A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma prática de intervenção grupal, aplicada por terapeutas comunitários em grupos em situação de vulnerabilidade. 

Resumo:

A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) é uma prática de intervenção grupal, aplicada por terapeutas comunitários em grupos em situação de vulnerabilidade. Os familiares do portador de transtorno mental estão em situação de precariedade em relação às estratégias de abordagens da equipe do CAPS por não serem o público alvo das ações. Objetivou-se identificar os sinais e sintomas de estresse, ansiedade e depressão entre os familiares participantes das rodas de terapia no CAPS e descrever estratégias diante os conflitos oriundos da relação com o parente doente mental. Este estudo compreensivo-interpretativo foi desenvolvido no CAPS Caminhar, João Pessoa. Selecionou-se 10 familiares, ambos os sexos, com idade superior a 21 anos, submetendo-os aos questionários "SRQ-20", "ISS" e a gravação do áudio das rodas. Constatou-se que para o familiar, a aceitação de sua condição e partilha das cargas facilita compreensão e criação de estratégias que permitem a diminuição considerável de stress, ansiedade e depressão.

Descritores: Enfermagem; Terapia Comunitária; Família; Resiliência.

Introdução

A Terapia Comunitária Integrativa - TCI é uma prática de intervenção grupal, criada pelo Dr. Adalberto de Paulo Barreto, médico psiquiatra e docente do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal no Ceará. A terapia nasceu em 1987 na comunidade de Pirambú, cidade de Fortaleza do Estado do Ceará, em um contexto de pobreza onde habitavam pessoas excluídas, marginalizadas culturalmente e com alta vulnerabilidade social.¹

Desde então a TCI expandiu-se dentro e fora do Brasil, sendo atualmente reconhecida como uma tecnologia de cuidado para intervenção em grupos com problemáticas específicas ou mistas, mas que tenham algo em comum, ou seja, vivenciar situações de sofrimento advindas do cotidiano.

A TCI vem sendo aplicada por diversos profissionais que após um período de formação são certificados como terapeutas comunitários com competência reconhecida para lidar com grupos em situação de vulnerabilidade, promovendo a vida e prevenindo o adoecimento mental.

O terapeuta enquanto mobilizador social reúne pessoas em espaços abertos, em forma de roda, para no contato face a face, ouvi-los falar de seus problemas e dificuldades em lidar com situações difíceis oriundas do dia-a-dia. Na roda, o terapeuta atua como facilitador permitindo que as diversas formas de expressão do sofrimento venham a ser verbalizadas, mas também criando momentos de fala para os que trazem consigo “bagagens” de vida cheias de experiências, aprendizados, enfrentamentos dos problemas que lhe causaram sofrimento, para compartilhar suas histórias de vida.¹

A TCI no contexto do SUS a partir de 2006 – foi introduzida pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares – PNPIC como projeto especial, capacitou mais de 2000 profissionais para atuar na ESF incluindo a TCI como uma ação para trabalhar com grupos nas comunidades. ²

Em 2010 ela foi recomendada pela IV Conferencia Nacional de Saúde Mental como uma prática de saúde mental na ABS, e posteriormente foi incluída nos cadernos de ABS da saúde mental como uma intervenção psicossocial avançada. Contudo ela vem sendo aplicada por terapeutas em outros espaços da rede de saúde mental a exemplo dos CAPS.³

Os Centros de Atenção Psicossocial emergem como um dispositivo criado pelo Ministério da Saúde através da Portaria 224/92 em substituição ao antigo modelo hospitalocêntrico, configurando-se uma alternativa de cuidado comunitário referente a saúde mental, com a responsabilidade de atenção integral ao usuário e sua família, ao passo que realiza o acompanhamento clínico e a reinserção psicossocial dos usuários. Assim, o CAPS insere-se no contexto social como uma ferramenta de cuidado, por meio do acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários.4

Sabendo que os familiares do portador de transtorno mental são levados a uma realidade para a qual não foram preparados, e que por isso sofrem diretamente com o estresse e a ansiedade causados pela nova demanda, e assim estão em uma situação de precariedade em relação as estratégias de abordagem para a família pela equipe do CAPS, quisemos saber se a TCI, utilizada como dispositivo de cuidado, poderia minimizar o sofrimento desses familiares. Para tanto, elaboramos as seguintes questões norteadoras: Será que a TCI é capaz de ajudar o familiar a elaborar estratégias de enfrentamento para reduzir o estresse e a ansiedade advindos do lidar cotidiano com o parente com sofrimento mental? Quais foram as principais estratégias utilizadas pelos familiares para lidar com o parente no dia-a-dia?

No sentido de encontrarmos essas respostas, desenvolvemos esse trabalho que traz como objetivos: identificar os sinais e sintomas de estresse, ansiedade e depressão entre os familiares das rodas de terapia no CAPS, e assim, descrever as estratégias mais utilizadas para lidar com conflitos oriundos da relação com o parente doente mental.

A TCI tem sido, cada vez mais, alvo de pesquisas, é um tema profícuo na área de saúde mental comunitária, pois essa traz consigo ferramentas que fazem ponte com a reforma psiquiátrica, sendo assim para nós enfermeiras e pesquisadoras da temática, é instigante avaliar o efeito terapêutico dessa ferramenta de cuidado e desvelar as estratégias que efetivamente condicionam melhorias na vida das pessoas que participam. Ter um novo olhar diante os problemas da vida e principalmente visualizar em si formas de responder aos dilemas trazidos pelo cotidiano, são conceitos que a terapia nos permite desfrutar, e o mais fascinante disso é que ao pesquisar tornamo-nos também sujeitos desse processo e acabamos por levar conosco uma visão nova de si e do outro.

