As representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos  e pelos grupos para fixar posições em relação a eventos, situações, objetos e comunicações (JODELET, 1990). 

Resumo

As representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos  e pelos grupos para fixar posições em relação a eventos, situações, objetos e comunicações (JODELET, 1990). Esta pesquisa descritiva objetiva, através de um estudo exploratório, levantar dados sobre a representação social da psicologia e do fazer dos psicólogos. Buscou-se registrar a freqüência com que as pessoas procuraram o trabalho do psicólogo; quais as características da profissão mais conhecidas pela população, visando observar os aspectos sociais, econômicos que se encontram presentes na busca do trabalho do psicólogo. O estudo foi realizado com cento e noventa e seis pessoas com idade entre 15 e 81 anos, de ambos os sexos, com nível de escolaridade do ensino fundamental até o ensino superior completo. A escolha dos sujeitos foi aleatória e o instrumento de pesquisa utilizado foi uma entrevista livre semi-estruturada através de um questionário dividido em três eixos. A pesquisa realizou-se durante o evento “Psicologia na Praça”, na praça central de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Os resultados mostraram que, no geral, as pessoas reconhecem a psicologia como uma profissão que beneficia e cuida das pessoas, embora seja representada no imaginário dos respondentes como algo misterioso e sentido como persecutório, o psicólogo é visualizado como aquele que “controla” as pessoas, mostrando um distanciamento entre a psicologia científica e a percebida pelo senso comum. Conclui-se que as pessoas ainda procuram o psicólogo em situações extremas, não há suficiente conhecimento da extensão dos serviços prestados dentro dessa área de conhecimento científico. A favorável relação entre teoria e prática ainda não se encontra consolidada.

Palavras-chave: representação social, psicologia, profissão de psicólogo.

Abstract

Social representations are presented as a way to interpret the everyday reality, a form of knowledge of mental activity developed by individuals and groups to secure positions on events, situations, objects and communications (Jodelet, 1990). This descriptive study aims, through an exploratory study, collecting data on the social representation of psychology and psychologists do. We tried to record the frequency with which people sought work of psychologist, what are the characteristics of the profession better known by the population in order to observe the social, economic factors that are present in the job search psychologist. The study was conducted with one hundred ninety-six people aged between 15 and 81 years, of both sexes, with education level of primary education to higher education altogether. The choice of subjects was random and the survey instrument used was a semi-structured interview free through a questionnaire divided into three areas. The research took place during the event "Psychology in the Square", in the central square of a city in the state of São Paulo. The results showed that, overall, people recognize psychology as a profession that enjoys and cares for the people, although it is represented in the minds of respondents as something mysterious and felt as persecutory, the psychologist is viewed as one that "controls" the people , showing a gap between scientific psychology and perceived by common sense. We conclude that people still seek the psychologist in extreme situations, there is sufficient knowledge of the extent of services provided within this area of ​​scientific knowledge. A favorable relationship between theory and practice is not yet consolidated.

Keywords: social representation, psychology, psychologist profession.

Resumen

Las representaciones sociales se presentan como una forma de interpretar la realidad cotidiana, una forma de conocimiento de la actividad mental del desarrollo de individuos y grupos para asegurar posiciones sobre acontecimientos, situaciones, objetos y comunicaciones (Jodelet, 1990). Este estudio descriptivo pretende, a través de un estudio exploratorio, la recogida de datos sobre la representación social de la psicología y los psicólogos. Tratamos de registrar la frecuencia con que la gente busca trabajo de psicólogo, ¿cuáles son las características de la profesión más conocido por la población con el fin de observar los factores sociales, económicos que están presentes en el psicólogo búsqueda de empleo. El estudio fue realizado con ciento noventa y seis personas de entre 15 y 81 años, de ambos sexos, con un nivel de educación de la educación primaria a la educación superior por completo. La selección de los sujetos fue aleatoria y el instrumento de encuesta utilizado fue una entrevista semi-estructurada gratuita a través de un cuestionario dividido en tres áreas. La investigación se llevó a cabo durante el evento "La psicología en la Plaza", en la plaza central de una ciudad en el estado de São Paulo. Los resultados mostraron que, en general, la gente reconoce la psicología como una profesión que disfruta y se preocupa por la gente, a pesar de que está representada en la mente de los encuestados como algo misterioso y me sentí como persecutoria, el psicólogo es visto como uno que "controla" el pueblo , que muestra una brecha entre la psicología científica y percibida por el sentido común. Llegamos a la conclusión de que las personas siguen buscando el psicólogo en situaciones extremas, hay un conocimiento suficiente del alcance de los servicios prestados en esta área del conocimiento científico. Una relación favorable entre la teoría y la práctica todavía no está consolidado.

