O presente estudo teve como principal objetivo realizar um levantamento das crenças de mulheres acerca do uso do preservativo masculino pelo parceiro. 

Resumo

O presente estudo teve como principal objetivo realizar um levantamento das crenças de mulheres acerca do uso do preservativo masculino pelo parceiro. A amostra foi composta por 35 mulheres, de classe social menos favorecida, da cidade de João Pessoa. No que se refere às crenças comportamentais acerca das vantagens do uso do preservativo, ficou evidenciado o conhecimento acerca do papel do contraceptivo, como a de evitar doenças sexualmente transmissíveis. Não obstante, foram relatados incômodo e a diminuição do prazer como desvantagens quando o parceiro utiliza o preservativo. Os referentes modais positivos para o uso de preservativo foram a família e os médicos, e os referentes modais negativos foram os amigos e o parceiro. Estes resultados podem ser considerados como uma uma referência para estudos e intervenções sobre a importância do uso de preservativo nas relações sexuais.

Palavras-chave: crenças; uso do preservativo; vulnerabilidade ao HIV/AIDS

Introdução

Desde que foi descoberto o primeiro caso de HIV (Human Immunodeficiency Virus) no Brasil, no ano de 1980, na cidade de São Paulo (Szwarcwald, Bastos, Esteves, & Andrade, 2000) muitos estudos têm sido realizados a fim de aprofundar o conhecimento acerca do vírus e de suas implicações, seja a partir do ponto de vista da medicina, da farmácia, da psicologia ou de áreas afins (Alves & Lopes, 2008; Eshleman et al., 2013). Com o avanço dos estudos acerca desta temática, a percepção dos prováveis perfis mais vulneráveis à transmissão e infecção do vírus do HIV foi modificada. O perfil, que antes era relacionado a determinados grupos, como profissionais do sexo e homossexuais, gradativamente foi sendo considerado passível para qualquer indivíduo (Saldanha, 1998).

No Brasil, entre 1993 e 2013, o número de casos de AIDS em jovens de 15 a 24 anos tem sofrido constantes mudanças, ora diminuindo, ora aumentando. Segundo dados divulgados pelo Boletim Epidemiológico de AIDS, em dezembro de 2013, no ano de 1993, foram notificados 1705 casos em homens e 712 em mulheres, uma proporção de 2,4. Dez anos depois, em 2003, foram 1678 casos em homens e 1870 em mulheres, razão de 0,9, uma diminuição considerável comparado ao período anterior, decorrente do aumento de casos em mulheres. No ano de 2012, porém, houve 1193 casos para o primeiro grupo e 614 para o segundo, razão de 1,9, aumentando a proporção entre os sexos (Brasil, 2013).

O estudo da vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis busca entender as diferentes chances que todo e qualquer indivíduo tem de se contaminar, decorrente de características individuais e sociais do dia-a-dia, que podem ser relevantes para uma maior exposição ao HIV (Ayres, Paiva, & França-Jr, 2012). Dessa forma, ao considerar a população de mulheres, por exemplo, percebe-se um contexto bem específico. Atualmente, com o uso cada vez mais frequente da pílula anticoncepcional, as mulheres têm optado pela não utilização de preservativos em suas relações sexuais, tornando a pílula um dos métodos contraceptivos mais usados (21%), atrás apenas do procedimento de laqueadura (40%) (Alves & Lopes, 2008). Esta preferência pode contribuir para que as mulheres se tornem mais susceptíveis a contraírem doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV.

O perfil das mulheres infectadas na década de 1990 eram de casadas, monogâmicas, de baixa renda e baixo nível de escolaridade (Saldanha, 1998). Ainda segundo esta autora, 75% dos casos de morte de mulheres infectadas pelo vírus da AIDS eram de casadas e de classe social menos favorecida, o que poderia estar relacionado à construção social das relações de gênero, que põe a mulher em um papel de submissão, inclusive durante o ato sexual, não tendo o direito de exigir do parceiro o uso de preservativo. Outra possível causa, apontada pela autora, se refere às questões sócio-políticas, como o reduzido acesso aos preservativos.