Por apresentar uma temática inovadora, é, portanto, relevante avaliar a eficácia deste dispositivo de cuidado, que ao longo do tempo tem se inserido em inúmeros contextos comunitários como tecnologia de cuidado, gerando a reverberação positiva deste em outros espaços, no tocante especificamente a abordagem com famílias de usuários, que são os alvos deste estudo.

Referencial teórico

A TCI é uma tecnologia leve de cuidado que já vem sendo desenvolvida em vários municípios brasileiros dentro da Estratégia Saúde da Família - ESF e também em outros espaços e contextos. Trata-se de espaço aberto para indivíduos que trazem consigo muitos aprendizados, e enfrentamentos dos problemas que lhe causam sofrimento, a fim de numa roda de escuta e compartilhamento dessas histórias de vida relatar suas vivências.5

Criada pelo médico psiquiatra Dr. Adalberto de Paulo Barreto, no Ceará numa comunidade da cidade de Fortaleza, chamada Pirambú, em 1987. A partir da experiência nesta comunidade, o médico expande a TCI com o auxílio da Universidade Federal do Ceará, através da formação de terapeutas, os quais tem como perfil, a escuta, compreensão, respeito e valorização do outro, sendo apto a facilitar estratégias de enfrentamento dos dilemas cotidianos como também sua integração social.6

Entre 2004 e 2006, docentes do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria da Universidade Federal da Paraíba através de um projeto de extensão iniciaram as primeiras rodas de TCI da Paraíba, no bairro de Mangabeira da cidade de João Pessoa/PB, sob projeto de extensão.7

Baseada na visão ampliada da TCI, podemos perceber a ponte que esta faz com os conceitos reformadores do movimento psiquiátrico e a política de saúde mental em vigência, com a implementação dos CAPS, estabelecendo vínculos comunitários facilitadores de prevenção e promoção em termos de saúde mental tanto para usuários como para a família, onde podem estar diretamente relacionados ao projeto terapêutico da atenção básica.

Borba (2008) sabiamente pontua que os vínculos entre família e usuário de saúde mental precisam ser alicerçados numa relação sincera e de respeito, pois assim conserva-se a particularidade de ambos, de forma que diminua ou elimine a sobrecarga do familiar, e os usuários possam efetivamente resgatar sua cidadania e autonomia em uma relação terapêutica. Portanto, é preciso compreender o processo em que a família passa diante ao enfrentamento diário de um novo cotidiano. Entendemos que a TCI se insere nesse contexto como uma alternativa de possibilitar o empoderamento e fortalecer a capacidade resiliente desses familiares diante o cuidado com o parente e consigo mesmo.

Nas rodas, costuma-se dizer alguns provérbios como: ”Quando a boca cala os órgãos falam, quando a boca fala os órgãos saram”9, e é portanto nesse princípio que observamos inúmeros sintomas relativos ao guardar os problemas, e a dificuldade de criação de estratégias de enfrentamento de tais dilemas, como vem mostrando as pesquisas em saúde mental comunitária desenvolvidas, a exemplo dos estudos de Ferreira Filha (2009)10, Rocha IA, et al. (2009)11 e SÁ ANP et al. (2012)12.

As rodas de terapia entram, neste contexto, como um lugar onde o familiar pode dispor da oportunidade de expressar seus medos, angústias e dúvidas, além de ser estimulado a criar suas próprias estratégias, minimizando a somatização de efeitos corporais. Esta é implementada seguindo um processo de negociação com a comunidade, agendamento de dia, horário e local. Está fundamentada na premissa da co-participação. A TCI enquanto método, segue cinco passos fundamentais: acolhimento, escolha do tema, contextualização, problematização e ritual de agregação e está alicerçada em cinco eixos teóricos como o pensamento sistêmico, a antropologia cultural, a pedagogia de Paulo Freire, a pragmática da comunicação de Watzalawick e a resiliência.9

A TCI é um instrumento que promove saúde, oferecendo um espaço para compartilhar sabedorias e experiências de vida de forma igualitária, aprendendo com o outro, possibilitando que cada um crie e busque soluções e superações para seus problemas.

A jornada de enfrentamento de obstáculos para o familiar é muitas vezes composta por dificuldades e dúvidas que, se não observadas com olhares especiais, desencadeiam reflexos destrutivos ao próprio corpo. Ser bombardeado com inúmeros dilemas que afetam diretamente seu estado mental, conduzindo-lhe a um sofrimento mental, interliga-se com o físico de forma a afetar seu equilíbrio, mesmo que o trauma não seja diretamente neste.

Pimenta (2008) esclarece que para cuidar, são necessários suporte e alívio das tensões e da angústia. Possibilitar para o familiar um espaço em que ele possa se sentir apoiado, onde, diferentemente do papel que desempenha em casa, ele tenha espaço para dizer aquilo que é insuportável, que não dá conta de resolver e que o incomoda. Portanto, se faz necessário que este indivíduo consiga enfrentar eficazmente os problemas oriundos do transtorno do ente e da própria vida, exercendo sua resiliência.

Utilizando a TCI como um instrumento de cuidado voltado para a família e enquanto estratégia para auxiliar no cuidado do ente com transtorno psíquico, destacamos a importância da parceria com o familiar no processo terapêutico. E aqui se destaca o relevante papel terapêutico da TCI.

Material e método

Esta pesquisa pode ser considerada do ponto de vista de seus objetivos como um estudo compreensivo-interpretativo, norteado pela visão sistêmica que permeia a aplicação da terapia comunitária integrativa, em diferentes contextos operacionais. Ela parte do pressuposto de que há uma rede de fenômenos interconectados e interdependentes e que a família é um sistema constituído não somente de pessoas, mas de algo muito importante que são as relações.9 Assim as pessoas que participam das rodas de TCI não podem ser vistas fora do seu contexto pois os problemas que elas trazem não acontecem no vazio do nada, há contextos, interações, retroações. Pessoas que se intercomunicam criando uma rede de relações. Assim parte-se do pressuposto de que “todos têm problemas, mas também têm a solução”.