Palabras clave: la representación social, la psicología, la profesión de psicólogo.

Introdução

         A teoria das representações sociais surgiu na Europa em 1961, a partir da de Psychanalyse: son image e son public de Serge Moscovici.

            O conceito de “representação social”, da sociologia, de Émile Durkheim, havia sido esquecido, mas, de uns tempos para cá, tem sido largamente utilizado nas ciências humanas. O resgate foi feito por Serge Moscovici, em 1961, e busca designar fenômenos múltiplos observados e estudados em termos de complexidade individuais e coletivas ou psicológicas e sociais. Hoje em dia, o termo representação social saiu da órbita da sociologia para gravitar na da psicologia social (SÊGA, 2000).

            A representação que um grupo elabora sobre o que deve fazer para criar uma rede de relações entre seus componentes faz com que defina os mesmos objetivos e procedimentos específicos. Descobre-se um primeiro passo de representação social: a elaboração, por uma coletividade, sob indução social, de uma concepção de uma tarefa que não leva em conta a “realidade” do comportamento social, mas a organização do funcionamento do comportamento cognitivo do grupo.

            As representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e pelos grupos para fixar suas posições em relação a eventos, situações, objetos e comunicações que lhes concernem.

            A representação é sempre a atribuição da posição que as pessoas ocupam na sociedade, toda representação social é representação de alguma coisa ou de alguém. Ela não é cópia do real, nem cópia do ideal, nem a parte subjetiva do objeto, nem a parte objetiva do sujeito, ela é o processo pelo qual se estabelece a relação entre o mundo e as coisas.

            Para Jodelet (1990), a representação social tem cinco características, a saber: é sempre representação de um objeto; tem sempre um caráter imaginético e a propriedade de deixar intercambiáveis a sensação e a idéia, a percepção e o conceito; tem um caráter simbólico e significante; tem um caráter construtivo; tem um caráter autônomo e criativo.

            O sistema de interpretação tem uma função de mediação entre o indivíduo e o seu meio e entre os membros de um mesmo grupo. Capaz de resolver e exprimir problemas comuns torna-se código, linguagem comum, servindo para classificar os indivíduos e eventos, construir tipos nos quais os outros indivíduos e outros grupos serão avaliados e posicionados. A representação social se torna um instrumento referencial que permite a comunicação em uma mesma linguagem.

            Por seu papel na orientação das condutas e práticas sociais, as representações sociais são objeto de estudo que restitui à Psicologia Social as suas dimensões históricas, sociais e culturais. A teoria das representações sociais deveria permitir uma aproximação entre a psicologia social e as ciências sociais, buscando unificar uma série de questões situadas entre essas disciplinas.

            Ainda, segundo Jodelet (1990), as representações sociais nascem no curso das variadas transformações que geram novos conteúdos. Durante essas metamorfoses, as coisas não apenas se modificam, são também vistas de um ponto de vista mais claro. As pessoas tornam-se receptivas a manifestações que anteriormente lhes haviam escapado. Os preconceitos são dificilmente dissipados, os estereótipos não são enfraquecidos, pois não existe nada na representação que não esteja na realidade, exceto a representação em si.

         Identificar e entender a representação social do psicólogo na ótica de sujeitos não psicólogos, implica inicialmente em uma conceituação do significado do termo.

A representação social, enquanto objeto de estudo da Psicologia Social, permite a articulação do social e do psicológico, tornando-se um instrumento de compreensão e de transformação da realidade (GOMES, 1994:130).

