O presente trabalho trata-se da análise do filme norte-americano “Desafiando Gigantes” do gênero drama, dirigido e estrelado por Alex Kendrick e produzido pela Sherwood Pictures (2006).

Resumo

O presente trabalho trata-se da análise do filme norte-americano “Desafiando Gigantes” do gênero drama, dirigido e estrelado por Alex Kendrick e produzido pela Sherwood Pictures (2006). Tendo como objetivo principal analisar o conteúdo do filme a luz do pensamento dialógico do filosofo Martin Buber. A apreciação do filme foi desenvolvida usando como suporte teórico os conceitos de relação dialógica Eu-Tu, Tu Eterno e auto-realização. Esses conceitos serviram como ferramentas para estruturar a análise.

Palavras-chave: Martin Buber, Relação Dialógica, Auto-realização

Introdução

Desafiando Gigantes é um filme norte-americano de 2006, do gênero drama, dirigido por Alex Kendrick que interpreta o técnico Grant Taylor. O elenco foi composto por voluntários da Igreja Batista de Sherwood. Filmado em Albany, Geórgia, o filme relata uma história sobre o futebol americano a partir de uma visão cristã.

Nos seus seis anos como técnico, Grant Taylor nunca conseguiu levar seu time Shiloh Eagles a uma boa classificação no campeonato estudantil. Taylor passa por várias dificuldades em seu trabalho, mas a “gota d’água” é quando ele percebe que está sendo traído pelos próprios colegas de serviço ao ouvir sem querer uma conversa entre seus superiores que desejam demiti-lo.

Em casa, as dificuldades também o jogam mais para o fundo do poço. Ele tenta ser paciente e superar todos os problemas, porém, o que mais lhe incomoda é ouvir sua mulher Brooke Taylor se lamentar por não conseguir engravidar, alegando que ela já havia feito todos os exames necessários e constatando que a infertilidade não era com ela, passando a sugerir que Taylor marque uma consulta para verificar se ele é estéril. Após alguns exames, o casal descobre que o a dificuldade está com ele.

Depois de tantos problemas que pareciam sem solução, Taylor começa a refletir e ver que tudo caminhava muito mal para ele, e ao ter que enfrentar crises profissionais e pessoais aparentemente insuperáveis, a ideia de desistir nunca lhe pareceu tão atraente. Entretanto, ele decide entregar todos os problemas a Deus. Sua fé é tamanha a ponto de fazê-lo confiar verdadeiramente mesmo quando as circunstâncias apontavam o contrário.

É apenas depois que um visitante inesperado o desafia a acreditar no poder da fé que ele descobre a força da perseverança para vencer. Ao descobrir que a Bíblia pode ser a solução para sua vida, Taylor passa a usá-la no trabalho, contagiando os jovens que treina e promovendo mudanças na vida deles.

Taylor cria uma nova filosofia fazendo não só com que os jovens do time como muitos outros na escola tenham uma postura positiva e vencedora, contagiando neste sentido também os pais dos alunos.

                O treinador decide agradecer a Deus depois de cada jogo, não importando qual seja o resultado; ao mesmo tempo, ele orienta e convida cada um de seus jogadores a dar o máximo de esforço, e motiva-os a acreditar que podem ganhar sob a orientação de Deus. A partir desse ponto, ele perde apenas um jogo, mas vai acabar por ganhar o campeonato estadual e para completar a felicidade, sua esposa consegue realizar um dos seus desejos que era engravidar.

Estabelecendo diálogo

As dificuldades enfrentadas pelo técnico Taylor o acompanham em diversos contextos da sua vida. Situações como a perda do melhor jogador do time Shiloh Eagles que se transferiu para outra escola; o carro que quebra constantemente; um possível problema com o encanamento de sua casa, bem como com outros equipamentos domésticos e a tentativa infrutífera de que sua esposa engravide exibidas no início do filme e refletidas durante todo o seu curso somados a outros fatores negativos, geram na película uma sequência de situações que evidenciam a relação do encontro Eu-Tu aqui abordada.