A pesquisa foi desenvolvida no Centro de Atenção Psicossocial – CAPS Caminhar, localizado no Bairro dos Bancários, município de João Pessoa/PB. O serviço foi escolhido porque nele a Terapia Comunitária vem sendo desenvolvida há mais de 2 anos com resultados empíricos satisfatórios em relação a aceitação e participação dos familiares. As rodas de terapia, nesse serviço, acontecem semanalmente, com uma média de 15 a 20 participantes.

A fim de identificar sinais e sintomas de estresse, ansiedade e depressão, foram selecionados 10 familiares de ambos os sexos, com idade superior a 21 anos, frequentadores das rodas de terapia comunitária com o menor tempo de participação, ou seja, dois meses, isto porque não houve a entrada de membros novos nas rodas de TCI.

Contudo para descrever as estratégias utilizadas para o enfrentamento das situações problemas colocadas nas rodas, foram registradas as falas de 10 pessoas que durante o período de coleta dos dados, estavam participando assiduamente das 9 rodas que acompanhamos entre os meses de novembro/2011 e fevereiro/2012. As falas dos 10 familiares participantes das rodas encontram-se registradas com o parentesco que tem com o usuário do CAPS.

A inserção no campo ocorreu a partir de setembro de 2011, quando foi necessário iniciar visitas ao serviço para participar das rodas de TCI, criando um vínculo com os participantes e também com os terapeutas, para posteriormente iniciar a produção do material empírico. Os instrumentos utilizados foram o SRQ-20 e o ISS.

O SRQ-20 (ANEXO A)que se configura como uma versão de 20 questões do SRQ-30 para rastreamento de transtornos mentais não-psicóticos, com respostas do tipo sim/não, onde cada afirmativa pontua com o valor 1 até um somatório final que represente o “ponto de corte” expresso por 7 respostas “SIM”, refletindo pessoas com probabilidade para desenvolver o Transtorno Mental Comum (TMC). As perguntas objetivas são relativas aos sintomas físicos e emocionais apresentados nos últimos 30 dias, além de uma questão subjetiva Neste ainda acrescentamos perguntas sobre tempo que acompanha o parente no CAPS, tempo que frequenta a terapia e número de rodas já participou.

O Inventário de Sintomas do Stress (ISS) de Lipp e Guevara (1994) (ANEXO B) é um instrumento que identifica através de sintomas o nível de stress que um indivíduo se encontra, este é dividido em três fases conforme os conceitos de Selye, validados por Lipp e Guevara. A primeira fase destina-se a correlacionar os sintomas que ocorreram nas últimas 24 horas, esta é chamada de alerta, por conter sintomas que podem ser qualificados como resposta de estressores ou não. A segunda, este relativo ao aparecimento dos sintomas na última semana, tida como fase de resistência, esta já revela estar num grau de criação de estratégias perante os estressores a fim de manter sua estabilidade, enquanto que na fase de exaustão que é a terceira, os sintomas vividos nos últimos três meses já se tornam frequentes e com maior intensidade.14

Tais instrumentos foram aplicados no próprio CAPS e somente após a pesquisadora ter tido um contato prévio com os mesmos, explicitando os objetivos da pesquisa e solicitando a colaboração dos mesmos que consentiram a participação, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, redigido com a base na Resolução CNS 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as pesquisas com seres humanos.

Como recurso foi também utilizado um gravador, para o registro das falas dos familiares nos momentos das rodas de TCI e um caderno de campo para registrar outros sinais da linguagem corporal que expressaram sofrimento e que não era possível ser captado pela gravação.

O material empírico advindo dos questionários foi submetido ao tratamento estatístico simples, e a partir do ponto de corte determinado foram identificados os familiares com fortes sinais de estresse e de sofrimento emocional (ansiedade, depressão).

As gravações feitas nas rodas de TCI foram transcritas para gerar a fonte de informação sobre as estratégias mais utilizadas pelos familiares para enfrentamento das situações estressantes advindas do cotidiano na relação com o seu parente usuário do CAPS.

Como propõe Bardin (2009), a análise reflete a transcrição fiel das respostas elencadas nos instrumentos, como também os fragmentos das falas relevantes para a temática, extraídas das rodas de TCI. “Isto porque a análise de conteúdo se faz pela prática”. 15

 A compreensão do material analisado, vai além de apenas ouvir e transcrever o que se foi exposto, mas principalmente situar aquele discurso no contexto que está inserido, ressignificando este para cada história de vida, a ponto de captar os significados externados em linguagens verbais e não verbais. Pode-se, desta forma, perceber a análise como sendo uma transcrição de um processo contínuo que está sendo construído no momento da fala e por sua vez é carregado de incoerências, emoção, imperfeições, desvios e aspirações em suas entrelinhas.16

Este estudo atendeu aos requisitos propostos pela Resolução 196/96, que dispõe sobre as normas e diretrizes regulamentadoras da pesquisa envolvendo os seres humanos. Dessa maneira, este projeto é um desdobramento de um projeto maior, intitulado: A terapia Comunitária no contexto do SUS: A TCI nos Centros de Atenção Psicossocial, que foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba sob o número do protocolo 007/11.

Resultados e discussões

Sinais e sintomas de sofrimento emocional

Analisamos o instrumento aplicado aos dez participantes mais frequentes nas rodas de TCI, o Self-Reporting Questionnaire SRQ-20, que se configura como uma versão de 20 questões do SRQ-30 para rastreamento de transtornos mentais não-psicóticos, com respostas do tipo sim/não, onde cada afirmativa pontua com o valor 1 até um somatório final que represente o “ponto de corte” expresso por 7 respostas “SIM”, refletindo pessoas com probabilidade para desenvolver o Transtorno Mental Comum (TMC).

