Compreender o discurso dos debates religiosos vai além de conhecer conceitos, obter dados, e investigar a origem das diversas religiões existentes;

 Resumo

Compreender o discurso dos debates religiosos vai além de conhecer conceitos, obter dados, e investigar a origem das diversas religiões existentes; pelo contrário, compreender o discurso dos debates religiosos significa analisar as narrativas binárias, tanto verbais quanto não verbais, procurar analisar as práticas discursivas produzidas nas inter e intra-relações de poder, vendo seus significados e como a dinâmica destes se configuram no contexto sócio-histórico-cultural e o que se mostra subentendido e expresso. É a partir desse pressuposto que o presente trabalho visa analisar o discurso dos alunos do curso de Biologia da Universidade Federal da Paraíba, com base na Análise do Discurso, método que tem como base a teoria do construcionismo social.

Palavras-chave: Análise do Discurso, Construcionismo social, práticas discursivas.

Abstract: Understand the speech of religious debate goes beyond to know concepts, obtain data, and investigate the origin of several existing religions, on the contrary, to understand the speech of religious debate means analyze binary the narratives, both verbal and nonverbal, try to analyze the discursive practices produced in inter and intra-relationships of hold, seeing their meanings and how these dynamics are configured in the socio-cultural-historical and implied that shown and expressed. It is from this premise that this study seeks to analyze the speech of students of Biology at the Federal University of Paraíba, based on Discourse Analysis, a method that is based on the theory of social constructionism.

 Keyword: Discourse Analysis, Social Constructionism, Discursive practices.

 Introdução

                A discussão de temáticas religiosas é por vezes polêmica, pois acarreta embates de opiniões pessoais/grupais divergentes ou até mesmo contrárias, e complexas, visto que aborda conceitos emaranhados e não tão bem elaborados. Este trabalho contempla o discurso dos alunos do curso de biologia na Universidade Federal da Paraíba, acerca do ateísmo, e para melhor desenvolvimento do assunto serão expostos conceitos de: Análise do Discurso, espiritualidade, religiosidade, crença, e, por fim, religião, com fins a um melhor entendimento e explanamento das ideias apresentadas.

Para Van Djik (2008) a linguagem remete o ponto de intercessão entre o cognitivo e o social, no qual o sujeito mostra-se dialeticamente de maneira ativa e passiva durante as construções de ideologias e para a sua investigação daquela, a Análise do Discurso (AD) se configura como realidade multi e interdisciplinar e surge como importante ferramenta teórico-metodológica na análise das narrativas binárias, tanto verbais quanto não verbais, pois procura analisar as práticas discursivas produzidas nas inter e intra-relações de poder, vendo seus significados e como a dinâmica destes se configuram no contexto sócio-histórico-cultural e o que se mostra subentendido e expresso (Nogueira, 2008).

O movimento da AD possui aproximadamente 60 formas de concepções, Wetherell e cols. (2001) elegeram quatro principais: a) Análise do Discurso Sociolingüística: no qual o foco desta abordagem é própria linguagem; b) Psicologia Discursiva: cuja analise volta-se para os repertórios interpretativos dos significados, dentro do contexto sócio-cultural; c) Análise Conversacional: nesta perspectiva, a linguagem é estudada como um processo de interação; e Análise Crítica do Discurso: também conhecida como Análise Foucaultiana, em que os adeptos possuem uma postura ativa, posicionamento explícito, buscam ver além dos contextos imediatista do uso da linguagem, procuram refletir sobre as relações de poder e procuram promover a emancipação do oprimido através da edição de novos discursos. (Nogueira, 2008). 

As discussões sobre religião encontram-se no campo das diferentes relações de poder, pois a mesma faz parte da cultura humana. Segundo Silveira (n.d.) os seres humanos buscam responder as indagações existenciais através de construções metafísicas e elaborações de figuras divinas, como por exemplo, Deus.

                Fleck, Borges Bolognesi e Rocha (2003) consideram que de acordo com o dicionário Oxford o termo espírito é entendido como a parte imaterial do ser humano que se vincula a capacidade intelectual e moral, sendo assim, pode-se compreender que espiritualidade não se limita a determinados tipos de crenças ou práticas, mas é única a cada indivíduo. Já a religiosidade pode ser vista como um anseio humano que o impele a adotar determinadas divindade(s), independentemente de cultos ou doutrinas. Enquanto que o conceito de crenças se refere a opiniões e valores que um sujeito sustenta e que influencia seus comportamentos, hábitos e estilo de vida. Por fim, a religião é definida como crença na existência de um ser superior, criador e influenciador das ordens naturais do universo, que acarreta o surgimento de doutrinas e cultos prestados a divindade adotada.

