Homens que fazem sexo com homens e o acesso aos serviços de saúde na microrregião de SUAPE/PE

Este artigo tem por objetivo investigar o acesso aos serviços de saúde entre homens que fazem sexo com homens (HSH), residentes na microrregião de Suape/PE. A amostra foi composta por 200 homens que se autorreferiam como HSH, com média de idade de 26 anos. O instrumento utilizado foi um roteiro estruturado em módulos temáticos, que variavam em número de perguntas. Os dados for... Homens que fazem sexo com homens e o acesso aos serviços de saúde na microrregião de SUAPE/PE
Resumo
Este artigo tem por objetivo investigar o acesso aos serviços de saúde entre homens que fazem sexo com homens (HSH), residentes na microrregião de Suape/PE. A amostra foi composta por 200 homens que se autorreferiam como HSH, com média de idade de 26 anos. O instrumento utilizado foi um roteiro estruturado em módulos temáticos, que variavam em número de perguntas. Os dados foram analisados através de estatística descritiva e processados no Software SPSS-(Versão 18). A maioria dos entrevistados (76,8%) disse que já havia feito uso dos serviços públicos de saúde em algum momento. Dos que responderam negativamente, a maioria (51,3%) disse não usar por possuir plano de saúde/serviço particular e 38,5% não precisou/não frequenta. No que diz respeito ao acesso a esses serviços, 47,4% responderam ter dificuldade em conseguir uma consulta. Lembrando que os entrevistados tendem a usar serviços privados de saúde (via planos particulares), quanto ao vínculo, quando perguntados se eram examinados pelo mesmo profissional de saúde em suas idas aos serviços 44,9% respondeu que nunca. 51,3% disse sempre ter tempo para explicar aos profissionais suas preocupações e tirar dúvidas e 58,1% disse que esses profissionais sempre compreendem bem as suas perguntas, 59,6% afirmaram que os profissionais sempre respondem as suas perguntas de maneira clara. Quanto à prevenção nos serviços de saúde, a maioria disse sempre existir propagandas/campanhas/trabalhos educativos realizados pelos profissionais, e testes de HIV/AIDS. Da mesma forma, 73,7% afirmaram que estes sempre distribuem camisinhas.

Palavras-chave: Acesso, homofobia, homens que fazem sexo com homens.