As perguntas objetivas são relativas aos sintomas físicos e emocionais apresentados nos últimos 30 dias, além de uma questão subjetiva.  Neste ainda constam, as informações básicas do participante, tempo que acompanha o parente no CAPS, tempo que frequenta a terapia e quantas rodas já participou.

QUADRO I- SRQ-20

SINTOMAS

SIM

%

NÃO

%

Humor depressivo-ansioso

 

 

 

 

Sente-se nervoso, tenso ou preocupado?

4

40%

Assusta-se com facilidade?

6

60%

Sente-se triste ultimamente?

5

50%

Você chora mais do que de costume?

6

60%

Sintomas somáticos

 

 

 

 

Tem dores de cabeça freqüentemente?

7

70%

Você dorme mal?

5

50%

Você sente desconforto estomacal?

9

90%

Você tem má digestão?

9

90%

Você tem falta de apetite?

Tem tremores nas mãos?

2

20%

9

8

90%

80%

Decréscimo de energia vital

 

 

 

 

Você se cansa com facilidade?

4

40%

6

60%

Tem dificuldade em tomar decisão?

3

30%

7

70%

Tem dificuldades de ter satisfação em suas tarefas?

1

10%

9

90%

O seu trabalho traz sofrimento?

0

0%

10

100%

Sente-se cansado todo o tempo?

3

30%

7

70%

Tem dificuldade de pensar claramente?

1

10%

9

90%

Pensamentos depressivos

Sente-se incapaz de desempenhar papel útil em sua vida?

 

3

 

 

30%

 

 

7

 

 

70%

 

Tem perdido o interesse pelas coisas?

2

20%

8

80%

Tem pensado em dar fim à sua vida?

0

0%

10

100%

Sente-se inútil em sua vida?

0

0%

10

100%

 

Nas questões objetivas, 5 dos 10 familiares obtiveram respostas "SIM" ≥ 7, sendo os sintomas mais prevalentes: dorme mal, 5 de 10 participantes; sente tristeza ultimamente, 5 de 10 participantes; e sente-se nervoso/tenso/preocupado, prevalente em 6 dos 10 participantes da pesquisa, revelando variações entre sintomas relativos ao sono modificado e nervosismo. Esses sinais e sintomas sentidos pelos familiares, configuram-se um retrato da posição de cuidador em meio ao enfrentamento de prováveis crises. O ambiente de tensão é diretamente observado no cuidador em forma de doença física e emocional, e pode gerar uma sobrecarga tamanha a ponto de provocar somatizações pela falta de recursos de enfrentamento, e isso é o reflexo de sua maneira de ver os problemas e reagir de forma satisfatória a estes.17

O corpo responde a esse ambiente de tensão o qual está sendo condicionado ao lidar com a doença mental no seio familiar, pois a sobrecarga posta no cuidado de um familiar com transtornos mentais, põe o cuidador/familiar muitas vezes em estado de desequilíbrio, tanto no lidar com o parente quanto nos dilemas pessoais da vida, e tudo isso é de alguma forma colocado para fora, quer seja pelo ato do partilhar como é expresso na TCI, ou no silenciar condicionando uma somatização.17

Barreto (2008), diz que “Quem guarda, azeda, quando azeda, estoura, e quando estoura, fede”, elucidando o quão real é a resposta que o corpo dá aos enfrentamentos que nossa mente se depara.

No Quadro II(ISS de Lipp e Guevara) mostramos os familiares que apresentaram estresse considerando as respectivas fases do mesmo e também os que não apresentaram. Esse dado é relevante pois ele é mais um indicador do sofrimento do familiar que lida diretamente com o seu parente doente mental e mostra também a necessidade que o familiar tem de ser cuidado para não vir a adoecer mentalmente, saindo da posição de cuidador para a de usuário/paciente.

QUADRO II (ISS de Lipp e Guevara) – Número de familiares com estresse e sem estresse, e sua respectiva fase.

Fases de estresse

Frequência

%

I-ALERTA > 3<6

1

10%

II-RESISTENCIA > 6 >8

1

10%

III-EXAUSTAO > 8

2

20%

Sem estresse instalado

6

60%

Total

10

100%

 

 

Os resultados do instrumento nos mostra o quanto o familiar está submetido a variações comportamentais devido a lida com o parente no seu cotidiano. Seis familiares que participaram da pesquisa apresentam tensão e nervosismo, enquanto 4 estão em alguma fase de estresse, refletindo assim o desgaste e a não preparação emocional diante o cuidado necessário com seu parente, como também consigo ao longo de todo esse novo processo.

O cuidador submetido a uma realidade cercada de tensões no cuidado de familiares psiquiátricos, está sob direto bombardeio em sua qualidade de vida, devido à sobrecarga a qual a família e o próprio adoecido mental está inserido. Criar condições e estratégias favoráveis para lidar com essas novas situações não perdendo o vínculo de amor que subsidia o cuidar é um grande desafio. Corroborando a importância da criação de pontes de confiabilidade entre serviço e família, onde está aceitando a condição a qual se encontra, cria assim aproximações capazes de fortalecer sua capacidade de lidar com o sofrimento, favorecendo a potencialização de sua resiliência.17 Os familiares estão imersos em situações que geram estresse e ansiedade, advindas de um cotidiano de crises, medo/angústia e sobrecarga do cuidar. Sendo assim, para identificar e descrever o sofrimento vivido por estes familiares, elencamos em duas categorias as falas que mais refletem a causa e efeito deste sofrimento.