Quanto a origem das representações sociais, Durkheim diz: as formas coletivas de agir e pensar tem uma realidade fora dos indivíduos que, em cada momento, conformam-se a elas. São coisas que têm existência própria. O individuo as encontra formada e nada pode fazer para que sejam ou não diferentes do que são (DURKHEIM, 1956 apud HERZLICH, 2005).

São produtos de uma imensa cooperação que se estende não apenas no espaço, mas no tempo; para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos associaram, misturaram, combinaram suas idéias e sentimentos; longas séries de gerações acumularam aqui sua ciência e saber (DURKHEIM, 1978 apud SÁ, 1995).

As representações sociais como algo presente na sociedade de ordem política, científica e humana que não tiveram tempo suficiente para se solidificar em tradições imutáveis, sendo algo mais contemporâneo e comum. Para GUERRA (PEREIRA, 2002 apud GUERRA, 2002), essas representações sociais são instaladas por pessoas que, primeiramente, imaginam e definem o mundo, e depois, o observam, ou seja, o individuo cria uma imagem, definição que vai de encontro ao pensamento de Moscovici.

As representações sociais podem ser positivas ou negativas.  Segundo GUERRA (PEREIRA, 2002 apud GUERRA, 2002) existe uma tendência sistemática na autovalorização e na valorização do próprio grupo, concomitantemente a uma desvalorização do outro, mas não há consenso de como ou por que isso ocorre.

 Para indicar esta ação discriminatória, com característica de desvalorização, utilizamos o conceito de Estereótipo.

Conceito de estereotipo: é uma espécie de crença ou representação, simplificadora e rígida, partilhada pelos membros da sociedade, relativo a pessoas, grupos ou instituições que tem característica cultural.

E como uma fotografia na cabeça do percebedor, onde aconteceriam todos os processos discriminatórios descritos por ROLAND e PAROT (1991).

O trabalho de LAKATOS e MARCONI (2006) segue também uma definição semelhante ao

dos dois dicionários .Construções mentais falsas, imagens e idéias de conteúdo alógico que estabelece critérios socialmente falsificados (LAKATOS e MARCONI 2006:108)

BOCK (1995) analisou o discurso de 11 psicólogos, com mais de oito anos de profissão, em um estudo verificando a representação que o psicólogo fazia de si mesmo, a representação da profissão e outras representações, como, por exemplo, a ciência. Na análise feita em relação à Psicologia, chegou-se a conclusão que a ciência é importante e abrangente, contudo, a sua prática não atinge a todos, existe um fazer pequeno, especificamente sobre a representação de si mesmo, o psicólogo parece ser um profissional da vida. Uma profissão de ajuda.

Dos estudos encontrados, o de WEBER (2002), é o que melhor representa a intenção da presente pesquisa, embora, não se tratando de uma réplica da mesma. WEBER (2002) realizou um estudo na cidade de Curitiba em 1990 com o intuito de verificar o estereótipo do psicólogo e da Psicologia. Doze anos depois, a pesquisa foi replicada na mesma cidade e comparada à primeira. Os sujeitos eram pessoas de ambos os sexos, “leigas” em psicologia entrevistados de maneira randômica, parte no dia 27 de agosto de 2002, data em que se comemora o dia do psicólogo, em uma rua movimentada de Curitiba, e parte respondeu ao questionário disponibilizado em postos de saúde da cidade.

Descobriu-se, na pesquisa de 2002, sobre estereótipo da Psicologia que 43% dos entrevistados identificam a Psicologia como um estudo ou conhecimento; 37,5% disseram que seu objeto de estudo são as pessoas/ ser humano/ personalidade; e, sobre o estereótipo do psicólogo que 53% identificam-no como um profissional/ terapeuta/ orientador; 55% responderam que este ajuda/ orienta/ conversa com as pessoas; 35,7% afirmaram já ter procurado um psicólogo e 75,8% conhecem alguém que já procurou um psicólogo, e os motivos que mais levam a procurá-lo são relacionados à família/relacionamentos (21%) e depressão/tristeza (21%). Quanto aos locais associados à imagem do psicólogo, 57,8% se referiram a vários lugares, como escola, clínica e empresa, mas ainda com um grande número de respostas voltadas especificamente para clínicas e hospitais (34,8%) (WEBER, 2002).