Segundo Ribeiro et al (2011), a vulnerabilidade da mulher à infecção do vírus do HIV pode se dar pelas seguintes causas: submissão sexual ao homem, uso da pílula anticoncepcional e a ideação de que o seu parceiro fixo não a contaminará. Para estas autoras, estes dois últimos fatores podem estar relacionados entre si, tendo em vista que as mulheres, principalmente em relacionamento estável, depositam total confiança no parceiro ao praticar sexo sem preservativo, preocupando-se apenas com utilização da pílula como método para evitar uma gravidez.

Diante do aumento de casos de mulheres infectadas com o vírus do HIV, alguns estudos têm sido realizados com o objetivo de investigar o conhecimento das mulheres acerca do uso de preservativo e o quanto estas se sentem motivadas para a prática do sexo seguro (Jiménez, Gotlieb, Hardy, & Zaneveld, 2001; Rodrigues, Paiva, Oliveira, & Nóbrega, 2012). Neste sentido, desde o surgimento da epidemia, utiliza-se a Teoria da Ação Racional (TAR) e a Teoria da Ação Planejada (TAP) para investigar alguns aspectos acerca do uso do preservativo e temas relacionados à proteção contra o HIV/AIDS (Saldanha, 1998; Ribeiro, Silva, & Pichelli, 2014). O objetivo destes estudos é identificar os fatores que influenciam as intenções comportamentais em usar preservativo durante as relações sexuais.

Segundo a TAR e a TAP, o primeiro determinante da intenção comportamental é chamada de atitudee diz respeito ao grau em que uma pessoa avalia como favorável ou desfavorável a um comportamento em questão (Azjen,1991). Segundo o autor, a atitude é formada por crenças acerca de um objeto atitudinal, nas quais relacionam o comportamento a uma determinada consequência que pode ser avaliada como positiva ou negativa.

Segundo Azjen (1991), as pessoas tendem a valorizar comportamentos que acreditam ter consequências amplamente desejáveis e a desenvolver atitudes desfavoráveis para comportamentos que associam à características indesejáveis. No que se refere ao tema do uso de preservativo, parece importante investigar quais as prováveis consequências positivas e negativas deste comportamento, analisando-as a partir das crenças comportamentais. Matos, Veiga e Reis (2009) afirmam que as crenças positivas acerca do uso de preservativo consistem na proteção contra a gravidez e contra doenças sexuais, ao passo que as crenças negativas referem-se ao desconforto do seu uso e a desconfiança do parceiro. 

Não obstante, as crenças por si só não são suficientes para avaliar se uma pessoa possui atitude favorável ou não a determinado comportamento. É importante considerar a avaliação que o indivíduo possui destas crenças, pois, no caso da prática do sexo seguro, se for negativa para o desconforto do uso do preservativo, porém positiva para o risco de contágio de DST’S, tenderá a dar mais importância ao desconforto. Por este motivo, as atitudes no modelo proposto pela TAR/TAP são avaliadas a partir das crenças e de suas avaliações (Ajzen, 1991). Ademais, estas crenças representam a informação acumulada ao longo da experiência de vida de uma pessoa em relação àquele comportamento específico, a qual pode ser correta ou incorreta (D’Amorim, 2004).

A segunda variável antecedente da intenção chama-se norma subjetiva. Única de cunho social, no modelo proposto, a norma subjetiva se refere à percepção que o indivíduo tem de que pessoas ou grupos significativos a ele, também chamadas de referentes, aprovam ou desaprovam o comportamento em questão (D’Amorim, 2004). Como na atitude, a percepção das normas subjetivas também é determinada. Dentro da temática do uso de preservativo, pesquisas têm demonstrado que os referentes possuem maior influência na intenção do uso se preservativo, sendo os parceiros os mais citados pelas mulheres (Oliveira, Dias, & Silva, 2005; Saldanha, 1998).

