(Re)Orientação vocacional e sócio profissional com estudantes universitários: uma proposta de intervenção
No Brasil, vivencia-se um período de crescimento acelerado na quantidade de cursos e alunos no ensino superior. No entanto, apesar do maior número de ingressantes, o abandono ou trancamento de matrículas nas universidades é também um fenômeno em expansão. Esses índices tornaram-se foco de preocupação para pesquisadores de diferentes áreas, especialmente no âmbito do ...

(Re)Orientação vocacional e sócio profissional com estudantes universitários: uma proposta de intervenção
Resumo: No Brasil, vivencia-se um período de crescimento acelerado na quantidade de cursos e alunos no ensino superior. No entanto, apesar do maior número de ingressantes, o abandono ou trancamento de matrículas nas universidades é também um fenômeno em expansão. Esses índices tornaram-se foco de preocupação para pesquisadores de diferentes áreas, especialmente no âmbito do aconselhamento vocacional e de carreira. Assim, o presente trabalho buscou favorecer a reavaliação da escolha profissional de alunos de graduação que se encontravam em dúvida quanto ao curso escolhido. Para isso, foi realizado um grupo operativo, do qual participaram 10 estudantes de uma universidade pública federal do Rio Grande do Norte. Os instrumentos utilizados foram: Inventário de Avaliação dos Interesses Profissionais; Questionário de Busca Auto Dirigida; Entrevista Semi-Estruturada e Vivências Grupais. A análise dos materiais produzidos mostrou que dos 10 alunos participantes, três manifestaram o desejo de interromper o curso atual e redirecionarem sua carreira profissional. Esses dados evidenciam a importância do processo de reorientação profissional para alunos de graduação, os quais ingressam na academia com muitas dúvidas quanto à escolha da carreira profissional, só percebendo a falta de identificação com o curso escolhido depois de cursar alguns períodos. Neste sentido, entende-se que o fenômeno da evasão aponta uma vulnerabilidade da identidade profissional dos universitários e a necessidade de criação de espaços institucionais de apoio e orientação ao estudante desde o ensino médio.

Palavras-chave: reorientação vocacional, estudante universitário, desenvolvimento profissional.

Abstract: In Brazil, a period of rapid growth in the number of majors and students in higher education has been experienced. However, despite the higher number of entrants, abandonment or closing of enrollment in universities is also a growing phenomenon. These rates have become a focus of concern for researchers of different areas, especially in the context of vocational and career counseling. Thus, this study sought to foster reassessment of the career choice of undergraduates that were in doubt about the major chosen. For this, an operating group, attended by 10 students from a public university of Rio Grande do Norte was performed. The instruments used were: Inventory Assessment of Professional Interests; Self Directed Search Questionnaire; Semi-Structured Interview and Group Sales Experiences. The analysis of the produced materials showed that from the 10 participating students; three expressed a desire to stop the current course and redirect his/her professional career. These data shows the importance of the retraining process for undergraduate students, who enter the academy with many questions as to choice of career, only noticing the lack of identification with the chosen course after attending some periods. In this sense, it is understood that the phenomenon of evasion points to a vulnerability of the professional identity of students and the need to create institutional spaces of support and guidance to the student since high school.

Keywords: vocational reorientation, college students, professional development.