A relação entre Eu-Tu se constitui a partir do momento em que se tem consciência do outro, e é nesta perspectiva que Taylor e Brooke participam da reciprocidade dialógica, conferindo um sentido a esse encontro através das suas vivências.

Diante dessa disponibilidade mútua para o diálogo, assume-se uma atitude face ao mundo marcada pela espontaneidade, preservando a autonomia de um Eu que, comprometido com outro Eu que assume o papel de Tu para o outro, coloca-se face a face num relacionamento recíproco de compreensão e linguagem. Com isso, convém salientar que a relação baseada na palavra princípio Eu-Tu não se restringe a momentos especiais, ela se faz presente em ocasiões da vida quotidiana do homem.

Segundo Giles (1937), uma característica marcante de Buber é o fato de ocupar-se apenas com problemas reais e não com problemas que costumam ser chamados de filosóficos. Ainda discorrendo sobre o assunto, cita que os problemas reais surgem no momento em que o homem toma consciência de si, e é nesta reflexão de sua problemática que passa a avaliar as suas atitudes, em busca de uma solução que satisfaça as suas necessidades, e o leve a auto-realização autêntica, mediante decisões firmes e responsáveis.

Logo, observa-se que as situações pessoais vividas pelo treinador Taylor são exemplos de circunstâncias que fomentam a teoria de Buber acerca das relações do sujeito humano com o outro, com o mundo e com o absoluto, voltando-se assim para o concreto.

O mundo da relação é retratado em mais um diálogo entre o técnico e sua esposa acerca de uma conversa que Taylor ouve sobre sua possível demissão, conversa estabelecida entre alguns pais, pessoas da direção da escola e da sua própria equipe de treinamento. Num discurso sobre sua incompetência à frente do time, incapacidade de ser pai, além de outras dificuldades materiais, Taylor se põe em diálogo com Booke que o apoia em todos os momentos. Neste instante dá espaço ao aparecimento de um terceiro elemento que se interpõe entre o Eu e o Tu, chamado espaço do “entre”, o qual possibilita a contato consigo mesmo e com o outro.

Outro aspecto dessa relação diz respeito ao amor, para Buber, o relacionamento Eu-Tu realiza-se mais plenamente no amor entre esposos. E é neste momento que surge a união exemplar, duas pessoas que revelam o Tu uma a outra. O verdadeiro amor, que está na base deste relacionamento, implica o relacionamento e a confirmação do outro, fazendo com que o casamento possibilite uma durabilidade de tempo maior e proporcione um grau de intimidade mais elevado entre os cônjuges. Entretanto, se faz uma diferenciação entre sentimento e amor. O amor assume a responsabilidade de um Eu para um Tu onde não é permitida a posse que transforma um Tu em conteúdo de um Eu. Numa relação matrimonial que possui suas características próprias existe uma troca que configura o cenário daquele relacionamento.

“Os sentimentos, nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora, mas a realidade. O amor não está ligado ao Eu de tal modo que o Tu fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o Eu e o Tu. Aquele que desconhece isso, e o desconhece na totalidade de seu ser, não conhece o amor, mesmo que atribua ao amor os sentimentos que vivencia, experimenta, percebe, exprime” (BUBER, 2009, p. 61).

É através das relações dialógicas que as pessoas envolvidas se desprendem do mundo a sua volta e passam a existir uma para outra. O que faz com que não existam pretensões interesseiras que tornam o outro um objeto, havendo somente uma comunicação profunda. A autenticidade dessa conversação exige que um veja o outro como ele é, e tenham consciência de que ambos são pessoas únicas que devem aceitar-se mutuamente em sua totalidade.

Segundo Giles (1937, p. 209), “a verdadeira vida é a vida com o outro”. É só através do diálogo que se pode experienciar um verdadeiro envolvimento com o outro, pois a intersubjetividade envolve a vida do homem.