Estresse devido a sobrecarga do cuidar

O cotidiano é totalmente modificado, sendo necessário o cuidador reorganizar sua vida, mesmo não estando preparado para tal. Estes diante a sobrecarga e afeto ao parente adoecido mentalmente, abrem mão de projetos e metas pessoais para viver a realidade que o transtorno impõe. As seguintes falas revelam o sofrimento cotidiano que leva ao estresse constante, e a ansiedade, podendo até gerar casos de depressão.18

eu sinto tanta vontade de trabalhar de sair e só voltar a noite, já consegui trabalho, mas eu não posso deixar minha pessoa (parente) só, sinto muita tristeza por isso” (esposa de usuário).

o que me incomoda é meu filho com problema passando por esse tratamento, e agora a mulher também tá tomando remédio controlado e eu separado dela, meu outro filho trabalha pra sustentar a casa, então eu que tenho que ficar com eles dois, isso me incomoda muito, me sinto sem saída, sobrecarregado e sem saída” (pai de usuário).

Eu me sinto mais doente que minha filha porque ela me dá muito trabalho” (mãe de usuária).

eu me sinto num beco sem saída, mas não falo, se eu for falar minha filha não me deixa ir mais ao grupo de idosos, viver uma vida mais alegre, ela me diz: mainha não vá! Então eu não vou, é um beco sem saída...” (mãe de usuária).

Nem ligar o som quando estou arrumando a casa eu posso, me sinto presa, vivo nesse sofrimento com ele, agora estou também sendo acompanhada pela psicóloga, pois estou vendo a hora eu endoidecer...” (mãe de usuário).

É um sofrimento que parece não ter fim, porque isso não é vida, da vontade de abandonar tudo e viver outra vida de viagem e muitas coisas, mas não consigo abandoná-lo...” (esposa de usuário).

A preparação do parente é prejudicada já que se trata de um novo cotidiano, adicionado a dificuldade de aceitação pela sociedade, este por vezes questiona-se, tanto de forma verbal quanto não verbal a própria situação e capacidade de cuidado. Nesse sentido é que se destaca a efetividade da TCI, tecnologia leve que implantada na comunidade age como uma ponte capaz de possibilitar o diálogo com a sociedade a fim de gerar novos olhares diante a diferença.5

Um olhar especializado é imprescindível quando se trata do cuidador do adoecido mentalmente, devido aos fatores desgastantes que a doença mental traz consigo, que por sua vez deposita uma sobrecarga a nível físico e psicológico, por isso a relevância do papel articulador dos serviços de saúde no processo de acompanhamento do doente e sua família.17

Por entendermos o indivíduo como um todo, visualizamos as inquietações do cotidiano como estressores que acabam por causar somatização devido ao não enfrentamento correto e muitas vezes negação da realidade imposta. Essas sensações ao invés de serem externadas são oprimidas e silenciadas gerando efeitos danosos para a saúde física e emocional.

Angústia e tristeza devido à realidade do transtorno

É muito presente nas falas o turbilhão de sentimentos que são guardados pra si e engavetados por medo do novo ou da opinião contrária de outros sujeitos da ação, os quais geram angústia e tristeza. Isso é um reflexo de como é difícil para o parente cuidador reagir de forma equilibrada emocionalmente a realidade que está imerso, como transparecem em seus diálogos:

eu tenho que dar apoio a minha mãe, eu tentava sempre buscar forças pra ajudar ela, eu vi o espelho do problema da minha irmã nessa moça na terapia, o uso de drogas e ela fazia universidade do mesmo jeito, parece que eu estou vendo a situação da minha irmã, então eu chorava muito sozinha em casa pra não atingir a minha mãe e pra não chegar perto da minha irmã chorando, enfrentava sozinha...” (irmã de usuária).

... na época da crise, eu chorava no banheiro, no quarto, quando ela chegava perto de mim eu enxugava as minhas lágrimas e mudava o rosto e sorria por elas (ela e minha mãe)...” (irmã de usuária).

eu me sinto vigiada por ele (parente adoecido mentalmente) as 24 horas do dia, as vezes quero desabafar com a vizinha e não consigo...” (mãe de usuário).

... o momento da crise foi um dos maiores momentos de angústia que eu tive, porque eu sabia que só tinha eu pra dar sustento e apoio a minha família...” (irmã de usuária).

Nós sofremos mais que eles, pois eles ainda vivem nas alucinações, e nós os “normais” que ficamos até doentes” (mãe de usuário).

O cunho negativo que a situação do transtorno propõe é totalmente influenciador do ambiente familiar, devido principalmente ao fato de que os membros não são preparados para tal enfrentamento. A necessidade de manter o equilíbrio de suas emoções e expressões para assim cuidar do parente é uma tarefa difícil, porém necessária nesta realidade.19

Na vivência observamos que a TCI apresentou-se como um meio de socialização de falas que muitas vezes são interrompidas por inúmeros sentimentos e situações adversas que afligem os familiares, sejam estas situações oriundas dos problemas relacionados ao acompanhamento do tratamento do usuário, como também de aflições particulares.

Para Horta (2011):

"O indivíduo, ao poder expressar e ser ouvido pelo grupo, legitima suas dores e suas vitórias. Outro aspecto importante é que comunicamos por palavras e também pelo não verbal, ou ainda por meio de sintomas ou doenças, como um diálogo interno do emocional com o nosso corpo".16

A TCI traz em sua essência o espaço aberto para expressão de sentimentos e situações pessoais que afligem o âmago do ser de seus participantes, porém vai além de uma mera reunião expositora de problemas, na verdade ela focaliza sua atenção nas virtudes intrínsecas dos indivíduos, pois são estas que direcionarão as estratégias de enfrentamento de cada um. Com o intuito de potencializar sua resiliência, ressalta a importância do falar, de pôr para fora na forma de linguagem verbal, a fim de que livre-se de cargas desnecessárias, e não somatize a ponto de que o corpo responda falando com depressão, insônia, isolamento, nervosismo, irritabilidade, entre outros problemas físicos, como já foram identificados nesta pesquisa.