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1 INTRODUÇÃO
Os índices de evasão e insatisfação encontrados entre os alunos do ensino superior no Brasil são considerados altos e preocupantes. Em média, dois em cada dez estudantes brasileiros desistem do curso superior que iniciaram (ZAGO, 2006; BARDAGI, 2007; BARDAGI e HUTZ, 2009). O desligamento costuma ser maior nos anos iniciais do curso. Com relação aos cursos, há menor abandono nos cursos mais valorizados, enquanto cursos menos valorizados e com baixo status apresentam os maiores índices.
As causas da evasão e insatisfação com o curso costumam ser variadas. Estudos têm apontado descontentamento com horários das disciplinas, impossibilidade de trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mau relacionamento com professores, pouca integração social à universidade, mau desempenho, reprovações, problemas financeiros, expectativas não correspondidas e falta de informações sobre curso e profissão (ALMEIDA e MAGALHÃES, 2011; DIAS, 2009).
Quando os jovens ingressam na universidade encontram uma série de desafios pessoais, interpessoais, familiares e institucionais. A permanência ou não do aluno até o final do curso depende especialmente de como a universidade trabalhará essa adaptação, tanto no curso como no espaço físico da instituição. A transição do ensino médio para o superior suscita inúmeras expectativas positivas, mas também uma série de receios e dificuldades aos jovens (TEIXEIRA, CASTRO e PICCOLO, 2007; BONDAN e BARDAGI, 2008).
De acordo com Bardagi (2007), entre as razões para evasão e insatisfação está a falta de informações consistentes sobre as profissões e sobre o mundo universitário em geral, além de pouca identidade com a área de trabalho (AGUIAR, BOCK e OZELLA, 2009).
Muitos alunos ingressam na universidade sem ter conhecimento prévio sobre o curso que escolheram, pois às vezes as escolhas procuram atender às pressões familiares, ou porque o curso está sendo muito valorizado. Já outros entram para o ensino superior alicerçados em projetos vocacionais mal definidos, o que constitui provavelmente um dos fatores para o insucesso, a inadaptação, a insatisfação e o abandono do curso. Experiências no contexto universitário sugerem que até mesmo alguns universitários ainda buscam uma solução para sua problemática vocacional (LEVENFUS e BANDEIRA, 2010; RIBEIRO e MELO-SILVA, 2011).
A escolha profissional não é uma decisão isolada, e sim um processo contínuo, composto de uma série de decisões ao longo de vários anos de vida. Tal processo se aguça na juventude, em que uma decisão quanto a uma profissão ou ocupação é exigida da família, escola e sociedade. Em geral, a sociedade prepara muito pouco, ou quase nada, o jovem para essa decisão. A família, a escola e a sociedade estão sempre decidindo pelos jovens, impedindo-os de aprender a lidar com situações de escolha (NEIVA, 2007).
Após o ingresso na universidade, o jovem pode começar a se defrontar com dificuldades que o levam a resultados não esperados, fazendo-o provar sentimentos tais como a desilusão e a frustração com o curso escolhido. É um momento difícil para o aluno e, nesse sentido, é necessário acesso a redes de apoio institucionais, a fim de facilitar um processo de reopção profissional (LIMA, 2007; BONDAN e BARDAGI, 2008).
Neste sentido, é importante que as universidades se preocupem com os alunos que estão ingressando, pois os primeiros semestres são decisivos para a inserção do aluno na instituição. Quando ele se sente acolhido em todos os sentidos, sua reorientação profissional se torna mais fácil.
A adaptação à universidade pode ser entendida como um processo multidimensional, envolvendo aspectos institucionais, relacionais, vocacionais, dentre outros. Ela requer o desenvolvimento, por parte do aluno, de um conjunto de competências adaptativas a um contexto não apenas novo, como também dinâmico em si mesmo.
De acordo com Neiva (2007), uma escolha profissional madura, consciente e ajustada requer adquirir, analisar e integrar conhecimentos, desenvolvendo atitudes e habilidades mentais que permitem aprender a decidir. Para isso, é importante conhecer os aspectos internos e externos do seu eu.
Reconhecer-se é essencial para escolher uma profissão ou ocupação. Saber “quem eu sou” e “como sou” é o que permite escolher o que fazer e como fazer. O processo de autoconhecimento possibilita a construção de uma auto-imagem autêntica, isenta de distorções, facilitando a formulação de aspirações profissionais realistas e compatíveis com a imagem que tem de si (DIAS e SOARES, 2009).
Neste sentido, entender as suas características de personalidade, os aspectos positivos e negativos, as qualidades e defeitos, é fundamental para a formação da auto-imagem, que é estabelecida a partir das retroalimentações que a pessoa recebe das figuras que a rodeiam. Assim, uma auto-imagem autêntica permite o desenvolvimento de um nível de aspiração profissional coerente com a mesma (NEIVA, 2007).
É importante também conhecer e diferenciar as atividades que são atrativas das que não são, compreendendo porque algumas atividades dão prazer e outras não. Além disso, é necessário distinguir as opções centrais das complementares, examinando-as em profundidade para estabelecer as prioridades. Deve-se considerar que os interesses não são estáticos e que ao longo da vida podem-se descobrir novos e integrá-los aos já existentes.
As habilidades devem ser consideradas no processo de escolha profissional e constituem um dado prognosticador para o desempenho na profissão. Por isto é importante refletir sobre quais são as habilidades mais fortes, médias e deficientes. Além disso, mostrar a possibilidade de desenvolvê-las e da importância do esforço individual nesse sentido.
Vale ressaltar que a escolha profissional implica também no estabelecimento de um estilo de vida. Assim, a profissão precisa está associada ao que se busca na vida. O futuro profissional é incerto, mas conhecer as expectativas e os medos, assim como as possíveis dificuldades e formas de solucioná-las, ajuda a suportar a incerteza e a ambigüidade (DIAS e SOARES, 2009).
Com relação à realidade socio-profissional é importante que o jovem conheça os vários níveis de formação existentes. E que disponha de um mínimo de conhecimento sobre as profissões existentes, sabendo qual é a principal atividade desenvolvida por cada uma delas.
Esse conhecimento mínimo sobre as diversas profissões permitirá eliminar uma grande parte delas e motivar os jovens para aprofundar a informação sobre aquelas de maior interesse. O saber mais profundo deve abarcar os seguintes elementos: objetivos da profissão; objetos de trabalho e atividades específicas (permanentes e ocasionais); ambiente e rotina de trabalho; mercado de trabalho (quem emprega, oferta x demanda de emprego, faixas salariais); formação (nível de formação, instituições de ensino, currículos, duração, titulação, horários, ritmo, exigências, áreas de especialização).
Nesta perspectiva, o presente trabalho teve como objetivo favorecer a reavaliação da escolha profissional de alunos de graduação que se encontravam em dúvida quanto ao curso escolhido, possibilitando um processo de reflexão pessoal (autoconhecimento) e ampliação do leque de conhecimento socio-profissional.