“Para Buber a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem. Ela é um ato do homem através do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros. A intenção de Buber é desvendar o sentido existencial da palavra que, pela intencionalidade que a anima, é o princípio ontológico do homem como ser dia-logal e dia-pessoal” (ZUBEN, 2001, p. XLI).

A relação Eu-Tu necessita estar interligada ao que Buber chama de aspectos essenciais da relação. Ele aponta estes aspectos como sendo: reciprocidade; presença; imediatez e Responsabilidade.

Na reciprocidade do diálogo é que se estabelece a relação por meio da mutualidade. A presença do outro que se constitui a partir das interações revela que é na esfera das relações humanas que a reciprocidade pode atingir seu grau mais elevado. Ela é que faz com que o Eu e o Tu se tornem Presença. Por imediatez Buber afirma que nada se interpõe entre o Eu e o Tu, nem conceito nem imagem. Há possibilidade de resposta entre o relacionamento Eu-Tu e a esta probabilidade Buber denomina de responsabilidade.

“A relação com o Tu é imediata. Entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade. Entre Eu e o Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação; e a própria aspiração se transforma no momento em que se passa do sonho à realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro” (BUBER, 1979, p. 13).

Segundo Buber (2001), para que ocorra a interação Eu-Tu se faz necessário a influência mútua no diálogo. Pois, o termo primordial Eu-Tu constitui o mundo da relação, visto que a afinidade pessoal será sempre o encontro entre dois sujeitos, que por sua vez, podem ser entre seres humanos ou entre seres humanos e espirituais.

Na película destacam-se os momentos em que Larry Childers incentiva seu filho David a ingressar no time de futebol Americano. David se sente inferiorizado em relação aos demais integrantes do Shiloh Eagles, pois ele se define como sendo muito pequeno e fraco para ingressar em uma equipe de futebol americano. Larry confronta seu filho através do diálogo questionando-o sobre o fato que o faz não querer entrar para a equipe. Larry pergunta se é o medo que o impede e diz que ele não pode ter medo de falhar visto que todos falham em diversas circunstâncias da vida.  

A relação dialógica entre Larry e David os coloca em uma relação Eu-Tu, assim como declara Buber (1979) que quando recebemos algo que não possuíamos anteriormente e o acolhemos da melhor forma possível, esse algo promove nossa vinculação à vida, e nos traz uma carga de sentido que nos completa. Na perspectiva buberiana, o ser humano precisa ser confirmado pelos outros, para se perceber como um ser humano e é através desta confirmação que o indivíduo passa a sentir a liberdade de ser ele mesmo, evitando à introversão, o medo, a rejeição.

“Quando o homem não põe à prova, no mundo, o a priori da relação, efetivando e atualizando o Tu inato no Tu que ele encontra, então ele se introverte. Ele se manifesta ao contato como o Eu não natural, impossível objeto, isto é, ele se desvela ali onde não há lugar para a revelação. Assim instaura-se um confronto consigo mesmo que não pode ser relação, presença, reciprocidade fecunda, mas somente autocontradição” (BUBER, 1979, p. 82).

A abertura e a reciprocidade para o diálogo evidenciadas na cena em questão demonstram que pai e filho assumem as implicações de um relacionamento entre dois Tus, característica fundamental do inter-relacionamento.

O medo que impedia David de ingressar na equipe de futebol americano é combatido a partir do momento em que encontra sentido em sua existência; no instante em que para ele é possível dizer Eu, reconhecendo-se e buscando inter-relacionar com outros na tentativa de firmar uma relação Eu-Tu. De acordo com Giles (1937, p. 183) “o eu me ensina que o encontro com o outro exige que eu mantenha a minha autonomia, ao mesmo tempo em que vou ao seu encontro”.

                É a partir da insegurança premente ao desespero que a vinculação de uma nova perspectiva gerada pela relação Eu-Tu pode abrir um novo sentido. “A força para dar esse passo não pode provir de nenhuma segurança do futuro, mas dessas profundezas da insegurança nas quais o homem, presa do desespero, responde à pergunta pela essência do homem mediante sua resoluta decisão”. (BUBER, 1962, p. 42).