Contudo, não é suficiente saber quais são os referentes de um indivíduo para um dado comportamento, mas o quanto ele está motivado a corresponder às expectativas destas pessoas (D’Amorim, 2004). Dessa forma, a variável norma subjetiva é constituída pelas crenças acerca da opinião dos referentes e pela motivação para acatar estas opiniões. Zhang, Attané, Li e Yang (2011) propõem a distinção entre norma do parceiro sexual e norma subjetiva geral, examinando seus efeitos separadamente. O primeiro refere-se à pressão exercida pelo parceiro a usar ou não o preservativo durante as relações sexuais, enquanto que a norma subjetiva geral consiste em suas crenças sobre se amigos e familiares pensam que eles deveriam ter a prática do sexo seguro. A figura 1 resume as variáveis citadas e suas relações com a intenção comportamental, segundo a TAP.

 

Figura 1. Teoria da Ação Racional (Adaptada de Fishbein & Ajzen, 1975)

 

Neste sentido, o objetivo principal do presente estudo foi realizar um levantamento das crenças de mulheres acerca do uso do preservativo masculino pelo parceiro. Como objetivos específicos, buscou-se analisar as crenças comportamentais, quanto às vantagens e desvantagens deste comportamento, e as pessoas consideradas referentes para a realização ou não da ação. Buscou-se, também, avaliar a frequência do uso de preservativos destas mulheres durantes as relações sexuais, bem como se elas fazem uso de pílula anticoncepcional e de outros métodos contraceptivos.

Método

Amostra

Para este estudo, contou-se com uma amostra de conveniência (não probabilística) formada por 35 mulheres, de classe social menos favorecida, da cidade de João Pessoa. O critério de definição do tamanho da amostra foi o de saturação das crenças. A maioria das participantes declarou-se com renda familiar de até 1 salário mínimo (80%), de religião católica (40%) e casada (60%), com média de idade de 33,60 anos (DP = 8,74). Quando questionadas sobre a frequência da utilização do preservativo nas relações sexuais, 40% afirmou que usa “às vezes”, 37% “nunca” e 22,9% “sempre”. No que se refere ao uso da pílula anticoncepcional, 57,1% declarou não utilizar tal método contraceptivo e 20% afirmou ter se submetido à cirurgia de laqueadura.

Instrumentos

1) Entrevista estruturada: Composta de quatro perguntas abertas, a entrevista era formada por questões relacionadas às opiniões destas mulheres quanto às vantagens e desvantagens do uso do preservativo masculino pelo parceiro. Além disso, pediu-se para que elas listassem pessoas as quais, na opinião delas, gostariam, ou não gostariam, que elas realizassem tal comportamento (também chamados de referentes): (1) “Quais serão, para você, as vantagens do parceiro usar o preservativo masculino (camisinha) durante as relações sexuais?”; (2) Quais serão para você as desvantagens do parceiro usar o preservativo masculino (camisinha) durante as relações sexuais?”; (3) “Quais as pessoas importantes para você que gostariam que você e seu parceiro usassem o preservativo(camisinha) durante as relações sexuais?”; e, por fim, (4) “Quais as pessoas importantes para você que não gostariam que você e seu parceiro usasse o preservativo (camisinha) durante as relações sexuais?”.

         2) Questionário sociodemográfico: Na parte final do questionário,foram solicitadas algumas informações acerca das características sociais e demográficas, com o objetivo de caracterizar a amostra estudada, com perguntas referentes à idade, renda, religião, estado de relacionamento afetivo e uso de preservativo nas relações sexuais, tendo como opções de resposta “sempre”, “às vezes” ou “nunca”. Ademais, indagou-se quanto à utilização de pílula anticoncepcional, bem como de outro método contraceptivo (laqueadura, histerectomia, “tabelinha,” etc).