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 PARTICIPANTES
Contou-se com a participação de 10 estudantes de graduação. A maioria dos alunos tinha idade variando de 18 a 19 anos; eram do curso de Ciência e Tecnologia (90%) e cursando entre o 1º e 4º período. Todos os participantes eram solteiros e 60% do total da amostra do sexo feminino. Do grupo estudado observou-se que 50% já estavam inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) à época da coleta de dados.
Todos os participantes afirmaram que estavam em dúvida quanto à continuidade no curso superior. Essa foi uma amostra de conveniência, tendo participado aqueles que, se inscreveram para participar do g

REFERÊNCIAS

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ALMEIDA, M. E. G. G.; MAGALHÃES, A. S. Escolha profissional na contemporaneidade: projeto individual e projeto familiar. Revista Brasileira de Orientação Profissional, v.12, n.2, p.1-1, 2011.
BARDAGI, M. P. Evasão e comportamento vocacional de universitários. Estudos sobre o desenvolvimento de carreira na graduação. Tese de Doutorado. Porto Alegre: UFRGS – Programa de Pós-Graduação em Psicologia, 2007.
BARDAGI, M. P.; HUTZ, C. S. “Não havia outra saída”: percepções de alunos evadidos sobre o abandono do curso superior. Psico-USF, v. 14, n. 1, p. 95-105, 2009.
BONDAN, A. P.; BARDAGI, M. P. Comprometimento profissional e estressores percebidos por graduandos regulares e tecnológicos. Paidéia,18, 581-590, 2008.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. Setor público e iniciativa privada buscam ampliar oferta de engenheiros no Estado por meio de projeto que incentiva e prepara estudantes a partir do ensino médio. Eco Finanças, 2013, 26 de maio. Obtido em http://www.ecofinancas.com/noticias/confederacao-nacional-industria-diz-deficit-150-mil-engenheiros-no-pais-relacionados-etiquetas-comentarios-ordem-cronologica-comentarios-termos-condicoes-uso-comentarios-tv-critica-jornal-actv.
COSTA, J. M. Orientação profissional: um outro olhar. Psicologia USP, v. 18, n.4, p. 1-7, 2007.
DIAS, M. S. L. Sentidos do trabalho e sua relação com o projeto de vida de universitários. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2009.
DIAS, M. S. L.; SOARES, D. Planejamento de carreira: uma orientação para estudantes universitários. São Paulo: Vetor, 2009.
LAVILLE, C.; DIONNE, J. A Construção do Saber: Manual de Metodologia da Pesquisa em Ciências Humanas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
LEVENFUS, R. S.; BANDEIRA, D. R. Avaliação dos Interesses Profissionais. São Paulo: Vetor, 2009.
LEVENFUS, R. S.; BANDEIRA, D. R. Teste de avaliação dos interesses profissionais (AIP) uma proposta de interpretação psicodinâmica. In: LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. Orientação vocacional ocupacional, 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.
LIMA, M. T. Orientação Profissional – Princípios teóricos, práticas e textos para psicólogos e educadores. São Paulo: Vetor, 2007.
MINAYO, C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo - Rio de Janeiro: Hucitec/Abrasco, 10ª Ed, 2007.
NEIVA, K. M. C. Processos de Escolha e Orientação Profissional. 1ª ed. São Paulo: Vetor, 2007.
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RIBEIRO, M. A.; MELO-SILVA, L. L. Compêndio de orientação profissional e de carreira, volume 1: perspectivas históricas e enfoques teóricos clássicos e modernos. 1ª ed. São Paulo, vetor, 2011.
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ZAGO, N. Do acesso à permanência no ensino superior: percursos de estudantes universitários de camadas populares. Revista Brasileira de Educação, v. 11, n. 32, p. 226-237, 2006.

Autores:

Andréa Carla Ferreira de Oliveira: mestre em psicologia pela Universidade Federal Do Rio Grande Do Norte, Psicóloga da Universidade Federal Rural Do Semi–Árido.  

Mônica Rafaela de Almeida: doutoranda do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte mestre em psicologia social pela Universidade Federal da Paraíba. Psicóloga da Universidade Federal Rural Do Semi–Árido  

Yalkiria Guadalupe Vaca Diaz Bezerra: mestre em psicobiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Docente da Universidade Ceuma e Faculdade Santa Fé.

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