                Após perder uma das partidas para um time ao qual o Shiloh Eagles nunca havia perdido antes, Taylor sente-se angustiado mediante a derrota e no vestuário dá uma bronca nos jogadores. Mesmo diante desta atitude de reclamar apontar os erros cometidos em campo a fim de justificar o que ocasionou a derrota; o estabelecimento da relação dialógica é vivenciada. O técnico do time faz cada um dos jogadores refletir sobre as suas responsabilidades e que o fato de não terem vencido a partida se deu porque o time não se integrou. Para Buber (2004, p. 30) “a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem. Ela é um ato do homem através do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros”. 

“A única coisa importante é que, para cada um dos dois homens, o outro aconteça como este outro determinado; que cada um dos dois se torne consciente do outro de tal forma que precisamente por isso assuma para com ele um comportamento, que não o considere e não o trate como um objeto, mas como seu parceiro num acontecimento da vida, mesmo que seja apenas uma luta de boxe. É este o fator decisivo: o não-ser-objeto” (BUBER, 1982, p. 137).

A convivência do técnico Taylor com os seus alunos já não era uma das melhores, pois o fato de estarem sempre perdendo as competições os colocava em conflitos, pois sentiam-se inferiores e incapazes de conseguir alcançar uma vitória sequer. Estabelecer uma relação Eu-Tu neste momento era uma das ferramentas primordiais para criar um clima agradável e favorável às competições. Neste sentido de interação intersubjetiva, Giles (1937) afirma que cada indivíduo completa o outro, e que a vida passa por entre os dois polos do relacionamento mediante a mutualidade, permitindo assim que cada um viva no outro.

“O educador não precisa ser nenhum gênio ético para educar caracteres, mas sim um ser humano que vitalmente se comunica imediatamente com seus próximos: sua vitalidade se irradia sobre eles e os influencia precisamente da maneira mais viva e pura, ainda que não pense em absoluto em querer influenciar lhes” (BUBER, 2003, p. 40).

A influência que o treinador (educador) exerce nesta perspectiva não se remete ao autoritarismo ou até mesmo a manipulação dos alunos em relação à imposição da sua ideologia, entretanto faz alusão ao estabelecimento de um vínculo que favoreça o diálogo e o crescimento do grupo através da confiança recíproca. Segundo Buber (2003, p. 41), “só há um acesso ao aluno, o de sua confiança” e é neste acesso que se torna possível aceitar e compreender o outro a fim de desenvolver um conceito positivo sobre ele. A confiança é sem dúvida o alicerce de todo o relacionamento intersubjetivo.

Segundo Buber (1979), não é possível fazer com que as relações Eu-Tu aconteçam, pois elas não estão sob o domínio do ser humano. “O tu encontra-se comigo por graça” (p. 12), ele não pode ser encontrado através de uma procura. Portanto, resta ao ser humano aguardar o acontecimento dessa relação, e quando ela ocorrer, que esse ser possa agir de modo a desenvolver uma postura de abertura diante do encontro Eu-Tu, favorecendo essa relação.

Ao analisarmos a relação dialógica estabelecida entre o treinador e os alunos, podemos perceber o quanto a intersubjetividade é fundamental para o processo de êxito no projeto de vida. Buber (1982, p. 136) ressalta que “a coexistência de uma multiplicidade de homens, o vínculo que os une um-ao-outro, tendo como consequência experiência e reações em comum” são primordiais para a compreensão do outro e estabelecimento das interações Eu-Tu.

Apontada por Buber como uma necessidade inata do ser humano, a relação é buscada incessantemente como caminho para seu crescimento, pois a relação Eu-Tu confronta, provoca e remete ao paradoxo da existência.