                Segundo Monteiro (2006) a religião pode ser observada como fenômeno sócio-histórico-cultural que influencia de maneira marcante diversos âmbitos da sociedade e também a individualidade de cada um. Um exemplo bastante difundido desta ideia é exibido por Fleck et. al. (2003) quando expõe a existência de evidências que ligam a religião/religiosidade a uma melhor qualidade de vida e saúde mental; de acordo com este autor há estudos que comprovam a melhora de bem estar em quadros de AIDS, depressão, abuso de drogas, álcool, etc. Afirmando que “ Para muitas pessoas, a religião e as crenças pessoais e espirituais são uma fonte de conforto, bem-estar, segurança, significado, senso de pertencer, ideal e força “ (p.448, 2003)

Devido a importância dada a religião diversas normas e direitos relativos a esta temática já foram instituídos ao longo do tempo, Arneitz (2011) aponta que em 1948 já teria sido adotada e proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos que instituía o direito à liberdade de crença, sendo também um direito fundamental previsto na Constituição Federal Brasileira de 1988.

Tal asseguramento constitucional se faz essencial nas modernas sociedades que apresentam seu âmbito religioso renovado, onde há a existência e convivência de diversas formas de manifestações religiosas. Steil (2001) pontua que vivemos em um momento de pluralismo religioso, aparentando não existir barreias para a diversidade, um fenômeno moderno que se desenvolve devido a quebra de monopólio de uma única religião.

Pinheiro (2008) destaca que a fim de garantir a liberdade religiosa foram criados determinados direitos-garantias, podendo-se enfatizar entre eles a norma de separação ente Estado e Igreja. Tal norma tem como objetivo a instituição organizacional de uma estrutura estatal que efetivamente possa garantir a liberdade religiosa, pois se tornou evidente que o entrelaçamento entre Estado e Igreja criava ambiente de intolerâncias e perseguições, destruindo qualquer possibilidade de liberdade de crença.

Com vistas a garantir o direito de liberdade religiosa, não é suficiente apenas que o Estado não declare nenhuma religião como oficial, mas também é essencial que ele se mantenha neutro, sem influenciar de maneira alguma, o livre embate entre crenças religiosas. Sendo assim, além de não apresentar religião oficial, o Estado não deve oferecer tratamento diferenciado a nenhuma crença e nem demonstrar, através de atos e políticas públicas, preferências religiosas. É terminantemente proibido o uso de cargo de poder público como meio de divulgação ou conversão religiosa, visto que o contrário afetaria o direito fundamental de liberdade religiosa (PINHEIRO, 2008).

Para Pinheiro (2008), é evidente que qualquer influência do Estado acarreta um desequilíbrio no livre convívio entre as religiões, pois além de possivelmente abalar as convicções religiosas, apresenta uma nociva ideia de que o Estado privilegia uma determinada crença, colocando todas as outras em uma posição de inferioridade, “incompatível com o valor da igual dignidade de que são titulares todos os cidadãos, mostra-se capaz de se tornar, ele próprio, um ilegítimo fator de conversão em favor da religião prestigiada pelo ente estatal” (p.350, 2008) É, também, inconcebível ao Estado justificar a adoção de ações ou políticas através de normas ou valores religiosos, pois tal ato deixa claro a ideia de identificação estatal com determinada religião, acarretando mais uma vez numa noção de privilégio e favoritismo.

                Algumas pessoas poderiam argumentar que tendo em vista que as religiões majoritárias apresentam maiores números de fiéis e são, além disso, mais antigas e tradicionais, já representando elemento constituinte sociocultural, são merecedoras de determinadas concessões e privilégios. No entanto Pinheiro (2008) rebate que tal atitude iniciaria um ciclo vicioso de desequilíbrio, o Estado iria desestruturar o livre entendimento das crenças religiosas, destruindo sua posição neutra, transmitiria, deste modo, sua preferência e identificação religiosa que, por fim, fortaleceria ainda mais a posição de superioridade desta religião majoritária. A igreja que já era maior teria apoio do Estado, se tornando maior ainda e necessitando de maior apoio estatal e assim por diante, acabando com o pluralismo religioso e aniquilando as religiões minoritárias. Sendo assim, mesmo que sumariamente maior parte dos sujeitos se encontrem vinculados a determinada religião o Estado não deve adotar esta como sua religião oficial.

