como emoções, o pensar, o querer, o sentir".

O Leitor-em-processo (a partir dos 8/9anos) a criança nesta fase já domina o mecanismo da leitura. Seu pensamento esta mais desenvolvida, permitindo-lhe realizar operações mentais. Interessa-se pelo conhecimento de toda a natureza e pelos desafios que lhes são propostos. O leitor desta fase tem grande atração por textos que haja humor e situações inesperadas ou satíricas. O realismo de imaginário alto agrada a leitor. Os livros adequados a esta fase devem apresentar imagens e textos, estes escritos com frases simples, de comunicação direta e objetiva, segundo Coelho (2002) devem conter inicio, meio e fim. O tema desenvolvido gira em torno de um conflito que deixará o texto mais emocionante e culminar com a solução problema fazer.

O Leitor fluente (a partir dos 10/11 anos) o leitor fluente esta na fase de consolidação dos mecanismos da leitura. Sua capacidade de concentração cresce eé capaz de compreender o mundo expresso no livro.

Segundo Coelho (2002) é a partir dessa fase que a criança desenvolve o "pensamento hipotético dedutivo" e a capacidade de abstração. Este estágio, chamado de pré-adolescência, promove mudanças significativas no individuo. Há um sentimento de poder interior, de ver-se como um ser inteligente, reflexivo, capaz de resolver de todos os seus problemas sozinhos. Aqui há uma espécie de retomada do egocentrismo infantil, pois assim como acontece com elas nesta fase, o pré-adolescente pode apresentar um certo desequilíbrio com o meio em que vive.

O leitor fluente e atraído por histórias que apresentem valores políticos e éticos, por heróis ou heroínas que lutam por um ideal. Identificam-se com textos que apresentam jovens em busca de espaço no meio em que vivem, seja em um grupo, equipe, entre outros. É adequado oferecer a esse tipo de leitor histórias com linguagem mais elaborada, imagens não são indispensáveis, porem ainda é um elemento forte de atração. Interessa-se por mitos e lendas, policiais, romances e aventuras. Os gêneros narrativos que mais agradam são os contos, como crônicas e como novelas.

O leitor crítico (a partir dos 12/13 anos) nesta fase tem o total domínio da leitura e da linguagem escrita. Sua capacidade de reflexão aumenta, permitindo-lhe uma intertextualização. Desenvolve gradativamente o pensamento reflexivo e a consciência crítica em relação ao mundo. Sentimentos como saber, fazer e poder são elementos que permeiam o adolescente. O convívio leitor crítico com o texto literário, segundo Coelho (2002, p.40) "deve extrapolar a mera fruição de prazer ou emoção e desenvolvimentos que penetrem seu mecanismo da leitura".

O leitor crítico continua a interessar-se pelos tipos de leitura da fase anterior, porém, è necessário que elementos se apropriem dos conceitos básicos da teoria literária.

Segundo Coelho (2002, p.40) a literatura é considerada uma arte da linguagem e como qualquer arte exige uma iniciação. Assim, ha certos conhecimentos a respeito da literatura que não podem ser ignorados pelo leitor critico.

Os contos de fada na escola trazem para os educandos momentos de grande prazer, para eles esse é um momento esperado e, para o professor, pode ser também um momento de envolvimento, onde ele tem a seu favor o interesse e a participação de todos.

No mundo real quanto no conto de fadas, é fundamental a presença do adulto, isto é, do pai, da mãe ou do educador. O grande potencial do conto de fadas é sua capacidade de falar, metaforicamente, sobre a estrutura familiar e sobre conflitos psíquicos naturais do ser humano, como o medo da morte ou o medo da separação.

 O que é monstruoso ou o que gera medo varia de uma pessoa para outra, conforme a família, a cultura, a época. A imaginação é um instrumento fundamental de elaboração e construção da nossa identidade. Sair de casa expulsa pela madrasta, enfrentar um ogro, encontrar no amor a solução de todos os males, travar uma luta mortífera com figuras poderosas e aventurar-se na floresta, virar comida de uma bruxa; Situações aparentemente absurdas podem ilustrar nossos conflitos inconscientes.

O mundo pode ter mudado totalmente, mas tornar-se mulher ou homem, assim como enfrentar o crescimento e a morte ainda são nossos problemas. No que diz respeito a essas questões, tudo mudou para que pudesse continuar do mesmo jeito.