Estratégias de enfrentamento mais utilizadas

O acompanhamento das rodas de TCI e as falas citadas, trouxeram a percepção de que os encontros suscitaram aspectos positivos na vida dos participantes, estes pontos advindos da promoção do auto-empoderamento, como também de aprendizados absorvidos com a escuta do outro, e principalmente a oportunidade de externar sua fala e todos os sentimentos que esta carrega, possibilitando o alívio de cargas que o processo deposita no parente.

Braga (2010), reafirma a contribuição da vivência na TCI ao dizer:

"Um dos objetivos da TCI é suscitar as forças e capacidades dos indivíduos, das famílias e das comunidades, procurando ressaltar as suas habilidades de enfrentamento, sem realçar suas carências. A partir das experiências vivenciadas pelos participantes do grupo de TCI, podem ser selecionadas estratégias de enfrentamento, uma vez que os problemas enfrentados no cotidiano são semelhantes. Entretanto, as maneiras de enfrentamento de cada participante são diferentes[...]".20

Destaca-se três pontos frequentemente citados pelos participantes, que representam escapes escolhidos como estratégias para seguir a vida e enfrentar os problemas advindos da realidade com o seu parente, bem como no lidar com os próprios dilemas.

a) Buscar apoio em um ser superior

A fé torna-se mola propulsora que permite a cadeia homem-família-sociedade enfrentar a realidade com olhos que vislumbrem a resolução dos problemas diários e, portanto da vida.

Jarros (2008) confirma a influência benéfica da fé, ao dizer:

"[...] a religiosidade passa a ser uma fonte rica para encontrar propósitos de vida, assim como para formular orientações cognitivas e avaliações de situações vitais, evidencia seu potencial como função mental de buscar sentidos para o viver e, em consequência, teria, por esse caminho, uma capacidade preventiva nos transtornos mentais".21

Os relatos em sua maioria refletem traços de espiritualidade, que vão além de especificidades de religiões, mas principalmente como uma alternativa de apegar-se a algo que lhe traga um sustento diante a situações em que o cuidador não consegue sozinho, sendo assim uma estratégia utilizada para conseguir permanecer em equilíbrio perante a crise, como vimos:

A minha maior tristeza é querer e não poder... porque eu não tenho apoio nenhum, mas eu tenho uma coisa chamada fé, e assim eu sei que vou conseguir” (esposa de usuário).

... nos momentos de angústia a gente fica procurando uma coisa pra se apoiar, e meu apoio foi Deus, eu chamei por ele pra me ajudar a enfrentar essa crise do meu filho” (mãe de usuário).

Fiquei doente e queria morrer e assim minha filha surtou, então pedi muita ajuda a Deus pra me tirar da cama pra poder cuidar dela” (mãe de usuária).

Nessa doença dele, ninguém quis ajudar, eu já ouvi muito não e as portas fecharam mas eu não desisto, que Deus é quem me dá forças...” (esposa de usuário).

b) Apoio da Família

O seio familiar é parte das opções de apoio nos momentos difíceis da vida, e mesmo no caso do transtorno presente na realidade da família, este suporte não é diferente. Borba (2011), enfatiza ao dizer:

“[...] a família é o suporte com o qual podem contar independente da dificuldade que enfrentam. É no núcleo familiar que as relações mais verdadeiras são estabelecidas, e as soluções para os problemas podem ser elaboradas".22

A valorização do apoio familiar como sendo um forte aliado no enfrentamento das adversidades presentes, reafirma que esses vínculos são muito relevantes como suporte para o familiar cuidador, como dizem:

Meu marido endoideceu de tanto beber e me culpa porque o internei no São Pedro, já meu filho tinha comportamento estranho desde criança, e vendo essa situação piorou, agora são os dois, tem hora que não aguento mais, mas meus irmãos tem me ajudado...” (mãe e esposa de usuário).

A minha sorte é essa minha outra filha, se não fosse ela eu não conseguiria cuidar sozinha dela (usuária)...” (mãe de usuária).

... mas tudo começou a mudar depois do tratamento aqui no CAPS, e eu acho que foi a força de vontade de ajudá-la a mudar a situação a minha maior estratégia, porque ela já me ajudou e isso era como retribuir o que ela fez por mim, eu sempre dizia pra mim, eu vou conseguir, mesmo com as dificuldades eu não desisti nenhum momento nem dela, nem de mim” (irmã de usuária).

Os cuidadores por vezes traçam seu cotidiano baseado no parente adoecido mentalmente e na rotina que este requer, e acabam por anular sua própria autonomia como também a compreensão do ser que necessita de cuidados. Nesse caminho os familiares acabam por bloquear um reconhecimento da nova situação e, portanto torna-se mais penoso a compreensão do seu papel no processo.20

Ressalta-se a necessidade de preparação da família para lidar com a realidade do transtorno, estabelecendo bons vínculos, cumplicidade e principalmente parceria no enfrentamento dos anseios oriundos da problemática em si, e de qualquer outro que venha a surgir no seio familiar.

c) Participar das rodas de TCI

Barreto (2008) diz que o expressar seus anseios e o absorver das experiências do outro através da linguagem nas reuniões de TCI, possibilita a troca eficaz de aprendizados através da escuta e da fala, que por sua vez serve de refrigério de dores pessoais. O compartilhar permite que os participantes aos poucos preencham o quebra-cabeça de seu problema, com peças que vai adquirindo na partilha, é um processo contínuo de construção de resoluções.

Rocha (2013), caracteriza a resiliência dos indivíduos como um conjunto de tudo que estar ao seu redor e que portanto é absorvido por ele, como suas particularidades e o meio em que está inserido em família e sociedade, ou seja, esta vai além de um fator que advém somente do próprio ser, mas também de ressignificações positivas que vai adquirindo ao longo de sua trajetória de vida.23

É então nos encontros de TCI que os familiares destacaram evoluções e melhorias de suas qualidades de vida, potencializando a resiliência que em certos momentos de suas vidas estava minimizada por não se sentirem direcionados para o enfrentamento de tais sensações.

