Formação acadêmica em psicologia e atuação dos profissionais

O presente artigo objetiva analisar a influência da formação acadêmica recebida na graduação para a prática dos profissionais de Psicologia nos novos espaços, que surgiram a partir da entrada da Psicologia nas Políticas Públicas. Foram entrevistados 30 profissionais de Psicologia de instituições ligadas a políticas da justiça, educação, saúde e assistência social, que tinham sede em João Pessoa, Paraíba. R... Formação acadêmica em psicologia e atuação dos profissionais
Resumo:
O presente artigo objetiva analisar a influência da formação acadêmica recebida na graduação para a prática dos profissionais de Psicologia nos novos espaços, que surgiram a partir da entrada da Psicologia nas Políticas Públicas. Foram entrevistados 30 profissionais de Psicologia de instituições ligadas a políticas da justiça, educação, saúde e assistência social, que tinham sede em João Pessoa, Paraíba. Recorreu-se a entrevistas semiestruturadas, realizadas individualmente e analisadas a partir da análise de conteúdo temática. Identificou-se: formação acadêmica realizada predominantemente em instituição privada e com enfoque clínico; atuação pautada num modelo clínico individualizante; predomínio de teoria Psicanalítica e Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) como suporte teórico, sendo ACP mais usada para nortear a prática; dificuldade dos profissionais de Psicologia em explicar como teoria subsidia prática; e que os profissionais aprenderam trabalhar na prática. Considera-se que a formação acadêmica subsidia uma atuação pautada num modelo clínico individualizante, não atendendo às demandas desses novos contextos de atuação.

Palavras-chave: Formação acadêmica; atuação profissional; psicologia.

Academic training in Psychology and practice of professionals

Abstract:
This article aims to analyze the influence of the academic training received at university for the practice of the professionals of psychology in the new places that emerged from the entrance of Psychology in the Public Policies. 30 professionals of psychology from institutions linked to justice politics, education, health and social assistance, which were based in João Pessoa, Paraíba, were interviewed. Semi-structured interviews were used, conducted individually and analyzed through thematic content analysis. It was identified: academic training done mainly in private institution and with a clinical focus; practice based on an individualizing clinical model; prevalence Psychoanalytic theory and Person-Centered Approach (PCA) as theoretical support; PCA being more used to guide the practice; difficulty for the professionals of psychology to explain how the theory helps the practice; and that the professionals learned how to work while practicing. The academic training is seen as promoting a practice based on an individualizing clinical model and it doesn’t meet the requirements of these new contexts of practice.

Keywords: Academic training; professional practice; psychology.

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Introdução
Neste artigo, objetiva-se analisar a influência da formação acadêmica recebida na graduação para a prática dos profissionais de Psicologia nos novos espaços que surgiram a partir da entrada da Psicologia nas Políticas Públicas, que se tornou mais forte depois da Constituição Federal de 1988, quando as políticas se tornaram mais acessíveis, atuando na garantia e proteção dos direitos (Cruz & Guareschi, 2009). Para se dar conta desse objetivo, buscou-se identificar o tipo de formação a que os profissionais de Psicologia tiveram acesso para atuar nesses espaços, bem como analisar o modo como eles percebem a contribuição dos referenciais teórico-metodológicos utilizados em sua atuação profissional.
A formação acadêmica do profissional de Psicologia, como hoje está organizada, em estabelecimento de nível superior e com currículo majoritariamente dedicado à Psicologia, foi iniciada no Brasil em 1957, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo (Pereira & Pereira Neto, 2003). Sobre essas primeiras experiências na formação de profissionais de Psicologia, Baraúna (2012) considera terem sido marcadas por um desconhecimento da história tanto do Brasil quanto da própria Psicologia, levando tanto à transposição direta e sem mediações de teorias produzidas em outras épocas e contextos, quanto ao uso descontextualizado de testes psicológicos e modelos de intervenção em instituições.
Catharino (2012), discutindo essa formação acadêmica, chama atenção tanto para a dissociação entre teoria e prática, quanto para a impotência do ensino superior para formar profissionais que prestem serviços à comunidade. Concepção essa também compartilhada por Paiva e Yamamoto (2010). Catharino (2012) acrescenta que tanto a história, quanto a situação atual da Psicologia no Brasil, enquanto ensino e enquanto profissão, encontram as origens de suas dificuldades numa separação entre ciência e técnica. De acordo com esse autor, historicamente, no caso brasileiro, existe uma anterioridade da prática com relação à teoria, verificando-se que a técnica precede o conhecimento.
No que se refere a essa prática dos profissionais de Psicologia, desde a regulamentação da profissão no Brasil, em 1962, tem ela se voltado predominantemente à área clínica, visto que se embasava num enfoque individual e espelhado num modelo médico. Conforme análise do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 1988), essa foi uma realidade até a década de 1980, havendo também, em alguns poucos casos, uma atuação na área escolar e organizacional.
Segundo Gonçalves (2010), tal fato se deu em função da conjuntura social, política e econômica vigente nas décadas de 1960, 1970 e parte de 1980. Coimbra (1995) chama atenção para o fato de que o modelo de Psicologia implementado estava pautado numa tradição positivista, fundamentado nas características de cientificidade, neutralidade, objetividade e tecnicismo. E, frente ao suposto “milagre brasileiro” pregado pelos militares, a classe média em ascensão vivia um clima ufanista, tendo o privado como o refúgio contra os terrores da sociedade. Nesse sentido, a autora em questão considera que:

Com essa “tirania da intimidade”, qualquer angústia do cotidiano, qualquer sentimento de mal-estar é remetido imediatamente para o território da “falta”, da “carência”, no qual os especialistas “psi” estão vigilantes e atentos. Para essa família “em crise” e para esses filhos “desviantes” há que se ter atendimentos específicos (Coimbra, 1995, p. 36).

Os profissionais de Psicologia, portanto, eram aqueles que abrandavam e resolviam os problemas de desajustamentos. Isso porque eram vistos como peritos neutros responsáveis por dizer ao povo brasileiro como sentir, pensar, perceber, agir e viver no mundo, ajudando-o a “realizar-se” (Coimbra, 1995). E o faziam desconsiderando toda a efervescente e complexa realidade social, econômica e política vigente durante a ditadura militar brasileira. Nesse processo de psicologização do social e político, as famílias de classe média e alta tornam-se consumidoras ávidas dos serviços da clínica individual. Dessa forma, como aponta Gonçalves (2010), a prática da psicoterapia atendia a dois eixos ideológicos importantes nesse contexto: o curativo e o de perscrutação da intimidade.
Essa forma como os profissionais de Psicologia atuavam e a formação acadêmica que vinha sendo disponibilizada deixaram fortes marcas na Psicologia brasileira. O que explica, em parte, o fato de alguns estudos (Ansara & Dantas, 2010; Gama & Koda, 2008; Gonçalves, 2010; Noronha, 2003; Paiva & Yamamoto, 2010; Ramos & Carvalho, 2008) caracterizarem a atuação dos profissionais de Psicologia no Brasil como compromissada com a normalização e com a adaptação dos sujeitos, definindo-se predominantemente a partir de uma atuação profissional liberal estruturada a partir da clínica individualizante. Mesmo diante de outra conjuntura política e social e de novos contextos de atuação para o profissional de Psicologia decorrente do processo de redemocratização da sociedade brasileira, o que passou a demandar novos referenciais teóricos e técnicos.
Além desse contexto de redemocratização, uma série de fatores fez que a Psicologia passasse a ocupar novos espaços, a saber: fortalecimento de um projeto com o propósito de deselitizar a Psicologia, que vinha se desenvolvendo desde década de 1960; Fundação da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), que ocorreu durante a 32ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 1981; A Constituição de 1988, que abriu novas possibilidades para a construção de uma esfera pública democrática e republicana na sociedade brasileira, possibilitando uma abertura e expansão de políticas públicas voltadas para a população mais pobre; e a crise econômica do final da década de 1980 e da década de 1990, que, através da conjuntura recessiva, inviabilizou a perspectiva de a Psicologia continuar com seus mercados liberais de atendimentos psicoterapêuticos, haja vista a redução do poder aquisitivo da sua clientela.
Diante dessa conjuntura, observa-se presença cada vez maior da Psicologia em novos espaços, como instituições que lidam com a infância e a adolescência (escolas, creches, varas da família, conselho tutelar); políticas públicas da saúde, por meio de Hospitais psiquiátricos, e, mais recentemente, as Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial - CAPS, Núcleos de Apoio à Saúde da Família - NASF; Políticas da Assistência Social, por meio dos Centros de Referência da Assistência Social - CRAS, Centros de Referência Especializado da Assistência Social - CREAS, Casas de Acolhimento; e as organizações do trabalho, entre outros.
Percebe-se, dessa forma, que outras áreas de atuação do profissional de Psicologia, além da clínica, a organizacional, a escolar tem ganhado destaque e aberto um leque de possibilidades de espaço de atuação, como na área Social, na Psicologia Comunitária (Bastos & Gomide, 2010), além da jurídica que vem se consolidando como campo de atuação (Bastos, Gomide & Borges-Andrade, 2010). No entanto, como chamam atenção Alberto et al. (2008), mesmo o profissional de Psicologia ocupando espaços que demandam uma compreensão dos processos de subjetivação, tais como se produzem na sociedade brasileira por meio de um diálogo com as referências teóricas conectadas a essa realidade, a psicoterapia continua sendo o modo de excelência da atuação do profissional de Psicologia.
Bastos e Gomide (2010) e Mancebo (1997) explicam essa pobreza no repertório de atuação dos profissionais de Psicologia pelo fato de, historicamente, a principal área de atuação ter sido a clínica. No estudo de Bastos e Gomide (2010), segue-se, à clínica, a aplicação de testes, nos mais diferentes contextos, além de uma gama de outras atividades: “orientação a gestantes, pesquisas de mercado, diagnóstico situacional, assistência a |
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