Procedimentos de coleta de dados e éticos

         Primeiramente, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética e após aceitação, iniciou-se a coleta de dados. A responsável pela pesquisa abordou as participantes em locais públicos e em uma instituição de ensino com cursos voltados às mulheres de baixa renda, apresentando-se como pesquisadora da área de psicologia. Após contato inicial, explicou-se a natureza e objetivos do estudo e, com a devida autorização da participante, deu-se início à entrevista, que teve como duração média 5 minutos.

     Análise de dados

         Inicialmente, as crenças foram agrupadas em categorias por similaridade de significados e, posteriormente, os dados foram tabulados utilizando o pacote estatístico SPSS (Statistical Package for Social Science), versão 18. Foram realizadas estatísticas descritivas, dentre as quais cálculos de frequência, afim de verificar as crenças mais emergidas nas entrevistas, bem como caracterizar a amostra (estado de relacionamento, uso de preservativo, uso de pílula, etc.). Além disso, realizou-se também o cálculo de média de idade das mulheres entrevistadas.

Resultados

  Crenças Comportamentais Modais Salientes das Vantagens do Uso do Preservativo

            Primeiramente, foi realizada análise de frequência das crenças comportamentais relatadas nas 35 entrevistas. Estas, por sua vez, foram separadas entre crenças acerca das vantagens e das desvantagens do uso do preservativo. As crenças salientes acerca das vantagens podem ser visualizadas na Tabela 1. Dentro das crenças emergidas, quatro obtiveram frequência igual ou superior a 5, sendo consideradas, então, as crenças modais salientes das vantagens do uso de preservativo. A de maior frequência foi “evitar DST”, com frequência igual a 32, seguida de “evitar gravidez”, enunciada 24 vezes nas entrevistas.

Tabela 1. Crenças Comportamentais Modais Salientes relativas às vantagens do uso do preservativo masculino

Item

Crenças modais salientes¹

f

%

1

Evitar DST

32

42,1

2

Evitar gravidez

24

31,6

3

Segurança

07

9,2

4

Prevenção

05

6,2

5

Outras crenças idiossincráticas com frequência abaixo de 5

08

10,5

Total de crenças modais salientes emitidas²                                                      68                       89,5

Total de crenças emitidas                                                                                   76                      100

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota. ¹ Obtidas em resposta à questão: “Quais serão, para você, as vantagens do parceiro usar o preservativo masculino (camisinha) durante as relações sexuais?” (n = 35). ² Corresponde a 89,5% do total das crenças enunciadas.

 

Crenças Comportamentais Modais Salientes das Desvantagens do Uso do Preservativo

         No que se refere às desvantagens do uso do preservativo, as crenças enunciadas nas entrevistas podem ser observadas na Tabela 2. Observamos que a crença de maior frequência foi “incômodo”, correspondendo a 28,8% do total das crenças emitidas. Em segundo lugar, “pouco prazer” foi também uma das crenças emitidas pelas mulheres, referindo-se a 15,2% do total, seguida de “nenhuma”, com 15,2%, “parar para colocá-lo”, com 10,6%, e “homem não gosta”, com 7,6%.

Tabela 2. Crenças Comportamentais Modais Salientes relativas às desvantagens do uso do preservativo masculino

Item

Crenças modais salientes¹

f

%

1

Incômodo

19

28,8

2

Pouco prazer

10

15,2

3

Nenhuma

09

15,2

4

Parar para colocá-lo

07

10,6

5

Homem não gosta

05

7,6

6

Outras crenças idiossincráticas com frequência abaixo de 5

17

22,6

Total de crenças modais salientes emitidas²                                                      05                       77,4

Total de crenças emitidas                                                                                  66                       100

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota. ¹ Obtidas em resposta à questão: “Quais serão, para você, as desvantagens do parceiro usar o preservativo masculino (camisinha) durante as relações sexuais?” (n = 35). ² Corresponde a 77,4% do total das crenças enunciadas.

Crenças Normativas Modais Salientes Favoráveis ao Uso do Preservativo       

         No que diz respeito às crenças normativas, também chamadas de referentes, quanto à favorabilidade ao uso do preservativo, como visto na Tabela 3, a “família”, incluindo pai, mãe e irmã, foi a mais citada, correspondendo a 35,7% das emitidas. Em segundo lugar, os “médicos”, com 17,9% do total.