Uma das cenas mais envolvente no filme é quando o treinador pede para que um dos seus alunos chamado Brock carregue outro em suas costas tendo apenas os pés e as mãos apoiados ao chão. Brock está desmotivado em relação ao futuro da sua equipe de futebol americano, entretanto, Taylor crer que se conseguir contribuir para a motivação de Brock, ele poderá sustentar a equipe, já que é um dos jogadores mais influentes. Através da sua superação, os outros integrantes do time puderam perceber que se Brock conseguiu mesmo cansado dar o seu melhor, eles também são capazes de ir além do que estavam acostumados a ir. E é neste sentido que Buber (1993, p. 175), nos fala que um indivíduo “experiência a situação comum a partir do ponto de vista do outro”.

A relação de confiança estabelecida entre treinador e aluno faz com que Brock pudesse superar os seus limites, uma vez que Taylor compreende o potencial de cada um. Assim como afirma Buber (2009, p. 150), “ele reconhece cada um destes indivíduos como apto a se tornar uma pessoa única, singular e portadora de uma tarefa do Ser que ela, somente ela pode cumprir”. 

Taylor sente-se mais que na obrigação de fazer a diferença em relação ao seu time; ele busca por um reconhecimento frente aos seus colegas de trabalho, de um modo especial pelo diretor da escola e pelos pais dos alunos. Vendo-se como o único responsável para propor tal transformação, ele investe naqueles alunos que vão influenciar toda a equipe. Para Buber (2001), a responsabilidade pode ser compreendida como prestar contas daquilo que nos foi confiado.

A necessidade em buscar a autenticidade de inovar em suas técnicas como treinador, de fazer com que os seus objetivos fossem alcançados, faz com que Taylor supere a angústia dando sentido a sua existência. Tal angústia caracteriza-se como um vazio existencial, onde o sujeito não consegue se auto-realizar por falta se significação.

A auto-realização é o propósito de todo ser humano, uma contínua busca que não o deixa livre de encontrar-se angustiado, mas é neste processo que o indivíduo se depara com o seu modo de se compreender e se projetar.

“(...) o homem da técnica, ao ter perdido o sentido mais profundo da consciência de si mesmo, ou seja, das regulações transcendentes que lhe permitem orientar sua conduta e identificar suas intenções, se acha cada vez mais inerme ante as potências destruidoras desencadeadas em torno de si e diante das cumplicidades que estas encontram no fundo dele mesmo” (MARCEL, 2001, p. 64).

Do tu ao tu eterno

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo técnico Taylor, o desejo de querer se superar, de reverter o quadro de sua vida, o faz enxergar uma luz no fim do túnel. A sua abertura para o encontro com o Tu eterno é uma das principais iniciativas para a mudança de vida, tanto no aspecto profissional quanto no pessoal.

“Quando todas “as direções” falham lá surge na escuridão em cima do abismo a verdadeira direção do homem para o Espírito criativo, para o Espírito de Deus meditando diante das águas, para Ele de quem nós não sabemos de onde vem e nem para onde vai. (...) O homem, a criatura que forma e transforma a criação, não pode criar. Mas ele, cada homem, pode expor-se e aos outros para o Espírito criativo. E ele pode chamar o Criador para salvar e aperfeiçoar a Sua imagem” (BUBER, 2002, p. 122).   

Ao recorrer a Deus como fonte de socorro as suas necessidades, Taylor conseguiu forças para superar as adversidades do dia a dia no campo profissional e pessoal. Ele enxergou a presença de Deus aonde não conseguia ver mais nenhum sentido para continuar levando em frente o time Shiloh Eagles. O homem percebe, então, que mesmo diante da ausência da luz divinal, Deus caminha sempre conosco, pois “Deus existe antes das trevas e por cima delas” (BUBER, 1993, p. 65). Mesmo diante de um eclipse de Deus, não há com o que se preocupar, pois este afastamento torna possível a contemplação de outras formas de sua presença. “Quem conhece Deus, conhece, sem dúvida, o distanciamento de Deus, e o tormento da seca que ameaça o coração angustiado, mas não a ausência de presença. Nós é que não estamos sempre presentes” (BUBER, 2004, p. 117).