Auxiliar pessoas a autodescoberta como um ser capaz de produzir soluções eficazes aos dilemas é, portanto uma maneira de torná-los mais resilientes:

A terapia tem me ajudado bastante e a da minha filha (usuária) também ela gosta muito, por isso nunca deixo de vim” (mãe de usuária).

Mesmo com todo esse medo, a melhor coisa que me aconteceu foi ter vindo para cá” (pai de usuário).

Essas terapias foram as melhores coisas do mundo que me aconteceu até hoje, estou me sentindo outra pessoa mudei muito, tanto assim a minha vida em casa, em conversar com meu marido, porque a gente não se entendia muito bem, depois que eu passei a participar dessas reuniões da família, pra mim melhorou muito, estou muito feliz e continuo e não vou desistir dessas reuniões” (esposa de usuário).

Gosto muito da terapia, já fazem uns anos que participo, e ela só me leva a crescer mais, e aprender mais coisas” (mãe de usuária).

a terapia me ajuda a ser mais paciente, mais vigilante...” (mãe de usuário).

É muito bom, em relação as pessoas que vejo com seus problemas e eu comparo e compartilho os meus e vejo que tem me ajudado a conviver com o problema, pra mim tem somado muito essa convivência no Caps e na terapia” (mãe de usuária).

A melhora na qualidade de vida é expressa nas falas como sendo um avanço no processo a que estas pessoas estão inseridas, e ao relatarem sobre a TCI, percebe-se o grande avanço na direção de acreditar em si, desenvolver a auto-estima, e focarem sempre em suas capacidades e potencialidades em detrimento de suas fraquezas.

Assim, com estes discursos confirma-se o teor valorativo desta tecnologia leve de cuidado como alternativa eficiente capaz de promover cuidado e prevenção na saúde mental dos indivíduos.

Neste contexto, a terapia comunitária se apresenta como uma estratégia terapêutica eficaz no tratamento com a família diante de tantas modificações, fazendo a articulação entre a família e o membro doente ser mais saudável, através de estratégias que surgem nas experiências partilhadas e construídas nas rodas de TCI.

Através da participação nas rodas, o participante se insere em um ambiente que lhe dá condições de ser responsável por encontrar soluções que se adequam e se caracterizam como sua forma particular de enfrentamento e, portanto ideal para sua realidade.

A jornada de enfrentamento de obstáculos para o familiar é muitas vezes composta por dificuldades e dúvidas que, se não observadas com olhares especiais, desencadeiam reflexos destrutivos ao próprio corpo. Ser bombardeado com inúmeros dilemas que afetam diretamente seu estado mental, conduzindo-lhe a um sofrimento mental, interliga-se com o físico de forma a afetar seu equilíbrio, mesmo que o trauma não seja diretamente neste. Sendo a TCI um instrumento promotor de saúde, oferecendo um espaço para compartilhar sabedorias e experiências de vida de forma igualitária, aprendendo com o outro, cada um vai criando e buscando soluções e superações para suas subjetivas e particulares crises.

A inserção no grupo e a possibilidade de fala neste é prerrogativa indispensável ao empoderamento, facilitando o desenvolvimento de sua resiliência. Essa participação traz grandes evoluções, funcionando como agente propiciador de busca da própria independência e sentido na vida.

Ao fazermos a seguinte pergunta: “Como a terapia tem ajudado você a cuidar de si mesmo e de seu parente?”, obtivemos respostas demonstrando a capacidade de potencializar a resiliência do participante que a TC possui, no sentido que, a Terapia Comunitária sempre acredita no poder resiliente do ser humano.

Os sintomas mais comuns, não só são relatados pelos próprios agentes como percebidos em suas expressões. Percebe-se que suas falas estão acompanhadas de linguagens não verbais que coerentemente e concomitantemente demonstram os sinais e sintomas vivenciados pelo cuidador. O fato deste ter modificado seus afazeres e muitas vezes dispensado seus prazeres, atrelado a uma crise do parente ou a não melhora de seu quadro, acarreta em desequilíbrio físico e psíquico, desenvolvendo estas sensações incômodas.

Todas as vezes que eu vou à terapia, eu saio com mais coragem, determinação e com mais forças para vencer” (esposa de usuário).

A terapia tem me feito sentir bem, alegre e feliz. Ai de mim se não fosse a terapia” (mãe e esposa de usuário).

Nas respostas observamos o resgate de atributos próprios indispensáveis ao processo e ao entendimento e compreensão de si como ser coletivo capaz de aprender com o semelhante.

A TCI consiste em um espaço aberto de expressões de sentimentos através da fala e expressões aderidas a esta, proporcionando o esvaziar de sentimentos bons e ruins que inundam o participante. Assim, a ação de estabelecer a confiança de expressar o que se sente, gera uma reação de acolhimento e alívio pelo partilhado.

Para Barreto (2008) é o Kaos, crise, transformando-se em Kairós, onde cada um ressignifica seu sofrimento.

Eu sai daqui muito aliviada e a cada dia aprendo muito mais com os outros problemas de cada um e tenho um aprendizado maior e tento ter cada vez mais paciência” (mãe de usuária).

Se dar melhor com as pessoas, me sinto melhor e com mais força de cuidar (...)” (pai de usuário).