Tabela 3. Crenças Normativas Modais Salientes Favoráveis uso do preservativo masculino

Item

Crenças modais salientes¹

f

%

1

Família (pai, mãe, irmã)

20

35,7

2

Médicos

10

17,9

3

Ninguém

7

12,5

4

Amigos

6

10,7

5

Outras crenças idiossincráticas com frequência abaixo de 5

13

23,2

Total de crenças modais salientes emitidas²                                                      43                      76,8

Total de crenças emitidas                                                                                  56                       100

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota. ¹ Obtidas em resposta à questão: “Quais pessoas importantes para você acham que você deveria usar preservativo nas relações sexuais com o seu parceiro?” (n = 35). ² Corresponde a 76,8 % do total das crenças enunciadas.

Crenças Normativas Modais Salientes Contrárias ao Uso do Preservativo

Além disso, quando indagadas sobre as pessoas que não gostariam que elas e seus parceiros utilizassem preservativo masculino em suas relações, duas respostas tiveram porcentagem iguais, “ninguém” e “parceiro”, ambas com 35,1% do total das crenças. Além dessas, “amigos” também apareceu como um dos referentes contrários ao uso do preservativo, como pode ser visto na Tabela 4.

Tabela 4. Crenças Normativas Modais Salientes contrárias ao uso do preservativo

Item

Crenças modais salientes¹

f

%

1

Ninguém

13

35,1

2

Parceiro

13

35,1

3

Amigos

05

13,5

5

Outras crenças idiossincráticas com frequência abaixo de 5

06

16,3

Total de crenças modais salientes emitidas²                                                      31                       83,7

Total de crenças emitidas                                                                                  37                        100

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota. ¹ Obtidas em resposta à questão: “Quais pessoas importantes para você acham que você não deveria usar preservativo nas relações sexuais com o seu parceiro?” (n = 35). ² Corresponde a 83,7 % do total das crenças enunciadas.

 

Frequência de Uso do Preservativo, Pílula Anticoncepcional e Outros Métodos Contraceptivos

         No que se refere à frequência do uso do preservativo pelos parceiros em suas relações sexuais, a maioria das mulheres participantes responderam “às vezes”. Outra grande parte delas afirmou “nunca” utilizar. No que tange ao uso da pílula anticoncepcional, a maioria (57,1%) declarou não fazer uso. Ambos resultados são descritos nas Tabelas 5 e 6.

 

Tabela 5. Frequência de uso do preservativo

 

 

Nunca

Às vezes

Sempre

 

f

%

f

%

 

 

Uso do preservativo

13

37,1

14

40

08

22,9

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 6. Frequência de uso da pílula anticoncepcional

 

Sim

Não

 

f

%

f

%

Uso da pílula anticoncepcional

15

42,9

20

57,1

        

 

 

 

 

 

 

As mulheres que não fazem uso nem de pílula nem de preservativo, em sua maioria, afirmam terem feito a cirurgia de laqueadura ou outros tipos de métodos contraceptivos, como a chamada “tabelinha” ou histerectomia.

Tabela 7. Outros métodos contraceptivos

Método Contraceptivos

f

%

1

Laqueadura

7

20,0

2

Histerectomia

2

5,7

3

Tabelinha

2

5,7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Discussão

Este estudo teve como principal objetivo conhecer as crenças modais salientes de mulheres de baixa renda, da cidade de João Pessoa, acerca do uso do preservativo masculino com os seus parceiros nas relações sexuais. Como objetivos específicos, buscou-se analisar as crenças comportamentais quanto às vantagens e desvantagens deste comportamento e as pessoas consideradas referentes para a realização ou não da ação. Buscou-se, também, avaliar a frequência do uso de preservativos destas mulheres durantes as relações sexuais, bem como o de pílula anticoncepcional e os outros métodos contraceptivos utilizados.