Taylor pode até ter pensado que Deus o havia deixado de lado, ou que não estava ouvindo as suas súplicas, já que nada que realizava em sua vida prosperava. Porém a presença de Deus é sempre plena, o homem é que não consegue senti-la porque o medo bloqueia todas as possibilidades de enxergar um novo caminho a seguir. E é neste sentido de distanciamento, de abandono e a angustia existencial que Buber (1993, p. 154) afirma:

“É nos momentos de eclipse de Deus, quando se pensa que Ele não mais existe e que fomos relegados ao abandono, que se faz possível a grande volta, a grande conversão que Deus espera de nós, para que a redenção, que Ele nos reserva, possa chegar a ser nossa redenção”.

Em meio ao desespero, o técnico Taylor recorre a Jesus, pois acredita estar vivendo este distanciamento de Deus; o eclipse é visível em sua vida pessoal e profissional uma vez que nada que ele faça, prospera. A angústia de ver o seu time sempre perdendo o faz desacreditar de suas potencialidades como técnico, e é neste momento de escuridão que ele invoca a Jesus dizendo:

“(...) Senhor Jesus pode me ajudar? Preciso do Senhor, eu sinto que existem gigantes do medo e falhas, olhando para mim esperando para me esmagar, e eu não sei como derrotá-los eu estou cansado de ter medo. Senhor se eu tiver que fazer alguma coisa me mostre (...), pode ficar com as minhas esperanças e sonhos, mas me dê alguma coisa, me mostre uma saída” (KENDRICK, 2006).

A partir do momento em que Taylor se direciona em busca de um relacionamento com o Tu Eterno, a alegria entusiástica toma conta de sua vida; tal alegria desprende uma energia que flui no sentido da auto-realização. A respeito da alegria entusiástica, Buber (2004, p. 28) afirma que ela “provém do reconhecimento da presença de Deus em todas as coisas”. E ressalta a importância da oração no estabelecimento da relação com o Tu Eterno quando declara que “Todas as virtudes atingem sua perfeição pela oração no sentido mais alto de qualquer ação santificada em qualquer momento do dia ou da noite”. A alegria entusiástica vitaliza a alma do sujeito visto que ela se dá por meio de um verdadeiro encontro com o Tu Eterno.

Para que o homem possa relacionar-se com Deus, Buber afirma que é necessário que ele se reconheça como indivíduo, já que a impossibilidade desse reconhecimento o remete a inexistência, o coloca na situação de convivência em massa, deixando assim de tornar-se um indivíduo autêntico (GILES, 1937). Segundo Buber (2004, p. 127), “O homem só pode corresponder à relação com Deus, da qual ele se tornou participante, se ele, na medida de suas forças, à medida de cada dia, atualiza Deus no mundo”. E é neste encontro com o Tu Eterno que o indivíduo necessita se reconhecer como o único responsável pela execução de suas tarefas, e é através da busca por uma autenticidade que ele se projetará em direção ao futuro.

Esta autenticidade do ser fará com que ele seja capaz de pensar e repensar sobre as suas habilidades em lidar com os desafios aos quais tem que enfrentar. Tornar-se auto-realizado autenticamente, não faz do ser um sujeito autoritário, mas sim capaz de gerir e trabalhar em conjunto, seguindo uma hierarquia de responsabilidades. Nota-se esta forma de autenticidade quando o treinador Grant Taylor decide lutar buscando novas formas de trabalhar com o time de futebol americano Shiloh Eagles. Taylor agora enxerga que tem uma missão a cumprir mediante a proximidade que teve no encontro com o Tu Eterno.

“O encontro com Deus não acontece ao homem para que ele se ocupe de Deus, mas para que ele coloque à prova o sentido da ação no mundo. Toda revelação é vocação e missão (...). Na experiência da vocação, Deus é para ti a presença. Aquele que, em missão, percorre o caminho, tem Deus diante de si; quanto mais fiel o cumprimento da missão, mais intensa e constante a proximidade” (BUBER, 2004, p. 128).