Pinheiro (2008) lembra que historicamente as religiões majoritárias mantinham sua posição de superioridade através de perseguições religiosas, eliminando a possibilidade de escolha dos fiéis, por isso é dever estatal não apoiar e propagar as consequências de tal dominação, mas arduamente lutar, de maneira mais neutra possível, para que ocorra uma livre disputa de ideias religiosas num contexto propício e que favoreça a liberdade de escolha e culto.

Uma esfera controversa são as políticas mistas, são os casos quando determinada política pública referente ao poder estatal se encontra vinculado profundamente a valores religiosos. Tendo em vista a separação Estado-Igreja, o ente estatal não deve tomar nenhuma posição que proíba ou torne obrigatório determinado dogma religioso, sempre zelando pelo bem maior, a liberdade religiosa.

Pensando a liberdade religiosa é importante destacar que só se pode falar em um Estado dedicado e defensivo a este direito fundamental se além de liberdade de escolha de crença religiosa os sujeitos também forem livres para exercer suas práticas, externar suas devoções e se agir de acordo com os dogmas religiosos por si defendidos. Se o Estado conferir aos seus cidadãos apenas o direito de escolha de sua própria religião e negar o culto da mesma, não estaremos falando de liberdade religiosa.

Mesmo que o direito ao livre culto se apresente como inviolável, qualquer restrição ao culto de determinada crença deve se dar devido a violação de algum outro direito igualmente fundamental. (Pinheiro 2008)

Deve ser entendido que apesar da separação Estado-Igreja é impossível que essas duas entidades não dialoguem, segundo Arneitz (2011) “[...] é natural que instituições religiosas devam participar em questões de Estado, assim como quaisquer outras instituições, pois estados democráticos requerem a participação popular igualitária”(p.5, 2008).

Segundo Arneitz (2011) é como consequência da separação Estado-Igreja que os Estados Sociais-Democráticos Ocidentais inicialmente se determinaram laicos. E de acordo com este autor no Brasil “[...] a laicidade do Estado é compreendida a partir da pluriconfessionalidade de crenças” (p.6, 2008)

O princípio da laicidade ficou consagrado a partir do Decreto 119-A, de 07 de janeiro de 1890, que proíbe a intervenção da autoridade federal e dos Estados federados em matéria religiosa, consagra a plena liberdade de cultos, extingue o padroado e estabelece outras providências, que instituiu o Brasil como um Estado laico. E é na constituição federal, mais precisamente no Artigo 19 que estabelece o que é veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios em seu inciso I “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes, relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Segundo Sarmento (2007) a maior parte das democracias ocidentais atuais adotam o princípio de laicidade estatal, e segundo o mesmo tal princípio apresenta duas funções essenciais: uma, defende as instituições religiosas de sofrerem interferências abusivas do Estado em suas decisões, organização, dogmas, cultos e valores; outra protege o Estado de influências religiosas.

Entretanto é essencial observar que afirmar que um Estado é laico não significa afirmar que este apresente uma visão ateísta, visto que o próprio ateísmo é entendido enquanto a negação da existência de Deus/Deuses, e sendo o Estado laico, ele não pode adotar nenhuma crença religiosa. A separação Estado-Igreja e a denominação de Estado laico determina uma posição de neutralidade a ser seguida em referência ao campo religioso (SARMENTO, 2007).

De acordo com Martel (2007) os Estados laicos lutam pelo pluralismo religioso, os Estados que adotam o princípio da laicidade tutelam o pluralismo religioso, a existência de acordos entre poder público e instituições religiosas é vista como um obstáculo a democracia, pois se o Estado privilegia determinada instituição estará fortalecendo-a e certificando sua posição de supremacia.