Em resumo Azevedo (2013) expressa como sendo a Terapia Comunitária uma abordagem facilitadora do auto-empoderamento, capaz de potencializar os recursos individuais e coletivos, pontuando e destacando qualidades e forças já existentes nas interações pessoais da sociedade. O objetivo satisfatório é que a TCI seja um instrumento que permita a diminuição do adoecimento por existir um espaço de apoio emocional contínuo, uma vez que se reúnem e falam dos seus problemas, são valorizados em suas particularidades, e contam com a solidariedade do grupo.24

Em meio aos discursos e dados expressos nos instrumentos, percebemos o efeito terapêutico satisfatório proporcionado pela TCI, que propõe mudança de enfrentamento da realidade a qual pessoas encontram-se, sendo uma alternativa para a atenção básica e os outros níveis de atenção à saúde mental.

Conclusão

Investigar uma temática nova e ainda pouco explorada, como a Terapia Comunitária Integrativa e sua aplicabilidade para familiares, em um serviço de saúde mental, como o CAPS, somado às poucas publicações existentes na literatura, consiste em um desafio. Contudo, foi um processo de aprendizado constante o delineamento de um objeto pouco explorado dentro de um campo que vem sendo permeado de novos saberes e olhares como é o caso da saúde mental.

Apesar de a TCI ter comprovado a sua eficácia em comunidades carentes  e a existência da mesma há mais de 20 anos, além da crescente expansão para vários municípios brasileiros, a experiência mostrada no estudo vem sendo vivida há mais de 2 anos por familiares de um CAPS em João Pessoa e que segundo os terapeutas e os familiares, tem sido algo novo e enriquecedor para suas vidas.

Estar imerso nesse contexto foi imprescindível para captar todos os nuances requeridos na pesquisa, a fim de atingir os objetivos propostos e compreender vivenciando o quanto a TCI é satisfatória nas expressões, no cotidiano, nas reações, no lidar com os reveses diários, na vida, não só daqueles familiares, mas dos terapeutas e de nós pesquisadores.

O familiar é considerado como um coadjuvante no tratamento do seu parente doente mental e como é sabido, a sobrecarga emocional advinda dessa atividade, deixa-o muitas vezes sem tempo para cuidar de si. Assim, identificar sinais e sintomas de estresse, ansiedade e depressão, além das estratégias mais utilizadas no enfrentamento de situações adversas vividas no dia a dia, na lida com o parente doente mental, permitiu que o serviço pudesse prestar mais atenção a este parceiro que muitas vezes pode estar adoecendo e necessitando de cuidados, tanto quanto o seu parente.

Constatamos que a TCI abriu esse espaço para o familiar ser acolhido com solidariedade, sem críticas e julgamentos, mas como uma pessoa que também necessita de apoio e atenção, como foi verificado nas falas transcritas e citadas ao longo do texto.

A realidade a que o familiar está incluso é o carro chefe de suas ações e reações diárias. Estas são sentidas pelo efeito que causam no autocuidado. Constata-se também que a instabilidade nos âmbitos físico e emocional do parente é fortemente presente quando este não cria condições efetivas de resolução e manutenção de equilíbrio diante da crise. Todavia, percebemos que a aceitação de sua condição e, portanto, a partilha das cargas que são absorvidas desnecessariamente, facilitam a compreensão e a criação de estratégias mais resolutivas, muitas delas compartilhadas na terapia comunitária.

Outro fator importante é a relevância de manter a identidade e particularidade, que não podem ser perdidas, porém muitas vezes são postas em último plano, devido a concepção de alguns familiares de que devem abster-se do autocuidado nas mais variadas áreas em detrimento da atenção que o familiar adoecido necessita. Porém, neste ponto faz-se necessário uma ressalva, por ser o cuidador e portanto ator de todo o processo de reabilitação e reinserção do adoecido, este mais do que nunca precisa estar em condições favoráveis ao cumprimento de tais papéis, portanto é imprescindível o cuidar de si para cuidar do outro. É nessa visão que os indivíduos na TCI expressaram a importância e satisfação da criação de vínculos nas reuniões, pois através destas possibilitou-se o compartilhamento de experiências e aprendizados que deram suporte para criações de estratégias efetivas de enfrentamento, e assim melhoria nas relações consigo, com o parente e com a comunidade.

Ressaltamos também o teor valorativo dos vínculos familiares e da presença da espiritualidade como fator intrínseco dos participantes, que aliados a participação nas rodas fomentaram o alívio de sintomas de sobrecarga impostos pela situação.

Identificamos que os indivíduos possuem características particulares de enfrentar seus dilemas, mas que estas são abafadas pela desesperança oriunda da estigmatização do problema. Neste contexto, confirmamos a necessidade de espaços abertos de escuta e fala que ampliem a visão, muitas vezes, limitada dos cuidadores, a fim de proporcionar pressupostos que agrupados originem a reafirmação das capacidades pessoais e portanto da sua resiliência.

 

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Autores

Cláudia Quézia Amado Monteiro - Graduada em Enfermagem pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Mestranda do Programa de Pós-graduação em neurociência cognitiva e comportamento (PPGNeC/UFPB). Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4878735900744341 Cidade Universitária Campus I Bairro: Castelo Branco Estado/País: Paraíba – Brasil 

Maria Oliveira Ferreira Filha - Drª em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professora associada da Universidade Federal da Paraíba, Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa Saúde Mental Comunitária - GEPSMEC, atuando na linha de pesquisa, políticas e praticas de saúde e enfermagem. mar Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/6656161364649924

Samilla Gonçalves de Moura - Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraíba (PPGENF/UFPB)  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/5607549770971094

Maria Djair Dias - Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo - SP. Docente Associada do Departamento de Enfermagem Saúde Pública, e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPB E-mail para contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/8451343215996468 

Priscilla Maria de Castro Silva - Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós - Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Paraiba (PPGENF/UFPB). Professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande (FCM/CG). E-mail para contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/9658322208264133 

Eloise de Oliveira Lima - Graduada em Fisioterapia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestranda do Programa de Pós-graduação em neurociência cognitiva e comportamento (PPGNeC/UFPB). E-mail para contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  Endereço do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/7801462590711658

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