A maioria (mais de 90%) discorda das afirmações que uma pessoa só deve procurar um psicólogo se tiver problemas mentais; que ninguém precisa de um psicólogo; que este serve somente para loucos; que uma criança dificilmente precisa de um psicólogo, e sim de umas boas palmadas; e, concorda que uma pessoa pode procurar um psicólogo quando precisar de ajuda em seus problemas; se estiver com problemas de comportamento; se estiver com problemas de vício, depressão, estresse etc.; se precisar de ajuda e não encontrar na família, amigos; e, que o psicólogo pode ajudar os pais a educarem melhor seus filhos (WEBER, 2002). A autora, na introdução de seu trabalho, expõe que muitas vezes a visão estereotipada é do psicólogo, ou seja, muitas vezes o profissional de psicologia acredita ser visto de uma maneira pela população, e nem sempre isto ocorre na realidade, pois, em sua análise, conclui que, ainda que haja uma visão equivocada e limitada, fortemente associada à prática clínica, os resultados mostraram uma evolução do conceito em relação às pesquisas de 1990 e 2002, houve uma aproximação maior entre a imagem e realidade da profissão e da ciência (WEBER, 2002). Participaram da pesquisa 100 pessoas1 de ambos os sexos, com idade entre 18 e 60 anos, de diversas classes econômicas, moradores da cidade de Mogi das Cruzes, divididos em dois grupos de 50 indivíduos, o grupo A de não-universitários, sendo considerados participantes desde indivíduos não alfabetizados até os que possuíam segundo grau completo, e grupo B de universitários, sendo considerados neste grupo estudantes do ensino superior e graduados. Entre observações e sugestões, conclui-se que a representação social do psicólogo em Mogi das Cruzes apresenta diferenças sutis em relação à escolaridade, está mais associada à prática clínica, sem, contudo, findar-se nela e que quando estimulados pelas questões fechadas, a visão que se tem da profissão é mais próxima da realidade, não havendo assim, um estereótipo, fortemente ligado a preconceito, que se supunha na justificativa.

Cenci (2006) cita a realização de uma pesquisa para investigar a representação social do psicólogo/psicologia para as pessoas de baixa renda localizado numa cidade da região norte do Rio Grande do Sul. O fundamento teórico dessa investigação é a Teoria das Representações Sociais na concepção de autores como Chizzotti (1998), Guareschi (2000), e a predominância do modelo médico-clínico tradicionalmente inserido na atuação profissional dessa categoria.

            Nessa pesquisa foram realizadas vinte e três entrevistas semi-estruturadas com questões abertas em visitas domiciliares às famílias do bairro (bairro de baixa renda). As respostas foram categorizadas e posteriormente analisadas na tentativa de construir as representações sociais dos entrevistados sobre o psicólogo e a psicologia.

            Os resultados indicaram que a maioria dos participantes da pesquisa não possui representação do que seja um psicólogo. As respostas revelaram que os psicólogos e a psicologia são entendidos como algo distante desses moradores e, por essa razão, difícil de ser representado. As falas referem uma representação social ligada a “alguma coisa mental”, ao profissional que desenvolve um trabalho mais ligado a crianças em idade escolar com problemas adaptativos ou a adultos com problemas.

            Os dados analisados indicam que ainda existem pessoas, principalmente de baixa renda, que não têm acesso ao serviço oferecido pela psicologia e aos meios de comunicação de massa que auxiliem na construção da representação desse profissional. Como os entrevistados não têm clareza do que seja um psicólogo, esses profissionais são representados com distanciamento. Conclui-se, enfim, que o psicólogo e a psicologia, no contexto da população de baixa renda, é uma profissão/trabalho que se encontra longe da maioria da população.