Enquanto diverte a criança, o conto de fadas esclarece sobre si mesmo, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança(BETTELHEIM, 1992 p.20).

Nos contos sempre queremos saber qual a natureza e para quem se dirigem o que nos falam e o porquê de serem considerados tão importantes principalmente na infância.

É importante também ressaltar a importância dos contos de fadas através da visão de alguns pesquisadores, em especial, o psicólogo infantil Bruno Bettelheim que mostra como nossa mente funciona na ideia em que os contos dirigem ao ego em formação, acalmando as pressões pré-conscientes e inconscientes, e abordando a questão de como a criança pode lidar com seus problemas interiores na certeza de uma saída vitoriosa promovendo a confiança em si mesma e no futuro.

Bettelheim diz que os contos de fadas influenciam na construção da personalidade da criança: “[...] os contos de fadas transmitem importantes mensagens ao consciente, a pré-consciente, e a inconsciente, em qualquer nível que esteja funcionando no momento”.

Lidando com problemas humanos universais, particularmente os que preocupam o pensamento da criança, estas estórias falam ao ego em germinação e encorajam seu desenvolvimento, enquanto ao mesmo tempo aliviam pressões pré-conscientes e inconscientes.

À medida que as estórias se desenrolam, dão validade e corpo às pressões do id, mostrando caminhos para satisfazê-las, que estão de acordo com as requisições do ego e do superego. (BETTELHEIM, 1980, p.14)

Certas atitudes tomadas às vezes pelos personagens de contos de fadas servem como exemplo de comportamento para a criança, muitas vezes não podem ser aceitos em determinadas situações da vida real da criança por uma questão ética e que acabam determinando características fundamentais para a formação ética da criança.

A respeito desses personagens, diz-nos Abramovich: Daí que haver numa história fadinhas atrapalhadas, bruxinhas que são boas ou gigantes comilões não significam – nem remotamente – que ela seja um conto de fadas [...] Muito pelo contrário. Tomar emprestado o nome das personagens-chave desses contos não faz com que essas histórias adquiram sua dimensão simbólica [...] A magia não está no fato de haver uma fada anunciada já no título, mas na sua forma de ação, de aparição, de comportamento, de abertura de portas [...](ABRAMOVICH, 1997, p.121).

Os contos de fadas são importantes para o desenvolvimento das crianças, eles divertem ao mesmo tempo em que esclarecem sobre si próprios e favorecem o desenvolvimento da personalidade da criança e do adolescente. Histórias que parecem inocentes têm profundo significado psicológico.

Segundo Corso Diana e Mario (2006) que cita Bettelheim que crítica que através do contato com os contos de fadas podemos economizar sofrimento e fundamentar nosso crescimento. Porém eles discordam quando os contos de fadas estão presos a atributos de que as crianças precisam para a sua elaboração da personalidade.

Os contos de fadas merecem um lugar especial na comunicação com a criança, mas não precisamos ficar presos em algumas histórias, que também podemos oferecer outras com o mesmo domínio.

Bettelheim destaca a realidade que determinada história pode ter na vida da criança e do adolescente, quando conversam sobre um conto tradicional eles terão a oportunidade de fazer seus pequenos ou grandes dramas inconscientes de uma história escolhida por eles mesmos, por seus pais ou inventada por ambos, ao mesmo tempo em que Diana e Mario Corso discordam de que os contos de fadas seja um modelo metodológico tradicional capaz de produzir efeito único na valorização dos conflitos infantis.

Nos contos temos a amostra de problemas psicológicos do crescimento, como rivalidade entre irmãos, amor de filho (a) com a mãe, decepções consigo mesmo etc., ou seja, a criança e o adolescente precisam entender o que está se passando pelo seu consciente para que possa enfrentar o que se passa ao seu redor inconsciente e que através dos contos de fadas, ela entra no mundo da fantasia, busca uma passagem para se tornar um adulto consciente sem danos, pendências para serem colocados de serviço de propósitos positivos.

Os contos de fadas são muito realistas, mostra o lado perigoso da vida por isso são histórias modernas.A maioria dos pais pensa que só de imagens positivas devem ser mostradas aos seus filhos sem saber que seus filhos já sabem que as coisas não são bem assim. As crianças sentem os desejos de destruição do irmão, agressividade, às vezes da mãe ou do pai, elas sabem que não são sempre boas, e se os pais que não revelam a realidade como realmente é, elas se sentem uns monstros á seus próprios olhos.

