O contexto cultural de Parintins (AM) e suas implicações na sala de aula
Este artigo, de cunho científico, buscou através da pesquisa de campo, com os artistas de ponta do folclore dos bois bumbas do município de Parintins, mostrar a relação entre os saberes culturais e suas implicações no contexto escolar, pautando-se na análise das aprendizagens geradas a partir de tais saberes. Por se tratar de uma pesquisa que enfatiza o contexto onde ocorrem os fenômenos, ela corresp... O contexto cultural de Parintins (AM) e suas implicações na sala de aula
Resumo:Este artigo, de cunho científico, buscou através da pesquisa de campo, com os artistas de ponta do folclore dos bois bumbas do município de Parintins, mostrar a relação entre os saberes culturais e suas implicações no contexto escolar, pautando-se na análise das aprendizagens geradas a partir de tais saberes. Por se tratar de uma pesquisa que enfatiza o contexto onde ocorrem os fenômenos, ela corresponde a um estudo de caso, de abordagem qualitativa, discorrendo brevemente entre o contexto sociocultural e suas interferências nas discussões sistemáticas do conhecimento científico na sala de aula.A ideia de que os conteúdos de ciência são verdades absolutas ainda é um pensamento que persiste nos dias atuais e tais conteúdos são trabalhados nas escolas em detrimento a valorização dos saberes culturais vividos pelos estudantes,sendo assim, a diversidade cultural é pouco valorizada e considerada na prática pedagógica.

Palavras-Chave: Saber cultural. Conhecimento.Arte.Ciência.

Abstract :This article, scientific nature, sought through field research, with cutting-edge artists of the folklore of bumbas oxen in the city of Parintins, show the relationship between cultural knowledge and its implications in the school context, and are based on the analysis of learning generated from such knowledge. Because it is a search that emphasizes the context in which phenomena occur, it corresponds to a case study of qualitative approach, talking briefly between the socio-cultural context and its interference in systematic discussions of scientific knowledge in the classroom. The idea that science content are absolute truths is still a thought that persists nowadays and such contents are worked in schools over the appreciation of cultural knowledge experienced by students, therefore, cultural diversity is undervalued and considered in pedagogical practice.
Keywords: Cultural Knowledge. Knowledge. Art. Science.

| Introdução
O estudo sobre contexto cultural dos artistas de Parintins e suas implicações na sala de aula foi realizado através de entrevistas com os artistas de ponta do festival folclore, que acontece todos os anos no mês de junho. O objetivo foi averiguar as implicações culturais no contexto da sala de aula. Foram seis artistas entrevistados, sendo três do boi bumba Caprichoso e três do Garantido.
O Município de Parintins está localizado à margem direita do rio Amazonas, na Ilha de Tupinambarana. Para se chegar em Parintins pode ser somente por embarcação ou via aérea. É o segundo município mais populoso do Amazonas, sendo que a maior concentração dos parintinenses é na área urbana. A agropecuária ocupa uma das principais atividades econômicas, ocupando o primeiro lugar na criação de rebanhos; o pau-rosa (donde se extrai óleo para perfumes), assim como a copaíba, a andiroba e a castanha-do-pará (VALENTIM, 2005). O município é conhecido pelo espetáculo que apresenta anualmente, representada pelos bois bumbás Garantido e Caprichoso .
O folclore dos bois bumbas Garantindo e Caprichoso é traço marcante na formação dos jovens parintinenses, contudo a ação educativa, presa nos moldes tradicionais de ensino, ainda não tem sido capaz de introduzir em seus componentes curriculares o conteúdo apreendido nesse contexto cultural.

1Do saber tradicional ao estágio de artista de ponta.

De uma simples brincadeira de rua, os bois bumbas, denominados Garantido e Caprichoso, ocasionou para o município de Parintins um espetáculo que vem sendo referência cultural da ilha Tupinambaranaque tinha tudo para está esquecida no meio do Rio Amazonas, mas devido à criatividade peculiar de seu povo recebe os holofotes das autoridades públicas e privadas do país.
Levando em conta que para entender essa construção criativa é importante conhecer a trajetória até chegar o entendimento de como se deu o contexto cultural de Parintins percorremos as trilhas dos artistas de Ponta. Um dos entrevistados foi o artista Juarez Lima, referência na arte, que vem desenvolvendo há 35 anos seu ofício no boi bumbá Caprichoso. Perguntamos a ele como começou o Festival de Parintins e quais foram às influências que ele sofreu para se tornar um artista desse festival. Sua resposta serviu para identificar os nomes que tiveram grandes contribuições para a construção da cultura parintinense:

“Primeiro você olha esse lado como as experiências das pessoas que alguém tem que você gostaria de ter, essa busca que o ser humano. Então, eu olhava muito o festival folclórico de Parintins na década de 60/70. Em 80 já brincava no boi e via que havia uma pujança de possibilidade. Via o grande Mestre Jair tirar do papelão obra de arte, aquilo me encantava, como pegar uma caixa de geladeira e transformar num coração, numa águia, numa cobra e fazer mexer. Eu estudava contabilidade e me impressionava, essa conta de possibilidade, dessa matemática, desse ajuste de teorias e depois me impressionava com o sujeito, pela sua dinâmica, sua artística ilusória. Ele é meio um alquimista, um mago a frente do seu tempo. Depois veio a influência também do Jair Mendes, o Irmão Miguel, que me ensinou as matizes das cores. Ele trouxe essas matizes da Itália e até hoje elas se impregnam na arte de Parintins e isso deu qualidade e de referência cultural no nosso Estado. Depois veio Joãozinho Trinta, esses três, considero um tripé cultural, que influenciou o meu DNA de arte, de mente, de pensar e em 1989, quando fui pro Rio de Janeiro, passei 19 dias no barracão da Beija-flor e lá fui apresentado pra todas as equipes que trabalham no lado cenotécnico de criação, de adereço, de robô, enfim tudo o que era para a construção da estrutura de uma escola de samba do porte, do quilate da Beija-flor. E essa engenharia toda, essa arquitetura me influenciou diretamente em função de um aprendizado. Esses três pensadores influenciaram a arte no Brasil, no mundo, entraram automaticamente no meu DNA. Essa arte eu consigo implementá-la, evoluí-la para o nosso festival na década de 90. Todo esse aprendizado é o reflexo desse investimento que nós buscamos de forma sedenta para evoluirmos e adaptarmos à festa no festival de Parintins. (JUAREZ LIMA, 49 anos, entrevista/2015).

Na fala do entrevistado percebemos que a maior influência para se tornar um artista de ponta no festival de Parintins está relacionado com as trocas de experiências vivenciadas no cotidiano. Esse conhecimento artístico é nele intrínseco, todo um conhecimento científico do “saber fazer”, ou seja, dar movimento as alegorias, construir simetricamente uma imagem e assim por diante, nos remete a afirmar que os sujeitos constroem conhecimentos antes mesmo de entrarem em uma sala de aula. Há todo um saber apreendido nesse contexto: arte, matemática, física, conhecimento que foi adquirido por Juarez Lima, nos galpões dos bumbas e na troca de experiência com outros. Esses saberes adquiridos em espaços não formais são levados a sala de aula, sendo possível afirmar:as mesmas reúnem diferentes percepções de mundo, influenciadas pelas culturas que se fazem presentes nos diversos contextos. Para Maturana “[...] nosso cérebro recebe positivamente informações vindas já prontas de fora. Num dos modelos teóricos mais conhecidos, o conhecimento é apresentado como resultado de tais informações”, (MATURANA E VARELA, 2001, p. 7-8).A fala do artista ainda nos remete aos Parâmetros Curriculares Nacionais que vem desde 1997 falando da importância da Pluralidade Cultural, sendo que a ideia é que a escola reconheça e valorize as diferentes formas de percepção e de compreensão culturais e sociais que se encontram presentes nas salas de aula (BRASIL, 1997).
Será que esses saberes adentram os grandes muros das escolas em Parintins? Os conteúdos programáticos estão sendo relacionados a essa diversidade cultural. Em observação em salas de aulas com jovens do ensino médio, que vivem e respiram esse folclore, os conteúdos são apresentados aos estudantes. Apresentados porque acontece apenas exposição dos assuntos dissociados da vida cotidiana e em detrimento a valorização dos conhecimentos prévios dos estudantes. Um jovem que é capaz de matizar cores e dar vida a uma fantasia estuda a história da arte sem a relação com o saber vivido. Outro que ajuda a construir uma alegoria, seus conhecimentos estão dissociados das regras de matemática. Os professores de ciência necessitam estarem atentos às concepções culturais dos alunos, possibilitando maior comunicação entre os sujeitos da aprendizagem, porém contrariamente, percebe-se a dificuldade de comunicação nas salas de aulas, na realidade, a maioria das vezes o que ocorre é um monólogo do professor.
Se o Professor percebesse que na maioria das salas de aulas as concepções dos alunos são condizentes com as concepções científicas ele conseguiria tecer um diálogo com os mesmos, tendo o conteúdo como eixo norteador. Infelizmente nas salas de aula não é considerado os saberes culturais dos estudantes para ampliação das ideias científicas, mas a subtração dos mesmos.
Ao falar de saberes culturais, utilizamos a ideia de Brandão (2002, p 16) para nos posicionarmos sobre cultura, para o autor inicialmente somos um ser da natureza, mas nos diferenciamos dos demais animais pelo fato de possuir a capacidade de pensar e com isso ser um sujeito da cultura e ainda, Brandão apresenta como conceito de cultura,
“ [...] tudo aquilo que criamos a partir do que nos é dado, quando tomamos as coisas da natureza e recriamos como os objetos e os utensílios da vida social, representa uma das múltiplas dimensões daquilo que, em uma outra, chamamos de: cultura” (BRANDÃO, 2002 p.22).

Os atores de Parintins têm criado e recriado a partir do festival folclore e com isso conseguem influenciar política economicamente o município. Esta afirmativa está pautada na fala do artista Marialvo Brandão, que há 26 a|Referências

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MATURANA, HUMERTO R., VARELA, FRANCISCO J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana; tradução: Humberto Mariotti e Lia Dislin; ilustração: Carolina Vial, Eduardo Osório, Francisco Olivares e Marcelo MaturanaMontañez – São Paulo: Palas Athenas, 2001.

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