Arneitz (2011) apresenta que mesmo existindo o direito-garantia de separação Estado-Igreja cotidianamente temos exemplos da ligação existente entre igreja e Estado, que são opostos a ideia de estado laico. Arneitz (2011) aponta que dentro dos exemplos que podem ser observados no Brasil estão:

“O benefício da isenção de impostos concedido a instituições religiosas, a presença de crucifixos em ambientes jurídicos e políticos, bem como o ensino religioso obrigatório nas escolas públicas de nível fundamental. Situação semelhante também ocorre nos Estados Unidos da América, país em que também vige a laicidade pela pluriconfessionalidade de crenças, mas o presidente eleito faz o seu juramento de posse com a mão sobre a Bíblia (p.6).”   

Durante a antiguidade, o termo ateu não estava qualificado como aquele que não crê em nenhuma força espiritual, e sim aquele que recusa os deuses dominantes. Dessa maneira, o Costa (2010), compreende que, no passado, o ateísmo estava apenas propenso a inovar, criando então novas criaturas em seu imaginário.

                Esse ateísmo mais tarde é conhecido de maneira subversiva e passa a ser considerado uma agressão não somente à religião, como também à política. Poderia então estar justificada qualquer contraofensiva de governantes e sacerdotes, por meio do repúdio, da excomunhão e dos ataques ferozes àqueles pertencentes a outras crenças, insubordináveis aos ditames dos deuses oficiais. Assim, o ateu se transformou numa figura insultante, destinada à blasfêmia e as tentativas de silenciamento variavam, desde a prisão até a execução, poderiam trazer à ordem pretendida pelas organizações políticas e religiosas (COSTA, 2010).

                Deístas, sacerdotes, místicos, praticantes de variadas crenças, convictos da existência divina, cada um ao seu modo, sofreram perseguições, uma vez que suas formas de fé não estavam em consonância com as normas estabelecidas. O verdadeiro ateu, ainda que vítima das mesmas perseguições, diferenciava-se por estar mentalmente liberto da ideia de Deus, podendo então negar sua presença (COSTA, 2010).

                No entanto o verdadeiro ateísmo somente começa com o padre Jean Meslier (1644-1729) que em seus livros costumava escrever contra a religião, a Igreja, Jesus e a Deus. Crítico ferrenho da organização política e social de sua época, Meslier teria sido o primeiro pensador a não reconhecer, sob nenhuma hipótese, a existência de qualquer força transcendental (COSTA, 2010).

                O ateu teria, então, equivocadamente sido visto como rebelde e ignorante quanto aos supostos sinais que comprovariam a evidência do sagrado. Nesse sentido, o ateu tornou-se, muitas vezes, rotulado na história como uma espécie de adorador do diabo, por sua negação ao que se encontrava vigente dentro de alguma organização religiosa (COSTA, 2010).

                Atualmente o ateísmo vem se mostrando uma ideologia de esforços constantes, defendidos por vários pensadores, e que visa à superação dessa preocupação com algo não comprovado. A questão que envolve a consciência da morte deve justificar-se não apenas na concentração de esforços na desmitificação dos efeitos de sua própria morte, mas também na busca pelo entendimento do que venha a ser a morte do outro (COSTA, 2010).

                A proposta levantada pelo ateísmo busca manter uma neutralidade mais condizente com o caráter crítico da razão, fruto de um conciso argumento filosófico.

                No que se refere ao contexto brasileiro é percebido o aumento dos “sem religião” (de 4,8% em 1991 para 7,4 % em 2000, de acordo como IBGE). De acordo com Novae (2004), o Censo de 2000 mostrou que é entre os que se declaram “sem religião” que os jovens (9,3%) se destacam em relação ao conjunto da população (7,4%), configurando o crescente número de jovens que se dizem ser “sem religião”.

                Três anos depois do Censo, os resultados de uma pesquisa nacional realizada pelo Projeto Juventude/Instituto Cidadania1 confirmaram as mesmas tendências. Diferenciando-se do Censo, a pesquisa não indagou sobre religião através de uma pergunta aberta, a pergunta oferecia opções separadas como “agnósticos”, “ateus” e quem “acredita em Deus, mas não tem religião”. Enquanto 65% dos jovens entrevistados nesta pesquisa em todo o país se declararam católicos, 20% se declararam evangélicos (sendo 15% pentecostais e 5% não pentecostais). E foram 10% os jovens “sem religião”, sendo que 9% declararam “acreditar em Deus, mas não ter religião” enquanto apenas 1% identificaram-se como ateus e agnósticos (NOVAES, 2004).