Já no conto de fadas é o contrário, há um confronto com as dificuldades básicas humanas. A criança e o adolescente já se deparam com a morte de um parente (pai ou mãe), que cria angustia e o medo de perder alguém que tanto ama na vida real.

Uma característica marcante nos contos de fadas é que os personagens não podem assumir dois papéis ao mesmo tempo, porque na cabeça da criança e do adolescente funciona da seguinte maneira o que é bom é bom e o que é mal será sempre mal.

Bettelheim (1980) cita que as crianças caracterizam os personagens em seus pais porque ainda não tem maturidade para saber se a mãe boazinha pode ser a bruxa má, a mãe será sempre uma imagem de carinho e proteção, nos contos de fadas e sempre uma esperança para a criança.

As Fábulas mais voltadas para os adultos ensinam o que é correto, mas não oferece esperança para a reparação do erro, diferente dos contos de fadas que sempre há uma segunda chance para acertar de vez, mudar de vida.

Essa multiplicidade de dimensões artísticas presentes na obra literária para crianças, se por um lado representa a sua especificidade estética e a qualifica, por outro, muitas vezes, tem resultado em produtos com alta qualidade editorial e gráfica, nos quais o texto verbal é muitas vezes negligenciado.

A escola é o espaço privilegiado para o encontro entre o leitor e o livro em face dessa realidade concreta e desafiante, torna-se cada vez mais urgente uma nova reflexão sobre a educação e o ensino.

É perceptível que a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da mente a partir do que cada um vai assimilando desde a infância.

Monteiro Lobato foi, o pioneiro de uma literatura infantil legitimamente brasileira que rompeu com a dependência literária vinculada aos padrões europeus de literatura infantil. Um autor que recriou a literatura infantil, adaptando-a ao publico brasileiro tanto na linguagem quanto na matéria que lhe servia de tema, isto é, a linguagem, os personagens, os ambientes e as situações das histórias, recebiam uma cor bem nacional.

Ler e ouvir historias não é um ato passivo, mas um caminho onde se encontra possibilidade inúmera de serem trabalhadas com as crianças da educação infantil.

A literatura infantil tem como ferramenta fundamental, despertar na criança o habito saudável de se ouvir histórias, pois é nesta fase que se tornam prováveis leitores. E com isso se garante não apenas possíveis leitores, mas o que se evidencia são os caminhos infindáveis que o simples ato de ler nos oferece.

Na era do virtual e da imagem é no apelo visual que o mercado editorial aposta.

Nem por isso, contudo, a literatura infantil, pode esquecer a sua natureza literária. As várias linguagens na obra infantil devem promover um diálogo em plena igualdade de qualidade estética.

 

Referências:

ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 16ª. Ed. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 2002.

­­­­­­­­­­_________________. A Psicanálise dos contos de fadas. Trad. de Arlene Caetano. 19ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1980.

BORDINI, Maria da Glória; AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do leitor: alternativas metodológicas. 2ª. Ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993.

BORELLI, Silvia Helena Simões. Ação, suspense, emoção: literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC: Estação Liberdade, 1996.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: Teoria, Análise, Didática. 7.ed. São Paulo: Moderna, 2000.

CORSO, Diana e CORSO, Mário. Fadas no divã: a psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Antoned, 2006.

HETZEL, Graziela Bozano. O jogo de amarelinha. Ilustrado por Elisabeth Teixeira. Rio de Janeiro: Manatti, 2007.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história & histórias. São Paulo: Ática, 1984.

_________________________________. Literatura infantil brasileira: história e histórias. 4ª. Ed. São Paulo: Ática, 1988.

PERROTTI, Edmir. O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Ícone, 1986.

VIANA, Vivina de Assis. O dia de ver meu pai. Ilustrado por Álvaro Apocalypse. 3ª.Ed. Belo Horizonte: Comunicação, 1977.

ZILBERMANN, Regina; Lajolo, Marisa. Literatura Infantil História e Histórias

Autor

Glaciene Januario Hottis Lyra - Mestre em Teologia EST/UFRGS – Psicanalista, Psicopedagoga Clinica e Hospitalar- Professora UEMG- Unidade de Carangola- Coordenadora de Extensão.

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