Os resultados das crenças comportamentais acerca das vantagens do uso do preservativo evidenciam o conhecimento a respeito, ou seja, as mulheres entrevistadas demonstraram saber que, além do papel contraceptivo, a camisinha possui também a função de evitar doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, esta última vantagem teve maior frequência que a primeira. Neste sentido, fica evidente que as campanhas nacionais de incentivo à importância do uso da camisinha nas relações sexuais têm surtido efeito, proporcionando à população, mesmo aquela menos favorecida, como o da presente amostra, a compreensão do comportamento preventivo no ato sexual. Resultados semelhantes foram observados no estudo de Alves e Brandão (2009), os quais afirmam que os indivíduos têm conhecimento acerca da relação entre o sexo desprotegido e o risco de contrair DST’s.

Sobre as desvantagens, muitas mulheres afirmaram sentir incômodo e pouco prazer quando o parceiro utiliza o preservativo. Estas crenças podem estar associadas à pouca lubrificação feminina que, mesmo atrelada àquela presente na camisinha, não parece ser suficiente para uma relação satisfatória. Dessa forma, a crença de que sexo com preservativo não proporciona prazer diminui a probabilidade do uso. Alguns pesquisadores têm encontrado em seus estudos que muitas mulheres optam pela não utilização do preservativo por este irritar e machucar, sobretudo após um tempo considerável de uso continuado (Galvão, Ramos-Cerqueira, Ferreira, & Souza, 2002; Melo, Oliveira, Nunes, & Silva, 2012).

É importante destacar a importância da inserção de outros recursos que aumentem o prazer feminino e possibilite uma relação segura, sem incômodo e falta de prazer, a exemplo do uso de lubrificantes ou a troca do preservativo quando o mesmo estiver seco (Melo et al., 2012). Estas são algumas estratégias que podem aumentar as chances da população fazer uso deste contraceptivo, mas para isso é importante também que os lubrificantes, por exemplo, estejam de fácil acesso à população.

Apesar disso, outras mulheres afirmaram ver nenhuma desvantagem no uso do preservativo. É preciso interpretar este resultado com certo cuidado, tendo em vista que pode ser consequência da desejabilidade social (Crowner & Marlowe, 1960). É possível que o viés da presença da pesquisadora no momento da aplicação, bem como o tema abordado, influencie as participantes a afirmarem não ver desvantagem do sexo protegido, mesmo que esta afirmativa não corresponda com a realidade.

As duas últimas crenças das desvantagens de maior frequência foram a inconveniência de interromper a relação para a colocação do preservativo e o fato de que, para elas, os homens não gostam de usá-lo, o que corrobora estudos anteriores (Anjos et al., 2012; Sousa, Santo & Motta (2008); Vieira et al., 2004; Silva, 2002). Neste sentido, pode-se perceber que um dos pontos negativos do uso do preservativo, sob o ponto de vista das mulheres, é o risco de desagradar o companheiro, evidenciando o papel das relações de gênero na tomada de decisão.

No que se refere às crenças normativas, ou seja, os referentes considerados pelas participantes, o grupo mais citado como sendo a favor de que elas utilizem o preservativo foi a família, o que demonstra que na percepção delas, os entes mais próximos, sobretudo as mães, preocupam-se mais com a prática do sexo seguro. Como afirmam Oliveira et al. (2004), a família pode se tornar um fio condutor na conscientização e prática do sexo seguro, diminuindo significativamente os casos de infecção pelo HIV ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Outro grupo bastante mencionado foram os médicos, demonstrando haver consciência de que estes profissionais recomendam o uso do preservativo como método de prevenção de gravidez e DST’S. Por fim, os amigos também foram citados, evidenciando a possibilidade da existência de pessoas próximas que discutem a importância da prática do sexo seguro com elas. Alguns estudos têm sugerido que estes são as pessoas mais relatadas como fonte de informação de sexualidade pelos adolescentes (Alves & Brandão, 2009; Camargo & Botelho, 2007; Pereira & Costa, 2010). Parece, então, que além dos jovens, adultos também buscam ou discutem informações e opiniões acerca da sexualidade e do sexo com prevenção, ainda que em proporção menor.