            Com o objetivo de apresentar dados de pesquisa sobre a representação social do Psicólogo e de sua prática, More, Leiva e Tagliari (2001), analisaram através de um questionário de sentenças estruturadas, em uma amostra de funcionários, técnicos e pacientes que procuravam o atendimento psicológico em postos de saúde da cidade de Florianópolis (SC), a percepção dos mesmos sobre o que é e faz o psicólogo. Constatou-se pela análise das respostas que a representação social do psicólogo é a de um profissional que lida com os problemas emocionais, que ajuda, orienta e conversa, estando a sua prática associada a uma variedade de dificuldades, desconhecendo-se propostas de tratamento psicológico. Essas constatações relevam a importância do reconhecimento da especificidade do trabalho do psicólogo na equipe de saúde, tanto pelas pessoas que procuram o seu serviço, como pelo profissional que ali trabalha.

            Com a mesma preocupação de conhecer e entender as representações sociais do psicólogo pela comunidade, Lahm, Boeckel (2008), realizaram um estudo com a finalidade de identificar as representações sociais do profissional de psicologia por pacientes da área Clínica de um Centro de Serviço-escola do Rio Grande do Sul. A pesquisa utilizou questionário de perguntas abertas CE uma abordagem de Análise de Conteúdo das respostas. Esse questionário foi aplicado em 22 clientes que realizaram triagem no Centro de Serviço-Escola de Psicologia. Os resultados evidenciaram aspectos relacionados à função de entender, ajudar, escutar, orientar e auxiliar na resolução de problemas e conflitos inerentes ao âmbito de vida dos indivíduos. Essas considerações, relacionadas a aspectos positivos, corroboram com os achados da pesquisa anteriormente descrita.

Psicologia na Praça: pesquisa sobre Representação Social do Psicólogo

Desde o ano de 2001, quando se consolidou a Minuta das Novas Diretrizes Curriculares para os cursos de Psicologia no Brasil, dando início a uma série de discussões sobre o documento em nível dos Conselhos Federal e Regional e em relação às diferentes associações que compõem o universo da psicologia, ficou evidenciada a proposta de mudança no perfil da formação do psicólogo brasileiro.

O documento que homologa a implantação das Diretrizes Curriculares para os cursos de Psicologia no Brasil: - Resolução nº 8 de 12/04/2004, Ministério da Educação, enfatiza um perfil de formação para o psicólogo centralizado no comprometimento competente e histórico com as demandas sociais. Reforça a necessidade de transformações não apenas através de reformulações legais, mas de uma inserção ativa e interativa de sujeitos conscientes de seus papéis, priorizando o nível de ação coletiva. (BRASIL/MEC, 2004).

Na tentativa de direcionar a formação dos futuros psicólogos do curso de Psicologia do Centro Unisal, Unidade de Ensino de Lorena para responder aos novos parâmetros propostos pelas Diretrizes Curriculares, criou-se no ano de 2001 o projeto “Psicologia na Praça”.

A vocação da psicologia sempre foi desvendar a subjetividade das pessoas para elas próprias. Para isso, é necessário chegar às pessoas de forma a debater e refletir com elas seus problemas, suas dificuldades e as principais estratégias para superá-las. Para que essa aproximação aconteça, é importante que o psicólogo se apresente à sociedade como pessoa comum, apenas dotada de conhecimentos científicos e estratégias psicológicas que possibilitam ajudar o outro a desvendar o mistério da vida e da natureza humana. Por isso, é fundamental que essas duas realidades se aproximem e se encontrem, desfazendo mitos e fantasias criados em torno do “ser psicólogo”. A “Psicologia na Praça” tem sido uma excelente oportunidade desse encontro.