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Introdução
A procura dos HSH pelos serviços de saúde
Antes de entrarmos nos pormenores da procura e acesso aos serviços de saúde pelos HSH, vamos definir o que seria acesso aos serviços de saúde na ótica deste artigo. Sendo assim, sabe-se que como qualquer outro construto, o conceito de acesso se constitui de variadas formas levando em consideração aspectos diferentes, sendo conceituado considerando desde características da população e a disponibilidade organizacional e geográfica do sistema de saúde, a aspectos individuais de cada sujeito e os aspectos institucionais, chegando a ser considerado em alguns momentos como resultante do grau de interação entre usuários e o sistema de saúde (SANCHEZ; CICONELLI, 2012).
Entendendo que o conceito de acesso pode variar ao longo do tempo acompanhando o desenvolvimento das sociedades agregando as novas necessidades surgidas mediante modificações econômicas, sociais, entre outras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) (1984) ao lançar mão do conceito de promoção de saúde – processo pelo qual as pessoas são habilitadas a melhorar a sua saúde e aumentar o controle sobre ela- extrapola a noção de acesso físico ao sistema de saúde e engloba outros aspectos, tais como o conhecimento do indivíduo sobre suas próprias necessidades e aspirações, colocando os indivíduos num papel ativo diante do processo de saúde-doença entendendo que estes são capazes de compreender suas aspirações e satisfazer suas necessidades e de modificar e cooperar com o ambiente.
Atualmente, o acesso à saúde é cada vez mais discutido em termos de justiça social e equidade. Por este motivo entende-se que este conceito é multidimensional composto por fatores financeiros e não financeiros, as dimensões que melhor caracterizam esse acesso discutido atualmente são: disponibilidade, aceitabilidade, capacidade de pagamento e informação (SANCHEZ; CICONELLI, 2012).
A dimensão da disponibilidade diz respeito à existência ou não do serviço de saúde no local apropriado e no momento em que é necessário, ou seja, nessa dimensão o que se espera é que exista um posto/centro/unidade de saúde próxima ao usuário e disponível (aberta/ funcionando) no momento que este necessitar dela, nesse aspecto leva-se em conta a distancia e opções de transporte. Quanto ao funcionamento das unidades de saúde cabe a esta dimensão avaliar o ajuste deste funcionamento com as necessidades dos usuários, como por exemplo, horário de funcionamento e emergência. Dessa forma a disponibilidade reflete a entrada nos serviços de saúde, porém não é suficiente para garantir o acesso e nem para avalia-lo (SANCHEZ; CICONELLI, 2012).
A dimensão capacidade de pagamento abrange a relação entre o custo de utilização dos serviços de saúde e a capacidade de pagamento dos indivíduos, a análise nessa dimensão se dá a partir das despesas com consultas médicas, medicamentos, exames. Outra dimensão é a da informação que perpassa todas as outras dimensões envolvidas no acesso, nesta dimensão considera-se que estar bem informado é resultado da efetiva comunicação entre o sistema de saúde e o usuário, portanto, quando há diferença no nível de informação em uma das partes envolvidas que atrapalha no momento de fazer uso dos serviços de forma adequada e/ou suficiente para atender as necessidades, esta diferença deve ser analisada e utilizada como forma de remodelagem das ações em saúde. Para tanto na dimensão da informação deve-se levar em consideração as preferências individuais, pois estas influenciam na escolha realizada pelo usuário em relação à sua saúde e esse número de escolhas está intimamente ligado à informação possuída por eles. Dessa forma a informação pode determinar a lacuna entre a oportunidade de utilização e a real utilização dos serviços de saúde (SANCHEZ; CICONELLE, 2012).
A última dimensão do acesso é a aceitabilidade, considerada a dimensão menos tangível do acesso, diz respeito à natureza dos serviços prestados e a forma como eles são percebidos pelos usuários. Esta dimensão se define a partir da relação entre as atitudes dos profissionais de saúde e os usuários e sofre influencia de geração, sexo, etnia, crenças, classe, entre outros. É nessa interação entre expectativas de profissionais de saúde e as expectativas dos pacientes que se encontra conforma a aceitabilidade, portanto, o ponto chave desta dimensão é o respeito mutuo. A confiança no sistema de saúde se constitui num elemento essencial para a equidade, pois a falta de confiança pode gerar barreiras ao acesso, por este motivo a aceitabilidade é tão importante na análise do acesso aos serviços de saúde (SANCHEZ; CICONELLE, 2012).
Após definir como abordaremos a questão do acesso aos serviços de saúde neste artigo agora chega o momento em que abordaremos mais diretamente o que algumas pesquisas apontam como facilitadores e impeditivos da procura e acesso da população de HSH, foco deste estudo, considerada um dos grupos vulneráveis ao adoecimento no que diz respeito ao HIV/AIDS.
As causas da vulnerabilidade podem incluir uma prevenção inadequada para a infecção pelo HIV no passado, assim como um diagnóstico tardio da infecção ou da doença, por negação ou por falta de orientação adequada de saúde (BELOQUI, 2008). Para Parker (2004) a vulnerabilidade também pode estar relacionada com aspectos advindo de desigualdades sociais. Nesse sentido, Santos (2011) coloca que a relação entre vulnerabilidade e pobreza é consistente. Esses determinantes socioeconômicos que atravessam questões de gênero também podem constituírem-se em barreiras para a acessibilidade aos serviços de saúde. Por este motivo Parker (1997) acredita que a ênfase no acesso aos serviços de saúde adequados e não discriminatórios seriam uma saída para a redução de vulnerabilidades, para isso seria necessário desmistificar a relação entre homossexualidade e Aids, partindo do combate aos estigmas e discriminação, desenvolvimento de atividades destinadas a alcançar os HSH nos diversos locais onde se desenvolvem subculturas homossexuais e desenvolver serviços e atividades inclusivas a fim de atrair os HSH pras redes de apoio.
Em pesquisa, realizada por Lima et. al (2008), constatou-se que 65,7% dos HSH entrevistados disseram ter procurado os serviços de saúde, a maioria os serviços privados e apenas 8,7% os serviços públicos, 28,6% relataram ter buscados outras alternativas e 17% referiu não ter “feito nada”. No que diz respeito a testagem, mais uma vez a situação econômica aparece como um empecilho para o acesso as informações, ainda que os serviços públicos especializados tenham sido os mais procurados pra fazer a testagem, os serviços públicos não-especializados, a atenção básica que seria a porta de entrada, foram procurados com menor frequência. Nessa mesma pesquisa, Lima et. al. (2008) chamam a atenção para o fato dos serviços privados terem sido os mais procurados pelos homens que apresentaram sintomas de DST. Dessa forma, uma possibilidade é de que fatores relacionados à qualidade (ou a falta de qualidade) dos serviços influenciem diretamente a satisfação do usuário, talvez funcionando como barreiras ao acesso à assistência. Outra possibilidade levantada quanto a não procura pelos serviços de atenção básica pode ser a culpa e a vergonha que estão inculcadas na infecção pelo HIV, que ainda acontece nos serviços de saúde (PARKER, 1991; TERTO JR, 2002).
Ainda pensando acesso aos serviços de saúde da referida população, sendo estes serviços fundados nos princípios de universalidade, integralidade equidade, questões como orientação sexual e identidade de gênero não deveriam ser considerados como marcadores sociais únicos entendendo que os vários marcadores sociais se articulam de diversas formas, por este motivos os sujeitos sociais podem ser pensados enquanto gay-negro-rico-jovem e não apenas gay, por isso em contextos como este a categoria interseccionalidade se faz necessária para o entendimento da articulação ent|
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