Não obstante, as entrevistadas também citaram os amigos como referentes contrários ao uso do preservativo, sugerindo que o ciclo social destas mulheres é constituído por pessoas favoráveis e contrárias ao uso contínuo do preservativo, resultado também encontrado por Oliveira, Abreu, Barroso e Vieira (2009) em um estudo com jovens. Ademais, além dos amigos, as respondentes avaliaram como referentes negativos os próprios parceiros, sendo considerado um dado que merece maior atenção. Uma vez que os namorados ou cônjuges demonstram resistência ao uso do preservativo, menor a possibilidade de negociação as mulheres possuem e, consequentemente, maior situação de vulnerabilidade ela se encontra, como demonstram pesquisas anteriores (Madureira & Trentini, 2008; Maia, Guilhem & Freitas (2008). Por fim, com mesmo percentual deste último, parte da amostra declarou que ninguém gostaria que elas não utilizassem preservativo. Apesar de ser um dado bastante interessante, é necessário cuidado ao interpretá-lo, pois, da mesma maneira que pode ser um dado real, é possível também que ocorra em detrimento do viés da presença da pesquisadora no momento da entrevista, influenciando algumas mulheres a emitirem tal resposta por esperarem que esta seja a mais correta. Por outro lado, também há a possibilidade de corresponder à realidade, significando que, para estas mulheres, a decisão de não fazer sexo protegido diz respeito unicamente a ela e ao parceiro.

No que diz respeito ao uso do preservativo, a frequência variou entre às vezes ou nunca, o que indica pouca prática de sexo seguro. Das trinta e cinco mulheres entrevistadas, apenas oito declaravam utilizar preservativo nas relações sexuais. Pereira e Costa (2010), em estudo com jovens do ensino médio, relatam que entre homens e mulheres, quase metade das meninas declararam sempre utilizar o preservativo. Apesar destes resultados, estes mesmos autores constatam que, dos quatorze jovens em relacionamentos estáveis, onze nunca praticam sexo com prevenção, evidenciando a vulnerabilidade das meninas entrevistadas e companheiras dos meninos, além, é claro, dos próprios rapazes.

Quanto ao uso da pílula anticoncepcional, mais da metade das mulheres entrevistadas afirmaram não utilizar. Das mulheres que afirmaram não usar nem preservativo, nem pílula, sete indicaram que o método contraceptivo utilizado por elas foi o procedimento de laqueadura. Tendo em vista que a média de idade da amostra foi 33,6 anos, pode-se perceber que esta é uma alternativa utilizada com certa frequência por mulheres em idade fértil, possivelmente a partir do momento em que não querem ter mais filhos. Neste sentido, uma vez impossibilitada de engravidar, a mulher reduz ou cancela o uso do preservativo, o que denota ainda a vinculação do uso do preservativo apenas como um método contraceptivo, esquecendo-se da importância para a prevenção de DST’s. Nicolau et al. (2011), em estudo do perfil de mulheres laqueadas, identificou que das 88 mulheres questionadas sobre o uso do preservativo com seus parceiros, apenas 20 declaram a prática do sexo seguro.

 

 

Referências

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Crowner, D., & Marlowe, D. (1960). A new scale of social desirability independent of psychopathology. Journal of Consulting Psychology, 24, 349-354.http://dx.doi.org/10.1037/h0047358

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Autores

Taiane Regina Pereira Cabral- Mestre em Psicologia Social (UFPB)- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ( http://lattes.cnpq.br/6621920752392019)

Ana Alayde Werba Saldanha- Pós-Doutora em Psicologia (USP)- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (http://lattes.cnpq.br/3894708493299308)

Arlene Kely Alves de Amorim- Mestre em Psicologia (UFPB)- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ( http://lattes.cnpq.br/3619321981750603)

 

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