                Numa pesquisa intitulada Perfil da Juventude brasileira, os ateus e agnósticos, nesta mesma pesquisa, não estão predominantemente nem entre os jovens mais jovens (catorze a dezessete anos), nem entre os jovens mais velhos (21 a 24 anos); 50% deles estão na faixa etária intermediária (dezoito a vinte anos). O que pode indicar que este declarar-se “ateu” ou “agnóstico” pode fazer parte do momento da vida que é importante a afirmação de identidade independente em relação à família, como aconteceu com outras gerações. No entanto, chama atenção o fato dos entrevistados que se declararam ateus ou agnósticos viverem mais no interior do que nas regiões metropolitanas, contrariando um dos velhos cânones que relaciona ateísmo com os ventos secularizantes da urbanização modernizadora (NOVAES, 2004).

                Já no último Censo de 2010 foi possível perceber que se em 2000, o número de pessoas que se classificavam como “sem religião”, era de 7,4%, em 2010 subiu para 8,0% dos entrevistados, sendo a região com maior concentração de pessoas que se encaixavam nessa categoria, a região sudeste, com 8,4 %, seguida da região centro-oeste com 7,8%.

                Pensadores que se concentraram nas questões voltadas a desmistificação das crenças religiosas foram deixados à margem da história. Isso tornou suas filosofias equivocadamente subestimadas (COSTA, 2010).

                A ausência de fé religiosa tem representado uma diferença social ainda discrepante na sociedade e sensivelmente menos aceita. Desde a idade média, predomina no Ocidente a moral cristã, que considera a fé um sentimento determinante para a edificação do caráter do homem. Já em tempos modernos, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada em 1948, é assegurado o direito à liberdade de crença, mas ainda vigora, no senso comum, a ideia de que alguma crença o homem deve professar (ARNEITZ, 2011).

                O ateísmo é, então, interpretado como uma forma de negação do íntimo humano, que precisa e deve acreditar em algo. A fé, nesse caso, deixa de ser um posicionamento pessoal e passa à condição de bem socialmente valorizado, dessa forma as instituições religiosas se tornam detentoras de poder (ARNEITZ, 2011).

                Nota-se que a respeito da construção do senso comum de que o ateu é amoral, e, portanto, não compreenderia a distinção entro o certo e o errado. O preconceito contra o ateísmo talvez não seja perceptível no dia a dia. Afinal, não se divulgam discriminações no trabalho, em ambientes sociais ou manifestações culturais (ARNEITZ, 2011).

                O preconceito contra a minoria ateísta é, portanto, fruto de uma prática discursiva histórica, que reproduz a concepção de que o ateu é um ser amoral, pois é a crença em de Deus que provê o indivíduo de um “freio moral” (COELHO, 2011, p. 20 apud ARNEITZ, 2011).

                De acordo com a Declaração da Associação Humanista Britânica: São ateus e agnósticos que percebem o sentido do mundo utilizando a razão, a experiência e compartilhando os valores humanos. Assumimos a responsabilidade por nossas ações e baseamos nossa ética sobre os objetivos do bem-estar humano, da felicidade e da realização. Procuramos fazer o melhor da única vida que temos através da criação de significado e propósito para nós, individualmente e em conjunto.

Os ateus compõem uma minoria. São socialmente discriminados por suas convicções. Preferem, muitas vezes, ocultar sua opinião acerca da existência de um Deus criador o que acaba gerando discriminações.

Mesmo sendo garantido a liberdade religiosa ainda se percebe o discurso bastante persuasivo tanto dos crentes como dos ateus para defender seu posicionamento quanto a crença em divindades, nesse contexto a comunicação é eficaz se (e enquanto) consegue transformar aqueles a quem se dirige, se estes aceitam o seu apelo, se, por sua vez, estão presentes naquilo que respondem. Latour aproxima a palavra religiosa do discurso amoroso: a pergunta é um chamado, a resposta é (ou não) um engajamento. Está em jogo, sempre arriscadamente, o estabelecimento de uma relação por um mecanismo de compreensão retrospectiva, pela qual o presente recupera o passado e o estranho dá lugar ao familiar: “graças à qual povos diversos descobrem enfim que estão conectados pela mesma história, que eles formam em realidade o mesmo povo, pois que neles ressoa a mesma mensagem sob fórmulas nunca iguais” (GIUMBELLI, 2011).