Anualmente, desde o ano de 2001, no dia comemorativo ao dia do  psicólogo, 27 de agosto, esse evento ocorre na Praça Dr. Arnolfo de Azevedo, praça central da cidade de Lorena, Estado de São Paulo. Tem como principais objetivos:- oferecer à população da cidade a oportunidade de conhecer o verdadeiro sentido do “ser psicólogo”; oferecer aos alunos e professores do curso de Psicologia do Centro Unisal – Lorena, a oportunidade de mostrar e demonstrar o seu trabalho, especialmente no que diz respeito à prevenção, educação, saúde mental e qualidade de vida; oferecer à população lorenense orientação e esclarecimentos quanto à prestação de serviços de atendimento psicológico através do Serviço de Psicologia Aplicada; oferecer atividades práticas, incluindo pesquisa, no campo da Psicologia, às diferentes faixas etárias da população de Lorena: crianças, adolescentes, jovens e adultos.           

Método

Trata-se de uma pesquisa descritiva, através de um estudo exploratório sobre a representação social da psicologia. De acordo com Rampazzo (2002), a pesquisa descritiva, procura, pois, descobrir, com a precisão possível, a frequência com que um fenômeno ocorre, sua relação e sua conexão com outros, sua natureza e suas características. Buscou-se com isso registrar a frequência com que as pessoas procuraram o trabalho do psicólogo, quando procuraram, e quais as características da profissão são mais conhecidas pela população, o que nos denuncia os aspectos sociais, econômicos que estão presentes na busca do trabalho do psicólogo.

Sujeitos

O estudo exploratório foi realizado com cento e noventa e seis pessoas com idade entre 15 a 81 anos, sendo 100 pessoas do sexo feminino e 96 do sexo masculino, com grau de escolaridade desde o fundamental incompleto ao superior completo, com representantes de diversas religiões, sendo que em sua maioria católicos. O estado civil e profissões de níveis variados. A escolha dos sujeitos foi de forma aleatória entre a população circulante no evento “Psicologia na Praça”, evento comemorativo da profissão de psicologia que aconteceu na praça da cidade de Lorena, SP.

Instrumentos

O instrumento utilizado foi uma entrevista livre semi- dirigida através de um questionário divididos em 3 eixos ou fatores ou variáveis  nortearam a  análise sobre a representação social do profissional da Psicologia.

No primeiro item encontram-se os dados referentes a identificação e informações gerais sobre os participantes,  como a faixa etária, sexo, escolaridade, religião, profissão e estado civil.

 No segundo item os dados se referem à representação social dos respondentes sobre a procura do atendimento psicológico, como motivo da procura, a frequência, local de atendimento e qualidade do atendimento.

No terceiro item se focaliza as contribuições da Psicologia às pessoas que a procuram levantados através de dados como, benefícios e aspectos negativos do trabalho realizado.

Procedimentos

Como se tratou de uma pesquisa descritiva, não houve necessidade de solicitar autorização por escrito de nenhum dos participantes, uma vez que, ao ser convidado a participar o sujeito tinha total liberdade de escolha e, por se tratar de uma pesquisa descritiva que teve como objetivo o levantamento de informações de acordo com as opiniões do público presente sobre o fenômeno em estudo, ou seja, a representação da Psicologia na cidade.

Inicialmente para a realização da pesquisa, foi construído questionário - formulário, com perguntas fechadas de múltipla escolha, que foram aplicados, pelos profissionais durante o evento da Psicologia na Praça.

O sujeito visitante do evento era abordado e convidado a responder algumas questões sobre a Psicologia, á medida que respondia o entrevistador anotava as respostas no formulário em questão.

Análise dos Dados

Após a aplicação, passou-se a uma tabulação dos dados, buscando realizar uma análise quantitativa dos dados para cada questão determinando assim o percentual das respostas e mais tarde a procedeu–se a análise qualitativa buscando compreender qual a população que procura o serviço de psicologia, quem conhece, quais as motivações da busca pelo trabalho do Psicólogo, quais as críticas feitas ao trabalho, buscando assim a uma compreensão qual a representação do papel do Psicólogo para esse grupo de sujeitos, como uma pequena amostrada concepção da profissão nesta cidade que tem uma Faculdade de Psicologia há 40 anos.