Para Buber sem a comunicação e o diálogo não há existência, visto que o homem não se experiência no seu isolamento. Sua filosofia baseia-se na relação, ao que ele determina de interação utilizando a palavra-princípio Eu-Tu para descrevê-la. O momento mais óbvio do encontro Eu-Tu dar-se por meio do relacionamento entre homem e homem, provocando uma mutualidade explícita de compreensão e linguagem.

Enxergar o outro como um parceiro, alguém capaz de contribuir para o sucesso faz de Taylor um novo visionário, o interesse pelo outro, pelo bem comum do seu time, o faz adotar uma nova postura na sua vida profissional. A experiência do encontro com o Tu Eterno o dá novas diretrizes para prosseguir a sua carreira como treinador e é através da intersubjetividade que se pode perceber o processo evolutivo do time Shiloh Eagles.

Buber esclarece que é nas relações dialogais, no contato com o outro face a face que o homem, o mundo e Deus convivem em uma perfeita comunhão. Tal aliança estabelecida entre estas três esferas torna-se indivisível nas afinidades que são formadas no aqui e agora.

Considerações finais

As dificuldades vivenciadas pelo técnico de futebol americano Grant Taylor, foi um dos maiores ensinamentos que ele pode ter experienciado ao longo de sua existência. A angústia vivenciada pelo descontrole do projeto de vida é uma possibilidade para revelar o ser autêntico, uma vez que o homem encontra-se mergulhado no nada, enfrentando um vazio que é capaz de colocá-lo em situação de escolher uma vida autêntica ou não.

Pode-se compreender por meio do filme Desafiando Gigantes a importância que se estabelece nas relações dialógicas por meio da palavra-princípio Eu-Tu, e o modo como estas interações ocorreram no decorrer de toda a história. A relação com o Tu Eterno foi um dos principais relacionamentos para que o técnico Taylor pudesse dar sentido a sua existência e ao se reconhecer como o Eu pode manter relações sólidas tanto com o Tu Eterno como nas relações dialogais com os jogadores do time. 

                Sob o enfoque da teoria buberiana ficaram evidentes as transformações ocorridas tanto na vida pessoal quanto profissional do técnico Grant Taylor. Foi através das experiências vivenciadas por Taylor frente ao time de futebol americano que ele pode extrair delas um saber relativo. De tais experiências novas possibilidades surgiram, implementados novo projeto a sua vida. 

 

Referências

BUBER, M. Le problème de l’homme. Paris: Aubier Montaine, 1962.

________. Eu e Tu. 2. ed. São Paulo: Centauro,1979.

________. Do diálogo e do dialógico. Trad. Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg. São Paulo: Perspectiva, 1982.

________. Gog y Magog. Bilbao: Ed. Ega, 1993.

________. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001.

________. Between Man and Man. Trad. Ronald Gregor-Smith. London: Routledg, 2002.

________. El camino del ser humano y otros escritos.Trad.Carlos Díaz. Madrid: Fundación Emmanuel Mounier, 2003.

________. Eu e Tu. 5. ed. São Paulo: Centauro, 2004.

________. Do diálogo e do dialógico. Tradução de Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg. São Paulo: Perspectiva, 2009.

GILES, T. R. Histórias do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo: EPU, 1937.

KENDRICK, A; NIXON. D; KENDRICK. S. (Produtor), & KENDRICK, A. (Diretor). Desafiando Gigantes. [Filme-vídeo]. Albany: Sherwood Baptist Church, 2006.

ZUBEN, N. A. V. Introdução in: Buber, M. Eu e Tu. 5.ed. São Paulo: Centauro, 2006.

MARCEL, G. Los hombres contra lo humano. Trad. Jesús M. A. Diez. Madrid: Caparrós, 2001.

 

 

Autores

Alexandre Coutinho de Mello - Graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba, UFPB. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2503997563053061

Sheina Cavalcante de Medeiros - Graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba, UFPB

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