                O discurso, assim entendido, incorporado, reproduz e, sobretudo, transforma relações de ideologia e poder, configurando-se como instrumento de luta ideológica. Empregando-se nesse caso, o termo “ideologia” com uma conotação negativa, expressando relações de dominação. Contudo, o discurso também pode ser emancipatório, constituindo-se uma forma de empoderamento de indivíduos, grupos e, no caso, destaca-se a atuação da minoria ateísta, ainda considerada uma minoria sem voz, que sequer recebe o apoio de outras minorias, as quais usualmente estabelecem alianças recíprocas (ARNEITZ, 2011).

                Em verdade, o que acontece no mundo ocidental, e não apenas no Brasil, é que apenas uma pequena parcela da população se assume socialmente como sendo ateísta ou agnóstica, pois vige no senso comum a concepção de que a crença em uma entidade superior é uma forma de controle da conduta social e também de formação de caráter, como se a moral social e o direito não fossem suficientes para a formação do indivíduo. Sendo assim, a aplicação da Análise do Discurso Crítica deve esclarecer as raízes e replicações ideológicas alienantes, elucidando as formas de manifestações sistêmicas deste preconceito nas práticas sociais, de forma a indicar como minimizá-las e superá-las (ARNEITZ, 2011).

2. Método

Tratou-se de um estudo de cunho quantitativo e qualitativo respeitando as normas éticas da pesquisa com seres humanos.

Os participantes dessa pesquisa correspondem a 60 alunos regularmente matriculados no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, dos quais 26 são do sexo masculino e 34 são do sexo feminino com idade média de 10,58 e com desvio padrão de 11,11, as idades variaram de 17 a 49 anos.

Para a realização desta pesquisa utilizou-se um questionário semi-estruturado contendo 8 perguntas de caráter pessoal que combinam perguntas abertas e fechadas, e onde o respondente tem a possibilidade de discorrer sobre o tema ateísmo. Utilizou-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que consiste em instrumento para se tentar assegurar a autonomia do sujeito da pesquisa, através da obtenção da sua aceitação à participação.

Os dados Quantitativos foram processados com o auxílio do Pacote Estatístico para as Ciências Sociais (SPSS) para Windows – versão 20.0 e analisados por meio de estatística descritiva. Enquanto os dados Qualitativos foram analisados por meio do aporte técnico metodológico dos Estudos Críticos do Discurso.

3. Resultados e discussão 

Em relação à denominação religiosa dentre os 60 alunos que realizaram o questionários 17 (28,33%) se definiram católicos, 15 (25%) evangélicos, 11 (18,33%) não religiosos, 10 (16,67%) outros, 5 (8,33%) ateus e, por fim, 2(3,34%) espíritas. Podemos observar que os dados levantados na pesquisa se encontram em consonância com os dados do IBGE 2010 que apresenta como religião predominante católica seguida pela evangélica, sem religião, outras religiosidades e espírita respectivamente.

Como apontado pelo IBGE 2010 e pelos autores Novaes (2004) e Rodrigues (2007) o número de pessoas que se autodenominam católicas está diminuindo e o de evangélicos e sem religião aumentando. De acordo com Novaes (2004) o número de pessoas que se declaram católicas tem decaído devido ao fato de que esta religião ser perpassada dos pais aos filhos e nos últimos tempos ocorreu uma quebra nessa “herança religiosa”, os números de pessoas adultas de idade reprodutiva católicas está diminuindo cada vez mais, sendo assim o número de crianças com tal conhecimento sobre a religião católica tem decaindo.

Segundo o mesmo autor o número de evangélicos declarados tem crescido lentamente entre os jovens, enquanto os “sem religião” cresce neste grupo. Rodrigues (2007) apresenta que a categoria “sem religião” é uma categoria recente, apenas em 1960 que está se separou da categoria referente aos que não apresentavam resposta à questão da religiosidade. “Em 30 anos, a aceleração do ritmo de crescimento desse grupo os levou dos 0,8% em 1970 para 7,3% da população nacional em 2000” (p.32) e para 8,0% em 2010.