Análise Quantitativa

Análise Qualitativa

Participaram da pesquisa 196 (cento e noventa e seis) pessoas, sendo 100 (cem) do sexo feminino e 96 (noventa e seis) do sexo masculino, com idade entre 15 anos e 85 anos e grau de escolaridade variados, de diversas classes econômicas, pertencentes à diversas profissões. Com relação ao estado civil, 40% são casados, 42% solteiros. Dos respondentes, 81% são de religião católica.

A análise dos dados mostra que a representação social da psicologia para a maioria das pessoas entrevistadas é a de um profissional que auxilia no autoconhecimento, contribui para a elevação da auto-estima, auxilia na resolução de problemas, orientando-as. Essas afirmações demonstram o reconhecimento da psicologia como uma profissão que beneficia e cuida das pessoas. Estes resultados confirmam a pesquisa de Weber (2002) em relação ao estereótipo da Psicologia e ao papel e trabalho desenvolvido pelo psicólogo. No entanto, embora conheçam o trabalho do psicólogo, 62% dos entrevistados não tinha a experiência de ter passado por um atendimento psicológico, alegando não ter necessidades (67% das 127 respostas) e os sujeitos que procuraram ajuda (38%), quando indagados sobre o motivo da procura pelo atendimento, 20% apontam a depressão, 20, 25% problemas familiares, 25%, problemas emocionais e 17% e outros motivos, confirmando a pesquisa de Censi (2006), que mostra a predominância do modelo médico- clínico na representação da psicologia como profissão de saúde, salientando que as pessoas somente  recorrem a busca de ajuda em situações  de doença ou de agravamento de sintomas.

É interessante apontar a contradição apresentada; ao mesmo tempo em que as pessoas reconhecem a Psicologia como benéfica à saúde, portanto, como uma profissão de ajuda e de cuidado, e avalie o trabalho recebido como bom ou muito bom, quando questionados sobre os aspectos negativos da Psicologia, 67% apontam que a Psicologia não tem fundamento e 33% afirma que o Psicólogo “controla”, o que parece confirmar uma concepção estereotipada a cerca dessa profissão. Ou seja, uma espécie de crença ou representação simplificadora e rígida partilhada pelos membros da sociedade, relativo a pessoas, grupos ou instituições que tem características culturais consolidadas (Rolando e Parot, 1991).

Assim, observa-se que a Psicologia fica representada no imaginário como algo misterioso e sentido como persecutório, como aquele que controla; que há um distanciamento entre o que é Psicologia enquanto ciência e a Psicologia no sentir e pensar das pessoas em nível de senso comum. Uma discrepância entre a teoria e a prática. A população conhece a prática, mas, não conhece as bases teóricas da Psicologia, seus fundamentos científicos, portanto, ela acaba sendo representada como algo misterioso.

A dicotomia também se faz presente no pensar dos próprios psicólogos que, segundo Bock (1995), em sua pesquisa com psicólogos sobre a representação que eles próprios tem da profissão, ficou demonstrado uma redução do trabalho do psicólogo não a uma profissão científica e sim, uma profissão de vida, uma profissão de ajuda.

Outro dado interessante demonstrado pela pesquisa é a explicação dada pelos participantes como motivos de não ter procurado atendimento psicológico, 67% apontam falta de necessidade. Pode-se pensar que não é que não exista a necessidade, o que existe é um desconhecimento da extensão e do teor do trabalho do psicólogo - da prevenção á remediação- de modo que a necessidade só se faz presente quando o desequilíbrio e a doença se instalam, uma vez que a depressão e problemas familiares foram os itens mais apontados como motivo de busca de ajuda. Isto leva a pensar na utilização de outros recursos que são mais próximos como a religião, terapias medicamentosas, cuidados médicos para o tratamento.  Confirma-se assim, a pesquisa de Bock (1995) de como, embora a psicologia seja importante e abrangente, a sua prática não atinge a todos, demonstrando como ainda é preciso informar e esclarecer sobre o fazer da psicologia enquanto ciência.