Rodrigues (2007) apresenta que os “sem religião” ainda podem ser divididos em dois grupos: um, sem religiosidade, onde encontraríamos os que não acreditam em nenhum ser superior, agnósticos e ateus; outro, com religiosidade, aqueles que creem na ideia de um ser superior, mas não tem uma identidade religiosa definida, que pode ser transitória.

Em nossa pesquisa foi realizada uma categorização das respostas de 60 estudantes de Biologia, de diversos períodos (1°,4°,5°,6°,7°,8°,9°,10°,11°), no que concerne a definição de ateísmo. Observou-se que 4 categorias apresentaram maior frequência: Não acreditar em deus/deuses/divindades (26 ocorrências), resposta que apresentou maior frequência entre os grupos (católicos, evangélicos, ateus, sem religião, espirita e outros); Não crença em qualquer ser superior /sobrenaturais (16 ocorrências); Não crença no criacionismo (15 ocorrências); e Descrença da influência de um ser divino sobre o mundo (13 ocorrências).

Tendo em vista as categorias mais frequentes das respostas apresentadas pelos graduandos de biologia entende-se que a maioria dos participantes da pesquisa compreendem o ateísmo como a não crença na existência de um ser transcendental, que devido a tal afirmação não pode nem ter criado o universo nem ser responsável pelos fatos que acontecem cotidianamente na vida das pessoas.

Através das respostas colhidas em relação à definição do ateísmo ressalta-se a quantidade extrema de pessoas que conceituaram tal termo como a não crença em um ser sobre-humano, sendo por vezes definido como superior, transcendental, sobrenatural ou Deus, dos 17 católicos 16 fizeram esta referência (17/16), dos 15 evangélicos, 10 (15/10), dos 11 não-religiosos 9 significaram o ateísmo por meio de tal comentário (11/9), dos 10 registrados no grupo de outros 9 apontaram este fato (10/9),  dos 5 ateus um total de 4 (5/4), e dos 2 espíritas 1 (2/1). Relacionado à afirmação de crença na não-existência de um ser transcendental  encontrou-se a ideia de não crença no criacionismo: católicos (17/2), evangélicos (15/5), não-religioso (11/3), outros (10/2), e ateus (5/3); e na não crença em uma força ou energia responsável pelos acontecimentos no mundo, pelos eventos cotidianos: católicos (17/3); evangélico (15/1); não religiosos (11/2); outros (10/4), e ateus (3/1); nenhum dos dois espíritas fizeram tais apontamentos. Além dessas explanações para o ateísmo também ocorreu uma notável semelhança de respostas que definiram o ateísmo como um pensamento não religioso, que não teria nenhum vínculo religioso: católicos (17/3), não religiosos (11/2), outros (10/2) e ateus (5/3), não tendo nenhuma frequência dentre das respostas dos evangélicos ou espíritas.

                Apesar da existência de distintos grupos (católicos/evangélicos/não religiosos/outros/ateus/espíritas), que comportam crenças e dogmas em certos momentos totalmente contraditórios, as respostas deles não apresentaram grandes divergências, em referência aos pontos abordados acima; é notável a ocorrência de frequências semelhantes. É importante percebermos que praticamente todos os graduandos de biologia que responderam os questionários apresentam uma definição semelhante do que seria Ateísmo, sendo assim, é provável que tenham aprendido esse constructo social através de veículos de comunicação social, educação e opinião da Igreja, no que tange a conotação da palavra Ateísmo.

Arneitz (2011) afirma que o discurso serve como instrumento para rearticular as relações sociais e as relações de poder. Observa-se o uso da fala como ferramenta para recriar uma relação de poder, para elevação da imagem da pessoa ateia.

“É não acreditar na criação, não atribuir a existência de tudo a um ser divino, mas sim ser curiosa e buscar sempre as evidências e estudos realizados que tentam ir além de um livro para compreender os mistérios da vida”.  (Ateu, 19 anos)

Arneitz (2011) aponta que o discurso é utilizado também para perpetuação das relações de poder presentes na sociedade e que as instituições religiosas são instituições detentoras de poder. Este autor também afirma que desde a Idade Média uma pessoa que não possui fé religiosa  era vista como um indivíduo que não tinha moral, pois a religião e a ideia de caráter eram conceitos altamente associados. Essa relação foi perpassada por anos, chegando até a sociedade atual que, talvez não com a mesma intensidade, valoriza o ser detentor de fé religiosa. Na fala de um católico sobre o que seria o ateísmo observa-se a manutenção da ideia de que o ateísmo seria uma crença imoral que feriria as crenças e, por fim, a própria Igreja.