Observa-se também que 50% dos sujeitos participantes apontam a busca pelo atendimento com profissionais particulares e 7%, a minoria, apontou o serviço da clínica escola como local de atendimento. Estes dados levam a compreensão de que a pesquisa foi realizada na praça central da cidade com uma população de respondente de classe média, enquanto que a maioria da clientela atendida na clínica escola é originária de níveis sócio- econômico mais baixos, classes menos favorecidas. Conclui-se que nesse contexto social, as necessidades são prementes, e que o projeto Psicologia na Praça tem a necessidade de ser estendido e levado para as praças dos bairros periféricos da cidade, com o propósito de divulgar os projetos desenvolvidos pelo curso de Psicologia, através dos estagiários em atendimento à comunidade.

Conclusão

            Conclui-se este trabalho afirmando, pelos dados coletados, que a população ainda procura o psicólogo apenas em situações “extremas”. Não há, por parte dessa mesma população, o conhecimento da amplitude de serviços que o psicólogo pode prestar, incluindo, principalmente, o trabalho de prevenção.
            A favorável relação entre teoria e prática em Psicologia ainda não está consolidada, quer pelas orientações recebidas ao longo dos cursos de formação/graduação, quer pela ausência de um processo mais amplo de avaliação dos conselhos e associações profissionais a cerca do que fazem os profissionais de Psicologia já em ação no mercado de trabalho.

            Não há neutralidade na ciência, tanto no aspecto teórico, quanto no prático. É necessário que os profissionais formados tenham consciência de que o fazer deles reflete uma concepção sobre a ciência em que atuam, sobre a sua visão de homem e de mundo nela contidos. Se essas questões não forem foco de discussão e reflexão no âmbito da graduação e depois dela, o fazer dos psicólogos ficará comprometido e amarrado a falsas visões sobre o que é a Psicologia.

            Os dados apontados pela presente pesquisa também indicam que o próprio atendimento psicológico encontra-se envolvido em mitos, estereótipos e preconceitos. É o fazer do psicólogo no processo de atendimento ao cliente a via mais direta para a quebra dessas visões estereotipadas.

            Finalmente, podemos concluir que cabe às instituições formadoras, por um lado, oferecer ao aluno um embasamento teórico-prático fundamentado nos princípios da ciência psicológica, articulado com as reais demandas da sociedade e pautado pelo contexto real onde os desafios acontecem. Por outro lado, cabe ao aluno o envolvimento e responsabilidade no seu processo de formação, tornando-se, na teoria e na prática, um elemento ativo, questionador e participante no processo de construção contínua de sua própria profissionalização.

            Necessitamos formar e informar o psicólogo para os novos tempos, para os novos desafios, para um diálogo direto e constante com a sociedade, de modo que ela possa representá-lo de uma maneira transparente, concreta e próxima da sua real identidade.

OBS: * O Grupo de pesquisa do CNPq – DHSM é também composto pelos alunos do curso de Psicologia – Gabriel Carvalho Franco; Elen de Carvalho Vieira; Derli de Castro S. Filho.

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VALENTIM, R.P.F. Representações sociais de gênero: um estudo de caso e algumas considerações metodológicas. V Jornada Internacional e III Conferência Brasileira sobre Representações Sociais. Grupo de discussão temática. Brasília/DF, 2007. Disponível em:< http://www.vjirs.com.br/completos/VJIRS_0466_0406.PDF>. Acesso em:

Autores

Antonia Cristina Peluso de Azevedo – Doutora em Psicologia pela PUCCAMP e Mestra em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Professora Universitária. Lider do grupo DHSM-CNPq.

Ana Carlota Pinto Teixeira – Mestra em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Psicóloga Clínica e Professora Universitária.

Izabel Maria N.S. Maximo – Mestra em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Psicóloga Clínica e do Trânsito. Professora Universitária.

Rosana Pena – Mestra em Psicologia Clinica pela PUC-SP. Psicóloga Clínica. Professora Universitária.

Wilson Muniz de Freitas – Mestre em Matemática pela UNESP. Professor Universitário.

Componentes do grupo de pesquisa (alunos e egressos): Gabriel Carvalho Franco; Thiago Ribeiro Borges; Derli C.S. Filho; Patricia Guia Santos; Talita J.M. Oliveira; Barbara Silva Ramos.

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