“De acordo com a minha religião, ateísmo é a prática de não acreditar em Deus, ou seja, não acreditar na existência dele, na criação do mundo em “6 dias” e nem na salvação dita na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que é a que eu participo e a defendo contra esse tipo de pessoa”. (Católico, 17 anos).

Martin (2007) aponta os ateus não desfavoráveis a religião, que na verdade por vezes os ateus podem seguir e apoiar determinados dogmas religiosos, o único fato é que não acreditam que eles foram dados ou impostos por Deus, mas propõem que os mesmos dogmas são regras positivas que servem para manutenção social. Pensamento contrário a fala de Evangélico, 19 anos, “É quando alguém não acredita na possibilidade da existência de Deus, e são contrárias a qualquer tipo de religião e também confiam somente em fatos concretos, desprezando a fé.”

Em determinadas falas evangélicas podemos notar a manutenção de ideias propagadas socialmente, como o pensamento de que ser ateu é fato negativo, o discurso de poder que ocorre na sociedade, e como os evangélicos utilizam as suas falas para sustentar seus dogmas como os unicamente corretos, “Ceticismo” (Evangélico, 21 anos). “Deus existe, está além da nossa compreensão normal e ao mesmo tempo na simplicidade. Eu lembro de uma frase dita por um físico sobre o universo: não há relógio sem relojoeiro. Os ateus simplesmente não querem acreditar em Deus, é uma opção” (Evangélico, 39 anos)

Considerando que os ateus não acreditam na existência de um ser imaterial-transcendental é inevitável a afirmação de que os ateus possuem de fato sim uma crença, mas uma crença que se constitui contrária a pregada pelas religiões cristãs. Contrario a fala apresentada: “Pessoa que não possui nenhuma crença” (Evangélico, 21 anos)

A partir da fala “Pessoas que não conseguem ter fé. Pois a fé é aquilo que acreditamos sem ver!” (Evangélico, 23 anos) podemos entender que se a definição de fé é acreditar naquilo que não podemos ver, consequentemente isso excluiria os ateus de serem pessoas de fé, pois como não se foi comprovada a existência de um ser superior, denominado ou não de Deus. Já que diferentemente dos agnósticos que não determinam se acreditam ou não em Deus, pois nenhuma das duas posições pode ser provada cientificamente, os ateus afirmam que creem que Deus não existe, fala presente no discurso de alguns alunos.

4. Considerações finais

Analisando o discurso dos estudantes participantes no tocante à religião e ao ateísmo, foi possível perceber um maior número de cristãos, e consequentemente um discurso mais marcante por parte deste grupo. A frase expressa por um participante considerado católico: “Ser ateu na minha concepção é não acreditar em Deus, não crer que ele existe. [...]” é exemplo da caracterização do ateísmo para estes membros.

Em contrapartida um grupo de 8,3% da amostra se consideram ateus, e em seu discurso foi possível perceber uma total descrença na existência de seres sobrenaturais, ou divindades, para um dos participantes considerado ateu a fala que define o ateísmo é: “ausência na crença de entidades sobrenaturais, onde o universo não tem nenhuma causa final.”

Contudo, existiram ainda concepções um pouco fechadas acerca do ateísmo nos questionários, relacionadas à falta de crença em um ser superior à necessidade dos ateus de ter que se apoiar em algo para puder terem um direcionamento correto em sua vida. Tal entendimento obtido pela turma iniciante nos permite fazer uma relação com uma necessidade básica de orientação na vida.

O que implica dizer que o fato do país ainda se manter como uma nação predominante religiosa e cristã concorre para a concepção pessoal de orientação de vida, mesmo existindo uma abertura maior no país no tocante à aceitação de outras religiões bem como de outras pessoas que compartilham de uma visão diferente das demais.

                O trabalho aqui apresentado teve como proposta analisar as relações de poder entre os diversos grupos religiosos, mas é preciso salientar que deste tema, ainda há muito a ser trabalhado e trazido a luz da análise do discurso.

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Autores

Alexandre Coutinho de Mello, Graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba, UFPB.

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Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2503997563053061

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